Belíssima e ilustrativa esta história do Lutz. Medonha e grotescamente verídica pela mera inferência do caso para uma realidade que julgáramos ultrapassada, ou então, restringida a uma realidade periférica. A (falta de) eficiência alemã e a política de extermínio do III Reich, Os Protocolos…(Escrevi uma série de parágrafos que acabei de apagar. Neles falava das minhas raízes cristãs, no meu cavalgante agnosticismo e do estado de decrepitude em que se encontra a minha fé; terminando com a constatação, por diversas vezes reiterada, da esmagadora preponderância de autores judeus nos meus gostos literários e nos standards musicais americanos: são tão poucos sobre seis mil milhões…)
Deixo-vos apenas com uma carta redigida por Moses E. Herzog (personagem criada por um judeu, gigantesco entre gigantes, que venceu o Nobel da Literatura em 1976) a Friedrich Nietzsche:
«Caro Herr Nietzsche – Excelentíssimo senhor. Poderei fazer-lhe uma pergunta cá de baixo? Refere-se ao poder do espírito Dionisíaco de suportar a visão do Terrível, do Problemático, de se permitir a luxúria da Destruição, de testemunhar a Decomposição, a Hediondez, o Mal. Tudo isto o espírito Dionisíaco o pode fazer porque aufere da capacidade de restabelecimento da própria Natureza. Algumas destas expressões, permita-me que lho diga, têm uma aura muito germânica. Uma frase como a “luxúria da Destruição” é francamente wagneriana, e eu bem sei por que razão veio a desprezar toda essa idiotice e bombástico doentios de Wagner. Actualmente, já assistimos a destruições suficientes para pôr amplamente à prova o poder do espírito Dionisíaco, e onde estão os heróis que disso se refizeram? Estou só com a Natureza (ela própria) nos Berkshires, e é esta a minha oportunidade de compreender. Estou deitado numa rede, com o queixo sobre o peito, de dedos entrelaçados, com o espírito atolado em pensamentos, agitado, sim, mas também alegre, e sei que valoriza a alegria – a autêntica alegria, não o aparente optimismo dos epicuristas, nem a flutuabilidade estratégica dos desesperados. Sei igualmente que considera que a dor profunda enobrece, a dor que arde lentamente, como madeira verde, e nisso concordo consigo, em parte. Mas para essa educação superior é necessária a sobrevivência. É preciso resistir à dor. […] Não, na verdade, Herr Nietzsche, tenho por si grande admiração. Simpatia. Deseja capacitar-nos para vivermos com o vácuo. Não nos iludindo com as boas intenções, a confiança, com considerações humanas, vulgares e medianas, mas indagando como nunca se indagou, incansavelmente, com férrea determinação, no mal, através do mal, para além do mal, não aceitando qualquer abjecto conforto. As perguntas mais absolutas, mais pertinazes. Rejeitando a humanidade tal como ela é, essa multidão vulgar, prática, salteadora, fedorenta, obscurecida, estúpida, não apenas a multidão dos trabalhadores, mas essa multidão “educada”, ainda pior, com os seus livros e concertos e conferências, o seu liberalismo e os seus “amores” e “paixões” românticos e teatrais – tudo isso merece morrer, e morrerá. Está bem. No entanto, os seus extremistas têm de sobreviver. Sem sobrevivência, não há Amor Fati. Os seus imoralistas também comem carne. Andam de autocarro. Mas são os viajantes que pior se dão com os autocarros. A humanidade vive principalmente de ideias pervertidas. Pervertidas, as suas ideias não são melhores que as do Cristianismo que condena. Qualquer filósofo que deseja manter-se em contacto com a humanidade deveria previamente perverter o seu próprio sistema para ver como será encarado algumas décadas após a adopção. Envio-lhe os melhores cumprimentos deste jardim de luz temporal onde pulula a relva, e desejo-lhe felicidades, onde quer que se encontre. Seu, sob o véu de Maya, M. E. H.» (pp. 372-374)
Saul Bellow, Herzog. Lisboa: Relógio D’Água, 2.ª edição, 1988, 398 pp. (tradução de Luísa Ducla Soares; obra original: Herzog, 1964).
Um destaque meu no original (creio que a verdadeira essência da acusação não se revela na tradução em português):
«I also know that you think that deep pain is ennobling, pain which burns slow, like green wood, and there you have me with you, somewhat.»






