Que continues a riscar por muitos mais… Um abraço iRMÃO!
Eis o meu modesto contributo (porventura previsível, eu sei, embora não canse ouvi-los) para a celebração:
(aquele Dennis Miller nem à dupla Sandro & Carina lembraria…)
«Glenn Gould said, "Isolation is the indispensable component of human happiness."» [Contraponto] «How close to the self can we get without losing everything?»
Don DeLillo, “Counterpoint”, Brick, 2004.
Na noite de 17 para 18 de Maio de 1980, Ian Kevin Curtis (n. 1956) punha termo à sua curta vida, enforcando-se na cozinha de sua casa. Com ele terminou a carreira de uma das melhores bandas musicais de sempre, os Joy Division, justamente na véspera de iniciarem a promissora tournée pelos Estados Unidos, onde já reverberavam os sons angustiantes da guitarra de Bernard Sumner, do baixo de Peter Hook e da bateria de Stephen Morris, conjuntamente com a voz cavernosa e profundamente encantatória de Ian Curtis.«A mãe pressionava como nunca. Aguentar o lugar na empresa, mais do que uma seca, tornara-se penoso. Com os amigos não podia contar, nunca fora pessoa de grandes confidências e, ainda que fosse, no meio a que pertencia as confidências tinham balizas bem definidas. O limite aceitável seria dar o flanco por uma conquista mal resolvida. A partir daí era impensável. A família nunca se discute com terceiros.» (pág. 125)

«Este trabalho, embora válido, é de certa forma desapontante; e o crítico, embora amigo pessoal do Sr. Nabokov – por quem ele mantém uma calorosa estima muitas vezes arrefecida pela exasperação – e um admirador de grande parte do seu trabalho, não se furta a demonstrar o seu desapontamento.
«Uma vez que o Sr. Nabokov tem o hábito de apresentar qualquer trabalho seu desta envergadura através de um anúncio de que ele é único e incomparável, e que toda a gente que o tenha tentado é um tonto e um iletrado, incompetente como académico e linguista, normalmente com a implicação de que se trata de uma pessoa sem classe e com uma personalidade ridícula, Nabokov não deverá queixar-se se o seu crítico, embora não tentando imitar a sua má conduta literária, não hesitar em sublinhar as suas debilidades.» [tradução livre AMC]
«Edmund Wilson lamenta afirmar que é impossível para ele: ler manuscritos, escrever artigos ou livros para classificar, escrever prefácios ou introduções, fazer declarações com fins publicitários, fazer qualquer trabalho editorial, integrar júris de concursos literários, dar entrevistas, participar em conferências de escritores, responder a questionários, contribuir para ou intervir em qualquer tipo de simpósios ou “painéis”, contribuir com manuscritos para venda, doar cópias dos seus livros para bibliotecas, autografar trabalhos para desconhecidos, autorizar a utilização do seu nome para constar de frontispícios, fornecer qualquer informação pessoal sobre o próprio, ou dar opiniões sobre assuntos literários ou demais assuntos.» [tradução livre AMC]

Em Maio de 2005, a Lusa noticiava que a Dom Quixote iria editar as obras completas do escritor austríaco Robert Musil (1880-1942):
A frase em epígrafe estava inscrita numa tatuagem de um dos braços de Arbatchak, um dos “brutos”, um urca, do campo de trabalhos forçados, ou Gulag – acrónimo para a administração dos campos de trabalho ou de reeducação – estalinista, em Norlag na Sibéria, a Rússia setentrional, para além do Círculo Polar Árctico.«O meu irmão mais novo chegou ao campo em 1948 (eu já lá estava), no auge da guerra entre os brutos e as bestas…» (pág. 13)
«A história de amor é de forma triangular e o triângulo não é equilátero. Por vezes, gosto de pensar que é um triângulo isósceles: forma sem dúvida um vértice muito aguçado. Mas, sejamos honestos, admitamos que o triângulo se mantém brutalmente escaleno. […] Escaleno, do grego skalenos: desigual.» (pág. 14)
Nos dias que correm, essencialmente por motivos de crescimento familiar, é-me cada vez mais difícil conseguir deslocar-me a uma sala de cinema para assistir às últimas novidades. Normalmente, espero pela edição em DVD e mesmo assim, encontrar um ínterim de descontracção nas tarefas parentais, é objectivamente uma tarefa delicada.

PS – apesar da minha inexorável falta de bom senso, parabéns pelos dois anos de blogosfera.
«Talvez se esconda em mim um homem muito, muito vulgar. Ou talvez tenha sangue azul. Não sei. Mas uma coisa sei com certeza: serei no futuro um zero à esquerda, um zero muito redondo e encantador.»
Robert Walser, Jakob von Gunten (Relógio D’Água, 2005, pág. 10).
«Que eu seja o mais inteligente de todos não é talvez motivo para grande satisfação. De que servem pensamentos e inspirações quando não sabemos que fim lhes dar, como é o meu caso? Pois bem. Não, não, quero tentar ver claramente, mas não me agrada a altivez, não quero nunca, nunca sentir-me superior aos que me rodeiam.»
Robert Walser, Jakob von Gunten (Relógio D’Água, 2005, pág. 26).
«É possível que ninguém, a partir de hoje mesmo, volte a ter notícias minhas. Que ninguém julgue que tenha sido abduzido por alguma alimária de um planeta longínquo. Sou o meu próprio sequestrador. As fadigas, os grosseiros esforços necessários para alcançar honras e famas neste mundo, não foram feitos para mim. Quero esconder-me de tudo e de todos, não ter de aparecer mais em público, não ter de viver no meio das desesperantes intrigas do mundo literário. Quero levar a vida de um Salinger, por exemplo, ou a de um Thomas Pynchon. Ou a de um Miquel Bauçà […]
«Continuarei a escrever, mas, ao contrário de Salinger, Pynchon e Bauçà, não o farei para publicar, porque também vou deixar de publicar. Procurarei voltar a ser aquele jovem que escrevia sem sequer pensar em publicar e que todos deixavam em paz […] E aos que se cruzarem no meu caminho dir-lhes-ei que procuro a verdade. Di-lo-ei como que ausentando-me, como quem se ausenta para saudar a beleza.» (pp. 282-283).
«os êxitos têm apenas por companhia inseperável a confusão e um punhado de ideias baratas sobre o mundo. Notamos de imediato aqueles que têm êxito e gozam a consideração alheia, ficam gordos de uma autocomplacência contente, e a força da vaidade infla-os como balões e quase deixamos de os reconhecer. Deus proteja um bom homem da consideração de terceiros.»
Robert Walser, Jakob von Gunten [esse pequeno sábio] (Relógio D’Água, 2005, pp. 81-82).
