É necessário estabelecer um ponto prévio, à guisa de pequena autobiografia. Nasci em 1972, na burguesa cidade do Porto, no seio de uma família conservadora, católica praticante e, acrescente-se, plenamente às direitas – por conseguinte, não-sinistra.
Hoje, seguindo-se a minha regular e natural evolução ontogénica, pese embora a minha visceral rotulofobia, considero-me um liberal apartidário, tendencialmente laico – para grande desgosto do meu pai –, não-keynesiano, antimarxista, adepto confesso do capitalismo popular como veículo primordial para a completa erradicação da iniquidade social na distribuição da riqueza criada.
Serei de direita?
Há, todavia, algo que se me afigura como quase natural, com a esquerda opinativa que, hoje em dia, domina os meios tradicionais de comunicação social, a classe jornalística em geral e os denominados ou autoproclamados centros da intelectualidade lusa, de esquerda não serei certamente… e a direita não bate assim.
«A Direita está cheia de preconceitos que se instalam, dominam e oprimem. Um filho de uma família de Direita tem muito menos abertura de espírito do que um filho de uma família de esquerda. E faz-me impressão uma sociedade em que se premeie apenas o mérito, independentemente das condições à partida. Isso é a Direita e isso faz-me muita impressão.» Margarida Pinto Correia, in Sol, 11 de Agosto de 2007, pág. 3.
«Penso que este Nobel [da Literatura, a Doris Lessing em 2007] corresponde a um certo desejo de nos últimos anos premiar obras com marcas sociais e humanas de dádiva, autores com uma marca de empenhamento e intervenção humana e social. […] [julgo] muito difícil que grandes escritores cínicos, desencantados, como Philip
Roth ou Mário Vargas Llosa, sejam premiados.» Urbano Tavares Rodrigues, in Público, 12 de Outubro de 2007, pág. 18.
«A característica primeira da Doris Lessing, quanto a mim, é realmente ser uma mulher de ideais, uma mulher de causas, uma mulher da liberdade: uma mulher de esquerda.» Maria Teresa Horta, in Câmara Clara, RTP2, 14 de Outubro de 2007.
O mais preocupante nestas três citações, entre muitas outras que poderia encontrar – sabendo que a blogosfera seria o local privilegiado para descobrir, de forma quase instantânea, um bom punhado de referências da mesma índole –, é o primitivismo maniqueísta no espírito destes esquerdistas de afirmação e a apropriação ilegítima dos chavões de defesa da liberdade, dos valores sociais, do direito à diferença, dos desprotegidos. Hoje, temos uma esquerda sectária, intolerante, tendencialmente reaccionária, profundamente convencida de que é proprietária, em rigoroso exclusivo, do graal da verdade suprema. E foi essa esquerda, irascível, dona putativa do bem, do pensamento cultural e da intelectualidade, que se insurgiu contra o Pedro Mexia quando este, fazendo uma alusão ao normalizador estalinista Andrei Jdanov – e poderia ter ido mais longe, se falasse dos candidatos a Savonarola da revolução cultural maoísta – constatou que existe, de facto, uma agenda política da Academia Sueca na atribuição de um prémio literário e defendeu, na sua inalienável opinião pessoal, como estranho o recalcitrante esquecimento de Philip Roth... um judeu norte-americano.
Ora, esta esquerda, que numa só década conseguiu apoderar-se dos tiques da direita tradicional e reaccionária, apodou o Pedro Mexia de sionista. Este, defendeu um judeu para o Nobel da Literatura e, imagine-se, para cúmulo da insensatez, é norte-americano.
Mas Roth é de esquerda, ou estarei enganado!?
Não conheço o Pedro Mexia, nunca li um livro seu, e como podem constatar nem sequer existe uma reciprocidade lincacional, embora acompanhe os seus escritos na imprensa e na blogosfera. Considero-o, todavia, uma das referências culturais nacionais, tanto nas artes literárias – a sua área de criação artística –, como nas cinematográficas. Mas Mexia tem um óbice, confessa-se como conservador de direita, e a doxa intelectual, no seu fervoroso exclusivismo, não lhe perdoa.
Eis quatro protagonistas, vivos, judeus e norte-americanos de esquerda, escritores de profissão, pertencentes ao olimpo das minhas preferências literárias, que fazem de mim um sionista:



