sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Sou literariamente sionista

É necessário estabelecer um ponto prévio, à guisa de pequena autobiografia. Nasci em 1972, na burguesa cidade do Porto, no seio de uma família conservadora, católica praticante e, acrescente-se, plenamente às direitas – por conseguinte, não-sinistra.
Hoje, seguindo-se a minha regular e natural evolução ontogénica, pese embora a minha visceral rotulofobia, considero-me um liberal apartidário, tendencialmente laico – para grande desgosto do meu pai –, não-keynesiano, antimarxista, adepto confesso do capitalismo popular como veículo primordial para a completa erradicação da iniquidade social na distribuição da riqueza criada.
Serei de direita?
Há, todavia, algo que se me afigura como quase natural, com a esquerda opinativa que, hoje em dia, domina os meios tradicionais de comunicação social, a classe jornalística em geral e os denominados ou autoproclamados centros da intelectualidade lusa, de esquerda não serei certamente… e a direita não bate assim.

«A Direita está cheia de preconceitos que se instalam, dominam e oprimem. Um filho de uma família de Direita tem muito menos abertura de espírito do que um filho de uma família de esquerda. E faz-me impressão uma sociedade em que se premeie apenas o mérito, independentemente das condições à partida. Isso é a Direita e isso faz-me muita impressão.» Margarida Pinto Correia, in Sol, 11 de Agosto de 2007, pág. 3.

«Penso que este Nobel [da Literatura, a Doris Lessing em 2007] corresponde a um certo desejo de nos últimos anos premiar obras com marcas sociais e humanas de dádiva, autores com uma marca de empenhamento e intervenção humana e social. […] [julgo] muito difícil que grandes escritores cínicos, desencantados, como Philip
Roth ou Mário Vargas Llosa, sejam premiados.
» Urbano Tavares Rodrigues, in Público, 12 de Outubro de 2007, pág. 18.

«A característica primeira da Doris Lessing, quanto a mim, é realmente ser uma mulher de ideais, uma mulher de causas, uma mulher da liberdade: uma mulher de esquerda.» Maria Teresa Horta, in Câmara Clara, RTP2, 14 de Outubro de 2007.

O mais preocupante nestas três citações, entre muitas outras que poderia encontrar – sabendo que a blogosfera seria o local privilegiado para descobrir, de forma quase instantânea, um bom punhado de referências da mesma índole –, é o primitivismo maniqueísta no espírito destes esquerdistas de afirmação e a apropriação ilegítima dos chavões de defesa da liberdade, dos valores sociais, do direito à diferença, dos desprotegidos. Hoje, temos uma esquerda sectária, intolerante, tendencialmente reaccionária, profundamente convencida de que é proprietária, em rigoroso exclusivo, do graal da verdade suprema. E foi essa esquerda, irascível, dona putativa do bem, do pensamento cultural e da intelectualidade, que se insurgiu contra o Pedro Mexia quando este, fazendo uma alusão ao normalizador estalinista Andrei Jdanov – e poderia ter ido mais longe, se falasse dos candidatos a Savonarola da revolução cultural maoísta – constatou que existe, de facto, uma agenda política da Academia Sueca na atribuição de um prémio literário e defendeu, na sua inalienável opinião pessoal, como estranho o recalcitrante esquecimento de Philip Roth... um judeu norte-americano.
Ora, esta esquerda, que numa só década conseguiu apoderar-se dos tiques da direita tradicional e reaccionária, apodou o Pedro Mexia de sionista. Este, defendeu um judeu para o Nobel da Literatura e, imagine-se, para cúmulo da insensatez, é norte-americano.
Mas Roth é de esquerda, ou estarei enganado!?
Não conheço o Pedro Mexia, nunca li um livro seu, e como podem constatar nem sequer existe uma reciprocidade lincacional, embora acompanhe os seus escritos na imprensa e na blogosfera. Considero-o, todavia, uma das referências culturais nacionais, tanto nas artes literárias – a sua área de criação artística –, como nas cinematográficas. Mas Mexia tem um óbice, confessa-se como conservador de direita, e a doxa intelectual, no seu fervoroso exclusivismo, não lhe perdoa.

Eis quatro protagonistas, vivos, judeus e norte-americanos de esquerda, escritores de profissão, pertencentes ao olimpo das minhas preferências literárias, que fazem de mim um sionista:

Philip RothJ. D. SalingerNorman MailerPaul Auster

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Um milanês reservado

Seguindo o desafio do Ricardo Gross, descobri que, no íntimo do meu ser, sou um cidadão de Milão.
Sempre me imaginei, depois de O Pêndulo…, como um Casaubon vagueando pelas ruas de Milão, imerso na infinitude de uma Biblioteca tipicamente borgiana, terminando os meus dias perseguido por uma seita esotérica.
Haverá, porventura, um modus vivendi tão discreto?


You Belong in Milan


Stylish and sophisticated, you want to enjoy a truly European life - away from tourists!
Milan fits you perfectly. Great shopping, high quality food, lots of culture... with very little hype.


terça-feira, 16 de outubro de 2007

Factor Lessing [actualizado]

The Man Booker Prize for Fiction 2007

Anne EnrightAnne Enright (Irlanda, 1962) com a obra The Gathering (Jonathan Cape).

Notas [actualização às 00:31, dia 17]:
  1. Autora do artigo «Disliking the McCanns», publicado no n.º 19, vol. 29 (4 de Outubro de 2007) da London Review of Books.
  2. Ao ler e reler as palavras proferidas pelo Presidente do júri do Booker Prize deste ano, Howard Davies, no momento do anúncio da atribuição do prémio, e aquelas que fazem parte da sinopse oficial do romance de Enright, apercebi-me de que existe uma estranha, porém perfeita, harmonia entre a obra e o factor perturbador do meu actual estado de espírito. Coincidências...
  3. A Ladbrokes continuou certeira. À hora de fecho das apostas, The Gathering figurava na última posição com uma probabilidade de vencer de 9/1. Felizes apostadores...
  4. Agora para algo completamente diferente, os fusíveis do profícuo INLAND EMPIRE cerebral de David Lynch colapsaram em definitivo.
  5. As palavras de Howard Davies, director da London School of Economics and Political Science: «[o romance] The Gathering é um olhar inflexível sobre uma família enlutada. É a visão desoladora de uma mulher, uma desolação enraizada na sua família, no seu casamento e na morte do seu irmão.» [tradução livre, AMC]
  6. Errando agora pela Estrada Perdida, acaso repararam na expressão facial de Shimon Peres ao ouvir falar da meditação transcendental como remédio para a resolução do conflito israelo-palestiniano?
  7. «Eles eram jovens, licenciados, ambos virgens naquela sua noite de núpcias, e viviam numa época em que uma conversa sobre dificuldades sexuais...» Pobres Florence e Edward.

McEwan versus Jones

Os dois favoritos entre seis finalistas, e o vencedor será…
Ou haverá lessing? (novo vocábulo da língua inglesa que designa a "atribuição de um prémio literário ao menos provável dos autores; erro clamoroso de prognóstico por comportamento volátil de outrem; (figurado) travessura sueca")
Logo, pelas 22 horas, hora de Lisboa, será anunciado numa cerimónia que decorrerá no Guildhall de Londres o
Booker Prize de 2007.

Nada

Gustave Doré - Edgar Allan Poe's The RavenNão surge nada e, no entanto, dele emergiram estas curtas linhas. Um desabafo, sem necessidade de indulgência… ensimesmamento.
Era para escrever sobre algumas decepções e contentamentos literários experimentados nos últimos dias: Barnes, com a sua dupla, deixou a desejar; o quase de quinceyano Falconer de John Cheever é, de facto, um pequeno prodígio da prosa ficcional norte-americana da segunda metade do século passado.
Amanhã é anunciado o Booker de 2007 – fingers crossed, Ian.
Inocentemente, perguntava-me de onde vinha esta estranha melancolia… uma lugubridade inusitada. Mais carregada que a usual!
E, jardelizando-me, expondo-me ao mundo na terceira pessoa, ouvi, do outro lado do espelho: É Outubro, meu caro, e com ele a recordação do dia mais doloroso e cinzento das tuas três décadas e meia de existência...

Requiescat in pace.



Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de alguém que batia levemente a meus umbrais
«Uma visita», eu me disse, «está batendo a meus umbrais.
É só isso e nada mais.»
Excerto de O Corvo, de Edgar Allan Poe, traduzido por Fernando Pessoa (The Raven, 1845)

domingo, 14 de outubro de 2007

Sam Riley

De arrepiar...

Estreia em Portugal: 15 de Novembro.

Adonis

AdonisUma vez mais, o Luís Costa, colaborador da TriploV, publicação dedicada às artes literárias e em homenagem ao, entre muitas coisas, crítico de arte, cineasta, fundador do movimento cineclubista em Portugal ou poeta, resistente antifascista e membro do PCP, Ernesto de Sousa (1921-1988), facultou-me, com toda a cortesia, um poema – assim como uma curta biografia – de um dos distintos e insondados poetas que, segundo os especialistas, estiveram – e estarão – na lista de potenciais candidatos ao Nobel da Literatura, refiro-me, desta feita, ao poeta sírio-libanês Adonis:



Que assim seja:
Os pássaros chegaram e as pedras
Juntaram-se às pedras
Assim:
Eu acordo as estradas e as noites
E nós seguimos na procissão das árvores

Os ramos são malas verdes e os sonhos
uma almofada
Na viagem de férias
Onde a manhã continua estranha
Onde o seu rosto
Permanece um selo sobre os meus mistérios

Assim:
Um raio indicou-me o caminho, uma voz chamou-me
Do fim mais extremo do muro

Adonis, A Floresta Mágica (tradução do alemão por Luís Costa).


Biografia, por Luís Costa:
Adonis, poeta e ensaísta, nasceu em 1930 na Síria. O seu verdadeiro nome é Ali Ahmed Said. Estudou filosofia em Damasco e Beirute. De seguida teve várias estadias no estrangeiro por exemplo em Nova Iorque e Paris. Hoje vive em Paris. Adonis tem traduzido muitos autores franceses para o árabe. Entre eles encontram-se Racine e Saint Jonh-Perse.
Em 1957 fundou com Yousuf el-Khal a revista literária mais importante do espaço árabe: «Schiir» (Poesia).
Adonis contribuiu muito para a renovação da língua árabe e influenciou assim uma geração de escritores e poetas árabes. Escrever poesia significa para ele uma luta permanente contra a memória fechada sobre si mesma da cultura, ou seja, contra o passado. O nome Adonis é considerado no mundo árabe, desde os anos 60, um sinónimo de modernidade. Ele afirmou-se aí como um dos principais porta-vozes da corrente critica e pós-moderna. Para ele a lírica representa uma forma de violação da língua; é a tentativa de obrigar a língua a dizer aquilo que a prosa jamais conseguirá exprimir. Este grande poeta vê as raízes da sua lírica no misticismo islâmico, que ele considera como um surrealismo antes do surrealismo europeu.
Entretanto o mundo árabe fala de adonismo, adonismo esse que tem os seus seguidores entusiásticos, mas também um grande número de inimigos ferrenhos, que se encontram, sobretudo, entre os islamitas.

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Tranströmer

Tomas TranströmerSe houve algum benefício, para além do eminentemente lúdico, do repto que aqui lancei no início desta semana a propósito da atribuição do Prémio Nobel da Literatura de 2007, ele traduziu-se decerto pela emergência de alguns nomes que, por critérios editoriais e pela eficiência na gestão dos recursos dos editores e livreiros, eram do desconhecimento do público em geral e que, supostamente, se distinguiram pela arte de contar histórias num dado local, num determinado momento.
Não sendo, por enquanto, um apaixonado por poesia – e reforce-se a potencial transitoriedade afectiva – houve um conjunto de poetas, putativos candidatos ao galardão da Academia Sueca, que emergiu da habitual armada de prosadores que sistematicamente surge nos lugares mais destacados dos prémios de carreira literária. Falo de nomes, que até então desconhecia, como o sírio-libanês Adonis, o sul-coreano Ko Un ou o sueco Tomas Tranströmer, entre outros.
Um dos princípios que me levou a entrar na blogosfera há quase um par de anos, para além da forte necessidade sentida de descarregar as minhas emoções através da exteriorização dos meus medos e encantamentos, de alguns do meus pensamentos mais profundos – ou concepções do mundo –, advinda de uma vida que se complicava por factores essencialmente exógenos à minha vontade – os tais reveses da fortuna –, foi precisamente, o de tentar, através das minhas leituras, dessacralizar a Literatura, ou se quisermos, o de contrariar uma certa elitização de um dos instrumentos primordiais à sobrevivência da espécie humana, como define Auster, o de ouvir e contar histórias, a necessidade que Homem tem da fábula, de poder sonhar enquanto prossegue na sua incessante demanda pela verdade.
Se brinco com a Literatura e com os seus caracteres e actores, se a torno profana, ou até mundana, apenas resulta de um esforço – que não se confunda com altruísmo, ou eventualmente, com a propensão para uma megalomania messiânica – para restituir a naturalidade às artes literárias, desafectando-a da horda intelectual e do seu pressuroso escolasticismo.

Regressando ao princípio deste texto, afirmava eu que uma das vantagens do desafio que aqui lancei, ademais de uma discussão sobre os gostos literários, foi o de dar a conhecer alguns autores que eu próprio, o mentor do repto paraliterário – assim talvez não ofende a escolástica –, desconhecia.
Serve a verborreia para destacar a contribuição do Luís Costa que, gentilmente, cedeu (via caixa de comentários) dois poemas de Tranströmer alusivos a Portugal, traduzidos do alemão pelo próprio.
Deixo aqui ficar um, o poema Lisboa:

No bairro de Alfama os eléctricos amarelos cantavam nas
Subidas.
Havia duas prisões. Uma delas era para os gatunos.
Eles acenavam através das grades.
Eles gritavam. Eles queriam ser fotografados!

“Mas aqui”, dizia o revisor e ria baixinho como um afectado
“aqui sentam-se os políticos”. Eu vi a fachada, a fachada, a fachada
e em cima, a uma janela, um homem,
com um binóculo à frente dos olhos, espreitando
para além do mar.

A roupa pendia no azul. Os muros estavam quentes.
As moscas liam cartas microscópicas.
Seis anos depois, perguntei a uma dama de Lisboa:
Isto é real, ou fui eu que sonhei?

Tomas Tranströmer, Lisboa (tradução de Luís Costa)

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Doris Lessing [actualizado]

Prémio Nobel da Literatura 2007

Doris Lessing

Reino Unido

(Irão (antiga Pérsia), 22 de Outubro de 1919; nacionalidade inglesa)

Doris Lessing

[actualizado às 20:18]
Quando
neste texto dei início ao pequeno inquérito sobre a preferência dos leitores deste blogue para o vencedor do Nobel da Literatura deste ano, referi, nos critérios de escolha dos 11 nomes propostos para votação, que não se vislumbrava a iminência de uma eleição avermelhada por falta de matéria-prima: «Harold Pinter venceu em 2005 e com ele esgotou-se o stock de marxistas, descendentes do Pai García Márquez (1982) – com a mão a fugir para o bom gulag estalinista – que, nos últimos tempos, conveio laurear: Gordimer (1991), Dario Fo (1997), Saramago (1998) e Grass (1999).»
Errei em toda a linha, esqueci-me de Doris Lessing, ou melhor, dava-a como já na companhia do comrade Bernard Shaw, Sartre, Quasimodo ou Sholokhov, por exemplo.

A reacção de Harold Bloom à Associated Press:
«É o puro politicamente correcto. (…) Embora Lessing, no início da sua carreira, haja possuído algumas qualidades admiráveis, eu considero a sua obra nos últimos quinze anos como pouco legível… ficção científica de quarta categoria.» [tradução: AMC]

A reacção (esperada) do inefável camarada Saramago à Lusa:
«É uma pessoa preocupada com o mundo e com ideias claras (…) uma pessoa muito aberta, sem nenhuma pose ou vaidade. (…) Como é que tardaram tanto a dar-lhe o Nobel?»

Sr. Escritor,
Para cumprir a condição sine qua non para vencer o Nobel, seguir
esta ligação. Obrigado.

House Specialities

Em degustação:
Thom Yorke


Thom Yorke



…em 10 postas finas, translúcidas... laminadas, um bom carpaccio sem dispensar azeite, umas gotas de limão ou talvez uma vinagreta purgativa – recomendo the Reckoner, as a starter.

Nota: texto n.º 300.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Nobel da Literatura – 2.ª Actualização (Ladbrokes)

Antes de postar a lista actualizada, de acordo com as probabilidades atribuídas pela Ladbrokes, convém relembrar que:

  • Continua em aberto (até às 8 horas da manhã de amanhã), aqui no lado direito, o pequeno inquérito sobre as preferências para vencedor do prémio com base em 11 nomes pré-seleccionados (por enquanto lidera Mailer seguido de Roth);
  • O Nobel da Literatura será anunciado amanhã (dia 11) ao meio-dia, hora de Lisboa.
Top 10 (candidatos ao Nobel – Ladbrokes)

1.º Philip Roth (EUA, 1933) – 7/2
2.º Claudio Magris (Itália, 1939) – 6/1
3.º Haruki Murakami (Japão, 1949) – 7/1
–– Tomas Tranströmer (Suécia, 1931) – 7/1 (Poesia)
5.º Amos Oz (Israel, 1939) – 8/1
–– Joyce Carol Oates (EUA, 1939) – 8/1
–– Les Murray (Austrália, 1938) – 8/1 (Poesia)
8.º Adonis (Síria, 1930; Líbano) – 10/1 (Poesia)
–– Thomas Pynchon (EUA, 1937) – 10/1
10.º Ko Un (Coreia do Sul, 1933) – 14/1 (Poesia)

Entrou para a lista o eterno candidato Thomas Pynchon, saindo o poeta e ensaísta francês Yves Bonnefoy (n. 1923).

terça-feira, 9 de outubro de 2007

Bicho e espoleta

Bandeira Branca e a sua simbologiaO carácter íntimo e pessoal na interpretação do tom – não o Jobim, dilecção da casa, e grafado com maiúscula, “à partida” – dos textos dos outros neste pequeno mundo, buliçoso e tendencialmente hiperbólico na vitimização, designado por blogosfera, tem sido um dos principais impulsores do azedume e de troca de alguns mimos, por vezes a roçar o nível de arrieirada, entre bloggers, que, com alguma regularidade, tem como corolário o fim desses espaços de divagação, em jeito de protesto – birra ou amuo, se se preferir – para abrir outro mesmo ali ao lado sob pseudónimo, ou então, revitalizar o morto, dando a entender que se tratou de uma mera suspensão enquanto pacatamente se iniciava uma longa peregrinação pelo mundo para alargar os horizontes e, assim, poder partilhar as experiências com os que ficaram por cá numa guerrilha sem fim.
Quando escrevi
isto, pretendia apenas apelar ao uso do recurso estilístico da ironia, e se isso não foi entendido como tal, sou o primeiro a dar cara apontando uma eventual debilidade de estilo literário, deixando para segundo plano uma possível precariedade hermenêutica do receptor.
A propósito desse texto, em que fiz alusão a Durkheim e ao seu inovador estudo sobre o suicídio publicado nos finais do século XIX, aplicando-o ao romance de 1774 Werther do escritor J. W. Goethe e àquilo a que muitos posteriormente, já no século XX, vieram chamar de “efeito Werther”, já houve
réplica e tréplica. Todavia, como já referi, a intenção “à partida” era a de preambular um texto que iria surgir com algum desfasamento temporal, daí a numeração romana a atribuir-lhe um carácter folhetinesco estrito, apodando de falaciosos e apriorísticos os argumentos invocados por alguns críticos literários nas suas recensões sobre uma determinada obra.
Falei de Durkheim precisamente para realçar a risibilidade argumentativa de dois jovens e ambiciosos críticos literários – um deles até é crítico musical – que deixavam nas entrelinhas dos seus textos a potencial periculosidade dos personagens criados pelo autor, perigo que advinha da sua capacidade de contágio, por mimese, ao leitor, com rápida disseminação pela sociedade. Assim, por outras palavras e recorrendo à auxese como figura de estilo, o autor seria visto como um genocida, ou um Karadzic ou até um Pol Pot – a proximidade geofráfica do foco mediático teve a (des)virtude de o relembrar – que usa, “à partida”, os meios literários para atingir os seus fins perversos.
O assunto resvalou para Durkheim como fulcro da questão e a possível (mea culpa) falta de entendimento da sua doutrina.
No
primeiro texto disse:

«Durkheim professava que o suicídio primitivo era, apenas, o detonador do acto do imitador, o catalisador da reacção, uma vez que a tendência de atentar contra a própria vida resultava de uma patologia preexistente, de uma predisposição, como o acordar de um gigante adormecido na nossa psique.»

Errei. Não chamei, de forma séria e científica, anomia a essa predisposição, ou, de forma menos concisa, o conflito entre (ou mesmo ausência de) regras ou princípios normativos sociais num dado momento, numa dada comunidade, que se repercute, na esfera íntima do indivíduo por uma sentida desconformidade ou inadaptação deste perante a sociedade, ou seja, um choque da esfera social com a esfera individual, íntima, psicológica.
Durkheim nega a amplitude da sugestão, ou do elevado potencial mimético de um suicídio real ou ficcional – que levaram, por exemplo, as autoridades a proibir a venda de Werther em alguns locais da Europa –, porém, não nega o efeito da sugestão como catalisador, ou precipitante, de uma acção (suicida) que ocorreria certamente num momento mais tardio, como espoleta de uma patologia, se quisermos, psicossocial preexistente.
De resto, o austero reverencia e agradece a troca de palavras, revelando que, de forma alguma, deste lado, chegou a existir o prenúncio da tal goetha que faz transbordar o copo (a pun for a pun, embora seja fraca, logo, segundo Poe, suportável ou pouco intolerável).

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Ruínas – (VnS IV, epílogo)

Quatro citações, ou melhor, três possíveis epígrafes e uma citação deliberada. A segunda serviu de epígrafe ao texto de onde foi retirada a primeira. O autor da terceira influenciou decisivamente os labirintos narrativos do autor da primeira, a quem este chamou em El conto policial de o Pai da literatura do género, criando com Os Crimes da Rua Morgue o primeiro mistério do quarto fechado – um crime é cometido dentro de um quarto onde aparentemente ninguém pôde entrar, sendo, ademais, descartada a hipótese de suicídio – e ambos são, declaradamente, duas fontes de inspiração primordiais para o autor da quarta citação.

«Com alívio, com admiração, com terror, compreendeu que ele próprio também era uma aparência, que outro estava a sonhá-lo.»
Jorge Luís Borges, “As Ruínas Circulares”, Ficções (Ficciones, 1944)

«E se ele deixasse de sonhar contigo, onde pensas que estarias?»
Lewis Carroll, Alice do outro lado espelho (Through the Looking Glass, 1871)

«Is all that we see or seem / But a dream within a dream?»
Edgar Allan Poe, A Dream within a Dream (1849)

«Não vai acabar nunca. Porque Mr. Blank é um de nós agora, e, por muito que se debata para compreender a sua provação, acabará sempre por se sentir perdido. […] Sem ele nós não somos nada, mas o paradoxo é que nós, as criaturas imaginadas por uma outra mente, sobreviveremos à mente que nos criou, já que, a partir do momento em que somos lançadas no mundo, continuamos a existir para sempre, e as nossas histórias continuam a ser contadas, mesmo depois da nossa morte.»
Paul Auster, Viagens no Scriptorium, pág. 114.


Depois do mais dissemelhante de todos os seus romances, As Loucuras de Brooklyn (Brooklyn Follies, 2005), Auster regressa à prosa metaficcional com Viagens no Scriptorium (Travels in the Scriptorium, 2007).
«O velho está sentado na beira da cama estreita, mão abertas fincadas nos joelhos, cabeça baixa, olhos fixos no chão.» (frase de abertura da obra, pág. 7).
O velho é Mr. Blank, um homem confuso, «encalhado no meio das criaturas que povoam a sua imaginação». Mr. Blank encontra-se fechado num quarto de uma só janela com a cortina corrida. Não sabe se a porta está trancada, não sabe se para lá da cortina poderá ver o mundo – que mundo? – enquanto ouve, lá fora, «o grito esbatido de um pássaro». Mas, de momento, aquilo que o atormenta é o não saber responder à pergunta primordial que abre todo um universo repleto de novas perguntas: «Quem é ele? Que faz aqui? Quando chegou e quanto tempo permanecerá aqui?» (pág. 7)
Blank não sabe, mas sobre si existe um mecanismo de vigilância que escrutina todos os seus movimentos. A tangibilidade resume-se a um conjunto de objectos, sobre os quais estão apostos rótulos com os seus respectivos nomes: um candeeiro, uma cama, uma secretária com um manuscrito nela pousado, uma cadeira, onde se senta e balança o corpo, e, de repente, sem o mínimo esforço, surge-lhe a primeira revelação, embora difusa, obscurecida, distante sem que consiga mensurar essa distância, fraca para responder às perguntas que o atormentam. Sobre o seu passado ocorre-lhe uma vaga memória de um cavalo de balouço, Whitey, «e que, na mente da criança que Mr. Blank foi, não era um objecto de madeira pintado de branco, mas um ser vivo, um cavalo de verdade», onde no seu dorso percorria os caminhos traçados pela sua imaginação. A imaginação como construtora da realidade.
A partir deste ponto ao quarto acorrerá um conjunto de pessoas diferentes entre si, cada um por sua vez, umas que o ajudam nas tarefas diárias, físicas e fisiológicas, essenciais à sua sobrevivência, e outras que, munidas de uma autoridade cujas origem e legitimidade não compreende, lhe recordam a árdua tarefa que tem pela frente, como uma pena que terá de cumprir pelo mal que lhes infligiu no passado.
Em Viagens no Scriptorium temos Auster numa reflexão profunda, apesar da enganosa superficialidade, talvez provinda de uma leitura negligente ou até intencionalmente desvirtuada, sobre a literatura e a arte de contar histórias, sobre o criador e a intertextualidade da sua obra, sobre a zona nebulosa entre a realidade e a ficção, o sonho e a verdade.
Nesta obra reencontramos Auster no seu campo predilecto, a navegar em territórios que só ele, de momento, sabe explorar: a efabulação metadiegética, quem manipula quem, quem conta a história, o confronto entre o criador e os sujeitos da sua criação, o epítome da narrativa circular que nesta obra é provida de personagens pertencentes a obras anteriores, aqui como lá forjadas pelo potencial onírico de um homem que quis contar histórias a um público ávido de ilusão, de um inebriamento provocado por uma sensação de plausibilidade ou de verosimilhança da sua mais arreigada utopia.
Não erro se disser que esta é uma obra do autor para os seus leitores mais fiéis. Auster completou 60 anos no ano de estreia de Viagens no Scriptorium, e os seus fãs agradecem-lhe, à laia de comemoração, o engenhoso desfile de personagens que povoaram os seus imaginários pelo acto, puro e simples, de leitura das suas obras de ficção que, para um austeriano, se conseguem identificar com alguma facilidade no decurso da narrativa: No País das Últimas Coisas, A Trilogia de Nova Iorque, A Noite do Oráculo, Palácio da Lua, Leviathan ou O Livro das Ilusões.
Auto-indulgente? Auto-referencial? Manipula sem critério os seus personagens, e com isso os seus leitores, julgando dispor de um poder especial de emanação divina?
Deixem-me sonhar, porque é com o sonho que me alento perante a realidade e com a criação artística que vou descobrindo a verdade.
Se parares de sonhar…
Escuro.

Classificação: ***** (Muito Bom)

Referência bibliográfica:
Paul Auster, Viagens no Scriptorium. Porto: Asa, 1.ª edição, Setembro de 2007, 115 pp. (tradução de José Vieira de Lima; obra original: Travels in the Scriptorium, 2007).


Já a seguir: Men in the Dark.

domingo, 7 de outubro de 2007

Entretanto... [actualizado]

…a centenária casa de apostas britânica Ladbrokes, que no ano passado acertou em cheio na previsão de atribuição do Nobel ao escritor turco Orhan Pamuk, atribuiu as seguintes probabilidades para o vencedor do Nobel da Literatura de 2007 – os dez primeiros:

O reverso da medalha do Nobel da Literatura1.º Philip Roth (EUA, 1933) – 5/1
2.º Claudio Magris (Itália, 1939) – 6/1
–– Les Murray (Austrália, 1938) – 6/1 (Poesia)
4.º Tomas Tranströmer (Suécia, 1931) – 7/1 (Poesia)
5.º Haruki Murakami (Japão, 1949) – 8/1
6.º Adonis (Síria, 1930; Líbano) – 9/1 (Poesia)
7.º Amos Oz (Israel, 1939) – 10/1
–– Joyce Carol Oates (EUA, 1939) – 10/1
–– Ko Un (Coreia do Sul, 1933) – 10/1 (Poesia)
10.º Yves Bonnefoy (França, 1923) – 16/1 (Poesia e Ensaio)
[actualização: Roth passou à condição de vencedor mais provável. Saiu do Top 10 o poeta belga (flamengo) Hugo Claus (1/25), entrou Yves Bonnefoy]

Em comparação com a lista de onze nomes de prováveis vencedores por mim sugerida, apenas Philip Roth integra, na 3.ª 1.ª posição por grau de probabilidade de ocorrência decrescente, a lista dos dez primeiros da Ladbrokes. Todavia, há sete autores que surgem em posições inferiores na tabela, de acordo com a lista da corretora: Kundera e Pynchon (20/1); DeLillo (25/1); Updike (40/1); Achebe e Vargas Llosa (50/1); Rushdie (100/1). Não constam da referida lista de apostas três do onze nomes atrás referidos: Lobo Antunes, Kadaré e Mailer.

Notas:

  1. A Paul Auster foi atribuída a probabilidade de 100/1, tal como a John Banville e a Julian Barnes.
  2. De destacar o rácio de 20/1 atribuído ao autor italiano, de forte paixão lusa, Antonio Tabucchi.
  3. Curiosamente, Bob Dylan aparece na lista, conquanto surja na última posição com uma probabilidade de 150/1.

Inventas vitam juvat excoluisse per artes.

sábado, 6 de outubro de 2007

Dia: 11: Autores

Na próxima quinta-feira, dia 11 de Outubro, ao meio-dia, hora de Lisboa, será anunciado o Prémio Nobel da Literatura de 2007.
A Fnac já vende livros com desconto de 20% assinados por autores supostamente candidatos ao galardão anual da Academia Sueca: Lobo Antunes, Vargas Llosa, Kundera, Kadaré, P. Roth e Rushdie.

Alguns factos para análise:
  1. O último norte-americano a ser galardoado com Nobel da Literatura foi a escritora afro-americana Toni Morrison em 1993 – logo, não será de desprezar, 14 anos depois, a atribuição do prémio a um autor proveniente da maior fábrica de prémios Nobel do globo, que na vertente da Literatura já deu à Suécia e ao mundo nomes como Faulkner (1949), Hemingway (1954), Steinbeck (1962) ou Bellow (1976), entre outros.
  2. Harold Pinter venceu em 2005 e com ele esgotou-se o stock de marxistas, descendentes do Pai García Marquez (1982) – com a mão a fugir para o bom gulag estalinista – que, nos últimos tempos, conveio laurear: Gordimer (1991), Dario Fo (1997), Saramago (1998) e Grass (1999).
  3. Salman Rushdie apresenta dois tipos de problema. Começando pelo mais simples, distam apenas dois anos desde a atribuição do Nobel ao último britânico, Harold Pinter – já sabemos que pczismo sueco é de pendor fundamentalista. Porém, o problema mais aborrecido e assaz complexo consiste numa certa falta de conteúdo no escroto – fui tão polido, dêmos graças ao Senhor – dos membros do júri da Academia para o Nobel da Literatura. Convém recordar que há precedentes. Em 1976, um nome foi prontamente retirado e substituído por outro (Bellow) em cima da data do anúncio. Sim, isso mesmo, deu-se com o eterno injustiçado – Nobel desde que nasceuJorge Luis Borges, porque aquele ladino, na altura com 77 anos, havia acabado de visitar o ditador chileno Augusto Pinochet e com ditaduras de direita a Academia não brinca, facto que foi agravado por um erro de interpretação das palavras de Borges, um cínico divertido, que inclusivamente motivaram que o insuspeito García Márquez viesse a terreiro em sua defesa.
  4. Achebe e Kadaré dispõem de uma forte probabilidade para vencer. Uma vez mais, e em primeiro lugar, devido ao pczismo e à diversidade cultural. Depois porque ambos foram os vencedores das duas primeiras edições do Man Booker International Prize, prémio bienal de carreira: Ismail Kadaré em 2005 e Chinua Achebe em 2007.
  5. António Lobo Antunes porque, apesar das últimas derivações no mínimo excêntricas, é de facto um grande escritor. E depois, não há nada neste mundo que, a concretizar-se, pudesse irritar mais o Saramago...
  6. Finalmente, um dos muitos casos de uma injustiça gritante: o eterno e inigualável Milan Kundera. Seguindo os critérios recentes da Academia dificilmente será galardoado: foi um dissidente do partido e do regime comunista checos, pró-soviéticos, havendo-se exilado em França, país onde actualmente habita e adquiriu a nacionalidade francesa. A sua não-nomeação tem contornos semelhantes ao caso de Mario Vargas Llosa.
Eis os 11 nomes para o dia 11, propostos por mim e que figurarão por ordem alfabética do apelido no topo da barra da direita, como objecto para um pequeno inquérito na blogosfera, que se irá manter em aberto para votação até às 8 horas da manhã do dia 11 de Outubro:



(Carregar na imagem para ampliar)

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Elucidação – (VnS III)

Ópera: representação de Werther de Jules Massenet; Turim, Itália
Chama-me à razão este texto do Jorge no seu Yesterday Man – e eu que pensava que ao meu não iria voltar… ironizava, pois.
O desmiolado Werther – no início apenas um defeito mental, ainda nem sequer sonhara que a língua poderia ter destas literalidades semânticas –, perdido de amores por Carlota, comprometidíssima com o estóico Alberto na imaginária Walheim, deu um tiro na cabeça porque não teve a real consciência de que se tratava de um lírico, ou melhor, um tipo maçador, peganhento, enfim, um carrapato vampírico sugador da felicidade alheia.
Porém, mais desmiolados foram os seus seguidores que, catapultados por um doidivanas, resolveram fazer do tiro aos miolos o desporto nacional. O próprio jovem – o avôJohann Wolfgang nunca previra tais resultados, levando-o mesmo, mais tarde, a ridicularizar e a depreciar o seu próprio livro, escrito quando ainda tinha 25 anos de idade e numa fase em que atravessava a desolação de uma paixão avassaladora, por uma tal de Carlota, tão típica dos arrebatados espíritos românticos de jovens adultos.
O tio Émile negou a relação causa e efeito imediato, embora, confrontado com o caso das mortes miméticas, tenha referido que tal sofrimento induzido por via literária poderia, eventualmente, precipitar, ou conduzir a uma triste conclusão, quem, à partida, possuísse o bicho wertheriano – leia-se suicida – lá bem dentro da pobre e dúctil mioleira.
Nem o tio foi tolo, nem tão-pouco o avô engendrou uma arma artesanal de destruição em massa – para isso, embora mais tarde e com efeitos menos devastadores, dispunha de Fausto e do seu contrato com Mefistófeles, cuja relação deu origem a um livro bem mais pesado e por isso mais contundente e letal.

Em suma, o título do meu texto,
A Explicação de Durkheim, era sucedido de um código entre parênteses: VnS. Ora, a abreviatura corresponde a Viagens no Scriptorium, o título do último romance de Paul Auster, publicado em Portugal há 15 dias pelas Edições Asa. Como sou um austeriano dos sete costados, fui (e vou) protelando a publicação da minha opinião pessoal sobre a sua última obra. Continuo à espera que o tempo me traga algum discernimento opinativo, não embotado pelo putativo fundamentalismo literário.
Assim, fui publicando uma série de textos casuais – este é apenas o terceiro –, cuja única relação é o próprio romance, recorrendo a artigos sobre ele publicados por esse mundo fora.
A Explicação de Durkheim pretendia ser um texto irónico, ridicularizando alguns dos críticos – principalmente alguns ingleses e norte-americanos – que tentaram destruir a obra recorrendo a argumentos estapafúrdios e, por vezes, a roçar o mais baixo insulto pessoal.
Quando escrevi o dito texto, tinha em mente duas recensões que, há um ano, após a publicação do romance no Reino Unido (Outubro de 2006), me deixaram à beira de um estado de fúria irreprimível. Refiro-me ao texto de Alfred Hickling no jornal The Guardian, e mais especificamente ao da tem-tudo-para-ser-uma-boa-de-uma-arrivista
Deborah Friedell no Times Literary Supplement, onde surgiu um curto e esplêndido comentário de réplica, escrito por um leitor nova-iorquino, sobre o qual me inspirei para chamar Durkheim à colação. Eis o texto do feliz comentário:

«I stopped reading Paul Auster years ago for reasons eloquently laid out above. I don't mind him, he can't hurt you if you don't read him, but good Lord his admirers. I can only be grateful to newspaper reviewers who stick with overrated, self-satisfied writers and read their every new book, just so they can alert us in case they reform themselves. Hats off, Deborah. You are the mirror image of the canary in the coal mine. I'll risk a trip back in if you perk up.»

A literatura não mata, mas por vezes mói. Mas… por outras, mói tanto que, como Pável Vassílievitch, há sempre um benfazejo pisa-papéis à mão… mas, os jurados absolveram-no [“Drama”, conto de Anton Tchékhov]. Foi uma boa causa...

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

The Twofer

Michiko KakutaniRoth já o havia confirmado, Nathan Zuckerman – para muitos o alter-ego do autor norte-americano – despede-se do público com Exist Ghost, o nono livro a contar com o atormentado personagem – décimo com a compilação Zuckerman Bound (1985) –, havendo intervindo em seis como protagonista (incluindo o mais recente) e nos restantes como narrador e personagem secundário.
Depois da valente zurzidela em Todo-o-Mundo (Everyman, 2006), que foi devidamente precedida por outras impiedosas recensões, com destaque para Teatro de Sabbath (Sabbath’s Theater, 1995), Michiko Kakutani, crítica literária residente do periódico
The New York Times, vencedora do Pulitzer para a Crítica em 1998 pela sua «escrita apaixonada e inteligente sobre livros e literatura contemporânea» [tradução AMC], aprova o último romance de Philip Roth – o que pode significar que, de facto, o achou uma maravilha, dada a sua embirração com o escritor de Newark e quejandos (já lá vamos…)
Em boa verdade, para a letrada nipo-americana nem tudo é mau com Roth. Kakutani sempre se confessou como admiradora incondicional da Trilogia Americana (do pós-guerra), com especial destaque para Pastoral Americana (American Pastoral, 1997) – curiosamente, o meu romance preferido, entre a dezena que tive a oportunidade de ler de Philip Roth.
Porém, a misoginia latente nas restantes obras do autor, a informal, solta e obscena linguagem usada – na minha óptica, um dos temperos que contribuem para a excepcionalidade do produto final rothiano –, acrescentando-se, segundo palavras da própria, a superficialidade ou lhaneza de algumas das suas últimas obras como Animal Moribundo (The Dying Animal, 2001) e de Todo-o-Mundo, deram-lhe o ensejo para desancar, através de uma prosa rebuscada, perifrástica e com grande intensidade adjectival, usando a sua página no The New York Times Book Review como veículo da sua verrina, um dos mitos vivos da literatura norte-americana, cuja obra será publicada na íntegra, e ainda em vida, na Library of America.
Mas Philip Roth não é a única presa nas garras do falcão desgrenhado de origem japonesa. Aliás, Kakutani é suficientemente conhecida pela sua acerba implicância com os escritores anglo-saxónicos, brancos e do sexo masculino, e quase todos pertencentes à mesma geração: Updike e Pynchon, para além do já ido pai Bellow, e, em especial, Norman Mailer, com quem já se envolveu em ferozes altercações, chegando ao ponto de este último se ter visto na obrigação de defender Roth, com o qual mantém uma animosidade surda, de origem bellowniana, quando Kakutani trucidou Teatro de Sabbath.
Em 2005, em entrevista à revista Rolling Stone, Mailer disse:
«Kakutani é uma mulher kamikaze. Ela despreza os escritores masculinos e brancos, e eu sou o seu alvo preferido […] Todavia, os editores do Times não a podem despedir. Eles têm medo dela. Com as leis de discriminação e por aí fora, bom, ela é uma “três em um”[1]… Asiática, feminista, e… ah, qual é a terceira? Bom… vamos antes chamá-la de “dois em um”[2]… Ela é um adereço, e, provavelmente, lá no fundo, ela sabe disso.» [tradução AMC]

Shame on you, Mr. Mailer. (O autor deste blogue a aderir ao p.c.)

Notas:
[1] Tradução aproximada para “Threefer”, uso mais correcto em “conjunto de três produtos pelo preço de um”.
[2] Tradução aproximada para “Twofer”, mais correcto “conjunto de dois produtos pelo preço de um”. Pode também utilizar-se para mencionar uma pessoa pertencente a dois grupos minoritários ou objecto de discriminação, beneficiária por duas vias de um sistema de quotas (cf. "
twofer." Dictionary.com Unabridged (v 1.1). Random House, Inc. 04 Oct. 2007. No caso Mailer referia-se à condição de “mulher asiática”.

Recomendação: Ler o artigo The Twilight of the Old Goats de autoria do jornalista, crítico literário e ensaísta D.T. Max, publicado em Maio de 1997 na revista digital Salon.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

«Porque muitos demónios tinham entrado nele…

António Lobo Antunes…e suplicavam-lhe que não os mandasse ir para o abismo.»
Lucas, 8: 30-31


Quarenta páginas de O meu nome é Legião para verificar que o Homem não tem emenda… ALA. Intervalo com Tchékhov. Mais um ou dois contos das sete colectâneas até agora publicadas pela Relógio D'Água.
Ainda faltam trezentas e quarenta… Desistir ou não desistir…
Já não é literatura, é um torturante jogo de paciência, um maçador labirinto, nada beckettiano e muito menos borgiano, que se repete indefinidamente, como um pesadelo diário, obstinado, recidivo, que nos esgota pela inescapável e retemperadora exsudação o último vestígio de água no organismo; uma longa e monótona travessia no deserto, sem miragens, sem que se vislumbre um simples indício de finalidade das emanações daquela mente, aparentemente torturada e supostamente proficiente e visionária.
Por onde anda o autor da inolvidável trilogia «Memória de Elefante – Os Cus de Judas – Conhecimento do Inferno»?

E depois temos uma daquelas frases, cujo teor altaneiro, impele à citação do
Eduardo Pitta e da rubrica de um jornal cujo nome já não me lembro: “Importa-se de repetir?”

«O Livro equaciona o problema do mal, como o título indica, manifestando nessa meninice irresponsável a indecidível culpa ou inocência, imputável ao vazio cultural e ao viver carenciado, que mescla consequências demoníacas numa aura de edénica ambiguidade.»
Maria Alzira Seixo (Coordenadora da Edição ne varietur), in JL, n.º 965, 26/09/2007, pág. 19.

«Saíram, pois, do homem, entraram nos porcos e a vara lançou-se do alto do precipício ao lago, e afogou-se.»
Lucas, 8: 33

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

E tudo permanece no seu lugar correcto

Faltam 10 dias para o lançamento do último trabalho da melhor banda do mundo em actividade*:


Via Susana Viegas (a quem surripiei a imagem), no blogue Auto-Retrato.

*Neste critério não cabem aquelas bandas que, apesar de se encontrarem em actividade, designadamente através de concertos e de digressões mundiais, já não publicam originais, limitando-se a rentabilizar um passado fabuloso. De momento, estou a pensar em duas: Pixies e Bauhaus.

Gotejamento literário

Em 2000, o actor norte-americano Ed Harris apresentava ao público o seu primeiro trabalho cinematográfico no campo da realização. Tratava-se de Pollock, filme baseado na volumosa obra literária de carácter biográfico Jackson Pollock: An American Saga, publicada originalmente em 1989 e escrita pela dupla Steven Naifeh e Gregory White Smith, que proporcionou a atribuição do Óscar para Melhor Actriz Secundária a Marcia Gay Harden na soberba interpretação do papel de Lee Krasner.
Em 2002, cumprindo, de certa forma, a tradição mimética e reprodutiva originada por qualquer obra cinematográfica de relativo sucesso em Hollywood – lembremo-nos do papel de Amadeus (1984) de Milos Forman na posterior febre informativa e indagativa que se acometeu do público pela obra e pelos aspectos biográficos de Mozart, ou, embora noutro registo, de O Silêncio dos Inocentes (1991), obra-prima de Jonathan Demme na profusão de filmes sobre os mais celerados psicopatas, cujas patologias advinham das mais estúrdias justificativas deformações mentais –, John Updike (n. 1932) publicava o romance Seek My Face, cujo intróito reza o seguinte:

«Este livro é uma obra de ficção […] No entanto, seria impossível negar que um grande número de pormenores procedem [sic] do admirável e exaustivo Jackson Pollock: An American Saga, de […] ou que algumas declarações dos meus artistas ficcionais estão estreitamente relacionadas com as recolhidas em Abstract Expressionism: Creators and Critics, uma esclarecedora antologia editada e apresentada por Clifford Ross». (pág. 5)

Dito isto, Updike abria a porta para uma arriscada e – dado o seu incontestável espírito inventivo – uma eventualmente profícua interpenetração da literatura ficcional ou romanesca nos domínios das artes plásticas, mais concretamente no território da Pintura do Expressionismo Abstracto norte-americano, com raízes e sede na Nova Iorque dos pós II Guerra Mundial, que viu Pollock como um dos seus expoentes máximos, ombreando, embora seguindo técnicas e uma estética distintas e obtendo obras finais profundamente idiossincráticas e identificáveis, com nomes como Mark Rothko, Willem De Kooning, Barnett Newman ou Adolph Gottlieb.
Procurai a Minha Face conta a história de uma pintora pré-octogenária, Hope Chafetz, ex-mulher do pintor Zack McCoy – aliás Jackson Pollock, logo Hope desempenha o papel de Lee Krasner – que refugiada no seu santuário idílico, o local da sua criação artística, numa localidade do Estado do Vermont, recebe, num dia de Abril, uma jovem jornalista nova-iorquina, Kathryn D’Angelo, para uma longa entrevista, que inesperadamente durará todo o dia.
No centro da narrativa, fortemente marcada pela tensão geracional e pelo choque conceptual das belas-artes entre entrevistadora e entrevistada, estão a solidão, o egotismo e a alienação profunda que marcam o artista no seu processo criativo e nas suas relações com o mundo, com um exterior que lhe parece hostil, sem capacidades de abstracção e de enlevação suficientes para conseguir compreender o fenómeno da manifestação artística e das suas emanações.
Como pano de fundo temos a evolução da Pintura no pós-guerra e a deslocação do seu eixo, do seu fulcro, da Europa, então destruída por seis anos de conflito, para os Estados Unidos, evoluindo do surrealismo, do expressionismo e da arte abstracta, esta última, epítome do grande criador Wassily Kandinsky, da primeira metade do século XX, para o expressionismo abstracto e mais tarde para a Pop Art – como resposta à primeira, tendo nos Estados Unidos como principais criadores Andy Warhol, Robert Rauschenberg, Jasper Jonhs e Roy Lichtenstein.
Hope, nascida em 1922 no seio de uma família Quaker na Pensilvânia, sintetiza esta evolução através das suas experiências no campo afectivo, ou melhor, subsumida nas suas relações amorosas, que culminaram em três casamentos – aqui um desvio em relação à figura histórica e real de Lee Krasner, viúva de Pollock, que depois da morte trágica deste, não voltou a casar para se dedicar, em exclusivo, à curadoria do espólio do marido.

Hope chega a Nova Iorque para frequentar a Women’s Art School da Cooper Union, onde estabelece uma primeira relação com Ruk, um russo, professor substituto, truculento e permanentemente ébrio, amigo de Hermann Hochmann – presumivelmente o pintor alemão, naturalizado americano, Hans Hofmann –, que passará a ser o seu mentor, quando esta, por convite do emérito professor, começa a frequentar as suas escolas em Nova Iorque e entrando, assim, de forma definitiva, em contacto com a realidade da artes plásticas e a nova corrente artística do expressionismo abstracto em plena fase de incubação.
Hope casa com Zack que morre de acidente de automóvel em 1956. Posteriormente conhece Guy Holloway – personagem ficcional que, através das obras referenciadas no romance, percebemos tratar-se de uma súmula das figuras mais conhecidas do movimento da Pop Art –, de quem tem três filhos e que funda o Hospice – curiosa referência à Factory de Warhol – onde aquele reúne os seus discípulos, supostamente entregues a práticas hedonistas como correia de transmissão para a profusão da arte aí produzida. Finalmente, conhece Jerry Chafetz, o seu último marido, negociante em arte e homem de Wall Street, com o qual Hope recomeça a pintar e vive finalmente em paz de espírito desde 1977 até à sua morte em 1986 por complicações renais.

«Cheguei à conclusão de que as pessoas que se dedicam às finanças são mais felizes do que as que se dedicam à arte. Não estão sempre preocupadas, podem descontrair-se sem ficar a cair de bêbedas. O Jerry jogava ténis, lia romances e até poesia, gostava de cozinhar, lia livros de cozinha, media as quantidades de todos os ingredientes com exactidão, enquanto o Guy só se importava com a comida se tinha de fazer um hambúrguer de gesso ou de pintar uma fila de bolos na montra de uma padaria. E o Zack, bem, o Zack teria caído em cima do fogão.» (pág. 221)

Jackson Pollock foi o grande mestre do Action Painting e da técnica de pintura de gotejamento (dripping painting). Com a tela colocada no chão do seu estúdio e usando normalmente tintas para fins industriais, Pollock arremessava-a directamente na tela, rodeando-a por todos os lados, deixando a tinta escorrer, criando pontos e linhas irregulares e aleatórias, como manifestações e representações do seu inconsciente – o apelo aos arquétipos de Jung.
John Updike arriscou. Tentou reproduzir com o seu romance a exuberância da história das artes plásticas americanas da segunda metade do século XX, reflectindo, como já referi, sobre a solidão, a loucura, o egoísmo dos mestres que a História reconheceu e os seus efeitos colaterais na esfera íntima e social daqueles que os rodeavam, e particularmente, na condição feminina – tema obsessivamente recorrente em Updike – e no quase instintivo processo de apagamento ou de secundarização das mulheres em favor do bem-estar e das carreiras dos homens que enxameiam as suas vidas de entrega, coragem e de estoicismo.
No entanto, se a espontaneidade e a criatividade são as marcas indeléveis da obra daqueles que procurou retratar, Updike, ao apoiar-se em e ao decalcar com a precisão de um copista a biografia supramencionada de Jackson Pollock, dando-se, apenas, ao trabalho de alterar os nomes – que neste caso é de todo desnecessário, dada a meia confissão intodutória da cópia e que se vai constatando através da leitura do romance –, que mesmo assim são perfeitamente identificáveis (curiosamente, a capa da edição portuguesa, reproduz o estúdio do pintor norte-americano), e nos testemunhos reais dos protagonistas do expressionismo abstracto compilados por Clifford Ross, coarctou a sua própria liberdade criativa, resultando num pastiche suficientemente preguiçoso e aborrecido, sem ritmo, que se prolonga, numa torturante modorra, por pouco mais de duas centenas e meia de páginas, apenas atenuada por algumas passagens descritivas e razoavelmente demonstrativas do puro génio literário a que o autor norte-americano nos habituou em obras anteriores e que vão fazendo dele um dos putativos candidatos ao Nobel da Literatura.

Classificação: *** (A Ler)

Referência bibliográfica:
John Updike, Procurai a Minha Face. Porto: Civilização, 1.ª edição, Agosto de 2007, 266 pp. (tradução de Carmo Romão; obra original: Seek My Face, 2002)


Nota: Para mais informação sobre a obra e a sua recepção no meio literário americano, ler as recensões arrasadoras de
John Banville e de Michiko Kakutani no The New York Times, e de Ron Charles no The Christian Science Monitor.