quarta-feira, 6 de junho de 2007

iRMÃOLÚCIA

É verdade, o meu muito estimado Pedro Vieira completou ontem 1 ano de religiosa peregrinação na blogosfera com o seu último blogue.

Que continues a riscar por muitos mais… Um abraço iRMÃO!

Eis o meu modesto contributo (porventura previsível, eu sei, embora não canse ouvi-los) para a celebração:


(aquele Dennis Miller nem à dupla Sandro & Carina lembraria…)

Encomendas Simultâneas

Por um comentador anónimo deste blogue fiquei a saber que, tal como eu e no mesmo dia (não sei a que hora), o Pedro Mexia traduziu Love will tear us apart de Ian Curtis (Joy Division).
Curiosamente, a pedido da mesma pessoa, a Mónica Granja.

Enfio a viola no saco (put the guitar in the bag), dou o braço a torcer (giving my arm to twist) e deixo a poesia aos poetas…

Lembrei-me daquela do sapateiro e do rabecão (how dare you, shoemaker, to play contrabass), e regresso para o que sei ou julgo saber…
Blogosfera, esse longo processo ontológico do meu eu desnorteado.

Depois da viola ensacada, do braço torcido, Finanças, aí vou eu!

terça-feira, 5 de junho de 2007

Todo-o-Mundo


Finalmente editado em Portugal (Dom Quixote), Everyman de Philip Roth originalmente editado nos Estados Unidos pela Houghton Mifflin há precisamente 395 dias (contador Ritmo Editorial Português aqui).

segunda-feira, 4 de junho de 2007

IAN

Joy Division - Love Will Tear us Apart (single, Fac. 23)Na noite de 17 para 18 de Maio de 1980, Ian Kevin Curtis (n. 1956) punha termo à sua curta vida, enforcando-se na cozinha de sua casa. Com ele terminou a carreira de uma das melhores bandas musicais de sempre, os Joy Division, justamente na véspera de iniciarem a promissora tournée pelos Estados Unidos, onde já reverberavam os sons angustiantes da guitarra de Bernard Sumner, do baixo de Peter Hook e da bateria de Stephen Morris, conjuntamente com a voz cavernosa e profundamente encantatória de Ian Curtis.
Para a história ficam o filme de 1977, Stroszek, do realizador alemão Werner Herzog, a que Ian assistiu na noite de 17 de Maio – relatando a história conturbada de um alcoólico e ex-condenado alemão que emigra para os Estados Unidos e que mais tarde acaba por se suicidar – e o fantástico álbum, também de 1977, de Iggy Pop, produzido por David Bowie, The Idiot – álbum que inclui as fabulosas músicas “Nightclubbing”, “Dum Dum Boys” e a icónica “China Girl” –, que corria ainda no gira-discos quando no dia 18 de manhã Deborah, a sua mulher, após haver acordado sobressaltada em casa dos pais com as primeiras estrofes de canção The End dos Doors, se deslocou a sua casa e encontrou Ian enforcado na cozinha. Em cima da mesa, junto a um amontoado de fotografias do seu casamento e de um retrato emoldurado de Natalie, a sua filha, estava uma carta, redigida em letras maiúsculas – tal como escrevia as letras das suas canções –, confessando a sua angústia pelo afastamento... (cf. Deborah Curtis, Carícias Distantes).

Em Março de 1980, os Joy Division gravam para a Factory o seu maior sucesso de sempre, a premonitória canção “Love Will Tear us Apart”. A capa do single, Fac 23 e que incluía no lado B o tema não menos excepcional “These Days”, foi idealizada por Curtis. Nela surgem apenas inscritos o título da música e o número de série do disco na editora; segundo Deborah, Ian relatou-lhe o processo de composição: são letras gravadas numa folha de metal, introduzida posteriormente em ácido e finalmente exposta à influência dos elementos. Ian queria que o metal se assemelhasse a uma pedra… Mais tarde, Deborah gravou as cinco palavras na pedra tumular que alberga as cinzas do marido.

Da letra ficam os reflexos da epilepsia que se vinha agravando com o ritmo apertado das gravações e dos concertos, e o afastamento de Ian das suas mulher e filha, catalisado por um romance mantido com a jovem admiradora belga Annick Honoré.

Por pedido expresso da
Mónica, fica aqui a minha versão em tradução eminentemente livre da letra cuja magia osmótica com a música não se deixou cair no olvido, atravessando gerações há 27 anos. Seguindo as palavras de Kundera sobre a imortalidade e adaptando-as ao caso concreto, Ian Curtis sim, pensou na morte ao sonhar com a imortalidade, pertencendo ao grupo restrito daqueles que serão recordados no espírito dos que nunca o conheceram – a distintiva da grande imortalidade e sem traços de risibilidade

Quando a penosa rotina magoa,
e frágeis são as ambições,
e o ressentimento alto voa,
mas não crescerão as emoções.
E estamos a mudar os nossos caminhos, seguindo por estradas diferentes.

Então o amor, o amor afastar-nos-á de novo.

Por que está o quarto tão frio?
Voltaste-te para teu lado do leito.
Não intervim em tempo digno?
Expirou o nosso mútuo respeito.
Porém ainda resiste esta atracção que sobreviveu às nossas vidas.

Mas o amor, o amor afastar-nos-á de novo.

Choras durante o teu sono,
expõem-se todos os meus fracassos.
Na minha boca forma-se um gosto,
sempre que o desespero aperta o laço.
E como algo tão bom deixou de poder continuar.

Enquanto o amor, o amor afastar-nos-á de novo.


Ian Curtis, Love will tear us apart, 1980 [versão: O amor afastar-nos-á, AMC, 2007]

domingo, 3 de junho de 2007

Da rotulagem

Lugar-comum: gosto de Literatura, especialmente da boa.
Digressão: Esta tautologia, usada amiúde nos mais diversos assuntos donde emana a susceptibilidade de qualificação, encerra tudo aquilo que se me apraz dizer sobre esta mania humana, demasiado humana, de categorizar o belo segundo os juízos estéticos próprios, eminentemente pessoais, e felizmente intransferíveis sem ruído ou atrito para outrem.

Apor o rótulo de “literatura gay” ao romance Cidade Proibida, o primeiro do autor português Eduardo Pitta (n. 1949), seria como reputar de “literatura esquizofrénica” o Dom Quixote de Cervantes ou de “literatura judicial” (distópica) O Processo de Franz Kafka.
A rotulagem serve apenas de guia, ou o propósito de síntese, e com esse breve resumo epitético poder transmitir alguma da verdade que se esconde para além do esforço de interpretar os signos que cruzam a obra – i.e., ler o livro no caso de se tratar de uma obra literária –, mas cumpre capazmente as funções de uma arma de arremesso se estiverem presentes no espírito do rotulador sentimentos apriorísticos, inter alia, de simples esconjuro, maledicência, inveja, animosidade sobre autor da obra, mesmo que, à luz dos princípios morais transversais ao todo social, as razões que motivam a imposição desses preconceitos possam derivar de causas objectivamente reputadas como justas.


O que seria feito de autores como Gide, Wilde, Vidal, Forster, Waugh ou Mann, se a homofobia do recenseador em conjugação com o conhecimento da preferência sexual do autor determinassem a apreciação crítica dos seus textos?
Tergiverso, eu sei, rumo à temática da homofobia empedernida, normalmente uma curiosa fachada que esconde um mal que, residindo no âmago do nosso ser, não se pretende enfrentar, sabendo-se, como se sabe, que um assunto mal resolvido redunda, quase sempre, num persistente estado de frustração que, se não for debelado, termina de forma inevitável numa existência marcadamente infeliz. Ora, curiosamente, ou talvez não – via mecanismo de manipulação (ilusório) do destino do texto que estou a escrever –, Cidade Proibida relata e tenta responder de forma subliminar – e aí reside a destreza do autor – a muitos desses malogros que enxameiam as vidas etéreas dos denominados recolectores do êxito social.

Em 2004, o escritor britânico Alan Hollinghurst publica o seu mais aclamado romance, A Linha da Beleza. Nele se narram as atribulações de um jovem literato homossexual, proveniente da classe média rural britânica que, na década de 80, embevecido pelo Mestre Henry James, entra pela porta grande de Kensington Gardens, coabitando com classe política e a aristocracia londrinas, embrenhando-se nos meandros dos jogos de poder e da corrupção instalada, dos seus vícios e pecadilhos, sustentados por todo um ritual de manutenção das aparências.
Durante as páginas do extenso e brilhante romance, Nick Guest – é assim que se chama o rapaz, um eterno convidado por aquelas obscuras paragens –, com alguma parcimónia típica de um ser refinado, delicado e contemplativo, vai despertando para a cruel realidade da sua frágil condição de plebeu descartável, processo que apenas se materializou no final por uma dilacerante e brutal, tão tardia como súbita, tomada de consciência sobre um destino traçado sem hipótese de remissão.

Em Cidade Proibida, o centro geodésico desloca-se para Lisboa. Londres passa à condição de satélite de uma esfera de relacionamentos, mantida por uma teia de cumplicidades, na qual se move a alta sociedade lisboeta.
A partir da história de Martim e Rupert – um casal homossexual –, Eduardo Pitta constrói toda uma alegoria sobre a longa e abissal fractura que divide a sociedade lisboeta. De um lado subsiste uma elite que se move entre os jogos de interesses e a devassidão e que se refugia num apertado código de estrita observância comportamental que lhe garante a conspicuidade; e do outro os peões rejeitáveis e que se vão movendo por mão alheia no tabuleiro de xadrez apenas para garantir a inexpugnabilidade do núcleo duro representado na realeza e na turba de personalidades de segunda linha, os arrivistas, que, posicionados em lugares-chave, protegem os primeiros de toda a publicitação dos seus comportamentos mundanos, ao mesmo tempo que mantêm a ilusão de pertença a todo um meio que, na sua intimidade, lhe é hostil.

«A mãe pressionava como nunca. Aguentar o lugar na empresa, mais do que uma seca, tornara-se penoso. Com os amigos não podia contar, nunca fora pessoa de grandes confidências e, ainda que fosse, no meio a que pertencia as confidências tinham balizas bem definidas. O limite aceitável seria dar o flanco por uma conquista mal resolvida. A partir daí era impensável. A família nunca se discute com terceiros.» (pág. 125)

Cidade Proibida é um romance enganador. Apesar das suas escassas 134 páginas e de uma miríade de personagens – incluindo os protagonistas – superficialmente descritas, contrastando com a descrição pormenorizada, roçando os limites do detalhe obsessivo, das festas, das ementas, dos vinhos, da indumentária do convivas, aquele deve ser lido com cuidado, todos os pormenores, por mais supérfluos que possam parecer, interessam para o estabelecimento do quadro final. Não há gordura ou divagação, nota-se uma forte determinação do autor em contar uma história sem atavios, solilóquios e metáforas obsidiantes. Trata-se de uma escrita crua e impiedosa, que não pretende provocar o choque gratuito – a gratuitidade deixemo-la, por exemplo, com escritores como Palahniuk –, mas que, como com Easton Ellis, apenas pretende ser o mais fiel possível a uma realidade, a um modo de vida celerado que se esconde dos demais e que sobrevive à custa dessa ignorância.

Literatura gay? Onde?

Classificação: **** (Bom)

Referência bibliográfica:
Eduardo Pitta, Cidade Proibida. Matosinhos: QuidNovi, 1.ª edição, Maio de 2007, 134 pp.

Nota: Um dos episódios mais deliciosos: os homéricos “mirmidões” de Egina que, programados para o combate, quais formigas trabalhadoras e obedientes, cumprem fielmente as funções para as quais foram destinados pelos seus nobres e celerados amos.

sábado, 2 de junho de 2007

Mais uma oportunidade…

Ruptura
…desta feita, perdida.

Mais um furo entre compromissos académicos e particulares, mais uma deslocação a uma sala de cinema.
Fractura, ou Ruptura, com ligeiras interrupções a apelar à sonolência, do realizador texano Gregory Hoblit. O mesmo que depois da televisão, realizou em 1996 o razoável A Raiz do Medo, que contou com O Mar de Dulce Pontes pelas mãos do encantado Morricone, e com a soberba primeira interpretação do admirável Edward Norton; seguiu-se o sofrível A Queda (2000), com argumento do filho de Elian Kazan e que, no meu modesto entender, apenas se salvou pelo refrão dos Pedras RolantesTime is on my side”; depois veio o hollywoodesco Frequência – na má acepção do adjectivo –, divertido, cheio de cabriolas visuais e de argumento, e basta; finalmente, não vi Em Defesa da Honra (2002) e a atentar na crítica profissional e na apreciação de cinéfilos da minha estima perdi um aglomerado de lugares-comuns sobre a II Guerra Mundial.

Ruptura, conta com as interpretações principais de Anthony Hopkins e do cinematograficamente imberbe Ryan Gosling.
Hopkins não consegue sair da pele de Hannibal Lecter sempre que se lhe oferece interpretar um cerebral e tortuoso psicopata.
Gosling pertence ao grupo das minhas embirrações de estimação – que, por natureza, defino como inexplicáveis; sem razão aparente; embirrar, porque sim! –, logo qualquer análise que possa fazer à sua interpretação será sempre eivada de um inultrapassável preconceito. Pode ter que ver com o partido que tomei há uns anos por Michael Pitt no revoltante thriller de 2002, realizado por Barbet Schroeder, Crimes Calculados. Mas suponho que a minha implicância deriva do inextinguível ar de tuner – amante do tuning – a pedir meças a um mecânico do airoso Chip Foose no inenarrável Overhaulin’.
O filme segue fielmente os passos das incontáveis películas do género: a luta entre o bem e o mal – onde se inclui a contenda interior, de consciência, a tal fractura; a genialidade maquiavélica do infractor; a pureza angelical de um homem das leis, antecedida de alguns pecadilhos, perdoáveis pelo cidadão comum pertencente a uma sociedade ocidental ou ocidentalizada que se quer competitiva; e, para finalizar, o surpreendente erro do infractor.
Em suma, 5 euros e alguns cêntimos deitados ao lixo e bem pior, o tempo, esse vórtice impalpável, que se me escapa por entre os dedos.

quinta-feira, 31 de maio de 2007

O escritor, um crítico e o seu trabalho

Edmund WilsonEdmund Wilson (1895-1972), escritor norte-americano, sobretudo reconhecido pelo seu brilhante currículo como crítico literário, considerado como um dos críticos mais proeminentes e respeitados nos Estados Unidos do século XX.
O apogeu da sua carreira e da sua influência no mundo das letras norte-americanas deu-se enquanto editor da The New Republic e crítico da The New Yorker. A ele se deve, por exemplo, a perpetuação nos anais da literatura mundial do nome e da obra de um dos mais geniais escritores de sempre, F. Scott Fitzgerald – de quem foi colega em Princeton –, cuja morte prematura aos 44 anos, a conturbada época em que este escreveu, entre o fim da I Guerra Mundial, passando pela Grande Depressão e acabando às portas da II Guerra Mundial, o alcoolismo e as extravagâncias mundanas, e isto apesar da incrível quantidade (e qualidade) de contos que escreveu e publicou – cerca de 170, uma das formas de sustentar a sua vida luxuosa e as singulares exigências da sua caprichosa mulher Zelda – e dos seus arquetípicos romances, facilmente poderia cair no esquecimento.
Wilson é ademais conhecido pelo seu longo e inconstante relacionamento com Vladimir Nabokov, numa primeira instância por ter dado a conhecer ao mundo ocidental, sobretudo aos americanos, o génio literário do exilado russo, de quem se tornaria grande amigo e com quem mais tarde protagonizaria uma das mais famosas e acesas altercações literárias – consta que chegou à violência física –, a propósito da tradução de Eugénio Onegin (por transliteração do cirílico para o alfabeto latino de Yevgeniy Onegin, deve-se ler “Oneguine” em português) do autor russo Aleksandr Pushkin (1799-1837).
Numa recensão publicada na The New York Review of Books em Julho de 1965, intitulada “The Strange Case of Pushkin and Nabokov”, Wilson começa por dizer:

«Este trabalho, embora válido, é de certa forma desapontante; e o crítico, embora amigo pessoal do Sr. Nabokov – por quem ele mantém uma calorosa estima muitas vezes arrefecida pela exasperação – e um admirador de grande parte do seu trabalho, não se furta a demonstrar o seu desapontamento.
«Uma vez que o Sr. Nabokov tem o hábito de apresentar qualquer trabalho seu desta envergadura através de um anúncio de que ele é único e incomparável, e que toda a gente que o tenha tentado é um tonto e um iletrado, incompetente como académico e linguista, normalmente com a implicação de que se trata de uma pessoa sem classe e com uma personalidade ridícula, Nabokov não deverá queixar-se se o seu crítico, embora não tentando imitar a sua má conduta literária, não hesitar em sublinhar as suas debilidades.» [tradução livre AMC]

A partir deste momento a História da literatura registará uma das mais truculentas trocas de correspondência entre os dois velhos (ex) amigos.

Este episódio serve para realçar a integridade moral e de conduta que Wilson apunha ao seu melindroso trabalho de crítico literário, e que lhe valeu a enorme consideração nos meios académicos e literários mais importantes nos Estados Unidos e no mundo.
Apesar dos incontáveis episódios menos abonatórios de que foi protagonista, principalmente se nos ativermos à sua impetuosa vida pessoal e sentimental, Wilson é um exemplo a ter em conta quando, por cá, surge uma nova vaga opinativa sobre os denominados amiguismos no mundo da crítica literária lusa.
Para a História, fica também um delicioso episódio, que há muito entrou no anedotário da Literatura universal, sobre um súbito cansaço das relações perigosas entre críticos, escritores, editores e revistas da especialidade, e das suas sucessivas solicitações. Reza a história que Wilson, a partir de determinada altura, quando instado a intervir, enquanto crítico afamado, em diversos eventos públicos directamente relacionados com a selvajaria do mercado editorial, passou a enviar um postal standard que, qual faca de dois gumes, lhe trouxe algumas dores de cabeça, uma vez que aquele passou a ser objecto de memorabilia literária.
Do postal constava o seguinte:

«Edmund Wilson lamenta afirmar que é impossível para ele: ler manuscritos, escrever artigos ou livros para classificar, escrever prefácios ou introduções, fazer declarações com fins publicitários, fazer qualquer trabalho editorial, integrar júris de concursos literários, dar entrevistas, participar em conferências de escritores, responder a questionários, contribuir para ou intervir em qualquer tipo de simpósios ou “painéis”, contribuir com manuscritos para venda, doar cópias dos seus livros para bibliotecas, autografar trabalhos para desconhecidos, autorizar a utilização do seu nome para constar de frontispícios, fornecer qualquer informação pessoal sobre o próprio, ou dar opiniões sobre assuntos literários ou demais assuntos.» [tradução livre AMC]

Percebe-se agora o choque com Nabokov… alguma empáfia, própria dos grandes, quando o são na realidade.

quarta-feira, 30 de maio de 2007

Indignação


Parabéns à caterva que gere e representa a FC Porto, Futebol SAD – sociedade em que 40% do capital é detido directamente pelo meu clube –, por haver desbaratado o seu melhor activo. Razão tinha o António Oliveira para votar contra esta administração calamitosa.

Tomei uma decisão: Há dias já organizava com um conjunto de familiares e amigos a retoma dos nossos lugares anuais com bilhete para a época inteira. Todavia, perante este atentado bárbaro, grosseiro, sem qualquer tipo de pudor, ao clube do qual sou sócio há 31 anos – nasci em 1972 e sou sócio desde 1976 – e como forma de demonstrar o meu mais veemente repúdio pela decisão tomada:

Não irei adquirir o “Dragon Seat 2007/2008”.

Nota: espero que outros me sigam o exemplo. Chegou a hora de dizer BASTA!

Uma editora a desperdiçar qualidades

Robert MusilEm Maio de 2005, a Lusa noticiava que a Dom Quixote iria editar as obras completas do escritor austríaco Robert Musil (1880-1942):
«O primeiro título da colecção será “As Perturbações do Pupilo Torless”, publicado em 1906 e já editado em Portugal pela Livros do Brasil.
«O segundo livro da série, intitulado “A Portuguesa e outras novelas”, sairá no Outono, e só no primeiro trimestre de 2006 devem chegar às livrarias os dois primeiros volumes de “O Homem sem Qualidades”, publicado entre 1930 e 1942.
«De acordo com João Barrento, a colecção, composta por oito obras distribuídas por 11 tomos, será publicada ao ritmo de dois a três livros por ano, devendo ficar completa no final de 2006 ou no início de 2007.» (Agência Lusa, 7 de Maio de 2005).

Hoje, 30 de Maio de 2007, a referida editora apenas publicou o excepcional As Perturbações do Pupilo Törless – uma das obras de ficção da minha vida, a par de Jakob von Gunten do seu contemporâneo suíço Robert Walser, uns furos acima da obra que emprestou a epígrafe a este blogue, para me situar no género diarista de púberes-buscas-existenciais, que já havia lido sob o título O Jovem Törless na versão, chamemos-lhe comedida, de João Filipe Ferreira para a editora Livros do Brasil.

Tal como A Montanha Mágica de Mann, O Homem sem Qualidades de Musil foi em tempos imemoriais publicado pela editora Livros do Brasil, porém há anos que ambas as edições se encontram esgotadas no mercado – colecção “Dois Mundos”, edições n.º 32 e n.º 115 (esta em 3 volumes), respectivamente –, e sem reedição prevista, talvez justificada pela perda de direitos de publicação.

(Louvor: honra seja feita à editora fundada por António Augusto de Souza-Pinto pelo eclético e completíssimo catálogo de autores consagrados e de verdadeiras obras-primas da literatura universal, que, se não existisse e perante a penosa constatação do vencimento dos critérios mercantilistas da promoção do lixo no actual panorama editorial português, jazeriam no olvido do deserto – desta feita em ambas as margens, a começar no Terreiro do Paço – cultural luso.)

É por todos sabido – pelo menos por aqueles que se interessam por livros – que a Dom Quixote tem vindo, no último par de anos, a encaminhar-se para um destino completamente divergente daquele que foi idealizado pela sua mais notável fundadora, a tragicamente desaparecida, a 4 de Dezembro de 1980, Snu Abecassis.
Em 1999, a editora portuguesa foi adquirida pelo gigantesco grupo editorial espanhol Planeta. No entanto, para nós leitores, os efeitos da quente brisa de mudança do Levante peninsular começaram apenas a sentir-se no século XXI, havendo culminado com a publicação do best-seller "Auchan/Modelo-Continente/Barbas" Eu, Carolina.
Enquanto isso a editora, que já perdeu Kundera e Banville para a Asa e que publica Roth, García Márquez, Lobo Antunes, Rushdie, Vargas Llosa, Faulkner, Jorge Amado, entre outros, tarda em publicar Slow Man de Coetzee, adia sucessivamente Everyman de Philip Roth, não se conhecem os últimos avanços na prometida edição de Les Bienveillantes de Jonathan Littell – vencedor do Goncourt 2006 –, emudece-se sobre a edição do aclamado romance On Beauty da jovem e premiada escritora britânica Zadie Smith (n. 1975) e, ao que parece, meteu literalmente Robert Musil na gaveta, já com obra restaurada pelo notável ensaísta, tradutor e crítico literário João Barrento.

De degradação em degradação, quo vadis, Dom Quixote?

terça-feira, 29 de maio de 2007

A célebre profecia de Ian

O Luís, através de uma pequena recriminação à sua Leitora – com quem já tive o prazer de falar –, deu-me a conhecer esta excelente versão de Susanna and The Magical Orchestra (melhor que a vozinha menineira da intérprete dos Nouvelle Vague) da canção mais popular dos efémeros eternos Joy Division, parte integrante do álbum, de 2006, Melody Mountain da cantora e grupo noruegueses:



A original para os mais esquecidos:

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Podes viver mas não amarás

A frase em epígrafe estava inscrita numa tatuagem de um dos braços de Arbatchak, um dos “brutos”, um urca, do campo de trabalhos forçados, ou Gulag – acrónimo para a administração dos campos de trabalho ou de reeducação – estalinista, em Norlag na Sibéria, a Rússia setentrional, para além do Círculo Polar Árctico.

«O meu irmão mais novo chegou ao campo em 1948 (eu já lá estava), no auge da guerra entre os brutos e as bestas…» (pág. 13)

Estas são as primeiras palavras do 1.º capítulo do romance epistolar A Casa dos Encontros do escritor britânico Martin Amis (n. 1949) e «esta é uma história de amor. Amor Russo, é certo. Mas amor.» (pág. 13)
O narrador, um próspero imigrante russo de 84 anos a viver nos Estados Unidos, de quem nunca saberemos o nome, escreve uma longa carta à filha, Venus – filha de Fénix, a renascida... –, sobre o seu passado bárbaro na União Soviética, enquanto navega pelos mares gelados do Árctico rumo ao espaço físico que as suas rememorações jamais abandonaram, e que o próprio sabe que o acompanharão até aos dias do fim.
O narrador avisa a filha para a brutalidade da história, que apenas os seus olhos ocidentais confirmarão como tal, mas que para um russo, mesmo que afastado do país há 20 anos, faz parte da realidade e do quotidiano daquele país, de uma verdade nua e crua que, há centenas de anos, e de forma inelutável, parece haver sido inscrita e posteriormente confirmada no código genético da sua História. Uma história que se conta através das atrocidades perpetradas pelos seus diferentes protagonistas, «não há Deus russo que chore e cante»: desde o século X até aos czares, a revolução de 1917 e as atrocidades do País dos sovietes, e o novo capitalismo, de rosto russo, estatizado, onde o Estado deixou o monopólio e passou a principal accionista, «o oligarca principal», onde não faltam sequer as tragédias do teatro Dubrovka em Moscovo e a chacina de Beslan… Porém, esta é uma história de amor:

«A história de amor é de forma triangular e o triângulo não é equilátero. Por vezes, gosto de pensar que é um triângulo isósceles: forma sem dúvida um vértice muito aguçado. Mas, sejamos honestos, admitamos que o triângulo se mantém brutalmente escaleno. […] Escaleno, do grego skalenos: desigual.» (pág. 14)

Lev, o meio-irmão do narrador, irmãos uterinos, chega em Fevereiro de 1948 a Norlag, um campo de trabalhos forçados, fortemente hierarquizado, onde predominam a selvajaria e a iniquidade, um campo dividido em porcos – os funcionários e os guardas –, urcas – bestas e brutos –, cobras – os informadores, os bufos –, fascistas – todos os que houvessem por uma vez manifestado uma ideia política não comunista –, sanguessugas – os burlões e trapaceiros burgueses –, gafanhotos – os urcas sem corpo nem lei – e papa-merdas – os de mais baixo estrato, os cansados da luta interna, apenas disputavam os restos de comida.
No centro da narrativa está o amor por “a Américas”, Zoya, a judia, cujo corpo fazia lembrar os rutilantes contornos geográficos das duas Américas, cuja «cintura delgada» era o «Panamá» – que Nabokov uma vez comparou a dois artistas de circo que se seguravam em plena acção no trapézio –, e que motivou a prisão, a condenação por 10 anos e a consequente deportação de Lev quando numa fila em Moscovo, em conversa mantida com a irmã de ambos, Kitty, falava bem da Américas, havendo quem o acusasse de se referir, em termos laudatórios, ao arqui-inimigo da pátria, os Estados Unidos. Contudo, era apenas a encantadora e esguia Zoya que Lev teve a ousadia de arrebatar, enquanto o narrador, nos primeiros anos do pós-guerra, expiava os seus pecados sob o gelo do Árctico, relembrando os tempos em que esta vivia numa mansarda cónica de Moscovo, com umas escadas em ferro exteriores em caracol e ele, solícito, a agarrava pelo braço para que não escorregasse no gelo que se formara – sim, «porque em pequena nunca tinha aprendido a gatinhar…» –, para posteriormente assistir ao corrupio de homens que daquela torre entravam e saíam, e ele versejando na sombra, do outro lado da rua, numa imobilidade perturbadora, prostrado horas a fio no gelo cortante da capital russa à espera de um sinal, o fechar da persiana – a ironia, o «herói violador» apaixonado, foi encarcerado por essa paixão, pela «destruidora de poetas» que, mais tarde, encarcerou o irmão.
Tudo isto ocorre durante o reinado de terror de José Vissarionovitch, a quem Amis prefere ocultar o nome principal, onde os cidadãos são apenas números, são activos do Estado, meros objectos ao seu dispor para, por todos os meios, concretizar e assegurar a imposição e o sucesso da ideologia comunista aos olhos do corrompido mundo ocidental.
Era a época das purgas, dos delatores, da polícia política, dos campos de concentração, da apologia do terror contra a dissidência, das fortes campanhas de propaganda para o exterior de um vida e de uma sociedade sãs e sapientes através das artes e do desporto, da perversa perseguição aos judeus pós II Guerra Mundial – o início do pogrom –, da proibição de todo e qualquer tipo de actividade religiosa e de qualquer tipo de manifestação. Porém, no meio desta barbárie silenciosa estava Zoya que, para surpresa do narrador, havia casado secretamente com Lev na véspera de este ser detido.
Os anos vão passando no Gulag. José Vissarionovitch morre em 1953, mas o terror no campo não abranda. É preciso matar para sobreviver, e o narrador vê-se confrontado com a atitude de pacifista do irmão e a necessidade de o defender dos porcos e das cobras delatoras, outrora gente sem rosto do seu lado da contenda nos terríveis campos de batalha da II Grande Guerra e da chegada triunfal a Berlim em 1945, que como membro do Exército Vermelho participou no estupro colectivo de milhões de mulheres alemãs, enlouquecidas, atordoadas e martirizadas por seis anos do mais terrível dos conflitos.
Ao longo da narrativa paira um mistério materializado numa data, 31 de Julho de 1956, e num local, a casa dos encontros no Norlag.
Após 9 anos de reclusão do marido, Zoya desloca-se ao campo de trabalhos para se encontrar com este, mediante uma política de abertura do regime que concedia o privilégio aos condenados casados de, numa noite, desfrutarem da companhia dos cônjuges. O narrador assiste aos preparativos do irmão e à chegada da sua cunhada, objecto da sua obsessão. A partir dessa data, aquela noite que reuniu Lev e Zoya na casa dos encontros, algo muda… Seguem-se os anos de liberdade, metaforizada na inevitável cruz russa, condicionada a uma pátria sufocante e omnipresente, que superintende cada gesto, atitude ou acção de cada cidadão.

Inspiriado no soberbo tratado de Anne Applebaum (n. 1964), Gulag: Uma História (vencedor do Pulitzer em 2004 na categoria de Não-Ficção) e na obra-prima Arquipélago de Gulag do Prémio Nobel da Literatura em 1970 Aleksandr Solzhenitsyn (n. 1918), A Casa dos Encontros é um romance sobre a turbulenta forma de amar (n)a Rússia, sobre a brutalidade quotidiana que se manteve ao longo dos tempos, apenas entendida aos olhos dos que lá vivem, formando a sua cruz, a constante subida da curva da morte acompanhada pela descida da curva que representa o número de nascimentos, que se intersectaram algures, por volta de 1992, a cruz russa: parece surgir da «tentativa de uma criança de três anos de desenhar a metade inferior de uma baleia ou tubarão: o torso largo estreita-se até desaparecer e depois tende para a barbatana caudal.» (pág. 194).

A Rússia «não é como Zoya. A Rússia aprendeu a gatinhar, e ela aprendeu a correr. O que não aprendeu foi a caminhar.» (pág. 204).

Classificação: **** (Bom)

Referência bibliográfica:
Martin Amis, A Casa dos Encontros. Lisboa: Teorema, 1.ª edição, Abril de 2007, 229 pp. (tradução de Telma Costa; obra original: The House of Meetings, 2006).

sábado, 26 de maio de 2007

David

David FincherNos dias que correm, essencialmente por motivos de crescimento familiar, é-me cada vez mais difícil conseguir deslocar-me a uma sala de cinema para assistir às últimas novidades. Normalmente, espero pela edição em DVD e mesmo assim, encontrar um ínterim de descontracção nas tarefas parentais, é objectivamente uma tarefa delicada.
Contudo, há excepções que se abrem por causas que reputo de nobres na minha escala de encantamentos muito pessoal, de mais fácil concretização na Literatura, de alguma dificuldade de acrobata no Cinema – locais de exibição, horários e tempo de permanência no circuito comercial – e de uma quase impossibilidade na Música – concertos em Lisboa ou em locais inacessíveis, pantanosos e babilónicos como os que acolhem os festivais de Verão.
Eis a excepção para a fuga: David.

Nascido há quase 45 anos em Denver, Colorado, Estados Unidos (Agosto de 1962), David Fincher é, de longe, na actualidade, o meu realizador de cinema preferido.
Sem formação académica nas artes e ciências cinematográficas, começou, por realizar anúncios publicitários para marcas destacadas e alguns vídeos musicais. Com apenas 30 anos realizou o terceiro filme da saga Alien – de longe o seu pior, abaixo da versão de Ridley Scott (Alien, o 8.º passageiro, filme de 1979) e da de James Cameron (Aliens, recontro final, filme de 1986), mas imensamente superior à de Jean-Pierre Jeunet.
Segue-se a fabulosa sequência Se7en (1995), O Jogo (1997), Clube de Combate (1999), A Sala de Pânico (2002) e Zodiac (2007), encontrando-se a rodar o mais do que aguardado The Curious Case of Benjamin Button, baseado no conto homónimo do gigante decadentista Francis Scott Fitzgerald – um dos melhores de sempre na sua arte e no top 10 das minhas preferências literárias –, com Brad Pitt e Cate Blanchett nos principais papéis.
Já descrevi em inúmeros textos neste e no meu anterior
blogue as sensações experimentadas com cada filme daquele sublime quarteto. Hoje chegou a vez de Zodiac, estreado em Portugal e no mundo inteiro (circuito comercial) no passado dia 17 de Maio.

Fincher, conhecido no meio pela exigência que apõe nos guiões que escolhe para levar à grande tela – lembro-me bem do desgosto que se acometeu de mim quando o seu nome foi apontado para a realização do 3.º filme da série Missão Impossível, que, felizmente, mais tarde viria a recusar –, conseguiu uma vez mais subverter as expectativas que qualquer cinéfilo poderia dispor sobre um filme baseado nos crimes reais ocorridos, nas décadas de 60 e 70 do século passado, em São Francisco, perpetrados por um assassino em série que se dava a conhecer pelo nome de código Zodiac, que por sua vez deriva do expediente de envio de mensagens encriptadas onde aquele relatava os brutais assassinatos. Zodiac não é um filme sobre serial killers, cujo modelo está completamente estafado após as incontáveis réplicas, tão típicas de Hollywood, que se seguiram ao excepcional O Silêncio dos Inocentes de Jonathan Demme – atenção que Se7en também não o foi...
Do parágrafo anterior não se entenda que o derribar das tais expectativas contribuiu para ferir de morte o fascínio que a obra suscita. Bem pelo contrário, a surpresa surge pela engenhosa secundarização dos crimes, mostrando-nos outra realidade que, à boa maneira de Hitchcock, está diante dos nossos olhos, é palpável, tem som, cor e cheiro, mas que se nos vai revelando de forma progressiva e parcimoniosa, como se caminhássemos sob as trevas profundas de uma caverna em direcção à porta para o resplandecente mundo exterior: aquilo que antes era um ténue fio de luz culmina num brilho ofuscante, de íris ainda dilatadas pela surpresa.


Zodiac é um filme sobre a obsessão e sobre a ínfima distância, não percebida, a que aquela se encontra de nós, à ilharga, pronta a atacar pelo choque e pelo medo emanados de um acontecimento brutal. A obsessão é aqui entendida como um ser vivo que se vai alimentando, numa voracidade invisível, de tudo aquilo que rodeia o seu objecto, como uma bomba de neutrões detonada pela nossa acção primária sem a assunção das possíveis consequências, e cuja radiação destrói tudo o que se mexe e que gravita em torno da nossa existência, deixando apenas de pé a efígie do monumento que é a nossa mente.
Zodiac não é um filme de travelings ou de soluções tecnológicas inovadoras como foram os seus predecessores, realizados por Fincher. É, no entanto, um filme cerebral e perturbador pela forma como se escoa o fio da narrativa em planos fixos, gestos, olhares e toda uma coreografia representativa da somatização de um desconcerto espiritual e comportamental. É, também, uma obra cheia de subentendidos, de imagens subliminares e de planos que despertam em nós o sentimento, bem sintetizado pela expressão francesa, de “dejà vu” – o Ricardo, por exemplo, lembra uma delas que também não me escapou enquanto via o filme: o grande crachá do Nixon na secretária do jornalista Paul Avery interpretado, de forma magistral, por Robert Downey, Jr.


Depois há a ligação estabelecida ao filme mudo The Most Dangerous Game (1932) realizado pela dupla Irving Pichel e Ernest B. Schoedsack, baseado na obra homónima do escritor norte-americano Richard Donnell – que se encontra editada em Portugal pela Assírio & Alvim (colecção Beltenebros) sob o título Zaroff (O Jogo mais Perigoso) – este livro conta a história de um psicopata, o Conde Zaroff, que vivendo isolado no seu castelo situado numa ilha, vai recebendo os náufragos que aí vão acostando, entre eles o caçador Bob Rainsford que de súbito se vê envolvido num jogo de contornos macabros criado pelo anfitrião, onde os hóspedes se tornam presas – o jogo mais perigoso. Ora, Zodiac, o homicida, ter-se-á, alegadamente, baseado na obra de Connell, na medida em que se serve dessa tensão psicológica de expectativa de crime iminente para, através dos jogos labirínticos criados para as suas presas preferenciais – os investigadores policiais e os jornalistas –, poder perpetrar os seus crimes. O assassino do zodíaco vive precisamente aí, no intrincado da lei processual penal excessivamente garantista, que rege a própria investigação criminal, e que se propaga a todo um ordenamento jurídico de um Estado de Direito. E daí as diversas alusões ao eterno inspector Harry Callahan, mais conhecido como Dirty Harry, personagem imortalizada no cinema por Clint Eastwood, que por outros meios, chamemos-lhes, eufemisticamente, heterodoxos, alcançava êxito nas suas brutais investigações policiais, tal como sucede no filme epónimo com a perseguição ao homicida de nome Scorpio, que os investigadores e jornalistas do filme de Fincher assistem na data da sua estreia em 1971: [Dirty Harry]: Well, I'm all broken up over that man's rights! [Em resposta ao magistrado do MP que o acusava de brutalidade policial e de desrespeito à lei].

Com Zodiac temos David no seu melhor.
(Embora possa aqui fazer um mea culpa, ao reconhecer a inutilidade do emprego do adjectivo comparativo de superioridade de bom na última frase. Em Fincher não lhe consigo detectar outro valor na escala qualitativa.)

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Camaradagem


Abstendo-me de comentar o sentindo real das palavras proferidas pela mente fecunda do ministro Mário Lino, para isso teria de recorrer à hermenêutica do deserto – na minha opinião o problema é precisamente o inverso, o da esterilidade (desértica) mental –, chocou-me mais a alegoria do estropiado e do canceroso, agravada pelo tom de auto-satisfação revelado através da exuberância gesticular e da eloquência oratória do engenheiro, inscrito na Ordem – para que conste. Mesmo que eu, por mera felicidade – que não tive –, não houvesse vivenciado o miserável drama que essa doença provoca, de lenta e cruel degradação física e mental do padecedor e dos respectivos familiares e amigos, as declarações do senhor ministro mereceriam, de igual modo, da minha parte as mais contundentes palavras de execração e de repulsa. Não se trata de um manifesto com o sentido de restringir a liberdade de expressão, criando para o efeito assuntos tabu, trata-se apenas da simples exigência de decência a quem, pelos nossos votos e impostos, tem a responsabilidade de representar e administrar o Estado-Nação.

Mal um havia terminado o palavreado asinino, veio outro, o Presidente, clamar pela construção do aeroporto a Norte por simples razões estratégicas no combate ao terrorismo e nas necessárias vias de fuga dos civis inocentes da capital. Neste caso, a interpretação deste arrazoado, pelo picaresco que a questão encerra – para ser brando –, não exige grande esforço de abstracção: não sei se foi amizade aventalar, se desespero por visão profética de investimento cúpido esboroado, ou se ambas em simultâneo.
Aquilo que aqui interessa é, pelo menos para mim, cidadão comum, contribuinte cumpridor, saber o que move esta gente na defesa obstinada por um lugarejo sem interesse aparente a 50 km de Lisboa, que a cada dia que passa parece transformar a simples teimosia, que seguia apenas a cartilha maquiavélica do não recuo em política – de liberalitate et parsimonia –, em inconfessável ganância.

Em suma, os episódios desta semana tiveram pelo menos um mérito, o de clarificar a importância do investimento, de que esta comovente demonstração de camaradagem foi a alavanca arquimédica, porque se no caso do primeiro podemos apontar alguma estultícia, até por via da experiência mediante o estudo de casos, no segundo a preocupação excessiva preocupa-me, passe o pleonasmo, porque para além de jubilado, decerto não perdeu o traquejo alcançado durante a era jurássica da política portuguesa, ou se se preferir, a matreirice de velha raposa.

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Uma lenta agonia

Robert Walser, 25 de Dezembro de 1956, perto do Sanatório de Herisau
Ultimamente tenho lido algumas coisas de e sobre Vila-Matas. Acabei há pouco tempo o seu último romance, longo, introspectivo, por vezes aborrecido, algumas vezes hilariante e outras, ainda, com fragmentos potencialmente indutores a alguma meditação ou reflexão sobre a inescapável folha de débitos e de créditos originados pela nossa condição de Homo Socialis – sem entrar em questões metafísicas e terminológicas de psicossociologia.
De Vila-Matas sobressai Walser, de quem o autor espanhol, mediante um estudo aprofundado das suas vida e obra, se confessa um grande admirador não só pela integridade estético-literária, como também pelo seu conhecimento apurado e perspicaz da condição humana, principalmente do papel do divino na cultura europeia que exulta os valores da submissão e da resignação, em detrimento da liberdade individual, que reduzem o indivíduo ao tal “zero à esquerda”, consciência tão presente no pequeno Jakob ou em Joseph Marti (O Ajudante).
Daí advém o conceito de dor nas suas diversas acepções ou planos que se intersectam, contribuindo para a obnubilação do conhecimento da sua real origem. Dificilmente descortinamos o primário que se metastizou pelo espírito em diversos tipos de dor.
A integridade walseriana subsume-se ao estoicismo e ao recolhimento, à assunção da existência como um eterno jogo de causalidade bidireccional que, quando se torna consciente, apenas encontra redenção na solidão auto-infligida, a bela infelicidade.

Mea culpa
Provavelmente, partindo do pressuposto, meramente teórico, da possibilidade de pôr em evidência qualquer dos seus elementos constitutivos, a mais terrível das dores advém de um sentimento de culpa pelo cometimento de uma injustiça; e a pungência dessa dor resulta, muitas vezes, na sua forte capacidade de sanação. Ao contrário da dor da perda, a dor que resulta da consciência da injustiça cometida resolve-se facilmente pelo simples pedido de perdão, sentido, natural, sem compensações, apenas imbuído de um espírito de reparação que nos confira a certeza da extinção de um imaginável ressentimento destruidor de uma amizade desinteressada que rareia nos tempos que correm.

Contrição com destinatário.

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Strange Days



À laia de expiação...

A Apologia do Esquecimento

Esta minha intromissão neste diálogo sobre as melhores bandas de sempre – excluídas as fitas métricas – foi entendida aqui como de escasso bom senso, como deitar “caruma” numa fogueira, quiçá pela irrelevância material do objecto em causa, ou pela ousada ingerência num melífluo diálogo privado.
Henrique – não gosto do “meu caro” em situações de altercação, seja de que índole for, pela rudeza da expressão – não foi atrevimento, mas tentativa de estabelecer contacto, sobre um tema que me diz muito.
Quando o
Lourenço falou dos Beatles, houve logo uma agitação pela necessidade de contestação – ou de contraponto – e aos Beatles juntou-se, por comparação, um trio de meter medo, para que não restassem dúvidas e de uma assentada: The Doors, Velvet Underground e Rolling Stones.
Dois dias depois disse, em tom de desafio, que julgara salutar – mas, afinal estava enganado –, que os melhores – no meu entender –
eram estes e hoje, quatro dias depois, via réplica futebolística, descobriram-me, finalmente, as frivolidade e vacuidade opinativas, a tal caruma… e eu digo que o problema se restringe ao campo semântico, não foi da caruma, mas da pinha!

Para melancolizar os espíritos, meus caros (agora sim!), aqui fica She lost control num vídeo apócrifo:

PS – apesar da minha inexorável falta de bom senso, parabéns pelos dois anos de blogosfera.

terça-feira, 22 de maio de 2007

Uma questão de cor...

E um golinho certo defendido com a mão por... um defesa, cujo nome curiosamente começa por "r"... Renato (26/01/2007: U.Leiria - 1 FC Porto - 0).



Para o Pedro Correia e o Henrique Fialho.
(Sinceramente, este é o tipo de discussão que não me interessa e por aqui termino, em definitivo).

A Bela Infelicidade

«Talvez se esconda em mim um homem muito, muito vulgar. Ou talvez tenha sangue azul. Não sei. Mas uma coisa sei com certeza: serei no futuro um zero à esquerda, um zero muito redondo e encantador.»
Robert Walser, Jakob von Gunten (Relógio D’Água, 2005, pág. 10).

Eis uma possível epígrafe para a obra que recebeu o prémio para Melhor Romance Publicado em Espanha em 2006 e o prémio da Real Academia Espanhola 2006, Doutor Pasavento, o último romance do escritor catalão Enrique Vila-Matas (n. 1948).

«Que eu seja o mais inteligente de todos não é talvez motivo para grande satisfação. De que servem pensamentos e inspirações quando não sabemos que fim lhes dar, como é o meu caso? Pois bem. Não, não, quero tentar ver claramente, mas não me agrada a altivez, não quero nunca, nunca sentir-me superior aos que me rodeiam.»
Robert Walser, Jakob von Gunten (Relógio D’Água, 2005, pág. 26).


Eis, então, duas citações de Walser que poderiam, e muito bem, constar das epígrafes, que se distinguem pela ausência, ao último romance de Vila-Matas.
Aliás, esta minha escolha não é de todo casual, o escritor suíço, nascido em 1878 em Biel, (faleceu em 1956 vítima de ataque cardíaco, o corpo jazia sozinho naquela imensidão bucólica coberta de neve, como numa fantasia poética, no dia de Natal de 1956, nos campos que cercavam o sanatório de Herisau – situado no cantão de Appenzell Ausserrhoden – após uma mais do que rotineira deambulação pela Natureza), é o espectro que assombra o romance de princípio a fim, não só pela excelência da curta bibliografia que Walser deixou, mas também pelo recolhimento a que o autor se submeteu durante 23 anos no referido sanatório, deixando em definitivo de publicar.
Desses tempos apenas sobreviveram as conversas que manteve com o seu amigo Carl Seelig nos dias em que este o visitava no sanatório e alguns manuscritos, a que Walser chamou de microgramas, redigidos a lápis – a perecibilidade e a transitoriedade do grafite –, e que, ainda hoje, são objecto de investigação.
De Vila-Matas já conhecíamos o seu fascínio pelos “escritores do não” desde a publicação do seu famoso romance-ensaio Bartleby & Companhia, dando destaque a figuras como Walser, Hölderlin, Salinger ou Pynchon. Desta feita, Vila-Matas aprofunda o tema, trabalha a componente romanesca dos escritores do não e estabelece uma narrativa na primeira pessoa: Andrés, ou Doutor Pasavento, ou Doutor Ingravallo, ou Doutor Pynchon (& Pinchon).
Esta é a história de Andrés, escritor catalão, que a partir de um sonho sobre um estranho desaparecimento da torre do castelo de Montaigne – considerado o pai do ensaio literário –, protagonizado por um imaginário Doutor Pasavento, fisionomicamente parecido com o seu amigo e escritor basco Bernardo Atxaga, parte em busca da verdade, isto é, de uma identidade que parece haver-se perdido num mundo de fama e de êxitos com realidades e linguagens distintas.
Sevilha será o ponto de partida. O sonho envolve Atxaga e a sua reclusão de quatro anos para escrever o romance El hijo del acordeonista (obra de 2004, publicada originalmente em basco em 2003), através do qual o autor basco evoca, em definitivo, o desaparecimento da sua mítica terra imaginária Obaba.
Decorridas duas semanas Andrés é convidado para intervir numa conferência que se irá realizar no Mosteiro da Cartuxa em Sevilha, subordinada ao tema “a fronteira entre a realidade e a ficção” onde estará presente Atxaga. Andrés, perante a gritante vulgaridade do tema, ironiza, dizendo que irá vestido de mordomo.
O sonho materializou-se numa realidade concreta, palpável e assustadora, facto que Andrés assume, com um grau crescente de preocupação, como o momento decisivo, a oportunidade para intentar a, há muito esperada, viragem radical na sua vida. Enquanto discorre sobre o assunto a dissertar na dita conferência, Andrés vê em Atxaga a sua redenção. Então, decidiu que se este último não se dignasse a comparecer ao encontro literário – hipótese que o narrador considerou de ocorrência muito provável –, iria apresentar um ensaio sobre o desaparecimento, recordando as palavras de Maurice Blanchot quando lhe perguntaram para onde caminhava a literatura: «Dirige-se para si mesma, para a sua essência, que é o desaparecimento» (pág. 18).
As páginas que se seguem falam da luta interior do escritor com a sua consciência, da busca do seu eu belo e infeliz, da difícil jornada que necessariamente se terá de iniciar para fugir à solidão do reconhecimento, da fama e da penosa tarefa de gestão das expectativas dos outros perante o autor e a sua obra, para finalmente se chegar à solidão purificadora do anonimato, a bela infelicidade, a escolha de Walser, o acto de nobreza quando este se apercebeu de que ouvia vozes e lhe foi diagnosticada esquizofrenia.
É nesta encruzilhada que se encontra o Doutor Pasavento, confrontado com a desmultiplicação de personalidades ou até com o tema do doppelgänger literário, dos opostos que parecem digladiar-se sobre a ténue linha que separa o abismo – a morte, o desaparecimento – da realidade, que nesta obra assenta, de forma mais visível, na ânsia do autor em saber como o mundo literário vem tratando o seu desaparecimento e, simultaneamente, no desejo irreprimível de cair definitivamente no esquecimento.
Eis como se define Pasavento num bilhete deixado à sua editora francesa no Hotel Suède, situado na inquietante, e crucial para a trama, rue Vaneau em Paris:

«É possível que ninguém, a partir de hoje mesmo, volte a ter notícias minhas. Que ninguém julgue que tenha sido abduzido por alguma alimária de um planeta longínquo. Sou o meu próprio sequestrador. As fadigas, os grosseiros esforços necessários para alcançar honras e famas neste mundo, não foram feitos para mim. Quero esconder-me de tudo e de todos, não ter de aparecer mais em público, não ter de viver no meio das desesperantes intrigas do mundo literário. Quero levar a vida de um Salinger, por exemplo, ou a de um Thomas Pynchon. Ou a de um Miquel Bauçà […]
«Continuarei a escrever, mas, ao contrário de Salinger, Pynchon e Bauçà, não o farei para publicar, porque também vou deixar de publicar. Procurarei voltar a ser aquele jovem que escrevia sem sequer pensar em publicar e que todos deixavam em paz […] E aos que se cruzarem no meu caminho dir-lhes-ei que procuro a verdade. Di-lo-ei como que ausentando-me, como quem se ausenta para saudar a beleza.» (pp. 282-283).

Da misteriosa rue Vaneau – onde se situam marcos históricos importantes, como a última casa de André Gide, uma das casas onde residiu Karl Marx, local onde por exemplo ficou a conhecer Friedrich Engels, uma mansão onde chegou a residir Antoine de Saint-Exupéry, o escritor-aviador desaparecido em combate, a embaixada da Síria, uma farmácia como destaque turístico na internet e outras coincidências que se descobrirão mais tarde –, passando por Nápoles, Basileia, Zurique, o sanatório de Herisau na Suíça e o estanho país de Lokunowo, e através de nomes – para além de Walser, Salinger e Pynchon – como Kafka, Sebald, Montaigne, Chateaubriand, Hölderlin, Agatha Christie, Joyce, Musil, DeLillo, Gide e até Lobo Antunes, vai-se construindo Doutor Pasavento.
O último trabalho de Enrique Vila-Matas, sem ser um excelente romance, é certamente virtuoso e, acima de tudo, uma obra de difícil concepção; porém não é, ao contrário do que se diz pelo mundo da crítica, o melhor que o literato catalão escreveu até aos dias de hoje. Reconhecidamente, a obra dispõe de momentos de puro brilhantismo e de mestria no domínio da técnica literária – como é apanágio de Vila-Matas –, contudo existem outros de um entediante e exasperante solilóquio, perdendo-se o fio condutor no manancial de citações que se confundem com as ideias do próprio autor… ou melhor, do Doutor Pasavento – ou será Pynchon? –, apesar de considerar que parte dessa revelada fragilidade, a de estabelecer uma teoria com um recurso excessivo a fontes secundárias, é puramente intencional, cumprindo, assim, um dos objectivos principais ao conceder o tom ensaístico pretendido para a obra.

Classificação: **** (Bom)

Referência bibliográfica:
Enrique Vila-Matas, Doutor Pasavento. Lisboa: Teorema, 1.ª edição, Janeiro de 2007, 405 pp. (tradução de Jorge Fallorca; obra original: Doctor Pasavento, 2005).


E a terminar, para de uma mancheia de frases se poder construir uma exegese à laia de posfácio moralista:

«os êxitos têm apenas por companhia inseperável a confusão e um punhado de ideias baratas sobre o mundo. Notamos de imediato aqueles que têm êxito e gozam a consideração alheia, ficam gordos de uma autocomplacência contente, e a força da vaidade infla-os como balões e quase deixamos de os reconhecer. Deus proteja um bom homem da consideração de terceiros.»
Robert Walser, Jakob von Gunten [esse pequeno sábio] (Relógio D’Água, 2005, pp. 81-82).

domingo, 20 de maio de 2007

E aí vão 22...

Depois da Aparição


Depois da aparição, perdi em definitivo o rasto do Senhor Borges.
Após a inscrição daquele acontecimento na minha memória, circulei todos os dias pelos mesmos sítios à mesma hora e o trânsito corria fluído, sem entraves, sem encontrar Borges, ou alguém como ele, que caminhava do exterior para o interior para se perder do lado de lá, o Porto, nos seus labirintos de gente dispersa, hipnotizada pelo desejo de sobrevivência, sem saber que por mais que calcorreie essas artérias, a sua concepção, empreendida por algo que me foge aos apertados limites da compreensão tão humanos, foi apenas a materialização do divino pelo necessário inculcamento do desdém pela imortalidade. Em suma, vias porventura ilusórias e sinuosas que foram engenhosamente construídas para que apenas pela morte surja a almejada libertação.
Walser, em conversa com Seelig – via Vila-Matas –, referia-se aos monges voluntariamente encerrados nos mosteiros que olham com sede de exterior, de dentro para fora, o objecto que por uma vez negociaram para redenção da alma. Têm nostalgia do exterior. Porém, os escritores, aqueles que se fecham por dias infindos de solidão, empreendem um caminho sem retorno, embora voluntário, em busca do interior perdido, da sua própria identidade que se foi arruinando por paragens remotas, e agora inalcançáveis, nas intermináveis deambulações por esse labirinto: a profunda nostalgia do interior.
E assim deverá andar Borges, aquele que vi da janela do meu carro numa manhã de Maio de calor abrasador, caminhado pela Circunvalação do exterior para o interior num aparente movimento perpétuo.