quarta-feira, 11 de julho de 2007

A Caneta de Astronauta

Um dos melhores episódios de toda a série Seinfeld é, sem dúvida, “The Pen”, o 5.º episódio da 3.ª temporada.

Jerry e Elaine (Julia Louis-Dreyfus) deslocam-se à Florida para fazer mergulho, ficando a dormir no apartamento dos Seinfeld – pais de Jerry.
Um dos condóminos, Jack, amigo do pai, Morty Seinfeld, faz a demonstração das potencialidades de uma “caneta de astronauta”. Perante o fascínio de Jerry, Jack oferece-lhe a caneta. Porém, mais tarde, por insistência da sua mulher, dá o dado por não dado e exigi-lhe a caneta de volta. Morty fica terrivelmente irritado...
Por essa altura, irá realizar-se a sessão de encerramento do período em que Morty presidiu à administração do condomínio…
Entretanto, Elaine padece de uma horrível dor de costas devido ao desconforto do sofá-cama onde dormiu em casa dos Seinfeld, e não só não acompanha Jerry à sessão de mergulho, como também toma um relaxante muscular que a deixa completamente desvairada.
Jerry, por seu turno, a caminho da sessão de mergulho sofre um acidente e fica com um olho negro. Solução para poder presenciar a sessão de encerramento: um par de óculos escuros.

Eis a cena final, que, ainda hoje, apesar de a haver visto por umas cerca de 134 vezes, me vai deixando à beira das lágrimas…
Mote: Marlon Brando é Stanley Kowalski em Um Eléctrico Chamado Desejo (peça de Tennessee Williams, 1947 / filme de Elia Kazan, 1951):

terça-feira, 10 de julho de 2007

Exposição - Pedro Vieira

Inauguração da Exposição de Pedro Vieira.
[evento cancelado, ver motivos aqui]

Brilhante cartoonista/ilustrador/designer, blogger que muito estimo.

(Para mais detalhes, carregar na imagem para ampliar.)


Liquidação Total

A FC Porto, Futebol SAD em época de saldos:

Pepe

Quem se seguirá?
Quaresma? Lucho? Bosingwa? Os três em simultâneo com rapel e desconto de 5% em caso de pronto pagamento?

Agora, V. Exas., senhores administradores bem remunerados, não se esqueçam de me enviar mais uma carta com a mensagem cada vez mais enganadora: “O Seu Lugar no Palco das Emoções”.

O cúmulo da desfaçatez: pedir 450 euros pelo meu antigo lugar anual para lutar pelas posições que dão acesso às competições europeias!

segunda-feira, 9 de julho de 2007

Hofmannsthal

Se fosse alemão, austríaco, suíço de cantão alemão ou até brasileiro gaúcho de origem alemã, ter tamanho apelido seria certamente uma privilégio, cujo sufixo gutural ganha especial proeminência.

Hugo Laurenz August Hofmann (1874-1929), Hugo von Hofmannsthal, poeta, dramaturgo, libretista e ensaísta austríaco, ficou conhecido pela sua poesia e peças de forte pendor lírico, e ficará indelevelmente ligado ao Festival de Salzburgo, que reabilitou após a I Guerra Mundial conjuntamente com outras eminências da época, como o director do Teatro de Salzburgo Max Reinhardt, o cenógrafo Alfred Roller, o maestro Franz Schalk e o compositor Richard Strauss, de quem se tornou grande amigo, havendo escrito seis libretos para óperas do compositor alemão:
  • Electra (Elektra, 1903 [estreia em ópera: 1909]);
  • O Cavaleiro da Rosa (Der Rosenkavalier, 1911);
  • Ariana em Naxos (Ariadne auf Naxos, 1912 [versão revista em 1916]);
  • A Mulher sem Sombra (Die Frau ohne Schatten, 1913 [estreia em ópera: 1919]);
  • A Helena Egípcia (Die Ägyptische Helena, 1928);
  • Arabella (1929, [estreia em ópera:1933]).

Das restantes obras destacam-se, entre outras, as suas primeiras deambulações pela poesia lírica, como por exemplo a peça dramática em verso A Morte de Ticiano (1892), passando, mais tarde, a dedicar-se numa quase exclusividade à dramaturgia, área onde se sentia mais apto para desenvolver as suas pulsões estéticas, manifestando no seu famoso ensaio ficcional Carta de Lord Chandos (Ein Brief, 1902), redigida a 22 de Agosto de 1603 pelo distinto Philip (Lord Chandos), filho mais novo do Conde de Bath, ao filósofo e político Francis Bacon (1561-1626), em tom de elegia pelo abandono prematuro das artes literárias, pela sentida insuficiência da linguagem como meio de expressão do mundo. Destacam-se, ademais, obras como a adaptação para teatro da obra moral inglesa Everyman do século XV, Todo-o-Mundo (Jedermann, 1911)*, peça que iria marcar durante anos consecutivos o Festival de Salzburgo, apresentada pela primeira vez em 1920; e, por exemplo, A Torre (1925).

Andreas é uma obra ficcional em prosa que, segundo a contracapa da edição da Relógio D’Água, começou por ser imaginada pelo próprio autor em 1905, conforme uma entrada no seu diário, com o objectivo de este estabelecer uma reconciliação com a sua infância – o título original completo na nossa língua seria Andreas ou a Reconciliação. Todavia, por ironia do destino, Andreas é uma obra inacabada e apenas foi publicada postumamente, em 1932, dada a morte inopinada e fulminante do seu autor a 15 de Julho de 1929 – contava 55 anos –, vítima de um ataque cardíaco, ao que se supõe motivado pelo terrível desgosto que o ensombrou quando, dois dias antes, o seu filho mais novo, Franz, se suicidou.
A novela inacabada de Hofmannsthal narra um curto período da vida de Andreas von Ferschengelder, um mancebo austríaco de 22 anos pertencente à baixa nobreza vienense, que deixa, em Setembro de 1778, a sua terra natal rumo a Veneza, numa viagem financiada pelos pais, para que aquele, imbuído do seu inebriamento diletante, pudesse conhecer o mundo através do contacto com outros povos e culturas, e realidades distintas.
«O seu pai ficaria muito satisfeito por saber isso, estava sempre muito interessado em tomar conhecimento das particularidades e curiosidades de outros países e de outros costumes.» (pp. 14-15)
No entanto, a sua estadia em Veneza é desde logo marcada pela inquietação, quando o barqueiro que o trouxe deixa as suas malas estendidas numa escada de pedra no cais de desembarque e o jovem Andreas se vê completamente isolado, à seis da madrugada e sem alguém a quem recorrer:
«Lindo serviço! (…) Isto está a ficar bonito… deixar-me aqui sem mais nem menos. Carruagem, em Veneza não há, que eu bem sei. Moço de fretes? Que poderia ele andar a fazer por estas bandas, num recanto ermo como este, um verdadeiro cu de judas? (…) Entretanto, rasgando o silêncio da manhã ouviram-se passos apressados que ressoavam nítidos nas lajes da rua (…) de uma ruela surgiu, por fim, um vulto mascarado (…)» (pág. 7)
Andreas aborda o homem mascarado e, de súbito, percebe que, debaixo da capa de dominó, este apenas envergava uma camisa para além de uns sapatos sem fivela e umas meias enroladas que deixavam entrever a barriga das pernas.
Na abertura da novela prenuncia-se a mundanização de uma alma até então pura, a perda da inocência, o desmoronar de toda a credulidade que cegava o bom selvagem, a conquista da experiência de vida que, inevitavelmente, se faz por tentativas e erros, pela dor ou pelo sofrimento infundidos por actos malsucedidos ou fracassados.

Sem as profundidade e capacidade encantatória de romances ou novelas similares de autores seus contemporâneos de língua alemã, lembrando-me de, também seu compatriota, Robert Musil (1880-1942) e o seu Törless, Robert Walser (1878-1956) e o seu Jakob von Gunten, ou mesmo de Thomas Mann (1875-1955) e o seu Tonio Kröger, Andreas, apesar de na versão portuguesa se estender por apenas noventa páginas, não é uma obra de leitura fácil, dado o emaranhado de pormenores, porquanto uma leitura desatenta obrigará certamente a um generoso retrocesso nas páginas, e até pelo forte teor simbólico que Hofmannsthal lhe quis atribuir.

Apenas uma última nota para a tradução: sofrível. Para além da utilização abusiva, por todo o livro, do pleonasmo, normalmente decorrente do seu uso abundante na oralidade, “ anos atrás”, fica um erro, bastante comum nos tempos que correm, mas que me irrita particularmente: «Ia desfolhando o livro vagarosamente…» (pág. 31) Só a imagem que sobrevém à minha mente de um livro a ser despojado das suas folhas, já é motivo de irritação. No meu entender e apesar do seu uso frequente como palavras sinónimas, “folhear” é assaz diferente de “desfolhar”, mas deixo isso aos linguistas.

Classificação: **** (Bom)

Referência bibliográfica:
Hugo von Hofmannsthal, Andreas. Lisboa: Relógio D’Água, 1.ª edição, Abril de 2007, 90 pp. (tradução de Leopoldina Almeida; obra original: Andreas oder die Vereinigten, 1932).


*A propósito do último romance do escritor norte-americano Philip Roth, Everyman, editado este ano entre nós pelas Publicações Dom Quixote, de realçar que Jedermann de Hugo von Hofmannsthal já se encontrava editado em Portugal, pelo menos no ano de 1986, sob a chancela da Estante, com tradução de João Barrento.

domingo, 8 de julho de 2007

Correntes

Como há pouco mais de dois meses expliquei aqui, normalmente não encadeio as inúmeras cadeias que percorrem a blogosfera. No entanto, desta vez, dado o convite do Sérgio e da Mónica para nomear os últimos cincos livros que passaram, de forma mais aprofundada, pelos meus olhos, não irei negar o convite que me foi dirigido, não só devido ao assunto desta corrente, que como sabeis me é muito caro, mas também, e sobretudo, como uma forma de evidenciar o remorso que se apoderou de mim quando não dei sequência à corrente blogosférica anterior.

Os meus últimos cinco livros (algumas leituras facilmente comprováveis pela exibição da minha apreciação, se publicados em 2007):

  • As Não-Metamorfoses, de Alexandre Andrade (Errata, 2004);
  • Sangue Sábio, de Flannery O’Connor (Cavalo de Ferro, 2007);
  • Experiência, de Martin Amis (Teorema, 2002);
  • Andreas, de Hugo von Hofmannsthal (Relógio D’Água, 2007);
  • Em Busca do Carneiro Selvagem, Haruki Murakami (Casa das Letras, 2007).

Estou a ler:

  • Diário, de Chuck Palahniuk (Casa das Letras, 2007);
  • God Is Not Great: How Religion Poisons Everything, de Christopher Hitchens (Twelve, 2007).

A reler:

  • Traições, de Philip Roth (Bertrand, 1991).

Para minha expiação passo a palavra ao Paulo Kellerman, ao André Benjamim, à Fátima Pinto Ferreira, ao Carlos Araújo Alves e, já agora, às minhas estimadas Misses Woody & Allen, pela glosa na anterior cadeia.

sábado, 7 de julho de 2007

Momento Solnado

E dizes tu que não conversas com Ele – ou ele, ou ela (versão Maria Belo).
Andava eu a escrever qualquer coisa sobre umas declarações escritas, mefistofélicas, ateístas, antiteístas, porém rutilantes e piadéticas por CHRISTopher HITCHens, palavras apenas não publicadas por algum pudor provindo de moderada lembrança (anamnese) educacional… desculpa pai (bem grafado, para que se entenda).

Pronto, confesso, não li tudo. Alguma sovinice disfarçada de enorme indignação pelos 22,46 euros – e porque não posso passar o dia a fumar cigarro atrás de cigarro, pela minha saúde, no Fórum Fnac – quando o livro custa 14,99 dólares (11,03 euros ao fixing cambial de ontem).

Afinal, falaste com a John Nash, Jr. lusa mas-com-cérebro-
homérico!?

Nota: amanhã, talvez – momento Doce da noite – postarei o último quinteto. É que estou com o Palahniuk na mão… é peganhento.

Bendita interactividade! Acabo de constatar que estás de PARABÉNS. Um abraço.

Porra, e não é que toda a gente, neste círculo íntimo, é mais nova que eu!

Interpol

Em Slow Hands (na versão ao vivo abaixo), do álbum Antics de 2004, a voz de Paul Banks segue os passos do deus Ian, se bem que num registo menos baixo e não tão cavo.
Atentem nos acordes arrancados da guitarra principal por Daniel Kessler, isolem-nos… a típica harmonia, etérea, feérica, de Joey Santiago.
Sam Fogarino é Stephen Morris… Basta que se recordem de 24 Hour Party People – filme de 2002 realizado por Michael Winterbottom –, quando o estouvado Martin Hannett despacha Morris para o exterior do estúdio para que este aperfeiçoe a sua técnica na bateria, tocando-a horas a fio.
Momento do curto solo de baixo (dos 2’05’’ aos 2’12’’) temos Carlos D. no papel do magistral Peter Hook – tanto do seu som é Joy Division.

Com reminiscências (influências) assim, eis os melhores newcomers da actualidade (banda fundada em 1998, a tocar a sério desde o Verão de 2002):



Nota: a versão original de Slow Hands tem mais som de Boston do que de Manchester

quinta-feira, 5 de julho de 2007

Dan Brown dos intelectuais...

Houve já quem lhe tivesse chamado “o Dan Brown dos intelectuais”. Outros ainda deixaram de o ler quando verificaram que Kafka à Beira-Mar – o terceiro livro do autor a ser publicado em Portugal – se manteve, durante um tempo considerável, em posição cimeira nos tops de vendas de livros no nosso país, como se popularidade fosse sinónimo de mau gosto, de iliteracia e implicasse, desde logo, a menor qualidade do produto vendido.
Falo, é claro, do autor japonês, nascido em 1949 na cidade de Quioto, Haruki Murakami, a propósito da leitura recente do seu romance Em Busca do Carneiro Selvagem, originalmente publicado em 1982 no Japão – título em inglês: A Wild Sheep Chase.
O que há em Murakami? (utilizando para o efeito esta oração interrogativa própria, e tão típica, do coloquialismo de habla castellana).
Imaginação fértil, fantasia, e um conjunto personagens vulgares cujas vidas se conglomeram no quotidiano anódino e cinzento de uma sociedade tipicamente edificada na inexorabilidade dos padrões e ritmo de vida ocidentais.
Toda a prosa ficcional de Murakami parte da premissa da possibilidade de uma catarse, libertadora das trevas que agrilhoam o indivíduo a uma rotina dilacerante, posta em prática pela imaginação criadora da raça humana, ou melhor, possibilitada pelo seu dom único e exclusivo de sonhar. E o resultado é uma alegoria onde o transcendental, o divino, e o material e o mundano se entrecruzam num estranho jogo de símbolos levado aos limites do absurdo. Neste aspecto Murakami parece saber explorar todas a potencialidades do ilógico ou paradoxal, transversal ao enredo puramente hitchcockiano, ou melhor criado pelo Mestre dos mestres da sétima arte, onde nem sequer estranhamos, ou façamos disso a pedra basilar da nossa íntima avaliação do produto final, que para se perpetrar um homicídio se recorra, por exemplo, como em Intriga Internacional (North by Northwest, 1959), a uma avioneta agrícola de pulverização de colheitas para aniquilar o pobre Cary Grant numa estrada deserta, onde um simples tiro causaria menos espalhafato.
O absurdo é a matéria-prima do processo de construção plástica de Haruki Murakami, trazendo ao quadro final uma miscelânea de tons garridos que forma um todo harmonioso. Minimizar estas capacidades – entenda-se depreciar o autor sem que se alcance ou entenda o desenvolvimento do seu processo criativo – é pura desonestidade intelectual. O que é bem diferente da simples avaliação positiva ou negativa – ou até neutra – de acordo com o gosto eminentemente pessoal de cada leitor.

Com personagens poucos trabalhados e que por vezes parecem surgir do nada, com metáforas em certas ocasiões pueris e com um ritmo narrativo a dois tempos, umas vezes acelerado, outras vezes fastidiosamente lento, o terceiro romance da carreira literária de Haruki Murkami, Em Busca do Carneiro Selvagem – último da trilogia de O Rato –, revela-se como um produto final atabalhoado e pouco consistente; esteve longe de se aproximar das minhas exigências estético-literárias, perfeitamente alcançadas com romances como Norwegian Wood (1987, ed. port. 2004) ou Crónica do Pássaro de Corda (The Wind-Up Bird Chronicle, 1995; ed. port. 2006). Situá-lo-ia ao nível do desapontante Kafka à Beira-Mar (Kafka on the Shore, 2002; ed. port. 2006) e um pouco abaixo de Sputnik Meu Amor (Sputnik Sweetheart, 1999; ed. port. 2005).

Classificação: *** (A Ler)

Referência bibliográfica:
Haruki Murakami, Em Busca do Carneiro Selvagem
. Cruz Quebrada: Casa das Letras, 1.ª edição, Abril de 2007, 369 pp. (tradução de Maria João Lourenço; obra original: Hitsuji o meguru bōken, 1982).

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Opiniões Fortes

Vladimir NabokovHá 30 anos, no dia 2 de Julho de 1977, morria no Palace Hotel de Montreux, Suíça, o escritor russo Vladimir Vladimirovich Nabokov (n. 22 de Abril de 1899), vítima de uma infecção viral.

Em jeito de homenagem, deixo aqui ficar algumas das Opiniões Fortes*, ordenadas aleatoriamente, quase sempre carregadas da empáfia e da verrina que lhe eram típicas, de um dos maiores escritores de todos os tempos.

Sobre Freud [o seu alvo predilecto] e de o haver chamado de doutor-bruxo:
«(…) detesto não um mas quatro doutores: Dr. Freud, o Dr. Jivago, o Dr. Schweitzer e o Dr. Castro. É claro, o primeiro ganha a palma, como dizem os ajudantes na sala de dissecação. Não faço tenções de sonhar as ordinarices dos sonhos da classe média dum velho ranzinza austríaco de guarda-chuva roto. Sugiro também que a fé freudiana conduz a consequências éticas perigosas, como quando um asqueroso assassino com o cérebro de uma ténia recebe uma sentença mais leve porque a mãe lhe bateu de mais ou de menos… dá para os dois lados. A gritaria freudiana parece-me tanto uma farsa como o gigantone de madeira polida com um buraco polido no meio que não representa nada a não ser a face alvar de um filisteu a quem disseram que se trata duma grande escultura produzida pelo maior homem das cavernas vivo.» (BBC 2, 1968)

Sobre escritores contemporâneos da sua preferência:
«Tenho alguns favoritos… por exemplo, Robbe-Grillet e Borges. Como se respira livre e reconhecidamente nos maravilhosos labirintos de ambos! Gosto da sua lucidez de pensamento, da pureza e da poesia, da miragem no espelho.» (Playboy, 1964)

Sobre O Duplo de Dostoievski:
«O Duplo de Dostoevskii [sic] é a sua melhor obra, embora seja uma imitação evidente e sem vergonha do “Nariz” de Gogol (…)» (Wisconsin Studies in Contemporary Literature, 1967)

Sobre o uso da expressão “génio” para qualificar escritores:
«A palavra “génio” circula bastante generosamente (…) Pelo menos em inglês, porque a sua contrapartida russa, geniy, é um termo carregadíssimo de uma espécie de respeito gutural e só se usa com um número muito pequeno de escritores, Shakespeare, Milton, Tolstoi. Com autores profundamente amados, como Turgenev [Ivan Turguéniev] e Tchekhov, os russos utilizam o termo mais magro, talant, talento, e não génio (…) ainda me sinto horrorizado ao ver a palavra “génio” aplicada a qualquer contador de histórias importante, como Maupassant ou Maugham. Génio continua a significar para mim, no meu enfado e orgulho de russos na frase, um dom raro, ofuscante, o génio de James Joyce, e não o talento de Henry James.» (BBC 2, 1969)

Sobre a frequente comparação da sua escrita com Borges e Beckett, por alguns críticos:
«Oh, sei perfeitamente quem são esses comentadores: espíritos lentos, dactilógrafos apressados! Fariam melhor se ligassem Beckett a Maeterlinck e Borges a Anatole France. Poderia ser mais instrutivo do que dar à língua sobre um estranho.» (Vogue, 1969)

Sobre a literatura americana pós-1945:
«(…) raramente existem simultaneamente numa determinada geração mais do que dois ou três escritores verdadeiramente de primeira ordem. Penso que Salinger e Updike são de longe os artistas mais finos dos anos mais recentes. O falso best-seller sexy, o romance ordinário, violento, o tratamento novelístico de problemas sociais ou políticos, e, em geral, os romances constituídos principalmente por diálogo ou comentário social, esses estão banidos terminantemente da minha mesinha-de-cabeceira. E a mistura popular de pornografia e trapaça idealista dá-me absolutamente vómitos.» (TV 13 NY, 1965)

E para terminar em beleza, à pergunta «Qual é a sua posição no mundo das letras?», respondeu:
«É linda a vista aqui de cima.» (The New York Times Book Review, 1972)

Todas as citações foram retiradas de:
Vladimir Nabokov, Opiniões Fortes. Lisboa: Assírio & Alvim, 1.ª edição, Maio de 2005, 377 pp. (tradução de Carlos Leite; obra original: Strong Opinions, 1973).

Experiência

Saul BellowQuando há doze anos comecei a dar aulas – hoje, a despeito da eventual mutabilidade opinativa provocada pela envolvente, intuo haver-se tratado do maior erro da minha vida – tudo aquilo que não pretendia ser, em razão até de um resultado longamente depurado da minha observação desde a franja exterior mais próxima do mundo académico, era tornar-me num reles assistente pedante e obsequioso, radicado num lamaçal até à cintura, movendo-me, num rigoroso tropismo, pela luz cintilante de tão eruditas cabeças pensantes, que mais não faziam que descarregar o seu recalcamento bilioso por, outrora, haverem sido reles assistentes. Porquanto, visto de fora, existia todo um processo de sucessão dinástica – profundamente endogâmica, mas essa é outra história – e que se me afigurava como uma transmissão em cadeia de sadismos, cuja origem não descortino, mas que se distingue pela marca lusa do pequeno e medíocre autocrata que habita o nosso corpo – daí a imparável reprodução de sósias de Margarida Moreira, Rui Rio e Correia de Campos, para apenas nomear os casos mais recentes e à vista do insuperável poder mediático.
Apesar da ufana certeza de esplendor intelectual que geralmente se imbui do espírito de um jovem adulto que vai entrar na vida activa, estulto e ignaro da necessária e permanente interacção social e comunicacional como forma de aprendizagem, tentei, desde o início, combater esse apetite de pavoneamento que, bem medidas as consequências, mais tarde ou mais cedo, nos cobrirá de vergonha pela encenação eminentemente burlesca de antanho. Tentei, e deixei passar sobre mim o rolo compressor... era o ruivo em terra de corruptos das mais variegadas magnitudes.
Por tudo isso e por acreditar na desmemória lacunar da generalidade das pessoas que connosco se envolvem, creio que a sinceridade humilde que tento apor nos meus actos quotidianos revela-se de um masoquismo atroz, são actos manifestamente suicidários. E o que se torna mais grave é que, assumida essa condição, só vos peço que nunca exijais de mim as virtudes da arrogância, da sobranceria e da histrionia, boas – são virtudes! – para sobreviver nesta selva, porém absolutamente discrepantes dos meus carácter e feitio.

E isto a propósito da Experiência de Martin Amis – um livro de memórias absolutamente notável –, quando aquele fala de uma conferência sobre Saul Bellow em Haifa, em Israel, realizada no princípio do ano de 1987, onde interveio, e que contou com a presença do próprio escritor americano, Nobel da Literatura em 1976:

«Sem comer e mal vestido, viajei para um edifício universitário que parecia um abrigo anti-bomba com muitos andares e ouvi uma série de académicos americanos perorar sobre coisas como “A Caixa Registadora Engaiolada: Tensões entre Existencialismo e Materialismo em Dangling Man”. Saul estava presente. Ouviram-no dizer que, se tivesse que aturar muito mais daquilo, morreria, não de mágoa*, mas de inanição. Depois não se encontrou muitas vezes Saul Bellow no Centro de Conferências Saul Bellow.» (pág. 229)
*Referência ao seu próprio romance, publicado nesse ano, Morrem Mais de Mágoa (ed. port. Livros do Brasil, 1990; ed. original More Die of Heartbreak, 1987) [Nota minha]

Na nota de rodapé que Amis apôs a esta passagem, pode ler-se:
«Na altura pensei que ele estava apenas envergonhado (e, claro, entediado). Mas a sua dor não era somente pessoal “As universidades”, como observa num texto de 1975 (“Uma questão de Alma”, publicado em It All Adds Up) “falharam dolorosamente. Privam a literatura de toda a agitação e entusiasmo, produzindo o bacharel [licenciado (nota minha)] capaz de dizer, ou que se pensa capaz, o que simboliza o arpão de Ahab ou que símbolos cristãos há em uma Luz em Agosto.” Melville e Faulkner sentir-se-iam atormentados com tais observações, tal como Bellow se sentiu, naquela manhã em Haifa» (pág. 229)

Martin Amis, Experiência. Lisboa: Teorema, 1.ª edição, Outubro de 2002, 444 pp. (tradução de Telma Costa; obra original: Experience, 2000).

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Ameaça Gay

William BurroughsSeria um momento verdadeiramente divertido se não fosse trágico pelo apedeutismo modelar da espécie e a RTP Memória para nos recordar alguns dos momentos potencialmente candidatos a tesourinho deprimente™.

Uma comédia em três actos: o programa Jet 7, Margarida Mercês de Melo e…
Um modelo profissional chamado Nicola, a quem perguntaram, depois de uma tarde bem passada em convívio com uma turba de iguais numa praia deste país – lembrei-me agora de um óbice na formulação da teoria, a putativa insolação poderia servir de justificativo –, quais os eventuais riscos a que estavam expostos os modelos profissionais.
Nicola respondeu, de rosto severo, evidenciando não só a pertinência da pergunta que lhe foi colocada – Eh pá, agora é assunto sério! –, como também a necessidade de assumir as funções de um decano moralista para os jovens e futuros candidatos:

Resposta [cito de memória]: As drogas e a homossexualidade são os grandes perigos da carreira de modelo…

[aditamento aqui da casa] …e brincadeiras à Guilherme Tell. [imagem: o autor de Junkie e Queer, conta a história da (in)feliz pontaria em Naked Lunch].

Premio Príncipe de Asturias de las Letras 2007

Amos Oz Amos Oz
(n. 1939)

Segundo fontes bem informadas, o escritor israelita derrotou os, aparentemente, bem posicionados romancistas e ensaístas Martin Amis e Haruki Murakami, ambos nascidos em 1949, assim como o poeta espanhol Antonio Gamoneda (n. 1931).

שָׁלוֹם


Notas:
  1. O vencedor na categoria "Artes" em 2007 foi Bob Dylan;
  2. O vencedor do Prémio Príncipe das Astúrias das Letras em 2006 foi Paul Auster;
  3. Se este blogue não houvesse adquirido a condição de blogue de texto abreviado – resolução tomada, e bem reflectida, para não lhe colocar um fim imediato, e vamos lá ver quanto tempo assim se mantém – discorreria sobre os escritores que o venceram em anos anteriores e sobre uma curiosa reflexão de Amis sobre os prémios literários no seu livro de memórias Experiência (Experience: A Memoir, 2000) – ainda volto ao 12-step program.

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Coisas que te fascinavam (III)

A Tua revista de culto, com aqueles que admiravas: Vasco Pulido Valente e, sobretudo, Miguel Esteves Cardoso, para além dos textos de Agustina.
Assinei a revista. Tinha dezoito anos e tu apenas quinze e – lembras-te? –, na tua pueril impertinência, conseguias levar-me ao desespero se, no dia em que ela chegava à caixa de correio, não te desse pelo menos uma hora de leitura – que rica arma para quando nos zangávamos…
Lembras-te da crónica do MEC no n.º 10? Era aquela sobre o prurido jornalístico em nomear marcas de produtos e serviços.
Lembras-te do quadro com as marcas perfiladas por ordem alfabética, com um “obrigado” em cada apartado?
Até veio um “obrigado” à Doc Martens, orgulhosamente, e para grande desgosto dos nossos pais, os meus sapatos favoritos.


«Na crónica que se segue fazem-se referências a várias marcas e serviços. São as marcas e os serviços a quem devo grande parte da alegria da minha vida. São muitas. Não sei se isto é ou não publicidade. Sei é que estou a dizer a verdade.
As referências que farei às marcas e aos serviços a quem estou grato não foram pagas nem encomendadas nem sugeridas. Menciono-as por gratidão. Devo-lhes muito. Mais do que paguei por elas. Nalguns casos, estaria disposto a pagar uma pequena quantia em dinheiro pelo prazer de mencioná-las.
Obrigado, sim? Não sou um filisteu. Nenhum produto me trouxe o que me trouxeram os livros de Beckett ou da Agustina ou do João Miguel Fernandes Jorge. Mas também não sou parvo. Há muitos escritores de quem eu gosto que contribuíram menos para a minha felicidade (Gide, Chandler, Camilo) do que certos produtos como, por exemplo, o Volkswagen 1200, o Lexotan, o whisky Jamesons ou a Polaroid SX-70. Trocaria o usufruto vitalício de qualquer destas coisas pela impossibilidade de ler quaisquer daquelas obras. É horrível, não é? Mas é verdade. E eu tenho de dizer a verdade, mesmo que fique mal visto.
O dever do jornalista é dizer o que sabe. No caso do colunista, o que acha. Para mim não há diferença entre dizer bem de um filme e dizer bem de um sabonete. Se posso opinar que vale a pena ver o Rivette mais recente porque não poderei opinar que o Pears é um excelente sabonete e que vale a pena tomar banho nele? É publicidade? Para o Rivette também é preciso gastar dinheiro e beneficiar certas empresas para vê-lo, mas ninguém diz que é publicidade.
Porquê? Porque é arte? Esqueçamos o problema da definição, que só por si complicava as coisas. Finjamos que sabemos o que a arte é. Sendo assim sei que a Lídia Jorge é escritora e escreve romances que fazem parte da nossa literatura. Sei também que tem os seus admiradores. Eu não gosto, mas admito que tenha mau gosto. Sou é forçado a dizer esta verdade: que tenho muito mais respeito pela empresa que produz o leite Vigor. Aliás, para ser sincero, tenho mais respeito e acho que fazem mais falta à nossa sociedade os iogurtes Danone (de que gosto pouco) do que toda a obra literária e jornalística da Lídia Jorge.
O que interessa na vida não é distinguir o que é artístico do que é comercial, nem o que é jornalístico do que é publicitário e a razão não é por cada vez se confundirem mais. O que interessa é procurar distinguir o que é bom do que é mau e o que é verdade do que é mentira. O facto de ser impossível saber estas coisas com certeza não torna o objectivo menos nobre.
Já se sabe que tudo depende de tudo e que cada um tem a sua opinião mas, mesmo assim, há verdades mais verdadeiras que outras. É verdade, por exemplo, que os vinhos da Casa Ferreirinha são melhores que os vinhos da Camillo Alves. É verdade que Jorge Luis Borges escrevia melhor que Ferreira de Castro. É verdade que a comida para gatos da marca Whiskas é, segundo a opinião dos meus dois gatos, melhor do que a comida da Felix. É também verdade que um bom carpinteiro vale mais que um mau advogado, um bom contabilista mais que um matemático medíocre e um bom pintor de tabuletas mais que um péssimo poeta. Ou seja: não é por aquilo que as coisas calham ser (filmes ou marcas de jeans, profissões artísticas ou comerciais, notícias ou opiniões) que são mais ou menos susceptíveis de terem valor.
Como restaurante o Beira-Mar, em Cascais, é melhor do que o restaurante Muchaxo no Guincho. Isto é verdade. Mas também é verdade que, como restaurante português, o Beira-Mar tem, na minha opinião, um papel mais importante na nossa cultura que os romances da Lídia Jorge. (Peço desculpa a esta escritora pela insistência – não é alguém com quem eu embirre especialmente). Na minha opinião, seria pior que se perdesse a maneira de fritar os filetes de pescada que são servidos no Beira-Mar do que se se perdesse a maneira de escrever da Lídia Jorge.
Acho obsceno que eu possa dizer, como jornalista, que o professor Cavaco Silva é o melhor primeiro-ministro deste século, mas não possa dizer que a melhor manteiga portuguesa é a Atlântida. Acho obsceno que me seja permitido meter o nariz na política do governo irlandês, sem saber nada acerca do assunto, mas que me seja vedado recomendar o whisky irlandês Tullamore Dew que se vende no duty-free de Dublin e de Londres, acerca do qual sei até mais do que devia saber.
Acho obsceno que os jornalistas se pronunciem livremente sobre a política, que tem consequências fundamentais para a nossa vida comum, mas que se coíbam de confessar aos leitores se preferem o serviço da Avis ou da Hertz. Quando vejo, por exemplo, o espaço e a atenção que se tem dedicado ao PRD ao longo dos últimos anos, pergunto se não teria sido mais proveitoso e honesto aproveitar para publicitar o Hotel do Buçaco, ou o restaurante Pedro dos Leitões ou a Água do Luso? Há milhares de excelentes instituições portuguesas, de carácter comercial ou não, que não só não têm dinheiro para comprar publicidade, como podem morrer sem ela. São editoras, sapatarias simpáticas, fabricantes de bagaço, costureiras, tipografias, tascas, explorações agrícolas, industriais de calçado, companhias de táxis, lojas de segunda mão, viveiros de marisco… e não acaba.
No entanto se eu, como jornalista, me limitasse a publicitar as marcas e empresas pobres também estaria a faltar à verdade. E as ricas? Quero lá saber se a Lacoste gasta milhões de francos em publicidade todos os anos. Fabricam óptimas camisas de ténis. Como camisas são tão boas como o licor de ginja de Alcobaça fabricado por David Lopes que não tem muito dinheiro para gastar em publicidade. Tanto um como o outro merecem o meu apoio. Igualmente.
O dever do jornalista é dizer o que julga saber. Se, por pruridos anticomerciais, não revela aos seus leitores que achou excelente um acontecimento qualquer, está a exercer sobre si mesmo uma espécie de censura. O mal da censura é sempre o mesmo – uma vez que se aceita a sua existência é-se obrigado a discutir onde começa e onde acaba.
Sobre as grandes causas fala à vontade, quantas vezes com sobranceria e ignorância. Mas não é capaz de confessar que gosta de Chiclets. Promove políticos que vêm a mandar na nossa vida sem pensar duas vezes no que está a fazer, mas recusa-se a promover uma marca de pastilha elástica, que não afecta a nossa vida em quase nada.
Este pudor anticomercial é uma forma de censura. Não poder falar em marcas é um atentado à liberdade de expressão.
Pensar que essa liberdade convida à corrupção é irrelevante. Os mentirosos hão-de ser sempre mentirosos e os corruptos hão-de sempre ser corruptos. São os jornalistas que mentem e manipulam a informação política que são perigosos. Não são os que dizem bem (e justamente) do supermercado Euromarché.
O mundo é muito grande e tudo faz parte dele. Parece um truísmo, mas é um tabu. Não se pode falar de muitas coisas. Esse silêncio acaba por dar maior poder à publicidade. Se é verdade que uma grande campanha consegue (temporariamente!) impor, por exemplo, um iogurte merdoso, levando os consumidores a comprá-lo em vez de iogurtes melhores, esse efeito deletério deve-se sobretudo à censura anticomercial que reina no jornalismo. Os jornais que seriam capazes de assistir à falência de bons fabricantes de iogurtes, para não lhes fazerem publicidade gratuita, ao mesmo tempo que recebiam o dinheiro pago pelo fabricante merdoso, estariam a cometer uma imoralidade. Calando-se, faltariam à verdade. É como se se vendessem.
Quem diz a verdade nunca se vende. A ideia de eu me vender ao whisky Macallan, sobre o qual escrevi um artigo para a K é de morrer a rir. É de rir porque nunca me passaria pela cabeça dizer senão bem do Macallan porque o Macallan é mesmo um bom whisky de malte. Mas é de morrer a rir porque comete a suprema arrogância de julgar que um jornalista como eu é superior, como jornalista e apreciador de whiskies, ao Macallan como fabricante! Nem a Macallan precisa de me comprar nem eu sou ninguém, como entendedor do assunto, para ser sequer tido ou achado. Quem sou eu, o mero Miguel, para estar a pronunciar-me sobre um tão esplêndido whisky?
Seria o mesmo dizer que as motas da BMW são muito boas, ou que os jeans da da Levis duram que se fartam ou que a Água das Pedras é boa para as ressacas ou que os isqueiros Zippo nunca falham ou que a Leica fabrica boas máquinas fotográficas. Ao dizer estas verdades banais não só sinto que não me estou a vender como tenho a vergonha de me perguntar «Mas quem sou eu para estar a felicitar a Leica?» Quando se diz a verdade não custa tanto ver o valor do que se está a dizer. Os jornalistas estão convencidos que as empresas querem «comprá-los» e porque são – simplesmente – uns convencidos.
Se a Lee me pagasse 10 mil contos para escrever um anúncio explicando que eram melhores que a Levis seria capaz de aceitar, porque é muito dinheiro. Mas ficaria cheio de vergonha de mim mesmo. E não aceitaria nem 100 mil contos da Old Chap!
As marcas que alistei tornaram a minha vida mais fácil de suportar. Recomendo-as absolutamente. Não fiz a lista para provocar. Fi-la para agradecer. O mundo é um sítio complicado e nem sempre é simples determinar, por exemplo, se foi maior a influência na literatura norte-americana do escritor Scott Fitzgerald ou do bourbon Jack Daniels. Não gosto nem de um nem de outro, mas tenho de respeitá-los (e, ainda por cima, acho que foi mais importante o Jack Daniels). Também considero que a própria garrafa é mais significativa e rica, como ícone dos EUA, do que qualquer das pinturas de Larry Rivers ou de Robert Motherwell.
É tudo muito mais difícil do que se pensa. Seria bom, seria, um mundo arrumadinho e subdividido como existe no cérebro dos jornalistas bons e bem-intencionados como é o caso do Miguel Sousa Tavares. É por haver regras do que se pode e não pode dizer que é mais fácil falar. Reduzem-no à insignificância da nossa medida. Se não posso mencinar bebidas alcoólicas ou recomendar medicamentos que só podem ser vendidos com receita médica, por não ser deontológico (quanto mais mencionar as duas ao mesmo tempo), já não preciso de pensar se devo ou não correr o risco de dizer que misturar um Lexotan de 3 miligramas com um gin-tónico Bombay Sapphire com Schweppes provoca uma grande sensação de bem-estar.
Esta frase é totalmente irresponsável. Sei lá se há algum maluco que me está a ler e que decide experimentar e depois acaba no hospital. Mas é verdade. Se torno pública esta informação perigosa e irresponsável é porque já a transmiti a todas as pessoas que conheço e julgo sinceramente que é útil. Vindo de quem vem, vale o que vale: quase nada. Desde que os leitores tenham a inteligência de me reduzir à minha insignificância, porque é que não hei-de dizer aquilo que penso? Os comentadores públicos que se coíbem e censuram, que medem as palavras, que meditam nas consequências do que dizem, que têm a pretensão de serem pedagógicos faltam à verdade e faltam-nos ao respeito.»
Miguel Esteves Cardoso, “O Arco da Velha: A Resposta”. In: revista K, n.º 10, Julho de 1991, pp. 97-99.

Coisas que te fascinavam (II)

Chronos, especialmente estes, para quem a inexorabilidade do tempo era a maior ameaça.

Coisas que te fascinavam (I)

Pois, assevero agora, de nada me vale a pungente e lamuriosa rememoração pela Tua ausência.
Acordei com a viva certeza de que a melhor homenagem que te podia prestar seria dar-te, por esta provável via etérea de perpetuação do meu estado espírito, aquilo que te empolgava e arrebatava do torpor que a azáfama do teu rigorosíssimo zelo profissional apunha nos teus momentos de lazer.

Um dia, lembras-te, trouxe-te uma fotobiografia de James Newell Osterberg de uma livraria de Santiago de Compostela.
Era o Natal de 1995 e ainda me lembro da tua alegria chispante de miúdo de 20 anos pelos pequenos nadas do tamanho do mundo… a vida toda pela frente.

(Não era, de longe, tal como no meu caso, das tuas preferidas, mas o epíteto fica-te tão bem.)


Pela Tua vida breve

…um pequeno tributo por outra voz.

Too proud to die, broken and blind he died
The darkest way, and did not turn away,
A cold kind man brave in his narrow pride

On that darkest day. Oh, forever may
He lie lightly, at last, on the last, crossed
Hill, under the grass, in love, and there grow

Young among the long flocks, and never lie lost
Or still all the numberless days of his death, though
Above all he longed for his mother's breast

Which was rest and dust, and in the kind ground
The darkest justice of death, blind and unblessed.
Let him find no rest but be fathered and found,

I prayed in the crouching room, by his blind bed,
In the muted house, one minute before
Noon, and night, and light. The rivers of the dead

Veined his poor hand I held, and I saw
Through his unseeing eyes to the roots of the sea.
[An old tormented man three-quarters blind,

I am not too proud to cry that He and he
Will never never go out of my mind.
All his bones crying, and poor in all but pain,

Being innocent, he dreaded that he died
Hating his God, but what he was was plain:
An old kind man brave in his burning pride.

The sticks of the house were his; his books he owned.
Even as a baby he had never cried;
Nor did he now, save to his secret wound.

Out of his eyes I saw the last light glide.
Here among the light of the lording sky
An old blind man is with me where I go

Walking in the meadows of his son's eye
On whom a world of ills came down like snow.
He cried as he died, fearing at last the spheres'

Last sound, the world going out without a breath:
Too proud to cry, too frail to check the tears,
And caught between two nights, blindness and death.

O deepest wound of all that he should die
On that darkest day. Oh, he could hide
The tears out of his eyes, too proud to cry.

Until I die he will not leave my side.]

Dylan Thomas (1914-1953), Elegy (1953)

terça-feira, 26 de junho de 2007

Dois escritores e as suas escolhas

12.º Passo: o despertar espiritual, lev(ar)ei estes passos aos conhecimento dos outros.
(FIM)


Memórias de um homem das finanças empresariais (enquanto jovem) amante da Literatura... pois, não o foram.

«O mais do que isto/ É Jesus Cristo,/ Que não sabia nada de finanças/ Nem consta que tivesse biblioteca...» Fernando Pessoa


Termino justamente no dia anterior ao que completarias 32 anos.

Foi para ti e pelos livros que devoravas, meu querido T. (1975-2002).

Eis os livros da vida de dois dos meu autores favoritos: Paul Auster e John Banville (com a respectiva editora se editados e traduzidos em Portugal).

Paul Auster (n. 1947, Newark, NJ, Estados Unidos)

  1. O Engenhoso Fidalgo D. Quixote de la Mancha – Miguel de Cervantes (Relógio D’Água)
  2. Guerra e Paz – Lev Tolstoi (Presença)
  3. Moby-Dick – Herman Melville (Relógio D’Água)
  4. Crime e Castigo – Fiodor Dostoievski (Presença)
  5. Em Busca do Tempo Perdido – Marcel Proust (Relógio D’Água)
  6. Ulisses – James Joyce (Livros do Brasil)
  7. A Letra Encarnada – Nathaniel Hawthorne (Assírio & Alvim)
  8. O Castelo – Franz Kafka (Relógio D’Água)
  9. Molloy / Malone está a morrer / O Inominável (trilogia francesa) – Samuel Beckett (Relógio D’Água / Dom Quixote / Assírio & Alvim)
  10. A Vida e Opiniões de Tristram Shandy – Laurence Sterne (Antígona)

John Banville (n. 1945, Wexford, Irlanda)

  1. Mal Visto Mal Dito – Samuel Beckett (Quasi)
  2. Cadernos do Subterrâneo – Fiodor Dostoievski (Assírio & Alvim)
  3. Ulisses – James Joyce (Livros do Brasil)
  4. Doutor Fausto – Thomas Mann (Dom Quixote)
  5. Moby-Dick – Herman Melville (Relógio D’Água)
  6. Lolita – Vladimir Nabokov (Teorema)
  7. Austerlitz – W.G. Sebald (Teorema)
  8. La neige était sale – Georges Simenon (Sangue na Neve [edição brasileira, Nova Fronteira])
  9. Viagens de Gulliver – Jonathan Swift (Livraria Sá da Costa)
  10. A Feira das Vaidades – W.M. Thackeray (Europa-América)

segunda-feira, 25 de junho de 2007

No se puede vivir sin amar

11.º Passo: oração e meditação para consumar uma vontade inaudita de desprendimento.
(seguindo os passos até ao São João... + 2 d.)

Um dos livros da minha vida:


«Mas ali nada havia: nem cimos, nem vida, nem subidas. Nem aquele cume era afinal bem um cume; não possuía matéria, nem base firme. Além disso, o que quer que fosse que o sustentava começava a desintegrar-se, enquanto ele próprio ia caindo, caindo para dentro do vulcão; contudo devia ter conseguido subi-lo antes, pois agora rugia-lhe aos ouvidos o som obcecante da lava; tratava-se de uma erupção terrível e, contudo, não era o vulcão; era o próprio mundo que explodia, explodia, com negros jactos de aldeias catapultadas no espaço, com ele próprio a cair por entre tudo aquilo, por entre o pandemónio inconcebível de um milhão de tanques, por entre o imenso braseiro de dez milhões de corpos a arder, caindo, caindo, numa floresta...» (Malcolm Lowry, Debaixo do Vulcão, Livros do Brasil; tradução de Virgínia Motta)

domingo, 24 de junho de 2007

Romantismo

10.º Passo: prossegue o inventário pessoal, admitindo com convicção os nossos erros.
(seguindo os passos até ao São João... + 2 d.)




Poderia começar por dizer que todos os romances felizes são parecidos, cada romance infeliz é infeliz à sua maneira. Poderia, ademais, para ser mais preciso, trocar o substantivo “romance” pela forma elíptica adjectivada “clássico”, se bem que tivesse de acrescentar a locução adjectiva “menos conseguido”. E, por último, transmudar a célebre asserção tolstoiana das “famílias” para os “romances”, para além de encerrar uma arteirice discursiva, jamais se poderá comparar uma “família”, essa unidade social basilar na evolução do homem, com um “romance”, uma mera invenção de uma mente, normalmente, perturbada…

Recomeço…
Pais e filhos é um “romance” sobre “famílias” como reflexo de todo um sistema social tipicamente feudal da Rússia de meados do século XIX. Bom, adiante…

Pais e Filhos, romance escrito por Ivan Turguéniev (1818-1883) – considerado como o “mais ocidental” dos autores russos novecentistas –, foi originalmente publicado em 1862, ano que, de forma indelével, assinalou nos anais da História do império dos czares o surgimento do movimento cultural do niilismo russo – cuja etimologia deriva da expressão do Latim “nihil”, que significa…

[pressinto o fim, nasce em mim uma vontade de divagar, como se ao exceder um imaginário limite de palavras, o inebriamento que o vício nos dissemina nas entranhas perdurasse para além do limite que estipulámos, o fim].

[O niilismo russo] que defendia o fim do opressivo sistema feudal, fortemente hierarquizado e dominado por uma classe aristocrática corrupta, frívola e indolente e que se limitava a explorar os desprotegidos que, imbuídos de uma religiosidade acerba e de um tradicionalismo paralisante, não contestavam o poder despótico das instituições de governo do império influenciadas por essa aristocracia.
Turguéniev, um admirador confesso das democracias, das sociedades e das escolas de pensamento ocidentais, designadamente das francesa e inglesa, constrói uma narrativa que, de uma forma veemente, através do seu personagem principal Evguéni Vassílitch Bazárov, condena a eslavofilia, machista, absoluta e servil, intensamente arreigada na sociedade russa que lhe foi contemporânea – note-se que a acção decorre no ano de 1959, logo após o términos do reinado tirânico de Nicolau I (m. 1855), encontrando-se a Rússia nos primeiros anos de governação do seu filho, o czar Alexandre II, cujo assassinato em 1881 iria marcar o fim deste movimento, indecorosamente confundido com e absorvido pelo movimento anarquista.
Bazárov, com o seu austero niilismo, condena todo o tipo de romantismo ou de arte, que considera como palavras sinónimas entre si, assim como com inutilidade, sem qualquer tipo de valor, trata-se apenas da «arte de acumular dinheiro, ou de acabar com as hemorróidas!»: «um bom químico é vinte vezes mais útil do que qualquer poeta» (pág. 32)
Arkádi Nikoláevitch Kirsánov regressa a casa, à cidade de X… (denominada por Marino pelo pai Nikolai Petróvitch Kirsánov, que vive com o seu irmão Pável), após a frequência da Universidade em São Petersburgo, trazendo consigo o seu colega, amigo e, de certa forma, mentor e iniciador no niilismo, Bazárov. Este é o ponto de origem de todo o conflito geracional que se arrasta pela obra.
Atente-se em parte de um delicioso diálogo estabelecido entre Arkádi e Bazárov sobre o pai do primeiro:

«(…)
– Anteontem dei com ele a ler Púchkin – continuou Bazárov entretanto. – Fá-lo ver, por favor, que isso já não serve para nada. Ele não é nenhum rapazinho, é tempo de deixar essas tolices. E que gosto esse de ser romântico nestes tempos! Dá-lhe qualquer coisa sensata para ler.
– Dar-lhe o quê? – perguntou Arkádi.
– Sim, eu acho que o
Stoff und Kraft
, de Büchner, para começar.
– Eu também acho – aprovou Arkádi. –
Stoff und Kraft está escrito numa linguagem popular.» (pág. 54)

Repleto de personagens fascinantes, cujos passados, minuciosamente descritos, justificam, como uma herança genética, as distintas maneiras de ver o mundo, fortemente influenciadas pelo espírito do tempo por que a Rússia atravessava, quer por aceitação ou resignação, quer por reacção ou denegação, em contraposição com o desenvolvimento das democracias ocidentais que, pela filosofia aplicada à ciência, caminhavam rumo a um materialismo visto como libertador das amarras da crendice, da servidão humana e do preconceito, Pais e Filhos é, todavia, um tratado sobre a moderação, sobre o necessário diálogo geracional, o meio-termo que evita a potencial devastação pelo recrudescimento dos radicalismos de pólos contrários, tão bem consubstanciado nas capacidades curativas do “amor” – o paroxismo do romantismo –, na arte como o veículo para essa redenção, aqui entendido como a mola impulsora, conscientemente rejeitada pelo embaraço do Homem – o seu esforço inglório de racionalização de todo o comportamento humano, rejeitando qualquer tipo de sentimento –, para alcançar a plenitude da alma.

Esta edição da obra-prima de Turguéniev, com chancela da Relógio D’Água, inclui um posfácio de Vladimir Nabokov, de mera análise literária.
Na sua primeira frase, Nabokov afirma que «Pais e Filhos não é só o melhor romance de Turguéniev, mas também um dos maiores romances do século XIX.» (pág. 219)
Concordo com a afirmação, desde que se ressalve a posição cimeira de Tolstoi (1828-1910) e de Dostoievski (1821-1881) – inimigo visceral de Turguéniev e objecto de alguma censura literária por Nabokov – enquanto romancistas e na quantidade de obras-primas que trouxeram ao mundo na arte de romancear, onde permanecem (quase) imbatíveis decorrido mais de um século.
Porém, o seu a seu dono, e o mérito com quem o tem, sem ser uma obra-prima da dimensão das engendradas pelos dois autores supramencionados e seus contemporâneos:

Classificação: ***** (Muito Bom).

Referência bibliográfica:
Ivan Turguéniev, Pais e Filhos. Lisboa: Relógio D’Água, 1.ª edição, Maio de 2007, 251 pp. (tradução de António Pescada; obra original: Отцы и Дети, 1862).

sábado, 23 de junho de 2007

Seguindo os passos de Chesterton, Waugh e Greene

9.º Passo: As compensações às pessoas que prejudicámos deverão ser suspensas sempre que com esse acto as possamos prejudicar. (Este é lindo!)
(seguindo os passos até ao São João)



Aproxima-se o fim do mandato e correm rumores que, em breve, Tony Blair anunciará a sua conversão ao Catolicismo, seguindo não só a crença da sua persuasiva mulher, Cherie, mas também a conversão de alguns ilustres compatriotas como a do Cardeal John Henry Newman (1801-1890) – de quem Blair mostrou e ofereceu hoje três fotografias emolduradas ao Papa Bento XVI –, assim como a dos escritores Evelyn Waugh (1903-1966), Graham Greene (1904-1991) e G.K. Chesterton (1874-1936).

Pelo menos, deixará a sucessão a um G. Brown