sábado, 6 de outubro de 2007

Dia: 11: Autores

Na próxima quinta-feira, dia 11 de Outubro, ao meio-dia, hora de Lisboa, será anunciado o Prémio Nobel da Literatura de 2007.
A Fnac já vende livros com desconto de 20% assinados por autores supostamente candidatos ao galardão anual da Academia Sueca: Lobo Antunes, Vargas Llosa, Kundera, Kadaré, P. Roth e Rushdie.

Alguns factos para análise:
  1. O último norte-americano a ser galardoado com Nobel da Literatura foi a escritora afro-americana Toni Morrison em 1993 – logo, não será de desprezar, 14 anos depois, a atribuição do prémio a um autor proveniente da maior fábrica de prémios Nobel do globo, que na vertente da Literatura já deu à Suécia e ao mundo nomes como Faulkner (1949), Hemingway (1954), Steinbeck (1962) ou Bellow (1976), entre outros.
  2. Harold Pinter venceu em 2005 e com ele esgotou-se o stock de marxistas, descendentes do Pai García Marquez (1982) – com a mão a fugir para o bom gulag estalinista – que, nos últimos tempos, conveio laurear: Gordimer (1991), Dario Fo (1997), Saramago (1998) e Grass (1999).
  3. Salman Rushdie apresenta dois tipos de problema. Começando pelo mais simples, distam apenas dois anos desde a atribuição do Nobel ao último britânico, Harold Pinter – já sabemos que pczismo sueco é de pendor fundamentalista. Porém, o problema mais aborrecido e assaz complexo consiste numa certa falta de conteúdo no escroto – fui tão polido, dêmos graças ao Senhor – dos membros do júri da Academia para o Nobel da Literatura. Convém recordar que há precedentes. Em 1976, um nome foi prontamente retirado e substituído por outro (Bellow) em cima da data do anúncio. Sim, isso mesmo, deu-se com o eterno injustiçado – Nobel desde que nasceuJorge Luis Borges, porque aquele ladino, na altura com 77 anos, havia acabado de visitar o ditador chileno Augusto Pinochet e com ditaduras de direita a Academia não brinca, facto que foi agravado por um erro de interpretação das palavras de Borges, um cínico divertido, que inclusivamente motivaram que o insuspeito García Márquez viesse a terreiro em sua defesa.
  4. Achebe e Kadaré dispõem de uma forte probabilidade para vencer. Uma vez mais, e em primeiro lugar, devido ao pczismo e à diversidade cultural. Depois porque ambos foram os vencedores das duas primeiras edições do Man Booker International Prize, prémio bienal de carreira: Ismail Kadaré em 2005 e Chinua Achebe em 2007.
  5. António Lobo Antunes porque, apesar das últimas derivações no mínimo excêntricas, é de facto um grande escritor. E depois, não há nada neste mundo que, a concretizar-se, pudesse irritar mais o Saramago...
  6. Finalmente, um dos muitos casos de uma injustiça gritante: o eterno e inigualável Milan Kundera. Seguindo os critérios recentes da Academia dificilmente será galardoado: foi um dissidente do partido e do regime comunista checos, pró-soviéticos, havendo-se exilado em França, país onde actualmente habita e adquiriu a nacionalidade francesa. A sua não-nomeação tem contornos semelhantes ao caso de Mario Vargas Llosa.
Eis os 11 nomes para o dia 11, propostos por mim e que figurarão por ordem alfabética do apelido no topo da barra da direita, como objecto para um pequeno inquérito na blogosfera, que se irá manter em aberto para votação até às 8 horas da manhã do dia 11 de Outubro:



(Carregar na imagem para ampliar)

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Elucidação – (VnS III)

Ópera: representação de Werther de Jules Massenet; Turim, Itália
Chama-me à razão este texto do Jorge no seu Yesterday Man – e eu que pensava que ao meu não iria voltar… ironizava, pois.
O desmiolado Werther – no início apenas um defeito mental, ainda nem sequer sonhara que a língua poderia ter destas literalidades semânticas –, perdido de amores por Carlota, comprometidíssima com o estóico Alberto na imaginária Walheim, deu um tiro na cabeça porque não teve a real consciência de que se tratava de um lírico, ou melhor, um tipo maçador, peganhento, enfim, um carrapato vampírico sugador da felicidade alheia.
Porém, mais desmiolados foram os seus seguidores que, catapultados por um doidivanas, resolveram fazer do tiro aos miolos o desporto nacional. O próprio jovem – o avôJohann Wolfgang nunca previra tais resultados, levando-o mesmo, mais tarde, a ridicularizar e a depreciar o seu próprio livro, escrito quando ainda tinha 25 anos de idade e numa fase em que atravessava a desolação de uma paixão avassaladora, por uma tal de Carlota, tão típica dos arrebatados espíritos românticos de jovens adultos.
O tio Émile negou a relação causa e efeito imediato, embora, confrontado com o caso das mortes miméticas, tenha referido que tal sofrimento induzido por via literária poderia, eventualmente, precipitar, ou conduzir a uma triste conclusão, quem, à partida, possuísse o bicho wertheriano – leia-se suicida – lá bem dentro da pobre e dúctil mioleira.
Nem o tio foi tolo, nem tão-pouco o avô engendrou uma arma artesanal de destruição em massa – para isso, embora mais tarde e com efeitos menos devastadores, dispunha de Fausto e do seu contrato com Mefistófeles, cuja relação deu origem a um livro bem mais pesado e por isso mais contundente e letal.

Em suma, o título do meu texto,
A Explicação de Durkheim, era sucedido de um código entre parênteses: VnS. Ora, a abreviatura corresponde a Viagens no Scriptorium, o título do último romance de Paul Auster, publicado em Portugal há 15 dias pelas Edições Asa. Como sou um austeriano dos sete costados, fui (e vou) protelando a publicação da minha opinião pessoal sobre a sua última obra. Continuo à espera que o tempo me traga algum discernimento opinativo, não embotado pelo putativo fundamentalismo literário.
Assim, fui publicando uma série de textos casuais – este é apenas o terceiro –, cuja única relação é o próprio romance, recorrendo a artigos sobre ele publicados por esse mundo fora.
A Explicação de Durkheim pretendia ser um texto irónico, ridicularizando alguns dos críticos – principalmente alguns ingleses e norte-americanos – que tentaram destruir a obra recorrendo a argumentos estapafúrdios e, por vezes, a roçar o mais baixo insulto pessoal.
Quando escrevi o dito texto, tinha em mente duas recensões que, há um ano, após a publicação do romance no Reino Unido (Outubro de 2006), me deixaram à beira de um estado de fúria irreprimível. Refiro-me ao texto de Alfred Hickling no jornal The Guardian, e mais especificamente ao da tem-tudo-para-ser-uma-boa-de-uma-arrivista
Deborah Friedell no Times Literary Supplement, onde surgiu um curto e esplêndido comentário de réplica, escrito por um leitor nova-iorquino, sobre o qual me inspirei para chamar Durkheim à colação. Eis o texto do feliz comentário:

«I stopped reading Paul Auster years ago for reasons eloquently laid out above. I don't mind him, he can't hurt you if you don't read him, but good Lord his admirers. I can only be grateful to newspaper reviewers who stick with overrated, self-satisfied writers and read their every new book, just so they can alert us in case they reform themselves. Hats off, Deborah. You are the mirror image of the canary in the coal mine. I'll risk a trip back in if you perk up.»

A literatura não mata, mas por vezes mói. Mas… por outras, mói tanto que, como Pável Vassílievitch, há sempre um benfazejo pisa-papéis à mão… mas, os jurados absolveram-no [“Drama”, conto de Anton Tchékhov]. Foi uma boa causa...

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

The Twofer

Michiko KakutaniRoth já o havia confirmado, Nathan Zuckerman – para muitos o alter-ego do autor norte-americano – despede-se do público com Exist Ghost, o nono livro a contar com o atormentado personagem – décimo com a compilação Zuckerman Bound (1985) –, havendo intervindo em seis como protagonista (incluindo o mais recente) e nos restantes como narrador e personagem secundário.
Depois da valente zurzidela em Todo-o-Mundo (Everyman, 2006), que foi devidamente precedida por outras impiedosas recensões, com destaque para Teatro de Sabbath (Sabbath’s Theater, 1995), Michiko Kakutani, crítica literária residente do periódico
The New York Times, vencedora do Pulitzer para a Crítica em 1998 pela sua «escrita apaixonada e inteligente sobre livros e literatura contemporânea» [tradução AMC], aprova o último romance de Philip Roth – o que pode significar que, de facto, o achou uma maravilha, dada a sua embirração com o escritor de Newark e quejandos (já lá vamos…)
Em boa verdade, para a letrada nipo-americana nem tudo é mau com Roth. Kakutani sempre se confessou como admiradora incondicional da Trilogia Americana (do pós-guerra), com especial destaque para Pastoral Americana (American Pastoral, 1997) – curiosamente, o meu romance preferido, entre a dezena que tive a oportunidade de ler de Philip Roth.
Porém, a misoginia latente nas restantes obras do autor, a informal, solta e obscena linguagem usada – na minha óptica, um dos temperos que contribuem para a excepcionalidade do produto final rothiano –, acrescentando-se, segundo palavras da própria, a superficialidade ou lhaneza de algumas das suas últimas obras como Animal Moribundo (The Dying Animal, 2001) e de Todo-o-Mundo, deram-lhe o ensejo para desancar, através de uma prosa rebuscada, perifrástica e com grande intensidade adjectival, usando a sua página no The New York Times Book Review como veículo da sua verrina, um dos mitos vivos da literatura norte-americana, cuja obra será publicada na íntegra, e ainda em vida, na Library of America.
Mas Philip Roth não é a única presa nas garras do falcão desgrenhado de origem japonesa. Aliás, Kakutani é suficientemente conhecida pela sua acerba implicância com os escritores anglo-saxónicos, brancos e do sexo masculino, e quase todos pertencentes à mesma geração: Updike e Pynchon, para além do já ido pai Bellow, e, em especial, Norman Mailer, com quem já se envolveu em ferozes altercações, chegando ao ponto de este último se ter visto na obrigação de defender Roth, com o qual mantém uma animosidade surda, de origem bellowniana, quando Kakutani trucidou Teatro de Sabbath.
Em 2005, em entrevista à revista Rolling Stone, Mailer disse:
«Kakutani é uma mulher kamikaze. Ela despreza os escritores masculinos e brancos, e eu sou o seu alvo preferido […] Todavia, os editores do Times não a podem despedir. Eles têm medo dela. Com as leis de discriminação e por aí fora, bom, ela é uma “três em um”[1]… Asiática, feminista, e… ah, qual é a terceira? Bom… vamos antes chamá-la de “dois em um”[2]… Ela é um adereço, e, provavelmente, lá no fundo, ela sabe disso.» [tradução AMC]

Shame on you, Mr. Mailer. (O autor deste blogue a aderir ao p.c.)

Notas:
[1] Tradução aproximada para “Threefer”, uso mais correcto em “conjunto de três produtos pelo preço de um”.
[2] Tradução aproximada para “Twofer”, mais correcto “conjunto de dois produtos pelo preço de um”. Pode também utilizar-se para mencionar uma pessoa pertencente a dois grupos minoritários ou objecto de discriminação, beneficiária por duas vias de um sistema de quotas (cf. "
twofer." Dictionary.com Unabridged (v 1.1). Random House, Inc. 04 Oct. 2007. No caso Mailer referia-se à condição de “mulher asiática”.

Recomendação: Ler o artigo The Twilight of the Old Goats de autoria do jornalista, crítico literário e ensaísta D.T. Max, publicado em Maio de 1997 na revista digital Salon.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

«Porque muitos demónios tinham entrado nele…

António Lobo Antunes…e suplicavam-lhe que não os mandasse ir para o abismo.»
Lucas, 8: 30-31


Quarenta páginas de O meu nome é Legião para verificar que o Homem não tem emenda… ALA. Intervalo com Tchékhov. Mais um ou dois contos das sete colectâneas até agora publicadas pela Relógio D'Água.
Ainda faltam trezentas e quarenta… Desistir ou não desistir…
Já não é literatura, é um torturante jogo de paciência, um maçador labirinto, nada beckettiano e muito menos borgiano, que se repete indefinidamente, como um pesadelo diário, obstinado, recidivo, que nos esgota pela inescapável e retemperadora exsudação o último vestígio de água no organismo; uma longa e monótona travessia no deserto, sem miragens, sem que se vislumbre um simples indício de finalidade das emanações daquela mente, aparentemente torturada e supostamente proficiente e visionária.
Por onde anda o autor da inolvidável trilogia «Memória de Elefante – Os Cus de Judas – Conhecimento do Inferno»?

E depois temos uma daquelas frases, cujo teor altaneiro, impele à citação do
Eduardo Pitta e da rubrica de um jornal cujo nome já não me lembro: “Importa-se de repetir?”

«O Livro equaciona o problema do mal, como o título indica, manifestando nessa meninice irresponsável a indecidível culpa ou inocência, imputável ao vazio cultural e ao viver carenciado, que mescla consequências demoníacas numa aura de edénica ambiguidade.»
Maria Alzira Seixo (Coordenadora da Edição ne varietur), in JL, n.º 965, 26/09/2007, pág. 19.

«Saíram, pois, do homem, entraram nos porcos e a vara lançou-se do alto do precipício ao lago, e afogou-se.»
Lucas, 8: 33

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

E tudo permanece no seu lugar correcto

Faltam 10 dias para o lançamento do último trabalho da melhor banda do mundo em actividade*:


Via Susana Viegas (a quem surripiei a imagem), no blogue Auto-Retrato.

*Neste critério não cabem aquelas bandas que, apesar de se encontrarem em actividade, designadamente através de concertos e de digressões mundiais, já não publicam originais, limitando-se a rentabilizar um passado fabuloso. De momento, estou a pensar em duas: Pixies e Bauhaus.

Gotejamento literário

Em 2000, o actor norte-americano Ed Harris apresentava ao público o seu primeiro trabalho cinematográfico no campo da realização. Tratava-se de Pollock, filme baseado na volumosa obra literária de carácter biográfico Jackson Pollock: An American Saga, publicada originalmente em 1989 e escrita pela dupla Steven Naifeh e Gregory White Smith, que proporcionou a atribuição do Óscar para Melhor Actriz Secundária a Marcia Gay Harden na soberba interpretação do papel de Lee Krasner.
Em 2002, cumprindo, de certa forma, a tradição mimética e reprodutiva originada por qualquer obra cinematográfica de relativo sucesso em Hollywood – lembremo-nos do papel de Amadeus (1984) de Milos Forman na posterior febre informativa e indagativa que se acometeu do público pela obra e pelos aspectos biográficos de Mozart, ou, embora noutro registo, de O Silêncio dos Inocentes (1991), obra-prima de Jonathan Demme na profusão de filmes sobre os mais celerados psicopatas, cujas patologias advinham das mais estúrdias justificativas deformações mentais –, John Updike (n. 1932) publicava o romance Seek My Face, cujo intróito reza o seguinte:

«Este livro é uma obra de ficção […] No entanto, seria impossível negar que um grande número de pormenores procedem [sic] do admirável e exaustivo Jackson Pollock: An American Saga, de […] ou que algumas declarações dos meus artistas ficcionais estão estreitamente relacionadas com as recolhidas em Abstract Expressionism: Creators and Critics, uma esclarecedora antologia editada e apresentada por Clifford Ross». (pág. 5)

Dito isto, Updike abria a porta para uma arriscada e – dado o seu incontestável espírito inventivo – uma eventualmente profícua interpenetração da literatura ficcional ou romanesca nos domínios das artes plásticas, mais concretamente no território da Pintura do Expressionismo Abstracto norte-americano, com raízes e sede na Nova Iorque dos pós II Guerra Mundial, que viu Pollock como um dos seus expoentes máximos, ombreando, embora seguindo técnicas e uma estética distintas e obtendo obras finais profundamente idiossincráticas e identificáveis, com nomes como Mark Rothko, Willem De Kooning, Barnett Newman ou Adolph Gottlieb.
Procurai a Minha Face conta a história de uma pintora pré-octogenária, Hope Chafetz, ex-mulher do pintor Zack McCoy – aliás Jackson Pollock, logo Hope desempenha o papel de Lee Krasner – que refugiada no seu santuário idílico, o local da sua criação artística, numa localidade do Estado do Vermont, recebe, num dia de Abril, uma jovem jornalista nova-iorquina, Kathryn D’Angelo, para uma longa entrevista, que inesperadamente durará todo o dia.
No centro da narrativa, fortemente marcada pela tensão geracional e pelo choque conceptual das belas-artes entre entrevistadora e entrevistada, estão a solidão, o egotismo e a alienação profunda que marcam o artista no seu processo criativo e nas suas relações com o mundo, com um exterior que lhe parece hostil, sem capacidades de abstracção e de enlevação suficientes para conseguir compreender o fenómeno da manifestação artística e das suas emanações.
Como pano de fundo temos a evolução da Pintura no pós-guerra e a deslocação do seu eixo, do seu fulcro, da Europa, então destruída por seis anos de conflito, para os Estados Unidos, evoluindo do surrealismo, do expressionismo e da arte abstracta, esta última, epítome do grande criador Wassily Kandinsky, da primeira metade do século XX, para o expressionismo abstracto e mais tarde para a Pop Art – como resposta à primeira, tendo nos Estados Unidos como principais criadores Andy Warhol, Robert Rauschenberg, Jasper Jonhs e Roy Lichtenstein.
Hope, nascida em 1922 no seio de uma família Quaker na Pensilvânia, sintetiza esta evolução através das suas experiências no campo afectivo, ou melhor, subsumida nas suas relações amorosas, que culminaram em três casamentos – aqui um desvio em relação à figura histórica e real de Lee Krasner, viúva de Pollock, que depois da morte trágica deste, não voltou a casar para se dedicar, em exclusivo, à curadoria do espólio do marido.

Hope chega a Nova Iorque para frequentar a Women’s Art School da Cooper Union, onde estabelece uma primeira relação com Ruk, um russo, professor substituto, truculento e permanentemente ébrio, amigo de Hermann Hochmann – presumivelmente o pintor alemão, naturalizado americano, Hans Hofmann –, que passará a ser o seu mentor, quando esta, por convite do emérito professor, começa a frequentar as suas escolas em Nova Iorque e entrando, assim, de forma definitiva, em contacto com a realidade da artes plásticas e a nova corrente artística do expressionismo abstracto em plena fase de incubação.
Hope casa com Zack que morre de acidente de automóvel em 1956. Posteriormente conhece Guy Holloway – personagem ficcional que, através das obras referenciadas no romance, percebemos tratar-se de uma súmula das figuras mais conhecidas do movimento da Pop Art –, de quem tem três filhos e que funda o Hospice – curiosa referência à Factory de Warhol – onde aquele reúne os seus discípulos, supostamente entregues a práticas hedonistas como correia de transmissão para a profusão da arte aí produzida. Finalmente, conhece Jerry Chafetz, o seu último marido, negociante em arte e homem de Wall Street, com o qual Hope recomeça a pintar e vive finalmente em paz de espírito desde 1977 até à sua morte em 1986 por complicações renais.

«Cheguei à conclusão de que as pessoas que se dedicam às finanças são mais felizes do que as que se dedicam à arte. Não estão sempre preocupadas, podem descontrair-se sem ficar a cair de bêbedas. O Jerry jogava ténis, lia romances e até poesia, gostava de cozinhar, lia livros de cozinha, media as quantidades de todos os ingredientes com exactidão, enquanto o Guy só se importava com a comida se tinha de fazer um hambúrguer de gesso ou de pintar uma fila de bolos na montra de uma padaria. E o Zack, bem, o Zack teria caído em cima do fogão.» (pág. 221)

Jackson Pollock foi o grande mestre do Action Painting e da técnica de pintura de gotejamento (dripping painting). Com a tela colocada no chão do seu estúdio e usando normalmente tintas para fins industriais, Pollock arremessava-a directamente na tela, rodeando-a por todos os lados, deixando a tinta escorrer, criando pontos e linhas irregulares e aleatórias, como manifestações e representações do seu inconsciente – o apelo aos arquétipos de Jung.
John Updike arriscou. Tentou reproduzir com o seu romance a exuberância da história das artes plásticas americanas da segunda metade do século XX, reflectindo, como já referi, sobre a solidão, a loucura, o egoísmo dos mestres que a História reconheceu e os seus efeitos colaterais na esfera íntima e social daqueles que os rodeavam, e particularmente, na condição feminina – tema obsessivamente recorrente em Updike – e no quase instintivo processo de apagamento ou de secundarização das mulheres em favor do bem-estar e das carreiras dos homens que enxameiam as suas vidas de entrega, coragem e de estoicismo.
No entanto, se a espontaneidade e a criatividade são as marcas indeléveis da obra daqueles que procurou retratar, Updike, ao apoiar-se em e ao decalcar com a precisão de um copista a biografia supramencionada de Jackson Pollock, dando-se, apenas, ao trabalho de alterar os nomes – que neste caso é de todo desnecessário, dada a meia confissão intodutória da cópia e que se vai constatando através da leitura do romance –, que mesmo assim são perfeitamente identificáveis (curiosamente, a capa da edição portuguesa, reproduz o estúdio do pintor norte-americano), e nos testemunhos reais dos protagonistas do expressionismo abstracto compilados por Clifford Ross, coarctou a sua própria liberdade criativa, resultando num pastiche suficientemente preguiçoso e aborrecido, sem ritmo, que se prolonga, numa torturante modorra, por pouco mais de duas centenas e meia de páginas, apenas atenuada por algumas passagens descritivas e razoavelmente demonstrativas do puro génio literário a que o autor norte-americano nos habituou em obras anteriores e que vão fazendo dele um dos putativos candidatos ao Nobel da Literatura.

Classificação: *** (A Ler)

Referência bibliográfica:
John Updike, Procurai a Minha Face. Porto: Civilização, 1.ª edição, Agosto de 2007, 266 pp. (tradução de Carmo Romão; obra original: Seek My Face, 2002)


Nota: Para mais informação sobre a obra e a sua recepção no meio literário americano, ler as recensões arrasadoras de
John Banville e de Michiko Kakutani no The New York Times, e de Ron Charles no The Christian Science Monitor.

sábado, 29 de setembro de 2007

Acédia

O José Pacheco Pereira, com a coragem que se lhe reconhece – excluindo desse qualificativo o grau de acertamento de algumas das suas posições que, por vezes, carecem de alguma razoabilidade, veja-se o caso da necessária libertação do pró-nazi Mário Machado –, assegura que um «dos grandes e eficazes eleitores de Menezes foi a acedia», ou seja, a apatia, a prostração, o baixar de braços perante a virtude, que se julga inalcançável, e a assunção conformada da inevitabilidade do mal, com a consequente adaptabilidade ou uma coexistência perversa, nefasta aos valores morais e superiores interesses de uma sociedade.
Saindo do micro para o macrocosmos, não será a acédia uma das marcas distintivas da sociedade portuguesa dos nossos dias?
Acaso não somos nós, nas nossas relações institucionais, profissionais ou particulares, diariamente confrontados com a tristeza perante o bem e a feliz convivência com o mal – desde que este não afecte de imediato a nossa esfera privada –, tendo a consciência de que qualquer alerta perante esse ramerrame incubador e gerador da mediocridade nacional é, hoje em dia, o principal factor de exclusão, ou melhor de intensa segregação dos indivíduos no exercício das suas funções em qualquer cargo de poder ou em qualquer posição que envolva a tomada de decisões?
Sim, falo dos bens escassos da seriedade, honestidade, integridade, rectidão… querem mais sinónimos?
E é pelo simples facto de serem escassos e de já se encontrarem catalogados como em vias de extinção que a sua aquisição tem um preço que a maioria das bolsas não pode comprar… logo, a acédia, a resignação… o ingleses chamam-lhe numbness, quando sobre o vocábulo impende a significação ética, ou se quisermos, teológica na acepção de Tomás de Aquino.

Em 1995, Cavaco Silva enterrou o partido, que mais tarde poderia ter sido ressuscitado com Marcelo Rebelo de Sousa, quando este foi apunhalado pelos acediosos, e a partir de então, através da sua retórica bem remunerada e da sua repulsa – ou medo – pelo poder, se deixou vencer pela… acédia (ou acedia).

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Vida interior – (VnS II)

Em Espanha, na região autónoma do País Basco, decorre a 55.ª edição do Festival de Cinema de San Sebastián (ou, para os mais sensíveis, o Donostia Zinemaldia).
Paul Auster preside ao júri deste ano, composto por nomes como: o realizador britânico, de 39 anos, Peter Webber, dirigiu o terrífico Hannibal Rising e o premiado Rapariga com brinco de pérola; ou a actriz italiana Nicoletta Braschi, mais conhecida por ser mulher do pateta Roberto Benigni e haver protagonizado a grande maioria dos filmes que este dirigiu; ou ainda, a eterna promessa espanhola na área da interpretação cinematográfica, Eduardo Noriega.
No passado dia 23, em exibição fora do concurso, deu-se a estreia europeia do mais recente filme realizado por Paul Auster, co-produzido por Paulo Branco e rodado em 2006 numa casa de Sintra, The Inner Life of Martin Frost (na imagem, os protagonistas: David Thewlis e Irène Jacob).
A crítica internacional, e principalmente a espanhola, que assistiu à première – os americanos pronunciam-na “pri-meer” –, embora, à laia de preâmbulo, fosse inicialmente elogiosa, castigou Auster com a peroração de alguma lhaneza conceptual da obra, tomando como ponto de partida, ou em tom de justificação, a (de)formação e o talento eminentemente literários do autor norte-americano.
Eis um exemplo do que acabei de referir, pela pena de Ángel S. Harguindey, director-adjunto do diário espanhol
El País e crítico de cinema:

«Paul Auster é um dos mais brilhantes escritores contemporâneos. O seu talento literário está fora de questão. Outra coisa distinta é a sua vertente cinematográfica, uma ocupação que já não pode ser considerada como capricho pois o filme que apresentou ontem [23/09/2007], fora do concurso (Auster preside o júri do certame), é a sua terceira longa-metragem, depois de Blue in the Face (co-realizada com Wayne Wang) e Lulu on the bridge, para além de Smoke. A Vida Interior de Martin Frost narra uma história engenhosa sobre um escritor que decide descansar uns tempos numa casa longe do ruído do dia-a-dia, onde surge uma mulher estranha, que nos vamos apercebendo de que se trata da sua musa inspiradora e com a qual mantém uma enleante história de amor, tão plausível como fantástica. Os dois personagens e a casa são os protagonistas de um filme intimista, calmo, com diálogos divertidos e inteligentes, cuja ironia cresce quando aparecem dois personagens secundários: a bela filha de Auster e um admirável canalizador (Michael Imperioli, um dos protagonistas da série televisiva Os Sopranos) com vocação para autor de best-sellers. A questão chave é que Auster não domina a narração cinematográfica com a sabedoria que demonstra na Literatura, de tal modo que o filme conta uma história com estilo ingénuo e rudimentar.»
In El País, 24/09/2007 [tradução livre: AMC]

O guião de A Vida Interior de Martin Frost – cujo processo de escrita terminou em 1999 – apresenta algumas semelhanças com a obra mais metadiegética e borgiana de Auster, Viagens no Scriptorium, publicada em 2007, apesar de se basear num personagem ficcional dentro da ficção do romance O Livro das Ilusões (2002).
Na conferência de imprensa que se seguiu à exibição do filme, depois de algumas comparações que lhe foram feitas com Providence, filme de 1977 de Alain Resnais, ou com Swimming Pool, filme de 2003 do também francês François Ozon, Auster pronunciou-se sobre as críticas literária e cinematográfica, e referiu-se ao poder destruidor dos críticos quando movidos por um ódio apriorístico, centrados no autor e alheados da obra recenseada:
«Se, à partida, pretenderes odiar algo podes odiá-lo com a maior das facilidades, podes destruir qualquer obra mesmo que seja uma obra incrível… experimentem-no com uma obra de Shakespeare ou de Tolstói... é muito fácil.»
Depois citou uma frase de Siri Hustvedt, a sua mulher, escritora e crítica de arte, referindo-se à relação inevitável do artista e da sua obra com a crítica:

«A arte é como o sexo, se não se está relaxado não se consegue gozar.»

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Um problema de saúde oral

Jesualdo Ferreira

Definitivamente, este homem terá de aprender a lavar os dentes, começando por um programa intensivo de redefinição do próprio conceito.

É a consequência normal do excesso de placa bacteriana... mental.

Chegou a altura certa para a cobrança divina da protecção determinada no 3.º segredo: Fátima exige uma intervenção urgente do Papa.

terça-feira, 25 de setembro de 2007

15 de Novembro...

...é a data de estreia em Portugal de Control, de Anton Corbijn. Filme aclamado e premiado nos festivais de cinema de Cannes, Edimburgo e Melbourne sobre a vida e a obra do melhor de sempre: Ian Curtis (1956-1980).
Eis o trailer – som no máximo, por favor:

(She's lost control / Love will tear us apart / Atmosphere)
Longo arrepio? Um indescritível nó na garganta? Olhos marejados de lágrimas?
Bem-vindo ao clube.

A explicação de Durkheim (VnS – I)

«Como me sinto feliz por ter partido!»
J. W. Goethe, Werther


Cento e vinte e três anos depois, Émile (para os amigos) dissertava sobre o suicídio e o surpreendente efeito de contágio da acção do seu perpetrador à sociedade – a terrível constatação da prevalência de um fenómeno que, mesmo visto de forma isolada ou individualizada já se declarava como obscuro, agora excede o limite do individual mediante a exposição da sua forte carga mimética, adquirindo, em definitivo um carácter sociológico, ou seja, assumindo-o como uma enfermidade social.

Resta-nos perceber, recorrendo a Durkheim, o que terá levado o jovem Johann Wolfgang, com apenas 25 anos (1774), a proferir, prologando num percebido tom irónico apenas consentido pela liberdade literária, o seguinte aviso:

«E tu, ó alma sensível que sofres dos mesmos pesares: que o teu coração dolorido encontre alívio na descrição das mágoas que ele [Werther] sofreu e que este livro seja para ti um amigo, se, por impiedade da sorte, ou por tua própria culpa, te não for dado encontrar afeição mais real.»


Durkheim professava que o suicídio primitivo era, apenas, o detonador do acto do imitador, o catalisador da reacção, uma vez que a tendência de atentar contra a própria vida resultava de uma patologia preexistente, de uma predisposição, como o acordar de um gigante adormecido na nossa psique.

Antecipando em muito, e de forma mais rebuscada, o homicídio por meios audiovisuais invocado por António Oliveira em meados dos anos 90 do século XX, por ocasião da revelação do famoso “Caso Paula”, que envolveu a selecção nacional de futebol e uma empresa de serviços de aluguer de corpos femininos vivos, Goethe, ao publicar a obra referenciada, cometeu um acto quase-genocida, eventualmente doloso.

Tal é o poder da Literatura e dos seus celerados personagens, criados pela pena de um irresponsável, ou até, de um criminoso em larga escala.
Valha-nos o papel do crítico, profissional ou amador, para nos alertar para este flagelo oculto, dissimulado por essa coisa chamada arte.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Updike, de novo

A Civilização Editora prossegue a sua excelente empreitada na publicação das obras do escritor norte-americano John Updike – um dos meus preferidos.
Já disponível nas livrarias está o antepenúltimo romance do autor até à data: Procurai a Minha Face (Seek my Face, 2002).


«O meu coração pressente os teus dizeres:
“Procurai a minha face!”
É a tua face, senhor, que eu procuro
».

Salmo 27, 8 (epígrafe do romance, pág. 7, trad. Carmo Romão)


Nota: Depois da publicação do admirável e dilacerante Corre, Coelho no início deste ano (Rabbit, Run; 1960), espero que a editora portuense prossiga com a edição dos restantes três livros que compõem a tetralogia Harry “Rabbit” Angstrom, assim como a novela, à laia de epílogo, Rabbit Remembered, publicada em 2001 na colectânea de contos Licks of Love.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Estabilização dos fluidos

Terminou a contraditória excitação estival em busca do sossego pretendido – ou ainda perdura, naturalmente sem o apodo semântico de insensatez, disfarçada de idoneidade intelectual ou de uma vontade inaudita de retomar os afazeres que fui abandonando em razão da manutenção de alguma da minha sanidade mental.
Carreguei uma pilha de livros para três lugares distintos deste nosso lindo Portugal. Descansei, o que se pode traduzir por boas leituras. Levei comigo algumas novidades editoriais, porém, dediquei-me, quase em exclusivo, à leitura daqueles livros que teimavam em ganhar pó – e este, juro-vos, não se consegue rentabilizar pela simples inspiração – na minha imensa estante, de proporções quase límbicas, de obras em lista de espera.
Já aqui dei conta dos três primeiros, aos que agora acrescento quatro, cujo grau de satisfação percorreu de lés a lés o meu espectro classificativo.
Sucintas notas de prova, por ordem de leitura:

Antonio Skármeta, A Dança da Victoria (Lisboa: Dom Quixote, 1.ª edição, Março de 2007, 341 pp.) [tradução de José Colaço Barreiros; obra original: El baile de la Victoria, 2003]
Eis o último romance do laureado escritor chileno, nascido em Antofagasta em 1940, autor do romance mais que sobreavaliado O Carteiro de Pablo Neruda (Ardiente paciencia, 1985) – transposto para o cinema em 1994 pelo realizador indo-britânico Michael Radford.
A Dança de Victoria é um amontoado de clichés, de lirismos anacrónicos com cheiro a naftalina; diálogos fúteis e pueris, metáforas perfeitamente inacreditáveis, quase sempre risíveis pela absurdez, com um enredo de base que pede meças a uma qualquer novela mexicana, onde nem sequer falta um vendável fim semi-trágico, à laia da necessária sangria para salvar do pecado capital as personagens que ficam para contar a história.
De escrita (demasiado) fluida e simples, por vezes intervalada por curtas deambulações poéticas desconexas, e com uma base narrativa a apelar ao realismo mágico sul-americano dos seus inalcançáveis predecessores mais imediatos como García Márquez ou de Vargas Llosa – apelo que se fica por um zunir quase inaudível ao ouvido atento da qualidade literária –, a mediania grassa por toda a obra.
Eis um bom exemplo:
«Ao entrar na zona, o jovem não pôde impedir que dele transbordasse felicidade. Era como se um duche de pistões, semelhante ao que usam para pintar a carroçaria dos automóveis, lhe tivesse varrido o sarro que acumulava nas suas entranhas. Sentia-se limpo, leve, e ao dar-se conta de que estava prestes a fazer em plena rua uma cabriola de dança, compreendeu pela primeira vez aqueles heróis dos musicais de Hollywood que se punham a cantar ou a dançar quando entravam em êxtase.» (pág. 239)
Classificação: ** (Medíocre)

Halldór Laxness, Gente Independente (Lisboa: Cavalo de Ferro, 2.ª edição, Junho de 2007, 483 pp.) [tradução de Gudlaug Rún Margeirsdóttir; obra original: Sjálfstætt fólk, 1933-1935]
Halldór Kiljan Laxness (1902-1998), escritor islandês, vencedor do Nobel da Literatura em 1955 – um ano após Hemingway – escreveu Gente Independente em duas partes distintas (porém interligadas) entre os anos de 1932 e 1935, enquanto vagueava pela Europa.
Gente Independente é um épico sobre a Islândia e as suas insularidade e ruralidade, particularidades em profundo confronto com uma Europa capitalista, moderna, cujos sistemas político, económico, social e tecnológico se transmutaram em torno da produção massificada, naquela que ficaria conhecida como a segunda vaga da revolução industrial, iniciada em meados do século XIX – a acção decorre entre os primeiros anos do século XX e o final da I Guerra Mundial.
À narrativa não é alheia a simpatia do autor pela emergência do ideal socialista de Marx e Engels, que se ia corporizando na Rússia ex-czarista no pós-1917 – que mais tarde, na década de 50, foi objecto do mais veemente repúdio pelo autor, após a constatação in loco da tirania do regime soviético em nome de um ideal irrealizável –, como contraponto à crescente desumanização e à ruína do pequeno proprietário provocadas pela prevalência do capitalismo como o sistema económico.
A história centra-se na vida de um homem obstinado, rústico, tradicional – Bjartur das Casas de Verão – que, a dada altura da sua vida, tenta prosseguir o sonho de se tornar definitivamente independente dos senhores que o albergavam em troca da sua força de trabalho, num sistema tipicamente feudal na Islândia dos primórdios do século passado. Seguindo um enquadramento histórico exemplar, sucedem-se os episódios numas vezes carregados de um fundo cómico proporcionado pela perseverança cega de um personagem fascinante, bem estereotipado e ricamente trabalhado, noutras, porém, emergindo a crueza, a que o autor não se furta, de um sonho que se desfaz ou de uma vitória que se conquista à custa da vida daqueles que o rodeiam, correspondendo à materialização da ideia subjacente à obra de uma independência que jamais se alcança, perante a corrupção do poder e a perversidade de um sistema que, de forma ilusória, se vende e que, simultaneamente, se alimenta das esperanças dos mais fracos.
Gente Independente é um tratado sobre a Teoria Económica sob a forma de romance. Indispensável para compreender a génese do mundo, globalizado, como hoje o conhecemos.
Classificação: ***** (Muito Bom)


Lev Tolstói, A Sonata de Kreutzer (Lisboa: Relógio D’Água, 1.ª edição, Julho de 2007, 115 pp.) [tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra; obra original: Kreutzerova sonata, 1889]
O que dizer desta pequena maravilha da literatura mundial? Que palavras nos restam para classificar pouco mais de cem páginas de uma novela, onde se descobre que o dom inato de um homem, do mesmo autor, para contar histórias curtas irradia com o mesmo brilho, as mesmas intensidade e integridade relativamente àquele que se evidencia pela simples leitura dos seus imortais romances enciclopédicos?
Há muito que Tolstói passou a desempenhar a função de adjectivo, sinónimo de “excelência literária” ou de “grau dificilmente alcançável de perfeição literária” ou simplesmente de “obra-prima”.
Depois dos colossais Guerra e Paz (1869) e Anna Karénina (1877), A Sonata de Kreutzer surge na fase espiritual da vida de Tolstói, iniciada com a publicação de cariz autobiográfico A Minha Confissão (1882), e na sequência da publicação de uma outra obra-prima, A Morte de Ivan Ilitch (1886) frequentemente usada com termo de comparação com a primeira. Se em Ivan Ilitch, Tolstói reflecte sobre a iminência da morte como epifania para a ainda tão contemporânea solidão acompanhada e do egoísmo imanente à espécie humana, em A Sonata de Kreutzer o autor russo reflecte sobre o ciúme, a mulher e o sacramento do casamento, onde a morte surge como instrumento manipulável, reverberando a sua conturbada vida marital após a sua recente conversão: a assunção da razão da moral cristã como princípio de vida e norma de conduta, independente do Homem ou da Igreja – que considera dissoluta, e lhe valerá a pena de excomunhão.
O mais admirável em Tolstói, engenhosamente evidenciado nesta pequena obra-prima, é a sua destreza na manipulação dos personagens, a sua capacidade divina de tão depressa as evidenciar, elevando-as à condição de protagonistas, como num passe de mágica as fazer desaparecer e colocar em primeiro plano uma outra que nada mais é que a ideia central, a moral, se quisermos, da história que nos pretende contar.
Tolstói foi unanimemente considerado pelos seus contemporâneos (Proust, Joyce, Dostoievski, Flaubert, Turguéniev ou Tchékhov) como o génio da Literatura. Morreu sozinho e isolado em 1910 – em 1901 foi atribuído o primeiro Prémio Nobel da Literatura, galardoou o autor francês Sully Prudhomme...
Classificação: ****** (Obra-prima)

Norman Mailer, O Fantasma de Hitler (Lisboa: Dom Quixote, 1.ª edição, Agosto de 2007, 460 pp.) [tradução de Octávio Gameiro; obra original: The Castle in the Forest, 2007]
Com 84 anos, Norman Mailer publica a sua 46.ª obra, O Fantasma de Hitler, uma obra entre a ficção e o ensaio, tal como dezenas de obras da sua extensa bibliografia, que poderemos classificar como “não-ficção criativa”.
Desta vez a personagem é Adolf Hitler (1889-1945) e os primeiros anos da sua existência na sua Áustria natal – romance biográfico tal como Mailer havia feito anteriormente com Lee Harvey Oswald, Jesus Cristo, Pablo Picasso, ou a sua experiência de combate durante a II Guerra Mundial no seu livro, internacionalmente aclamado como a obra-prima, Os Nus e os Mortos (The Naked and the Dead, 1948).
O Fantasma de Hitler é uma história narrada por um personagem chamado Dieter – ou D. T., forma como pede aos leitores que o tratem – presumivelmente um pequeno demónio que mais tarde, a partir de 1938, se materializou como ex-oficial das SS de Heinrich Himmler, e agora, à distância de décadas, radicado nos Estados Unidos conta a história das suas inoculações malévolas ao jovem Adolf, sob a direcção do Mestre – supostamente Satanás – numa luta eterna, sem quartel, baseada na luta dos Dois Reinos descrita por Milton no seu Paraíso Perdido, pela conquista das almas com D. K. – abreviatura para Dummkopf, epíteto jocoso para Deus – e o seu exército de Bastões, como são apelidados os anjos:
«É capaz de ser por isso que o Maestro nos encoraja a falarmos de Deus como o D. K. (pelo menos a nós que trabalhamos em regiões onde se fala alemão. Na América, é o D. A. – dumb ass! Em Inglaterra, o B. F. – bloody fool! Para a França, A. S. – l’âme simple. Na Itália, G. C. – gran cornuto! Entre os espanhóis, G. P. – gran payaso.) […] Isto não quer dizer que consideremos Deus estúpido – isso nunca! […] O nosso uso da palavra Dummkopf advém, penso eu, do desejo do Maestro de nos desabituar da nossa maior fraqueza – a admiração relutante que sentimos pelo Omnipotente. Tal como o Maestro nos relembra constantemente. Deus pode ser Poderoso, mas não é Todo-Poderoso. Isso dificilmente. Nós, ao fim e ao cabo, também cá estamos. Se o D. K. é o Criador, nós somos os Seus críticos mais perspicazes e bem sucedidos.» (pág. 98)
Com este livro, Mailer dá-nos, partindo de factos verídicos recolhidos numa extensa bibliografia sobre Hitler, a visão romanceada da génese de um tirano, cuja subida ao poder em 1933, e o seu reinado de doze anos, mostrou ao mundo um dos maiores facínoras da História, responsável pela aniquilação de milhões de judeus e pela destruição de grande parte dos territórios europeus.
O pequeno Adi – diminutivo de Adolf – surge no seio de uma família cujas práticas ancestrais de incesto vão envenenando os genes das gerações vindouras. Para além de se sugerir que Alois – pai de Adolf – pode de facto ter sangue judeu – que não deixa de ser uma ironia do destino –, sabe-se, com toda a certeza, que Klara – mãe do jovem Hitler – é sobrinha do seu próprio marido, ou possivelmente filha – o estudo genealógico não conseguiu provar esta última tese.
Outro facto cómico surge no momento de concepção de Adolf. Segundo Mailer, Hitler terá sido concebido após um exercício prévio de sexo oral recíproco e simultâneo – prática sexual inovadora para o casal –, vulgo “69”:
«Klara virou-se dos pés para a cabeça, e pôs a sua parte mais indecorosa no nariz e na boca dele [Alois]
que respiravam com dificuldade, e levou o velho aríete dele aos lábios.» (pág. 72)
Após a excitação inicial o próprio Demónio participou no coito vaginal que se seguiu e:

«Assim como Anjo Gabriel foi o servo de Jeová numa noite solene em Nazaré, também eu estava lá com o Demónio nesta concepção nessa noite de Julho, nove meses e dez dias antes de Adolf Hitler ter nascido a 20 de Abril de 1889.
» (pág. 73)
Para além das práticas incestuosas, conhecidas à época como “mal de sangue” e de uma atracção inusitada pelos excrementos, há uma estranha alegoria que perpassa toda a narrativa: o simbolismo da apicultura. A organização escrupulosa, hierarquizada e funcionalmente irrepreensível das abelhas no seu meio, possivelmente usada mais tarde na estrutura de comando nazi.
A fluidez discursiva e a comicidade que o autor norte-americano apõe à sua extensa narrativa, são sem dúvida os pontos mais fortes de uma obra que parece ter sido abandonada a meio do percurso por falta de fôlego – aliás como Mailer recorrentemente alerta no decurso da obra, através das inúmeras reticências ou promessas de uma nova obra que vai deixando no texto.
O que pesará na minha singela avaliação? A destreza descritiva? Ou, sobretudo, parodiando, a lassidão e a inconsistência da profusão escatológica ao longo da obra?
Ao ler este romance de Mailer dominou-me um sentimento de fervorosa aquiescência com os encómios habitualmente a ele dirigidos pelo seu amigo – o mais famoso língua de prata da literatura norte-americana – Gore Vidal
Apesar de tudo:
Classificação: *** (A Ler)

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

A não perder...

...os 10 episódios da 4.ª temporada de Curb Your Enthusiasm (Calma Larry, em Portugal) em reposição na RTP2 durante esta semana (dois episódios por dia).


E tudo... for a fuckin' five iron!

sábado, 15 de setembro de 2007

Regresso antecipado… com novidades


Antecipado em dois dias o regresso em definitivo à minha mesa de trabalho, perfilam-se desde logo as novidades editoriais em Portugal no campo da literatura da, usualmente fértil, temporada outonal.
Eis duas das mais importantes novidades para quem gosta de literatura anglo-saxónica contemporânea, e ambas com a chancela das
Edições Asa:

  • Paul Auster com Viagens no Scriptorium (Travels in the Scriptorium, 2007; publicado há 235 dias nos Estados Unidos e há 345 dias no Reino Unido – contador R.E.P.);
  • Julian Barnes com Arthur & George (Arthur and George, 2005; finalista do Booker Prize em 2005 e do International IMPAC Dublin Literary Award em 2007; publicado há 800 dias no Reino Unido – contador R.E.P.)

Para breve, nas Publicações Dom Quixote, Zadie Smith com On Beauty, Jonathan Littell com Les Bienveillantes e o retomar da publicação das Obras Completas de Robert Musil, traduzidas por João Barrento, depois de As Perturbações do Pupilo Törless, surge A Portuguesa e outras Novelas, seguindo-se a obra-prima O Homem sem Qualidades, em três volumes.

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Ludicrous, They Say

Ludicrous (Ing.) = Lúdrico (Port.), que por metátese passou a Lúdicro:

«adjetivo
1. relativo a divertimento público; espetáculo
2. Derivação: por extensão de sentido. Uso: pejorativo.
maneira cômica, risível de se expor; merecedor de escárnio; ridículo»
Do lat. ludìcrus,a,um ‘dos jogos públicos, de jogo, de divertimento’»
in Dicionário Houaiss da língua portuguesa

Esta será a primeira vez – e provavelmente a última – que irei mencionar neste blogue o dito Caso Madeleine – classifico-o como grotesco desde o seu início…
E se só agora a ele me refiro, isso deve-se ao constatado efeito de enriquecimento da língua portuguesa ao possibilitar o alargamento do campo lexical no seu uso corrente. Veja-se o exemplo acima.
Ponto final.

Engrimanço ânglico? Veremos…

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Só mais um esforço, Ian

Ian McEwan
Acaba de ser anunciada a lista de finalistas do mais prestigiado prémio literário a galardoar uma obra de ficção em terras de Sua Majestade mais a Irlanda.
Falo, claro, do Man Booker Prize for Fiction.

O favorito para 2007 mantém-se na corrida: Ian McEwan com o seu arrasador Na Praia de Chesil (On Chesil Beach), romance que foi publicado simultaneamente em Portugal (Gradiva) e no Reino Unido (Jonathan Cape).

Eis os seis finalistas – três das obras já se encontram editadas em Portugal:

  • Darkmans, de Nicola Barker;
  • The Gathering, de Anne Enright;
  • O Fundamentalista Relutante, de Mohsin Hamid, Civilização (The Reluctant Fundamentalist);
  • Mr. Pip, de Lloyd Jones, Estampa (Mister Pip);
  • Na Praia de Chesil, de Ian McEwan, Gradiva (On Chesil Beach);
  • Animal’s People, de Indra Sinha.

McEwan venceu, merecidamente, o Booker Prize em 1998 com o seu romance Amesterdão e foi finalista vencido em mais três ocasiões: em 1981 com a obra Estranha Sedução (The Comfort of Strangers, adaptado ao cinema por Harold Pinter num filme de 1990 do realizador norte-americano Paul Schrader); em 1992 com o fabuloso romance Cães Pretos (Black Dogs); e em 2001 com Expiação (Atonement, romance adaptado este ano ao grande ecrã pelo dramaturgo e argumentista luso-britânico Christopher Hampton – responsável, entre outras, pela adaptação ao cinema da obra de Choderlos de Laclos, Ligações Perigosas, magistralmente dirigido por Stephen Frears –, realizado pelo inglês, meu coetâneo, Joe Wright). Expiação é, no meu entender, a obra-prima de McEwan e uma das melhores obras da literatura britânica contemporânea.

Se McEwan vencer o Booker de 2007, juntar-se-á ao grupo restrito de escritores que desde 1969 – data de fundação do prémio – o venceram por duas vezes:

  • J. M. Coetzee, com A Vida e o Tempo de Michael K (Life & Times of Michael K) em 1983 e Desgraça (Disgrace) em 1999;
  • Peter Carey, com Oscar e Lucinda (Oscar and Lucinda) em 1988 e A Verdadeira História de Ned Kelly (True Story of Kelly Gang) em 2001.

Mudar a (de) vida

«Na verdade, partindo da interpretação que faço do desafio lançado pelo manuel, os livros que não mudaram a nossa vida são aqueles que nos defraudaram nas expectativas sobre eles criadas. Quanto aos outros, pura e simplesmente nos esquecemos deles.»

Este é um excerto de um texto interpretativo escrito pelo Henrique no seu Insónia, e com ele anulou-se, por conformidade absoluta, a necessidade por mim sentida de elaboração de um exórdio sobre o mais recente, e incandescente, assunto da blogosfera: o já célebre desafio do manuel a. domingos, os «10 Livros que Não Mudaram a Minha Vida».
No limite, reduzindo o assunto aos píncaros do risível, poderia afirmar que não houve livro que não tivesse mudado a minha vida. Com todos gastei tempo, com a esmagadora maioria fiquei financeiramente mais pobre – excluindo o valor actual do bem (livro) e da avaliação do seu valor intangível através da sua julgada qualidade literária, que compensem o seu valor de aquisição –, com todos houve, se quisermos, um custo de oportunidade, enquadrável na macroteoria do célebre trade-off trabalho/lazer, da qual resulta a noção de felicidade plena, alcançável por uma combinação óptima dos factores. A beleza da coisa advém da infinitude de combinações óptimas, normal e tristemente subsumidas na agregação dos óptimos individuais num óptimo social, normalmente gerado e controlado por uma elite – e por aqui concluo, aproximar-me-ia perigosamente de Pareto e dos seus princípio e equilíbrio e teria, então, de entrar na inevitabilidade da abordagem da massificação cultural e da entropia social…

De regresso ao tema…
Quando J. Peder Zane convidou 125 escritores para se pronunciarem sobre os seus dez livros preferidos, o resultado final não surpreendeu, respeitou-se o cânone literário da cultura ocidental: 1.º Tolstoi – Anna Karénina; 2.º Flaubert – Madame Bovary; 3.º Tolstoi – Guerra e Paz; 4.º Nabokov – Lolita; 5.º M. Twain – As Aventuras de Huckleberry Finn; 6.º Shakespeare – Hamlet; 7.º F. Scott Fitzgerald – O Grande Gatsby; 8.º Proust – Em Busca do Tempo Perdido (obra completa); 9.º Tchékhov – Contos; 10.º George Eliot – Middlemarch.
Simultaneamente, o autor do livro convidou os cibernautas a postarem as suas preferências. O resultado – livros mais citados – foi: 1.º Tolstoi – Anna Karénina; 2.º F. Scott Fitzgerald – O Grande Gatsby; 3.º Nabokov – Lolita; 4.º Dostoievski – Crime e Castigo; 5.º Harper Lee – Por favor, não matem a cotovia; 6.º Lee K. Abbott – All Things, All at Once; 7.º Tolstoi – Guerra e Paz e Joyce – Ulisses; 9.º Vonnegut – Matadouro 5; 10.º Dostoievski – Os Irmãos Karamazov.
Descubra as diferenças.
Venceu o cânone. Embora, verdade seja dita, a essa escolha jamais seria aposta qualquer tipo de objecção ou enunciada como objecto de execração e de chacota, se essa informe, impura e torpe mole humana, lida nos grandes números numa tabela de totais, houvesse cometido a ousadia de o derrogar. Plebeísmos… que horror!
Porém, o Francisco e o Eduardo são escritores – que diabo! –, a doxa literária, sempre tão atenta e pronta para a vozearia, rebelou-se de imediato. Confunde-se destreza literária com enlevação estética, reconhecimento da valia de uma obra com o grau de inebriamento por ela induzido. Em suma, mistura-se cientificidade com gosto pessoal.
Da cientificidade pouco tenho a dizer, não tenho formação que me permita avaliá-la. No que diz respeito ao gosto pessoal são-me permitidos o debate livre e a eventual dissonância, jamais a condenação.
Antes de terminar, chamo de novo a atenção para a série de ensaios dialogantes do Luís Mourão, sob o título de "Os que não mudaram" – um exercício elegante e prodigioso de discussão literária.

Por fim, seguindo o espírito e não a letra do desafio do Manuel, indicarei as obras de dez autores que quase idolatro, cujo título correspondente foi a excepção no elevadíssimo grau de encantamento que me instigou o conjunto da obra:

  • Bret Easton EllisLunar Park (Lunar Park, 2005);
  • Don DeLilloO Corpo Enquanto Arte (The Body Artist, 2001);
  • Enrique Vila-MatasDoutor Pasavento (Doctor Pasavento, 2005);
  • Ian McEwanO Inocente (The Innocent, 1990);
  • John UpdikeO Terrorista (The Terrorist, 2006);
  • Paul AusterA Noite do Oráculo (The Oracle Night, 2003);
  • Salman RushdieShalimar, O Palhaço (Shalimar, The Clown; 2005);
  • Saul BellowRavelstein (Ravelstein, 2000);
  • Vladimir NabokovRiso na Escuridão (Kamera Obskura, 1938);
  • W. G. SebaldAusterlitz (Austerlitz, 2001).

Nota – ainda está para aparecer um título de Philip Roth

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Ao intervalo

De novo na casa de partida, mas com alguns dos haveres de viandante ainda emalados – já para nem falar dos deveres… isso é outra história.
Com uma interrupção pelo meio, são já vinte e cinco os dias sem blogosfera, preparando-me para ampliar a marca para os trinta e cinco – tantos como os anos percorridos naquele processo, ou estigma insanável, o delicado continuum, designado por envelhecimento… envelhecer, em toda a sua radiosa intransitividade, por justaposição ao comezinho e tão luso vamos vivendo, rindo e chorando neste vale de lágrimas (ah, que bela manifestação da minha tendência schopenhaueriana!).
Pois, entre idas e vindas, há uma sede que tem de ser saciada...
Esperam-me as vindimas e a insubstituível peregrinação anual à terra que, ufana dos seus socalcos resvaladiços e xistosos, somente se fez achar pelo trabalho árduo e pela vontade férrea das suas gentes. Outrora do seu fruto dizia-se que dava o pão a um milhão de portugueses. Porém, hoje, a cupidez de uns e a grave negligência de outros, esfarelaram-no numas míseras migalhas a repartir pela mesma gente que da teimosia fez coragem.
Nem de propósito, cem anos, Torga, nome da urze que com a esteva odorizam a terra que te viu nascer: Um poema geológico. A beleza absoluta.

Nota: o meu mui estimado manuel a. domingos lançou um repto em cadeia à blogosfera, que fez jus à sua condição exponencial. Multiplicaram-se as listas, as reacções, as pró-acções – esta tinha de surgir, a célebre locução de contraponto estético-linguístico do jovem empreendedor, normalmente iletrado – e até considerações epistemológicas.
Tentarei abordar o assunto antes de partir. Todavia, por razões diversas, deixo aqui três pequenos apontamentos:

  1. O Francisco, meu correligionário clubista, filho da região supracitada e um dos meus bloggers preferidos, conseguiu, com a sua lista, acertar em três dos meus livros de eleição;
  2. O Luís segue a bom ritmo a demonstração da impossibilidade epistemológica do exercício, através de um delicioso diálogo com a sua leitora, cujo infinito particular tive a oportunidade de tanger;
  3. O Eduardo, para o leitor atento aos seus escritos, não deixou de dar a sua (justa) ferroada ao mais que incensado Austerlitz de Sebald.

Voltarei ao assunto.