quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Mais logo...

alguns afortunados, residentes na fonte, ou melhor, no centro voraginoso da cultura nacional, irão ver e ouvir isto (a minha preferida da semana 45 do ano da Graça de 2007):




Estou (ou sinto-me) esgotado para migrações temporárias transfronteiriças superiores a 12.874 metros.

Will you put my hands away?
Will you be my man?

Serve it up, don't wait
Let's see about this ham.

Oh, what happened?

Oh, what happened?

Home spun desperation's knowing
Inside your cover's always blown.

Princípio de Peter Modificado

O Princípio. Não o Peter. Esse prossegue na sua saga de menino-guerreiro empedernido – ver etimologia. Chamemos-lhe um aditamento paradoxal, suicida recidivo e o seu resultado, ou síntese.
Princípio de Peter/Duracell (nova terminologia por estrita obediência às leis do mercado), explicado à luz de uma dialéctica íntima:

  • Tese: num sistema político fortemente hierarquizado os indivíduos são promovidos até ao nível da sua incompetência.
  • Antítese: mais tarde ou mais cedo, a incompetência conduzirá o indivíduo às luzes da ribalta. Fala-se dele. O máximo da sua competência: combinação óptima de autopromoção, preço, produto (ou serviço) e canal de distribuição – adaptação dos 4 “P’s” criados por Jerome McCarthy e desenvolvidos por Kotler (product, price, placement, promotion).
  • Síntese: Líder de bancada parlamentar. O incompetente destruído é competente na sua indemissibilidade.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Ando por aí

Como se vivesse num aquário… Ouço uns barulhos estranhos sempre que pego no telefone e agora vivo entre o tubo catódico e o cinescópio do meu Sony 84’’… emudecido, só saio para as refeições que, por razões óbvias, estão subjugadas ao baixo teor de calorias.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Na Tua Ausência

A razão. Aquilo que me trouxe aqui a estas páginas. Há onze meses, expunha assim um dos fundamentos que me fizeram regressar à blogosfera, através de um novo sítio com outro nome (autocitação):

«Período de tempo […] no qual exorcizarei com auxílio da bloga os fantasmas que teimam ensombrar o período natalício pela falta que tu me fazes».

O Porque – igualmente inspirado em Sophia – foi o veículo ideal para a minha mundificação emocional, numa linguagem por vezes deliberadamente impenetrável para quem vivia fora da minha intimidade; o meio ideal para a exteriorização da minha revolta perante a sordícia, a corrupção e a doce impunidade constatadas neste país infecto, onde a Justiça – a fina ironia da palavra assim grafada… capitalizada, ó Kafka renascido –, se metamorfoseou, há muito, na máquina trituradora daqueles que dela têm sede.
Renovo os votos. Recomeço, insistindo na amplitude semântica do seu título latinizado: signo jurídico, condenação sem defesa, viver na ausência de…

Prometo. Isto passa. Catarse poética. Homem novo. Blogue aliviado do peso da angústia outonal.


Lúgubre solidão! Ó noite triste!
Como sinto que falta a tua Imagem
A tudo quanto para mim existe!

Tua bendita e efémera passagem
No mundo, deu ao mundo em que viveste,
À nossa boa e maternal Paisagem,

Um espírito novo mais celeste;
Nova Forma a abraçou e nova Cor
Beijou, sorrindo, o seu perfil agreste!

E ei-la agora tão triste e sem verdor!
Depois da tua morte, regressou
Ao seu velhinho estado anterior.

E esta saudosa casa, onde brilhou
Tua voz num instante sempiterno,
Em negra, intima noite se ocultou.

Quando chego à janela, vejo o inverno;
E, à luz da lua, as sombras do arvoredo
Lembram as sombras pálidas do Inferno.

Dos recantos escuros, em segredo,
Nascem Visões saudosas, diluídos
Traços da tua Imagem, arremedo

Que a Sombra faz, em gestos doloridos,
Do teu Vulto de sol a amanhecer...
A Sombra quer mostrar-se aos meus sentidos...

Mas eu que vejo? A luz escurecer;
O imperfeito, o indeciso que, em nós, deixa
A amargura de olhar e de não ver...

A voz da minha dor, da minha queixa,
Em vão, por ti, na fria noite clama!
Dir-se-á que o céu e a terra, tudo fecha

Os ouvidos de pedra! Mas quem ama,
Embora no silêncio mais profundo,
Grita por seu amor: é voz de chama!

E eu grito! E encontro apenas sobre o mundo,
Para onde quer que eu olhe, aqui, além,
A tua Ausência trágica! E no fundo

De mim próprio que vejo? Acaso alguém?
Só vejo a tua Ausência, a Desventura
Que fez da noite a imagem de tua Mãe!

A tua Ausência é tudo o que murmura,
E mostra a face triste à luz da aurora,
E se espraia na terra em sombra escura...

Quem traz o Outono ao meu jardim agora?
Quem muda em cinza o fogo do meu lar?
E quem soluça em mim? Quem é que chora?

É a tua Ausência, Amor, que vem turbar
Esta alegria etérea, nuvem, asa
De Anjo que, às vezes, passa em nosso olhar!

O Sol é a tua Ausência que se abrasa,
A Lua é tua Ausência enfraquecida...
Da tua Ausência é feita a minha vida
E os meus versos também e a minha casa.

Teixeira de Pascoaes, “Ausência”, Elegias (1912).

terça-feira, 30 de outubro de 2007

In Memoriam

Para T. (1975-2002)

Hay cementerios solos,
tumbas llenas de huesos sin sonido,
el corazón pasando un túnel
oscuro, oscuro, oscuro,
como un naufragio hacia adentro nos morimos,
como ahogarnos en el corazón,
como irnos cayendo desde la piel al alma

Hay cadáveres,
hay pies de pegajosa losa fría,
hay la muerte en los huesos,
como un sonido puro,
como un ladrido sin perro,
saliendo de ciertas campanas, de ciertas tumbas,
creciendo en la humedad como el llanto o la lluvia.

Yo veo sólo a veces,
ataúdes a vela
zarpar con difuntos pálidos, con mujeres de trenzas muertas,
con panaderos blancos como ángeles,
con niñas pensativas casadas con notarios,
ataúdes subiendo el río vertical de los muertos,
el río morado
hacia arriba, con las velas hinchadas por el sonido de la muerte,
hinchadas por el sonido silencioso de la muerte.

A lo sonoro llega la muerte
como un zapato sin pie, con un traje sin hombre,
llega a golpear con un anillo sin piedra y sin dedo
llega a gritar sin boca, sin lengua, sin garganta.

Sin embargo sus pasos suenan
y su vestido suena, callado, como un árbol.

Yo no sé, yo conozco poco, yo apenas veo,
pero creo que su canto tiene color de violetas húmedas,
de violetas acostumbradas a la tierra,
porque la cara de la muerte es verde,
y la mirada de la muerte es verde,
con la aguda humedad de una hoja de violeta
y su grave color de invierno exasperado.

Pero la muerte va también por el mundo vestida de escoba,
lame el suelo buscando difuntos,
la muerte está en la escoba,
es la lengua de la muerte buscando muertos,
es la aguja de la muerte buscando hilo.

La muerte está en los catres:
en los colchones lentos, en las frazadas negras
vive tendida, y de repente sopla:
sopla un sonido oscuro que hincha sábanas,
y hay camas navegando a un puerto
en donde está esperando, vestida de almirante.


Pablo Neruda, “Sólo la muerte”, Residencia en la Tierra (1925-1935)

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Nabokov on Kafka

Vladimir NabokovNão, não vou falar sobre o tema recorrente das injustiças cometidas pela Academia Sueca na atribuição dos prémios Nobel da Literatura. É certo que juntei, num deslumbrante e complexo par, os imortais Vladimir Nabokov (1899-1977) e Franz Kafka (1883-1924), mas nem o primeiro publicou em vida material suficiente para despertar a atenção do ininteligível grupo de nórdicos – note-se que os seus três romances O Processo (Der Prozeß, 1925), O Castelo (Das Schloß, 1926) e América (Amerika / Der Verschollene, 1927) foram publicados postumamente pelo seu amigo Max Brod, felizmente um mau executor enquanto testamenteiro –, nem o segundo era politicamente correcto, como russo branco: ele e a família fugiram de São Petersburgo após a subida ao poder do regime bolchevique em 1917, exilando-se em Inglaterra em 1919 e posteriormente na Alemanha, seguindo-se em 1937 a França; mudou-se para os Estados Unidos em 1940 com a entrada dos nazis em Paris; deixou a América em 1960, instalando-se definitivamente em Montreux, na Suíça, onde morreu em 1977.

Mas, o que me trouxe aqui, a estas curtas linhas de quase divagação, foi a descoberta de um tesouro no imenso oceano videográfico do YouTube. Trata-se de um curto programa televisivo de 1989, realizado pelo húngaro Peter Medak, que recria a prelecção de Nabokov na Cornell University na Califórnia sobre a obra-prima A Metamorfose (Die Verwandlung, 1915) de Franz Kafka, inserida nas suas famosas e publicadas Aulas de Literatura*.
No papel de Nabokov vemos Christopher Plummer que, aparentemente, bem vestido e caracterizado para o efeito, se assemelha na indumentária e em alguns traços fisionómicos ao escritor russo-americano. Mas conta quem o ouviu e/ou assistiu às suas aulas que tanto a dicção como a postura e o temperamento – cínico, sobranceiro e verrinoso – foram fielmente reproduzidos por Plummer, como se nele houvesse encarnado o espectro do rutilante autor de Lolita e de Fogo Pálido.

Para os fãs, os mais atentos às paixões e ódios de Nabokov, a frase que se segue encaixa nas suas Opiniões Fortes e na imperativa Speak, MemoryNa Outra Margem da Memória, em Portugal:

«[Kafka] is the greatest German writer of our times. Yes, yes (…) such poets as Rilke or such novelists as Thomas Mann are dwarfs and plaster saints in comparison to him.»
(Como foi possível Nabokov, mesmo em duas curtas frases, não haver introduzido o nome do Bruxo Vienense ou um epíteto deste género?)



Carregar aqui para ver a 2.ª parte do vídeo.
Falta a 3.ª parte, resta esperar e apelar à indulgência do utilizador do YouTube que colocou as partes anteriores.


*Livro editado em Portugal: Vladimir Nabokov, Aulas de Literatura. Lisboa: Relógio D’Água, 1.ª edição, 2004, 446 pp. (tradução de Salvato Telles de Menezes; introdução e posfácio de Helena Ayala Botto (ed. port.); introdução de John Updike; obra original: Lectures on Literature, 1980).

sábado, 27 de outubro de 2007

Cento e sessenta e um

Desafia-me o Sérgio a entrar nas linhas (do acaso) com que os livros se cosem. (E, acredita, procurei seguir, em estrita observância, os caminhos do repto lançado.)

O desafio exige o cumprimento dos seguintes cinco passos:

  1. Pegue no livro mais próximo, com mais de 161 páginas – implica aleatoriedade, não tente escolher o livro;
  2. Abra o livro na página 161;
  3. Na referida página procurar a 5.ª frase completa;
  4. Transcreva na íntegra para o seu blogue a frase encontrada;
  5. Aumentar, de forma exponencial, a improdutividade, fazendo passar o desafio a mais 5 bloggers à escolha.

A minha experiência
O acaso lembrou-me Auster, mas a sua escolha levantou-me dois tipos de problemas. O primeiro resulta da própria significação da palavra que representa a acção, “escolha”, implica que houve um critério na selecção, infringe-se uma das regras basilares do exercício, a aleatoriedade. O segundo resulta da impossibilidade de encontrar a página 161 no livro de Auster que me está fisicamente mais próximo, Viagens no Scriptorium, já que dispõe apenas de 115 páginas.
Depois, pensei em agarrar-me ao Pêndulo… – salvo qualquer pulsão onanista – pela cabalística aí vertida, mas interpretar os 10 Sephiroth (ou emanações divinas) e os 32 caminhos da sabedoria… encontrava-me em Hesed (ou Chesed), a 4.ª Sephirah, Misericórdia, onde Eco chamou “Contando um dia em que tinha conhecido Pôncio Pilatos”. Mas, pareceu-me certo, comprometia a espontaneidade da coisa. Fui lavar as mãos…
De mãos e alma limpas, por afastamento de pensamentos impuros e cumprimento honesto do desafio que me foi lançado, peguei no livro que, de facto, repousava na minha secretária; tratava-se do último romance de Julian Barnes, Arthur & George. Acabei de o ler há cerca de duas semanas, mas a vontade de sobre ele falar no blogue, impediu-me de o colocar na estante dos livros subjugados ao meu autoritário olhar literário – alguma falta de paciência para escrever, tem-me levado ao adiamento da publicação do texto quase concluído.
Assim, seria materialmente impossível negar o seu mais ínfimo vislumbre, a não ser que, munido de um zelo autopunitivo, intentasse obnubilar as vistas… Um arrepio, fez-me ver a luz que reverberava do dito num tom ocre, pardacento.
Eis a 5.ª frase da página 161 do romance Arthur & George (Asa, 1.ª ed., 2007) do escritor inglês Julian Barnes:
«Estão a jogar com um pau de dois bicos.»

Nada acrescentarei à citação, à laia de enquadramento da dita no conjunto da obra, o antes e o depois – sobre o livro falarei quando me apetecer reabilitar o ficheiro de Word guardado no arquivo há duas semanas. No entanto, nada me impede que a utilize fora do contexto, aplicando-a ao exercício em cadeia em causa. Ainda me recordo dos efeitos colaterais dos “10 livros que não mudaram a vida”, somatizados numa rouquidão persistente de alguns puristas devido à imensa assuada ortodoxa motivada pelos mesmos, os presumidos donos da Literatura, mal disfarçando, contudo, o ressentimento do não-encadeamento.
Para concluir, aqui lanço o pau (afiado) de dois bicos, a cinco invulneráveis, resistentes, e estóicos amigos na blogosfera:

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Dans Paris

Será possível que, na realidade, uma história de amor nos faça atirar de uma ponte?

A vida conjugal que se transformou numa guerrilha sem fim. Não há regresso possível. Resta a ruptura definitiva para que as palavras não destruam o último resquício de amor-próprio.
Eis o despertar para a realidade de Paul (Romain Duris) ao descobrir o velho 45 rotações de 1981 da indisposta Kim Wilde, Cambodia:



(…)
E agora que os anos passaram
Sem uma única palavra
Mas, uma coisa sobrou
Disso tenho a certeza
Ela nunca mais verá a sua cara

[tradução livre: AMC]

valter hugo mãe

valter hugo mãeO Prémio Literário José Saramago de 2007, destinado a galardoar bienalmente jovens escritores lusófonos na área da ficção literária – a idade limite do candidato é de 35 anos –, acabou de ser atribuído ao autor valter hugo mãe – um dos fundadores do blogue Da Literatura e que agora divaga no seu blogue pessoal casadeosso – pelo seu romance O remorso de Baltazar Serapião (QuidNovi, 2006).

Arriscando a desvergonha pela autocitação, em Maio de 2006, no meu anterior blogue, escrevi um pequeno texto, intitulado “Hino ao amor conjugal”, sobre as sensações experimentadas após a leitura deste, tanto na forma, como na sua substância, engenhoso romance:

«É um romance satírico, gracioso e viciante – lê-se de uma só penada –, que me ficou na memória pela representação imaginosa, porém com fortes marcas de verosimilhança, desta comédia que é a vida.»


Acrescente-se que o júri, composto por oito elementos – onde para além da presidente da Fundação Círculo de Leitores (a entidade instituidora do prémio), contou com nomes como Nelida Piñon, Pilar del Rio e Vasco Graça Moura –, deliberou por unanimidade a atribuição do prémio ao escritor natural de Moçambique e residente em Vila do Conde.

Parabéns vhm.

Premiados nas edições anteriores:

  • 2001 – José Luís Peixoto, Nenhum Olhar (Temas e Debates, 2000);
  • 2003 – Adriana Lisboa, Sinfonia em Branco (Temas e Debates, 2003);
  • 2005 – Gonçalo M. Tavares, Jerusalém (Caminho, 2005), romance recentemente galardoado com o Prémio Portugal Telecom de Literatura em Língua Portuguesa 2007.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Of Rats and Men*

«Os ratos são quase tão fecundos como os germes. […] Crescem rapidamente e são capazes de procriar desde os quatro meses de idade […] um rato de quatro anos é mais velho do que um homem de noventas anos. “Os ratos que sobrevivem além dos quatro anos são dos bichos mais sabidos e mais cínicos que há à face da terra. […] Uma ratoeira não é nada para eles, por mais habilmente que tenha sido montada. […] são capazes de detectar um isco envenenado a um metro de distância. Estou convencido de que alguns deles sabem ler.»**
Joseph Mitchell, O Fundo da Baía, “Ratos da Beira-Rio”, pág. 80.

Zbigniew HerbertÉ curioso que as usem como cobaias para proteger e perpetuar uma espécie cujo código genético lhes é tão familiar. Tão idiossincraticamente familiar. Tão indistintamente próximo. Uma turba de roedores parasitários que dão abrigo a outros parasitas mais insignificantes, alguns verminosos, pegajosos, escorregadios ou estaladiços. Uns papa-hóstias, outros pedreiros livres, outros ainda materialistas dialécticos, anarcas, conservadores, neoconinhas, comichosos, ranhosos e bexigosos… e no entanto, todos roem. São os patrulheiros do sectarismo, mais reaccionários que os patrulhados. São os do pensamento único, intolerantes à diferença, travestidos de defensores da moral pública ou da liberdade de expressão; dos direitos liberdades e garantias; da sociedade civil; da liberdade, da igualdade e da fraternidade; das mãos limpas; da puta que os pariu; são, enfim, todos tão lúcidos e esclarecidos, sapientes e eruditos… foda-se, até citam nomes e textos, amalgamas de letras subitamente dotadas de vida e por isso sujeitas às mais do que necessárias distorções; tantas fontes, que não há sede que resista; arremessam-nas e esperam pela resposta. Acordam de manhã e cagam filósofos, políticos, escritores. Estão convencidos da clarividência do seu pensamento, de possuírem a mais preclara das cabeças – trabalhassem mais com as de baixo, estariam aquelas menos poluídas. Boçal, eu?
Ah, e que bem dizia Pessoa, transformado em Bernardo Soares – epígrafe do meu anterior blogue… cito, corto e colo… tanta lucidez, ou convencimento dela… perdi para sempre a segura certeza da lucidez da minha lucidez.

A minha divisa passou a ser a ratazana…

Cito, sem pruridos sectários, o grande poeta polaco Zbigniew Herbert, via DeLillo (o meu Nobel***):

Too old to carry arms and fight like the others—

they graciously gave me the inferior role of chronicler
I record—I don't know for whom—the history of the siege

I am supposed to be exact but I don't know when the invasion began
two hundred years ago in December perhaps yesterday at dawn
everyone here suffers from a loss of the sense of time

all we have left is the place the attachment to the place
we still rule over the ruins of temples specters of gardens and houses
if we lose the ruins nothing will be left

I write as I can in the rhythms of the interminable weeks
monday: empty storehouses a rat became the unit of currency
tuesday: the mayor murdered by unknown assailants
wednesday: negotiations for a cease-fire the enemy has imprisoned our messengers
we don't know where they are held that is the place of torture
thursday: after a stormy meeting a majority of voices rejected
the motion of the spice merchants for unconditional surrender
friday: the beginning of the plague saturday: our invincible defender
N.N. committed suicide sunday: no more water we drove back
an attack at the eastern gate called the Gate of the Alliance

all of this is monotonous I know it can't move anyone

I avoid any commentary I keep a tight hold on my emotions I write about the facts
only they it seems are appreciated in foreign markets

yet with a certain pride I would like to inform the world
that thanks to the war we have raised a new species of children
our children don't like fairy tales they play at killing
awake and asleep they dream of soup of bread and bones
just like dogs and cats

in the evening I like to wander near the outposts of the City
along the frontier of our uncertain freedom
I look at the swarms of soldiers below their lights

I listen to the noise of drums barbarian shrieks
truly it is inconceivable the City is still defending itself
the siege has lasted a long time the enemies must take turns
nothing unites them except the desire for our extermination
Goths the Tartars Swedes troops of the Emperor regiments of the Transfiguration
who can count them
the colors of their banners change like the forest on the horizon
from delicate bird's yellow in spring through green through red to winter's black

and so in the evening released from facts I can think
about distant ancient matters for example our
friends beyond the sea I know they sincerely sympathize
they send us flour lard sacks of comfort and good advice
they don't even know their fathers betrayed us
our former allies at the time of the second Apocalypse
their sons are blameless they deserve our gratitude therefore we are grateful
they have not experienced a siege as long as eternity
those struck by misfortune are always alone
the defenders of the Dalai Lama the Kurds the Afghan mountaineers

now as I write these words the advocates of conciliation
have won the upper hand over the party of the inflexibles
a normal hesitation of moods fate still hangs in the balance

cemeteries grow larger the number of defenders is smaller
yet the defense continues it will continue to the end
and if the City falls but a single man escapes
he will carry the City within himself on the roads of exile
he will be the City

we look in the face of hunger the face of fire face of death
worst of all—the face of betrayal

and only our dreams have not been humiliated

Zbigniew Herbert (1924-1998), Report from the Besieged City, 1982 (tradução do polaco por Bogdana Carpenter e John Carpenter)****.


Notas:
*Com a cortesia de Steinbeck e da sua obra Of Mice and Men (1937).
**Referência bibliográfica completa: Joseph Mitchell, O Fundo da Baía, “Ratos da Beira-Rio”. Porto: Ambar, 1.ª edição, Março de 2007, 219 pp. (tradução de José Lima; obra original: The Bottom of the Harbor, 1960; Capítulo: “Os Ratos da Beira-Rio, “The Rats of the Waterfront”, crónica publicada, sob outro título, na revista The New Yorker, Maio de 1944).
***Pronto, revelei. E desta já não posso fugir.
****No caso de haver tradução portuguesa, comunicar à redacção, obrigado.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Todas as canções (de amor) contam a mesma história

Louis Garrel em AS CANÇÕES DE AMOR
O acaso. Encontrei uma brecha para, com toda a propriedade de crítico de circunstância, poder zurzir em Auster pelo seu filme A Vida Interior de Martin Frost que, ao que por aí se diz e apelando à minha memória intermitente e nublada – outrora de elefante, segundo me juravam abonar os mais próximos –, repisada posteriormente pela crítica do Luís Miguel Oliveira, quanto menos dele se falar, menos amolgada sairá a imagem do autor.

Todavia, algo ou alguém, embora, à partida, haja encaminhado toda a minha fúria à máquina dispensadora de bilhetes de parque em urgente processo de actualização de software, impediu que chegasse à bilheteira a tempo de assistir à projecção de tão mal afamado filme. Não foi desta. Paciência.
Nem tudo se perdeu. À hora a que cheguei à dita bilheteira, após uma corrida (lenta) de elevador panorâmico, enjaulado com três catraias entre os 12 e os 14 anos a soltar impropérios discricionários, cuja grosseria faria corar uma peixeira do Bolhão, iniciava-se a exibição do último filme de Christophe Honoré, As Canções de Amor (Les chansons d’amour), com Louis Garrel como protagonista.
Sobre o filme não falarei, até porque há
quem dele haja falado com toda a propriedade. No entanto, não sei se é o espírito que se adapta à coisa e dela tem a percepção da sua plena maleabilidade para a satisfação do desejo, ou se a coisa por lá se queda esperando a nossa, e bem antecipada, comparência: o surgimento do inescrutável momento linear que nos transporta por vias ainda mais sinistras, obscuras, que parecem cumprir um objectivo há muito programado por uma mão pretensamente divina, onde apenas se nos apresenta o resultado final.
Outubro, o mês de todos os meus medos…
Foi em Paris que assisti à criação do nódulo que, de forma inexpugnável e definitiva, concretizado em morte onze meses depois, iria ensombrar e condenar uma vida, a minha vida, a uma dor atroz e perene pela falta que me fazes, pela tua partida a destempo, pela tua ausência.
Adiante…
Na imagem Louis Garrel, poderoso, austero, com a sua tão própria e paradoxal fleuma expressiva e camaleónica, uma das mais sólidas promessas no campo performativo do cinema mundial, vagueando pelas ruas de Paris, esplendorosa, imponente, características que, em concomitância com o mais negro dos sofrimentos, esmagam o desalentado ou aquele cuja fé se vai desvanecendo… o céu cinzento de Paris, a melancolia magistralmente captada por Honoré, e as canções… de amor de Alex Beaupain.

Alex Beaupain – “Au Parc” (cantada por Chiara Mastroianni)

Même soleil d'hiver
Mêmes bruits de brindilles
Le bout des doigts glacé
Le givre sur les grilles
Mêmes odeurs d'humus
La terre qui se terre

Tout y sera, tout y sera
A part toi

Parc de la Pépinière, fin de semaine,
Encore une heure, encore une heure à peine,
Encore une heure de jour et la nuit vient

Même température,
Le mercure à zéro
Même mélancolie fauve
Au portillon du zoo
Mêmes parents pressés,
Leurs enfants en manteaux

Tout y sera, tout y sera
A part toi

Parc de la Pépinière, fin de semaine,
Encore une heure, encore une heure à peine,
Encore une heure de jour et la nuit vient

J'aurais beau décalquer
Refaire les mêmes parcours
Reprendre les mêmes allées
Au mêmes heures du jours
J'aurais beau être la même
J'aurais beau être belle

Tout y sera, tout y sera
A part toi

Parc de la Pépinière, fin de semaine,
Encore une heure, encore une heure à peine,
Encore une heure de jour et la nuit vient
Et puis... rien.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Booker perifrástico

Eis duas das vantagens dos prémios literários – para além do enriquecimento súbito do galardoado –, a curiosidade, tão humana, de verificar se o júri indigitado para a sua atribuição não se enganou – prática conhecida como metamorfose acelerada do leigo em crítico literário – ou de indagar se aquele se serviu de expedientes ínvios para promover uma obra e/ou o seu autor, em desconformidade ao sentido ético da tarefa – aqui o leigo transforma-se num afanoso inspector da moralidade da causa literária.
Em suma, onde há prémio há sentença popular. E, seguindo a regra, eu, um diletante das artes literárias, cumpri, adquirindo para o efeito a única obra editada em Portugal da escritora irlandesa, recentemente galardoada com o Booker Prize, Anne Enright.
Trata-se de um romance, editado no nosso país pela Teorema, sob o título sugestivo – e atente-se na harmonia imagética – O Prazer de Eliza Lynch (The Pleasure of Eliza Lynch, 2002), o quinto trabalho da autora, o seu terceiro romance, o antecessor imediato a The Gathering (2007), o tal que recebeu o Booker.

Abre-se o livro, lêem-se os créditos, e a seguir à dedicatória aparece um pequeno exórdio de duas linhas:
«Esta é a história de como ela o enterrou com as suas próprias mãos, nas encostas do Cerro de Corá.» (pág. 7)

Depois da curta introdução, surge o corpo através de uma concepção perifrástica (analéptica, de pendor didáctico) em Paris, Março de 1958:
«Francisco Solano López introduziu o pénis em Eliza Lynch num lindo dia de Primavera em Paris, a 1854.» (pág. 9)


Dei por mim a reflectir – acção que (in)felizmente tem abundado por estes lados, por motivos inúteis – em como o diriam Roth ou DeLillo?

domingo, 21 de outubro de 2007

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Sou literariamente sionista

É necessário estabelecer um ponto prévio, à guisa de pequena autobiografia. Nasci em 1972, na burguesa cidade do Porto, no seio de uma família conservadora, católica praticante e, acrescente-se, plenamente às direitas – por conseguinte, não-sinistra.
Hoje, seguindo-se a minha regular e natural evolução ontogénica, pese embora a minha visceral rotulofobia, considero-me um liberal apartidário, tendencialmente laico – para grande desgosto do meu pai –, não-keynesiano, antimarxista, adepto confesso do capitalismo popular como veículo primordial para a completa erradicação da iniquidade social na distribuição da riqueza criada.
Serei de direita?
Há, todavia, algo que se me afigura como quase natural, com a esquerda opinativa que, hoje em dia, domina os meios tradicionais de comunicação social, a classe jornalística em geral e os denominados ou autoproclamados centros da intelectualidade lusa, de esquerda não serei certamente… e a direita não bate assim.

«A Direita está cheia de preconceitos que se instalam, dominam e oprimem. Um filho de uma família de Direita tem muito menos abertura de espírito do que um filho de uma família de esquerda. E faz-me impressão uma sociedade em que se premeie apenas o mérito, independentemente das condições à partida. Isso é a Direita e isso faz-me muita impressão.» Margarida Pinto Correia, in Sol, 11 de Agosto de 2007, pág. 3.

«Penso que este Nobel [da Literatura, a Doris Lessing em 2007] corresponde a um certo desejo de nos últimos anos premiar obras com marcas sociais e humanas de dádiva, autores com uma marca de empenhamento e intervenção humana e social. […] [julgo] muito difícil que grandes escritores cínicos, desencantados, como Philip
Roth ou Mário Vargas Llosa, sejam premiados.
» Urbano Tavares Rodrigues, in Público, 12 de Outubro de 2007, pág. 18.

«A característica primeira da Doris Lessing, quanto a mim, é realmente ser uma mulher de ideais, uma mulher de causas, uma mulher da liberdade: uma mulher de esquerda.» Maria Teresa Horta, in Câmara Clara, RTP2, 14 de Outubro de 2007.

O mais preocupante nestas três citações, entre muitas outras que poderia encontrar – sabendo que a blogosfera seria o local privilegiado para descobrir, de forma quase instantânea, um bom punhado de referências da mesma índole –, é o primitivismo maniqueísta no espírito destes esquerdistas de afirmação e a apropriação ilegítima dos chavões de defesa da liberdade, dos valores sociais, do direito à diferença, dos desprotegidos. Hoje, temos uma esquerda sectária, intolerante, tendencialmente reaccionária, profundamente convencida de que é proprietária, em rigoroso exclusivo, do graal da verdade suprema. E foi essa esquerda, irascível, dona putativa do bem, do pensamento cultural e da intelectualidade, que se insurgiu contra o Pedro Mexia quando este, fazendo uma alusão ao normalizador estalinista Andrei Jdanov – e poderia ter ido mais longe, se falasse dos candidatos a Savonarola da revolução cultural maoísta – constatou que existe, de facto, uma agenda política da Academia Sueca na atribuição de um prémio literário e defendeu, na sua inalienável opinião pessoal, como estranho o recalcitrante esquecimento de Philip Roth... um judeu norte-americano.
Ora, esta esquerda, que numa só década conseguiu apoderar-se dos tiques da direita tradicional e reaccionária, apodou o Pedro Mexia de sionista. Este, defendeu um judeu para o Nobel da Literatura e, imagine-se, para cúmulo da insensatez, é norte-americano.
Mas Roth é de esquerda, ou estarei enganado!?
Não conheço o Pedro Mexia, nunca li um livro seu, e como podem constatar nem sequer existe uma reciprocidade lincacional, embora acompanhe os seus escritos na imprensa e na blogosfera. Considero-o, todavia, uma das referências culturais nacionais, tanto nas artes literárias – a sua área de criação artística –, como nas cinematográficas. Mas Mexia tem um óbice, confessa-se como conservador de direita, e a doxa intelectual, no seu fervoroso exclusivismo, não lhe perdoa.

Eis quatro protagonistas, vivos, judeus e norte-americanos de esquerda, escritores de profissão, pertencentes ao olimpo das minhas preferências literárias, que fazem de mim um sionista:

Philip RothJ. D. SalingerNorman MailerPaul Auster

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Um milanês reservado

Seguindo o desafio do Ricardo Gross, descobri que, no íntimo do meu ser, sou um cidadão de Milão.
Sempre me imaginei, depois de O Pêndulo…, como um Casaubon vagueando pelas ruas de Milão, imerso na infinitude de uma Biblioteca tipicamente borgiana, terminando os meus dias perseguido por uma seita esotérica.
Haverá, porventura, um modus vivendi tão discreto?


You Belong in Milan


Stylish and sophisticated, you want to enjoy a truly European life - away from tourists!
Milan fits you perfectly. Great shopping, high quality food, lots of culture... with very little hype.


terça-feira, 16 de outubro de 2007

Factor Lessing [actualizado]

The Man Booker Prize for Fiction 2007

Anne EnrightAnne Enright (Irlanda, 1962) com a obra The Gathering (Jonathan Cape).

Notas [actualização às 00:31, dia 17]:
  1. Autora do artigo «Disliking the McCanns», publicado no n.º 19, vol. 29 (4 de Outubro de 2007) da London Review of Books.
  2. Ao ler e reler as palavras proferidas pelo Presidente do júri do Booker Prize deste ano, Howard Davies, no momento do anúncio da atribuição do prémio, e aquelas que fazem parte da sinopse oficial do romance de Enright, apercebi-me de que existe uma estranha, porém perfeita, harmonia entre a obra e o factor perturbador do meu actual estado de espírito. Coincidências...
  3. A Ladbrokes continuou certeira. À hora de fecho das apostas, The Gathering figurava na última posição com uma probabilidade de vencer de 9/1. Felizes apostadores...
  4. Agora para algo completamente diferente, os fusíveis do profícuo INLAND EMPIRE cerebral de David Lynch colapsaram em definitivo.
  5. As palavras de Howard Davies, director da London School of Economics and Political Science: «[o romance] The Gathering é um olhar inflexível sobre uma família enlutada. É a visão desoladora de uma mulher, uma desolação enraizada na sua família, no seu casamento e na morte do seu irmão.» [tradução livre, AMC]
  6. Errando agora pela Estrada Perdida, acaso repararam na expressão facial de Shimon Peres ao ouvir falar da meditação transcendental como remédio para a resolução do conflito israelo-palestiniano?
  7. «Eles eram jovens, licenciados, ambos virgens naquela sua noite de núpcias, e viviam numa época em que uma conversa sobre dificuldades sexuais...» Pobres Florence e Edward.

McEwan versus Jones

Os dois favoritos entre seis finalistas, e o vencedor será…
Ou haverá lessing? (novo vocábulo da língua inglesa que designa a "atribuição de um prémio literário ao menos provável dos autores; erro clamoroso de prognóstico por comportamento volátil de outrem; (figurado) travessura sueca")
Logo, pelas 22 horas, hora de Lisboa, será anunciado numa cerimónia que decorrerá no Guildhall de Londres o
Booker Prize de 2007.

Nada

Gustave Doré - Edgar Allan Poe's The RavenNão surge nada e, no entanto, dele emergiram estas curtas linhas. Um desabafo, sem necessidade de indulgência… ensimesmamento.
Era para escrever sobre algumas decepções e contentamentos literários experimentados nos últimos dias: Barnes, com a sua dupla, deixou a desejar; o quase de quinceyano Falconer de John Cheever é, de facto, um pequeno prodígio da prosa ficcional norte-americana da segunda metade do século passado.
Amanhã é anunciado o Booker de 2007 – fingers crossed, Ian.
Inocentemente, perguntava-me de onde vinha esta estranha melancolia… uma lugubridade inusitada. Mais carregada que a usual!
E, jardelizando-me, expondo-me ao mundo na terceira pessoa, ouvi, do outro lado do espelho: É Outubro, meu caro, e com ele a recordação do dia mais doloroso e cinzento das tuas três décadas e meia de existência...

Requiescat in pace.



Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais
«Uma visita», eu me disse, «está batendo a meus umbrais.
É só isso e nada mais.»
Excerto de O Corvo, de Edgar Allan Poe, traduzido por Fernando Pessoa (The Raven, 1845)

domingo, 14 de outubro de 2007

Sam Riley

De arrepiar...

Estreia em Portugal: 15 de Novembro.

Adonis

AdonisUma vez mais, o Luís Costa, colaborador da TriploV, publicação dedicada às artes literárias e em homenagem ao, entre muitas coisas, crítico de arte, cineasta, fundador do movimento cineclubista em Portugal ou poeta, resistente antifascista e membro do PCP, Ernesto de Sousa (1921-1988), facultou-me, com toda a cortesia, um poema – assim como uma curta biografia – de um dos distintos e insondados poetas que, segundo os especialistas, estiveram – e estarão – na lista de potenciais candidatos ao Nobel da Literatura, refiro-me, desta feita, ao poeta sírio-libanês Adonis:



Que assim seja:
Os pássaros chegaram e as pedras
Juntaram-se às pedras
Assim:
Eu acordo as estradas e as noites
E nós seguimos na procissão das árvores

Os ramos são malas verdes e os sonhos
uma almofada
Na viagem de férias
Onde a manhã continua estranha
Onde o seu rosto
Permanece um selo sobre os meus mistérios

Assim:
Um raio indicou-me o caminho, uma voz chamou-me
Do fim mais extremo do muro

Adonis, A Floresta Mágica (tradução do alemão por Luís Costa).


Biografia, por Luís Costa:
Adonis, poeta e ensaísta, nasceu em 1930 na Síria. O seu verdadeiro nome é Ali Ahmed Said. Estudou filosofia em Damasco e Beirute. De seguida teve várias estadias no estrangeiro por exemplo em Nova Iorque e Paris. Hoje vive em Paris. Adonis tem traduzido muitos autores franceses para o árabe. Entre eles encontram-se Racine e Saint Jonh-Perse.
Em 1957 fundou com Yousuf el-Khal a revista literária mais importante do espaço árabe: «Schiir» (Poesia).
Adonis contribuiu muito para a renovação da língua árabe e influenciou assim uma geração de escritores e poetas árabes. Escrever poesia significa para ele uma luta permanente contra a memória fechada sobre si mesma da cultura, ou seja, contra o passado. O nome Adonis é considerado no mundo árabe, desde os anos 60, um sinónimo de modernidade. Ele afirmou-se aí como um dos principais porta-vozes da corrente critica e pós-moderna. Para ele a lírica representa uma forma de violação da língua; é a tentativa de obrigar a língua a dizer aquilo que a prosa jamais conseguirá exprimir. Este grande poeta vê as raízes da sua lírica no misticismo islâmico, que ele considera como um surrealismo antes do surrealismo europeu.
Entretanto o mundo árabe fala de adonismo, adonismo esse que tem os seus seguidores entusiásticos, mas também um grande número de inimigos ferrenhos, que se encontram, sobretudo, entre os islamitas.