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sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Erosão Conjugal

«Ocorre a Harry que a sua mulher é um canal [de televisão] que não se pode mudar. A mesma testa um pouco alta de mais, a mesma fresta lisa e tola entre os lábios, dia após dia, a todas as horas, na mesma emissora.»
John Updike, Coelho em Paz, p. 180
[Porto: Civilização, Setembro de 2009, 539 pp; tradução de Carmo Romão; obra original: Rabbit at Rest, 1990]

Reinventar, é a chave. Há aqueles que compram um ecrã de cristais líquidos para testar o brilho que se perdeu por anos de monotonia. Alguns, aproveitando as liberdades que, apesar de tudo, outros vão conquistando por nós, apostam no contraste e agarram no plasma que se cristalizou na juventude dentro do armário, e partem à descoberta. Outros ainda, talvez mais sórdidos e não menos comodistas, cedem ao fastio e abrem os cordões à bolsa para uma subscrição extra de acrobacias em tecnicolor. Há ainda quem lhe custe abandonar o arrepio da descarga eléctrica do tubo catódico, munido para isso de uma auto-indulgência não pressentida, escreva em blogues, exercitando o músculo da sua caudalosidade desde há muito definhado, encapsulado. Faz um zapping. Tens de mudar de vida! [Rilke]

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Para perguntas idiotas…

…respostas à medida.

No blogue do New York Times, Paper Cuts, “Perguntas Vadias a…

«GC: Neste momento, está a trabalhar em quê?
MP: Em primeiro lugar, no meu falsete à Bee Gees no chuveiro. Depois, na paz mundial – se por “paz* mundial” estivermos a falar em código para um livro cuja história se passa numa vila espanhola, baseada no meu desejo, de há muito, em provar um certo pedaço* de queijo tão efémero e mundialmente famoso que só por uma vez lá foi feito.» (continue a ler no NYT)
[Tradução: AMC]

*Nota: intraduzível em português: palavras homófonas “peace” (paz) e “piece” (pedaço).

GC – Gregory Cowles (Paper Cuts)

MP para Paterniti, Michael Paterniti, o homem que a bordo de um Buick Skylark conduziu através da América profunda o patologista octogenário Thomas Harvey e o cérebro de Albert Einstein, acondicionado num Tupperware colocado na bagageira, para que o segundo, quarenta anos após a morte do cientista, o pudesse entregar à neta do terceiro, Evelyn Einstein, que vivia na Califórnia. Escreveu Ao Volante Com Mr. Albert: Uma Viagem através da América com o Cérebro de Einstein (ed. port. Teorema; Driving Mr. Albert: A Trip Across America with Einstein's Brain, 2000).

Nota: Thomas Stoltz Harvey (1912-2007) foi o homem que autopsiou o corpo de Albert Einstein quando este morreu a 18 de Abril de 1955 no Hospital de Princeton.
No entanto, por amor à ciência, Harvey não só manteve o cérebro na sua posse durante 41 anos, como o seccionou em mais de duzentas partes, nunca apresentando quaisquer resultados das possíveis análises patológicas, e, pasme-se, qual Robin dos Bosques da ciência forense, forneceu amostras do cérebro a quem o houvera solicitado. A acrescentar a tudo isto, há a errância de Harvey por diversos Estados americanos, sempre transportando o cérebro do pai da Teoria da Relatividade; até que, em 1996, regressa a Nova Jérsia e o entrega, definitivamente, ao Chefe de Patologia do Hospital de Princeton, Elliot Krauss para posterior estudo (note-se que todas as conclusões forenses, hoje em dia conhecidas, sobre o cérebro de Einstein são relativamente recentes dado este episódio rocambolesco que durou mais de quatro décadas).

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Rumo

«Há uma fase na vida em que esta abranda de forma nítida, como se hesitasse entre continuar ou alterar o seu rumo. É possível que nesta fase seja mais fácil o azar vir ao nosso encontro.»
Robert Musil, “Grigia”, in A portuguesa e outras novelas, pág. 11.

[Lisboa: Dom Quixote, 1.ª edição, Setembro de 2008, 230 pp. (novela: pp. 11-40); tradução de Maria Antónia Amarante; obra original (reunião de duas obras): Zwei Erzählungen, 1911; Drei Frauen, 1924.]

O abrandamento é o próprio prenúncio, seja ele imposto ou auto-induzido, de que o azar virá, travestido de mudança, ataviado de promessas, mesmo que exista a sensação de continuidade do rumo, obstinada e integramente, traçado num passado mais ou menos recente.
Há um desvio, na maioria das vezes imperceptível numa análise ex post facto, e indetectável no aqui e agora. Não, nunca mais. Já não iremos calcorrear as mesmas pedras ou saltar os mesmos obstáculos.
Porém, o azar é apenas desresponsabilização: se melancolia, é um vício que se vai alimentando de autojustificações até à inacção pulverizadora daqueles que nos amam; se infelicidade, é um grito surdo de desespero, uma súplica dilacerante para o alijamento final para não os magoar.

Caeteris paribus: a melancolia é uma variante do egoísmo que se desenvolve até ao estádio máximo da ruína ou da destruição, caminha por fim como uma alma penada de eremitério em eremitério, cristalizada no tempo; a infelicidade, ao invés, é a própria ruína, procura rapidamente um acto de altruísmo, sem qualquer tipo de dissimulação, para que o tempo apague os despojos dessa destruição.

É fácil ser-se feliz na melancolia, mas é um contra-senso ser-se melancólico na infelicidade.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Epígrafe e abertura. Obsessões e… dedicatórias

(continuação do texto anterior, interrompido por introdução de material susceptível de fazer a capa da Ana + atrevida)

Mas antes já havia passado pela estranha dedicatória, a que depois regressei e li com mais atenção depois de lida a frase de abertura. Exigiu uma curtíssima investigação na Internet2:

«Para a Helen [Bransford]
Que gostaria de ter sido eu a inventar, se tivesse imaginação para tal.
» (pág. 5)

Notas:

  1. Na década de 80 do século passado, McInerney foi incluído no denominado Brat Pack literário artificialmente construído pela imprensa norte-americana, que ademais contava com os escritores Bret Easton Ellis, Tama Janowitz e Mark Lindquist, por corruptela, ou se se preferir como derivação (falhada pela heterogeneidade insolúvel) do famoso Rat Pack de Sinatra & companhia que espalhou o seu charme (muitas vezes etilizado) pelo cinema e pelos palcos dos teatros e casinos americanos durante as décadas de 50 e 60.
  2. The Last of the Savages foi publicado em 1996. Em 1997, Jay, então com 40 anos, divorciou-se da famosa designer de jóias Helen Bransford, a sua terceira mulher, sete anos mais velha. Ao que parece a actriz Julia Roberts desempenhou um papel importante; já para nem falar da história rocambolesca da concepção e gestação dos gémeos do casal, nascidos em 1995, Para quem se interessa por este tipo de assuntos cor-de-rosa, suponho que este artigo/entrevista de 2000 publicado no Guardian, sob o título sugestivo e bem a propósito de um dos romances do meu mui estimado F. Scott Fitzgerald (Belos e Malditos), faz um resumo interessante de toda a história… keywords: miscarriage, IVF, eggs, womb, surrogate mother,…

Referência bibliográfica:
Jay McInerney, O Último dos Savage. Lisboa: Teorema, Abril de 1998, 299 pp.; tradução de Telma Costa; obra original: The Last of the Savages, 1996.