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domingo, 30 de novembro de 2008

Responsabilidade e indiferença*

«Reflecti acerca disso ao longo de anos, e a única explicação mais ou menos razoável que encontrei foi esta – há qualquer coisa errada em mim, um qualquer defeito no meu mecanismo, uma peça avariada que impede a máquina de funcionar em condições. Não estou a falar de fraqueza moral. Estou a falar da minha mente – da minha constituição mental. Creio que agora estou um pouco melhor, o problema parece ter-se esbatido com a idade, mas naqueles tempos, quando eu tinha trinta e cinco anos, trinta e oito, quarenta, havia um sentimento que não me largava, o sentimento de que a minha vida nunca me tinha realmente pertencido, de que eu nunca fora realmente eu, de que eu nunca fora real. E, como não era real, não compreendia o efeito que as minhas acções poderiam ter nos outros, os danos que poderia causar, o sofrimento que poderia infligir às pessoas que me amavam.»
Paul Auster, Homem na Escuridão, p. 137.
[Alfragide: Asa, 1.ª edição, Novembro de 2008, 160 pp.; tradução de José Vieira de Lima; obra original: Man in the Dark, 2008.]

*Dava um bom título para um romance de Jane Austen e até com uma boa abertura (da lavra desta mente torturada que vos escreve): É universalmente conhecido que, na posse de uma mente prodigiosa, um homem que atravessa a meia-idade deambula perigosamente pelo mundo sem tomar consciência dos terríveis actos que inflige aos que lhe estão mais próximos. (Título, talvez este: Impassiveness and Responsibility.)

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Combate à memória

When I shall go
Into the narrow home that leaves
No room for wringing of the hands and hair,
And feel the pressing of the walls which bear
The heavy sod upon my heart that grieves,
(As the weird earth rolls on),
Then I shall know
What is the power of destiny. But still,
Still while my life, however sad, be mine,
I war with memory, striving to divine
Phantom to-morrows, to outrun the past;
For yet the tears of final, absolute ill
And ruinous knowledge of my fate I shun.
Even as the frail, instinctive weed
Tries, through unending shade, to reach at last
A shining, mellowing, rapture-giving sun;
So in the deed of breathing joy's warm breath,
Fain to succeed,
I, too, in colorless longings, hope till death.

Rose Hawthorne, “Death’s Eloquence”, Along the Shore (1888)

Rose Hawthorne (1851-1926), terceira de três filhos (Una e Julian) do gigante Nathaniel Hawthorne (1804-1864).

Vocês sabem do que estou a falar®…

«É o que eu faço quando o sono se recusa a vir. Deixo-me ficar deitado na cama e conto-me histórias. Podem não ser nada de especial, mas, enquanto estou dentro delas, impedem-me de pensar nas coisas que preferiria esquecer.»

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Alerta aos austerianos

Blogue de Paul Auster em Portugal

Acabou de ser criado, sem qualquer tipo de responsabilidade ou intervenção inspiratória da minha parte, um blogue português dedicado ao poeta do acaso: Paul Auster, de origem judaica, nascido em Newark, Nova Jérsia, a 3 de Fevereiro de 1947.

Biografia resumidíssima: Para além de trabalhos de tradução de poesia francesa, publicou a sua própria poesia, ensaios e memórias, escreveu argumentos para cinema, organizou antologias poéticas e de obras de ficção de autores consagrados, realizou quatro filmes A Vida Interior de Martin Frost (The Inner Life of Martin Frost, 2007), Lulu on the Bridge (1998), Fumo Azul (Blue in the Face, 1995) e Fumo (Smoke, 1995), os dois últimos em parceria com o realizador natural de Hong Kong Wayne Wang (n. 1949), e publicou doze romances; discriminados a seguir e ordenados segundo a minha preferência no momento presente (ao longo dos anos foi-se alterando à medida das releituras e/ou da minha percepção distanciada no tempo):

  1. Leviathan (Asa) – 1992
  2. A Trilogia de Nova Iorque (Asa) – The New York Trilogy, 1987
  3. A Música do Acaso (Asa) – The Music of Chance, 1990
  4. Palácio da Lua (Presença) – Moon Palace, 1989
  5. Timbuktu (Asa) – 1999
  6. No País das Últimas Coisas (Presença) – In the Country of Last Things, 1987
  7. As Loucuras de Brooklyn (Asa) – The Brooklyn Follies, 2005
  8. Mr. Vertigo (Asa) – 1994
  9. O Livro das Ilusões (Asa) – The Book of Illusions, 2002
  10. Viagens no Scriptorium (Asa) – Travels in the Scriptorium, 2006/2007
  11. A Noite do Oráculo (Asa) – Oracle Night, 2004

Ainda não lido: Homem na Escuridão (Asa) – Man in the Dark, 2008 (nas livrarias na próxima semana, editado pela Asa)
Próximo Romance (13.º): Invisible, 2009

As suas principais referências (confessadas em diversas entrevistas): Shakespeare, Beckett, Celan, Mallarmé, Blanchot, Poe, Proust, Hamsun, Cervantes, Kafka, Borges, Melville, Hawthorne, Thoreau, Dostoievski, Hölderlin, Montaigne, Leopardi, entre outros.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Por mero ACASO

Acabei de receber por correio electrónico o que se segue: Paul Auster em Cascais no próximo domingo, em companhia do crítico de cinema Rui Pedro Tendinha.


Presumo que irão falar sobre cinema, ou do relativo fracasso de A Vida Interior de Martin Frost (The Inner Life of Martin Frost, 2007), aproveitando o autor para lançar no mercado português a tradução do seu mais recente romance Homem na Escuridão (Man in the Dark, 2008), cuja edição está a cargo da editora, ex-portuense?, Asa, agora integrada no grupo LeYa. E diga-se que, apesar da debandada de autores, não abriu mão das obras do escritor sexagenário de Newark, Nova Jérsia – e só espero que, na espinhosa tarefa de manter os bons autores na casa, os responsáveis da editora não se tenham esquecido das obras da sua mulher, a alta e loura – como ele próprio a descreveu –, e descomunal escritora Siri Hustvedt, com novo romance publicado (e bastante elogiado) este ano nos Estados Unidos, e com a restante obra quase esgotada em Portugal, com excepção do avassalador Aquilo Que Eu Amava (What I Loved, 2003), a pedir uma urgente reedição.

Regressando à tertúlia cascalense, onde, possivelmente, se irá falar de um outro assunto que tem mexido com a imprensa cultural espanhola pela casualidade envolvida (ou o chamamento do eterno acaso): trata-se da estranha inspiração extra-sensorial e quase simbiótica entre Auster e Pedro Almodóvar quando o primeiro escrevia Homem na Escuridão e o segundo redigia o argumento para o seu próximo filme Abrazos Rotos (pode traduzir-se por Abraços Quebrados), fenómeno que foi antecedido por um fortíssimo ataque de cefaleias que quase imobilizaram o realizador espanhol no preciso momento em que ambos haviam combinado em Oviedo escrever um guião para o seu futuro filme (retirado do blogue de Almodóvar):

«Ao longo dos três dias que durou a nossa estadia em Oviedo [entrega, em Outubro de 2006, dos Prémios Príncipe das Astúrias] compartilhámos muitas situações, para além de comer e beber. Num desses jantares, quando já estávamos bastante animados, sondei-o sobre a possibilidade de escrevermos um guião juntos. De acordo com o seu programa de trabalho disse-me que não havia inconveniente, e eu pensava que podia levá-lo a cabo decorridos três ou quatro meses, não me importava de me deslocar a Nova Iorque.
Apenas isso, ao acabar a promoção em Janeiro de 2007
[do filme Voltar (Volver, 2006)] decido enfrentar o problema das minhas dores de cabeça, que haviam aumentado em 2006. A partir desse momento, enquanto fazia diversos tratamentos com um grupo de neurologistas, as dores aumentaram… enfim, a coisa é que durante o primeiro semestre de 2007 vivi aprisionado pelas cefaleias e pelos tratamentos. Não pude ir a Nova Iorque nem escrever com Paul Auster. Não obstante, cada um por seu lado escreveu duas histórias sobre narradores na escuridão. Uma situação tipicamente austeriana.» [destaque meu; tradução: AMC]

Porém, e regressando à costa atlântica ocidental, será decerto inescapável abordar o tema da crítica e da péssima recepção de A Vida Interior… pela comunidade lusa de críticos e não só. Lá fora a implacável Manohla Dargis – uma quase Kakutani do cinema – desancou, sem qualquer espécie de pruridos, no filme de Auster, terminando com o desabafo que “quanto menos dele se falar, melhor seria para Auster”.

Vi o filme depois ter ouvido e lido todo o chorrilho de zurzidelas nacionais e internacionais, profissionais e amadoras, e creio que não era motivo para tanto estardalhaço negativista. Está longe, bem longe, de ser um filme técnica e esteticamente perfeito, mas à mesma distância de segurança de um slapstick como vi rotulá-lo por muito boa e letrada gente.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Escuridão

«Já tudo escureceu;
contudo ainda resta algum dia
suspenso de onde veio a noite que chegou primeiro.

É de sempre este resto de dia
e acompanha-a pelo céu em busca das estrelas frágeis.

A noite, uma vez,
compreenderá que ele vem do mesmo lado que ela.
»

Jorge de Sena, “Nocturnos: V” (1941), in Antologia Poética, pág. 34.
[Porto: Asa, 2.ª edição, 2001, 304 pp.]


Regressa Auster às livrarias portuguesas em edição lusa. A Asa anunciou a publicação do último romance do escritor de Newark, nascido em 1947, Homem na Escuridão em Novembro, em dia que desconheço [via blogue da revista Ler].
A meio de Agosto, dei aqui a notícia da sua publicação mundial, atrevendo-me à tradução das primeiras páginas da versão original norte-americana.
Apenas três meses de desfasamento, a que se acresce a garantia, dada pela nova editora responsável pelas obras de literatura de ficção da Asa, Carmen Serrano, da edição simultânea do original americano e da versão portuguesa em 2009 do 13.º romance do poeta do acaso. O manuscrito está pronto, a obra chamar-se-á Invisible (como referi aqui) e ao que parece diferente dos romances anteriores marcadamente metadiegéticos, apesar de Auster não abandonar de todo o (para ele) viciante artifício metaliterário.
A propósito da sua enorme popularidade na Europa, em comparação com a quase indiferença norte-americana, Auster responde numa entrevista dada no início do mês ao jornal espanhol El Periódico [transcrição da notícia; tradução livre: AMC]:
«“Nos Estados Unidos corre tudo bem”, responde resguardando-se na iminência da pergunta do milhão de dólares. Porque tem uma melhor recepção na Europa do que nos Estados Unidos? “Tenho mais leitores na Alemanha, França e Espanha porque são países aonde ainda interessa a leitura. Nos Estados Unidos é um deserto”. Não se refere aos autores, mas aos leitores que, segundo ele, não têm em conta nem sequer os maiores [escritores], como Philip Roth, John Updike ou Don DeLillo. “Não se engane, eles não vendem muito por lá. Há anos que os escritores não interessam à televisão e tão-pouco lhes fazem entrevistas nos jornais. Em todo o país sobram somente dois ou três suplementos literários”.»
A seguir, como não poderia faltar a um Auster, ultimamente, mais interventivo em termos políticos, vem a zurzidela em George W. Bush e a responsabilidade do estado em que as coisas estão, e da sua influência no espírito do tempo americano contemporâneo.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Fôlego

Foi a palavra que me surgiu de forma espontânea, tremulando com toda a sua carga polissémica, assim que abri a página em branco do processador de texto, à laia da libertação automática de impulsos de Breton, para escrever alguma coisa e tentar caracterizar a obra de ficção literária que acabara de desfrutar por completo havia pouco mais de vinte e quatros horas.

[Este texto permaneceu encerrado na pasta de arquivo “não publicado”, que guarda os inúmeros ficheiros reprimidos deste blogue, há quase uma semana; um terrível ataque de pudor sem origem e razão certas, levaram-me a este indescritível aferrolhamento; bom, angústia, talvez advinda de uma lesadíssima auto-estima, ultrapassada].

A obra. Trata-se de As Três Vidas, o último romance publicado pelo jovem escritor lisboeta João Tordo (n. 1975) – o seu terceiro, depois de O Livro dos Homens sem Luz (2004) e do fascinante Hotel Memória (2007).
Fôlego: desmedido, em termos literários, em inspiração; meticuloso, ritmos narrativos bem medidos, uma urdidura tecida em filigrana, extraordinária gestão de expectativas; exigência, sem intervalos e outros intoxicantes, de uma leitura atenta, de uma paz de espírito que nos retire o complexo de culpa do consumo de tempo originado por uma vontade voraginosa de o ler de uma só assentada.
Uma abertura suficientemente cativante, auxiliada por um frontispício denodadamente ilusório:

«Ainda hoje, sempre que o mundo se apresenta como um espectáculo enfadonho e miserável, sou incapaz de resistir à tentação de relembrar o tempo em que, por força da necessidade, fui obrigado a aprender a difícil arte do funambulismo.» (pág. 11)

O protagonista, narrador omnipresente de uma história pontualmente feliz, matizada de uma pungente e indelével inquietude, uma pátina de melancolia, vivida durante um quarto de século, é um banal jovem lisboeta nascido em 1960, que terminando o liceu no início da década de 1980, procura emprego, após um hiato estival de indolência, como meio de ajudar a mãe, mentalmente perturbada após a morte prematura e trágica do pai, e a irmã de dezoito anos. Encontra-o, num anúncio de jornal. Irá trabalhar na Quinta do Tempo, situada nas cercanias de Santiago do Cacém, onde o espera um jardineiro muito especial, Artur, e um patrão esquivo e enigmático, de seu nome António Augusto Millhouse Pascal.
O trabalho é suficientemente repetitivo e enfadonho, que um cheque chorudo no final do mês não dá azo à desistência; catalogar e indexar as fichas de uma série de clientes que frequentam a Quinta, desconhecendo-se o objecto e a missão dos serviços que lhes são prestados.
Intercalada com o entra e sai de pessoas misteriosas de todas as nacionalidades, que de certa forma parecem ter estado ligadas a um passado brutal, surge a história dos três netos de Millhouse Pascal que calcorreiam os jardins da casa aos fins-de-semana – estudam em Cascais durante a semana num colégio inglês – de onde se destaca a jovem Camila, que depois da centelha inicial, despertou um fogo impetuoso e inextinguível no coração do pobre narrador, a que se junta o estranho desaparecimento de Adriana, a filha do patrão, que, segundo a própria filha Camila, apesar da integral perda de contacto com a progenitora, se encontra em Nova Iorque a praticar funambulismo.
Está dado o mote para o desenvolvimento de uma narrativa que, com a seus momentos decisivos, fatalmente directores das vidas dos personagens e do próprio local de todos os mistérios no Alentejo, conduzem o leitor a um labirinto emblematicamente borgiano, tão bem utilizado por Auster nas suas narrativas do acaso, a que se junta o insólito arrevesado tipicamente kafkiano; a obstinação sem fim à vista.

Borges, um leitor atento e apreensivo de Kafka, referia-se-lhe como o escritor da postergação infinita – aludindo ao paradoxo de Zenão de “Aquiles e a Tartaruga”, da busca perpétua –, cuja presença o autor argentino identificava com maior acuidade em dois dos seus três (inacabados) romances, O Castelo (Das Schloss, 1925) e O Processo (Der Prozess, 1925), e em alguns dos seus contos, onde aquele destacava a narrativa curta “A construção da muralha da China” (Beim Bau der Chinesischen Mauer, pub. 1931) como o paradigma dessa postergação, de infinito múltiplo.
As Três Vidas, o último romance de João Tordo, tem, de certa forma, matizes kafkianos na estrita medida do qualificativo definido por Borges, implicando, para isso, que da leitura da obra se tivesse verificado o uso (mais ou menos consciente) das seguintes premissas: a subordinação e o infinito – que Borges afirmava serem obsessões do jovem Kafka, e que, de certa forma, influenciarão, definitivamente, a sua extensa obra, plena de circularidades e perpetuidades.
A subordinação concentrada no personagem aglutinador de toda a trama, o misterioso António Augusto Millhouse Pascal, leva o narrador a uma viagem detectivesca no espaço e no tempo, ou seja, servindo-se do cruzamento das duas dimensões para tentar entender o alvoroço da sua situação presente. Todavia, mesmo que surjam as respostas para as suas inquietações através do achamento de determinadas pontas soltas, a que o narrador atribui a autoria ao mero acaso, a insatisfação subsiste, o convencimento da insignificância da sua existência é o obstáculo para a obtenção de uma visão geral multifacetada, que lhe escorre por entre os dedos como água, sem hipótese de a deter.
Em João Tordo, ou na sua obra, que uma simples releitura de Hotel Memória pode confirmar, não há soluções finais, nem desenlaces; existe antes a aparência de um fim, como uma imagem para dúvida existencial, para o desassossego, para a contínua dilaceração da alma.

«Se eu fosse um homem diferente, com mais imaginação, talvez pudesse acreditar – e fazer-vos acreditar – que os mistérios que perpassaram esta narrativa irão, um dia, encontrar a sua resposta; estou convencido, contudo, de que muitas coisas permanecem eternamente veladas e, com o passar do tempo, aprendi a viver com esta resignação. Por vezes, claro, é impossível evitar os enigmas que me atormentam (…); e, ao desejar sarar as minhas feridas com a lógica absurda deste mundo que, a cada hora que passa, me parece mais distante, zombando dos espíritos que ousam desafiá-lo, compreendo a inutilidade desta empreitada.» (pág. 301)

E não é este o mistério da vida?

Que se me perdoe o ar de graça com a hipérbole paradoxal, As Três Vidas é uma obra de um sufocante fôlego literário.

Classificação: ***** (Muito Bom)

Referência bibliográfica:
João Tordo
, As Três Vidas. Matosinhos: QuidNovi, 1.ª edição, Setembro de 2008, 304 pp.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

As Novidades

Vladimir NabokovSegundo Isabel Coutinho, regressada da Feira do Livro de Frankfurt, a Editorial Teorema comprou os direitos para publicação para Portugal do romance inédito de Vladimir Nabokov (1899-1977), The Original of Laura, que havia despoletado um aceso debate no mundo das letras, dadas as instruções específicas do autor russo em leito de morte na Suíça para que Véra (1902-1991), a sua mulher, destruísse o manuscrito. Véra morreu em 1991 e deixou a “batata quente” nas mãos do insuportavelmente agreste e evasivo filho de ambos, Dmitri (n. 1934), que andou a brincar durante os últimos anos ao “queimo/não queimo” com os pacientes editores, críticos e jornalistas literários, gerando um chorrilho de especulações quanto ao conteúdo do misterioso manuscrito, composto por 125 ficheiros de indexação – para quem leu Na Outra Margem da Memória (Speak, Memory; 1951, rev. 1967) e Opiniões Fortes (Strong Opinions, 1973), sabe que este era o método de composição utilizado por Nabokov nas suas obras. A conspiração dos letrados envolveu Petrarca, Ticiano, Giorgione, putativas traições passionais reveladas, e por aí fora. Se a especulação tem durado, certamente que o pobre Vladimir Vladimirovich não teria escapado aos ovnilogistas, à Cientologia e a Tom Cruise, e até às conversas privadas com o Altíssimo da emissária Alexandra Solnado.


Roberto BolañoTambém de forma misteriosa, surgiu mais um manuscrito do autor chileno Roberto Bolaño (1953-2003), intitulado de El Tercer Reich, eventualmente escrito antes de Os Detectives Selvagens (Los Detectives Salvajes, 1998), e que entra pelo mundo dos fanáticos alienados dos jogos de estratégia, em que o protagonista, inventor de um jogo de realidade virtual (jogado em tabuleiro) denominado por “O Terceiro Reich” e participante alemão num torneio mundial, se desloca à Costa Brava espanhola para umas férias com a sua namorada, cujo jogo assume o papel de encruzilhada no entretecer de uma teia onírica de proporções cataclísmicas para o jovem autor. Não consegui descortinar pelo texto de Isabel Coutinho se os direitos desta publicação haviam ou não sido adquiridos pelo editor Carlos Veiga Ferreira da Teorema – editora que já havia publicado de Bolaño Os Detectives Selvagens e Estrela Distante (Estrella distante, 1996). No entanto, num país que ainda tem por publicar o magistral 2666 (2004) – obra póstuma, composta por cinco livros, que Bolaño pretendia ver publicados separadamente, com uma periodicidade anual, para garantir uma fonte de sustento à sua família –, e que ainda não publicou a esmagadora maioria da sua obra, acho, no mínimo, extravagante (a tal singularidade lusa que não me canso de repisar) que se opte pela publicação do manuscrito emergido das trevas, e isto apesar da datação posterior de 2666. A ver vamos.


Paul AusterPhilip Roth
Para 2009, no mundos dos vivos e sem manuscritos secretos para combustão ou qualquer outro uso que se queira dar ao papel, regressam ao, ou melhor, não saem dele (do), mercado os incansáveis autores de origem judaica, nascidos em Newark, Paul Auster (n. 1947) e Philip Roth (n. 1933) – têm, nos últimos anos publicado uma obra de ficção por ano. Auster regressa com Invisible, obra garantida para Portugal pela Asa. Roth com The Humbling, romance garantido pela Dom Quixote.

sábado, 13 de setembro de 2008

Sult, Knut Hamsun

Mesmo nos confins deste país desequilibrado (por exemplo, hoje a TSF no noticiário das 15 horas... perdão, das 14:58 emitiu durante 11 minutos ininterruptos as várias facetas do carricídio perpetrado, em plena luz do dia, por duas árvores centenárias, que se saldou na vil destruição de meia dúzia de inocentes automóveis, inundando-nos com entrevistas a vizinhos, um vereador, proprietários registados das vítimas, uma meteorologista com um nome inconcebível e outras testemunhas ocasionais e assaz comovidas... só faltaram os astrólogos e, claro, ninguém auscultou as vetustas árvores, porventura discriminadas por se tratar de mera flora...) continuo atento ao mercado editorial português. A Cavalo de Ferro reedita o magnum opus do escritor norueguês, Nobel da Literatura em 1920, Knut Hamsun (1859-1952), publicado originalmente em 1890, Sult (a.k.a. Hunger em inglês) – Fome.

Apesar das suas desprezíveis simpatias hitlerianas, exaltando as qualidades de liderança de um dos maiores monstros da História do século XX, são inegáveis as suas qualidades literárias confirmadas com este romance dilacerante, escrito quando o pai do nazismo ainda não havia largado as fraldas, e, curiosamente, quarenta anos antes de o maior monstro do século passado (Koba, ou Iosif Vissarionovich Dzhugashvili, mais conhecido por Estaline*, o homem de aço) usar a FOME de dezenas de milhões como a principal arma de propagação do Grande Terror, que o camarada Lenine não teve tempo (e conceda-se, nem coragem) para acabar através do seu Terror Vermelho.

Ei-lo, com introdução de um dos escritores contemporâneos que sempre se confessou um dos maiores admiradores do laureado escritor norueguês, influenciando, de forma explícita, a sua já extensa obra, Paul Auster (n. 1947):


*Nota: texto escrito usando o tipo de letra Georgia.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Um homem que brilha no escuro

Treze dias passaram desde a data de publicação do último texto neste blogue. A modorra estival que sobre mim sói abater-se neste mês – o oitavo, pelo calendário, e verdade seja dita, também só restavam outros dois –, onde se esfumam os minúsculos resquícios de sanidade deste povo cultor da mediocridade, impede-me que prossiga escrevendo; talvez me solidarize, ou então, trata-se apenas de um sinal, de um terrível lembrete da minha inescapável condição de autóctone. Temo, por isso, sofrer dos mesmos males que afectam essa massa de arraialeiro-consumistas arquetípicos que dá corpo ao país que me viu nascer.
Querem melhor do que as justificativas para a participação desastrosa da nossa comitiva olímpica (valha-nos Santa Vanessa de Perosinho!): a humidade, o vento, os árbitros ou os juízes do judo, as provas matinais (hora para, em cima da almofada babada, dizer à caminha o quanto gostamos dela – aquele lançador do peso…), e até o desarranjo psíquico. Apenas um, que curiosamente é nigeriano de nascença, teve a humildade de reconhecer que as suas, outrora admiráveis, capacidades como atleta estão diminuídas – a idade não perdoa, especialmente, a um velocista – e que se retira para se dedicar de corpo e alma à sua fundação. Falo, é claro, de Francis Obikwelu.

Mas este regresso efémero – recolherei de imediato à lusa modorra – apenas teve que ver com um acontecimento literário: o meu, declarada e arrebatadamente, escritor preferido – e escusam de escrever na caixa de comentários, como já ocorreu, que é um autor cheio de debilidades – acabou de publicar (saiu para o mercado hoje mesmo no seu país natal) o seu 12.º romance – ou 14.ª obra de ficção para aqueles que preferem separar A Trilogia de Nova Iorque (The New York Trilogy, 1987) em três novelas, que de facto foram inicialmente publicadas em separado, entre 1985 e 1986. Trata-se do prometido Man in the Dark.

Releio incansavelmente o discurso de entrega do Prémio Príncipe de Astúrias de 2006. Concordo com cada linha e assumo que talvez seja por isso que entenda a literatura como a minha principal fuga para estes desvarios e irritações do quotidiano. A fuga ao real através da fantasia, da ilusão, através das histórias que nos são contadas por aqueles a quem concedemos a autoridade para a invasão do nosso imaginário.
Não é que a histórias de A Marquesa saiu às cinco horas não me despertem qualquer tipo de interesse, bem pelo contrário, encanta-me a estética do realismo literário, longe de algumas derivações contemporâneas do realismo: o histérico e o informacional, como crítica James Wood sem dó, nem piedade. Mas, como dizia André Breton, há que regressar aos contos de fadas, criando uma nova forma de contar histórias para gente crescida, retirando-lhes a fortíssima carga de puerilidade, tecendo mais fina a teia da inverosimilhança. No meu entender, Auster consegue-o, umas vezes com estrondoso sucesso, outras, infelizmente, a imperfeição humana, com menor brilhantismo; mas consegue, e isso é comprovável pela sua obra, construir a chamada narrativa do maravilhoso, preconizada pelo surrealista francês.

[Um exemplo cabal da narrativa do maravilhoso é o notável romance de 1978 do escritor chileno José Donoso (1924-1996) Casa de Campo e que foi publicado entre nós pela primeira vez este ano, sob a chancela da editora Cavalo de Ferro. O jogo da Marquesa saiu às cinco (expressão que Donoso retirou de Breton, e que este confessa que resultou de uma confissão de Paul Valéry), o trompe-l'œil, a descontinuidade, são de um empolgante enlevo literário, para além das sucessivas, encantadoras e inabituais interferências do omnisciente autor-narrador no decurso da história, chegando a dialogar com um dos seus inúmeros personagens.
Sobre ele gostava de aqui ter dito alguma coisa, mas a tal modorra/ausência/desencanto não mo vão permitindo.]

Correndo o risco de entrar para o Guiness (onde, decerto, estaria pneumaticamente mal acompanhado…) com o post mais longo de sempre da blogosfera, deixo-vos aqui, um excerto da primeira parte do novo romance de Paul Auster:

Paul Auster«Estou só na escuridão, alterando o mundo na minha cabeça à medida que vou combatendo outro ataque de insónia, outra noite em branco na desolação americana. Lá em cima, a minha filha e a minha neta estão a dormir nos seus quartos, cada uma igualmente só, a Miriam de quarenta e sete anos, a minha única filha, que passou a dormir sozinha nos últimos cinco anos e a Katya de vinte e três, filha única de Miriam, que costumava dormir com um rapaz chamado Titus Small, mas Titus está morto e Katya dorme sozinha com o seu coração partido.

Luz radiosa, depois as trevas. O sol disseminando-se por completo em todos os cantos do céu, seguido pelo negrume da noite, as estrelas silenciosas, o vento açulando os ramos das árvores. Tal é a rotina. Vivo nesta casa há mais de um ano, desde que me deixaram sair do hospital. Miriam insistiu para que eu viesse para cá e no início éramos só nós, com uma enfermeira de dia que cuidava de mim quando Miriam se ausentava para trabalhar. Então, três meses mais tarde, o céu abateu-se sobre Katya, abandonou a escola de cinema em Nova Iorque e regressou a casa para viver com a mãe no Vermont.

Os pais dele deram-lhe o nome do filho de Rembrandt, o rapazinho dos quadros, a criança de cabelos dourados com o barrete vermelho, o discípulo devaneante meditando profundamente sobre as suas leituras, o rapazinho que se tornou num jovem destruído pela doença e que morreu nos seus vinte e tal anos, assim como o Titus de Katya. É um nome assombrado, um nome que deveria desaparecer para sempre de circulação. Penso imensas vezes na morte de Titus, a história horrível daquela morte, as imagens dessa morte, as consequências demolidoras dessa morte na minha neta amargurada, mas não quero ir por aí agora, eu não posso seguir por aí neste momento. Tenho, tanto quanto possível, de atirar isso para longe de mim. A noite ainda é uma criança, e visto que estou aqui deitado a olhar para cima para escuridão, uma escuridão tão negra que torna o tecto invisível, começo a recordar-me da história que iniciei a noite passada. É isso que faço quando o sono recusa aparecer. Deito-me na cama e conto-me histórias. Elas poderão não acrescentar muito, mas enquanto permaneço dentro delas, elas impedem-me de pensar em assuntos que prefiro esquecer. A concentração pode ser um problema, todavia, e cada vez com mais frequência a minha mente afasta-se fortuitamente da história que tento contar rumo às coisas em que não pretendo pensar. Não há nada a fazer. Eu falho repetidas vezes, e essas são mais frequentes do que aquelas em que tenho sucesso, mas isso não significa que não lhe dedique a parte considerável do meu esforço.

Eu pu-lo num buraco. Pareceu-me um bom começo, uma forma promissora de prosseguir com as coisas. Pus um homem adormecido num buraco, e depois verei o que irá acontecer quando ele acordar e tentar rastejar para fora dele. Estou a falar de um buraco profundo no solo, com cerca de três metros de profundidade, cavado de maneira a formar um círculo perfeito, com paredes interiores alcantiladas formadas por terra tão densa e firmemente compactada que a superfície ganhou a textura de barro cozido, ou talvez até de vidro. Por outras palavras, o homem que está lá dentro será incapaz de se desembaraçar do buraco quando abrir os seus olhos. A não ser que esteja equipado com um conjunto de ferramentas de montanhismo – um martelo e espigões de metal, por exemplo, ou uma corda para enlaçar uma árvore que se encontre próxima – mas este homem não dispõe de ferramentas, e a partir do momento em que recuperar a consciência, rapidamente entenderá a natureza complicada da sua situação.

E assim acontece. O homem recobra os sentidos e descobre que está deitado de costas, olhando fixamente um céu crepuscular sem nuvens. Chama-se Owen Bricks e não faz a mínima ideia de como veio aqui parar, não tem memória de ter caído neste buraco cilíndrico, cujo diâmetro ele considera aproximar-se dos três metros e meio. Ele senta-se. Para sua surpresa enverga um uniforme militar feito de uma lá grosseira de tom pardacento. Tem uma boina na sua cabeça e calça um par de botas gastas de cabedal preto, atacadas acima dos tornozelos por um firme nó duplo. Existem duas listas militares em cada manga do seu casaco, indicando que aquele uniforme pertence a alguém com a patente de cabo. Essa pessoa poderá ser Owen Brick, porém o homem no buraco, cujo nome é Owen Brick, não se consegue recordar de, alguma vez na vida, ter servido em algum exército ou combatido numa guerra.

Em busca de uma qualquer explicação, ele assume que lhe infligiram uma pancada na cabeça e que temporariamente perdeu a memória. Quando põe a ponta dos dedos no seu escalpe e começa a procurar por inchaços ou golpes, ele não encontra, porém, qualquer sinal de tumefacção, nada de cortes, pisaduras, nada que sugira que tal lesão haja ocorrido. O que se passa, então? Terá sofrido alguma espécie de trauma debilitante que afectou uma grande parcela do seu cérebro? Talvez. Contudo, ele jamais terá maneira de o saber a não ser que regresse a memória desse trauma. Depois, ele começa a explorar a possibilidade de estar a dormir na sua cama em casa, aprisionado dentro de um qualquer sonho sobrenaturalmente lúcido, um sonho tão verosímil e intenso que a fronteira entre a fantasia e a consciência quase se dissipou. Se isso for verdade, então ele terá apenas de abrir os olhos, levantar-se num ápice da sua cama e ir para a cozinha preparar o seu primeiro café da manhã. Mas como podereis abrir os olhos se eles já estão na realidade abertos? Infantilmente, ele pestaneja algumas vezes, imaginando que esse acto lhe quebraria o feitiço – mas não há nenhum feitiço para quebrar e a cama mágica não é capaz de se materializar.

Um bando de estorninhos passa ao alto entrando no seu campo de visão por cinco ou seis segundos, desaparecendo depois na penumbra. Brick levanta-se para inspeccionar as suas imediações e enquanto o faz sente um objecto protuberante no bolso esquerdo da frente das suas calças. Era uma carteira, a sua carteira, e para além de setenta e seis dólares americanos, continha uma carta de condução emitida pelo Estado de Nova Iorque em nome de um Owen Brick, nascido a 12 de Junho de 1977. Isto só vem confirmar o que Brick já sabia: um homem aproximando-se dos trinta que vive em Jackson Heights, Queens. Ele também sabe que é casado com uma mulher chamada Flora e que nos últimos sete anos ele trabalhou como mágico profissional, actuando de preferência em festas de aniversário de crianças à volta da cidade, sob o nome artístico de Grande Zavello. Estes factos apenas adensam o mistério. Se ele está tão certo de quem é, então como é que ele acabou no fundo deste buraco, vestindo, sem mais, um uniforme de um cabo, sem papéis, chapas ou um cartão de identificação militar que pudessem provar o seu estatuto de soldado?

Não demora muito a aperceber-se de que escapar está fora de questão. A parede circular é demasiado alta e quando a pontapeia para amolgar a superfície e assim criar uma espécie de apoio para o pé que o ajudasse a trepá-la, o único resultado que logra alcançar é um dedo grande do pé dorido. A noite vai caindo velozmente e forma-se um tempo frio, um frio húmido e primaveril que lhe vai penetrando o corpo a pouco e pouco, e embora Brick comece a sentir algum receio, naquele momento ele ainda permanece mais confuso do que receoso. Não obstante, ele não se consegue deter em clamar por ajuda. Até agora, tudo se manteve silencioso à sua volta, sugerindo que ele se encontrava numa remota e despovoada extensão de terreno no campo, sem qualquer som excepto um ocasional gemido de um pássaro e o sussurrar do vento. Porém, como se estivesse ao comando, como se devesse a uma lógica torcida de causa e efeito, no preciso momento em que gritou a palavra SOCORRO, irrompe à distância fogo de artilharia e o céu escurecido iluminou-se por traços de cometas de destruição. Brick ouve metralhadoras, granadas a explodir e por trás de tudo isso, sem dúvida a quilómetros de distância, um coro sombrio de uivantes vozes humanas. Isto é a guerra, apercebe-se, e ele é um soldado nessa guerra, mas sem dispor de arma, nem forma de se defender perante o ataque, e, pela primeira vez desde que acordou dentro do buraco, ele está verdadeiramente assustado.

O tiroteio prossegue por mais de uma hora, depois dissipa-se gradualmente no silêncio. Não muito depois disso, Brick ouve o som desmaiado de sirenes, o que ele entende como sendo carros de bombeiros que acorrem aos edifícios que foram danificados durante o ataque. A seguir as sirenes também param e o silêncio assalta-o uma vez mais. Sente-se gelado e amedrontado, mas Brick está igualmente exausto e depois de ter andado à volta dos confins da sua prisão cilíndrica até as estrelas surgirem no céu, ele estende-se no chão e consegue finalmente adormecer.

Cedo, na manhã seguinte, ele é acordado por uma voz que o chama do topo do buraco. Brick olha para cima e vê o rosto de um homem que sobressai do rebordo, e uma vez que a cara é tudo o que ele consegue divisar, ele assume que o homem está estendido no chão sobre a sua barriga.

Cabo, diz o homem. Cabo Brick, é tempo de se pôr a mexer.

Brick levanta-se e agora que os seus olhos apenas se encontram a mais ou menos um metro do rosto do estranho, ele pode ver que o homem é um tipo de tez escura, de maxilar quadrado, com uma barba de dois dias e que enverga uma boina militar idêntica à dele. Antes de Brick poder protestar, tanto como gostaria de se pôr a mexer, ele não está em posição de fazer algo desse estilo, o rosto do homem desapareceu.

Não te preocupes, ele ouve-o a dizer. Nós tiramos-te daí já a seguir.

Uns instantes depois, segue-se um som de um martelo ou de uma marreta de ferro batendo ruidosamente num objecto de metal, e visto que, a cada martelada sucessiva, o som se ia tornando cada vez mais mudo, Brick imagina se o homem estará a espetar uma estaca no solo. E se for uma estaca, então talvez ser-lhe-á em breve amarrado um bocado de corda, e com essa corda Brick será capaz de trepar para fora do buraco. O estrépito pára, passam-se outros trinta ou quarenta segundos, e então, tal como havia previsto, uma corda desce até junto dos seus pés.»
Paul Auster, Man in the Dark, pp. 1-7
[tradução livre a partir da edição americana: AMC – New York: Henry Holt, first edition, 2008, 192 pp.]

Nota: foi actualizada a lista de obras, editadas em Portugal em 2008, por mim lidas e classificadas, que figura, desde o seu início, na coluna do lado direito deste blogue. Como se pode desde logo constatar, ao contrário das listas de 2006 e 2007, publicadas no Porque e no In Absentia, respectivamente, a lista deste ano, por manifesta falta de tempo e sobretudo de vontade, figura quase desprovida de “notas de leitura”.
Sic transit gloria mundi.

terça-feira, 8 de julho de 2008

MitD

UK US

«Estou só na escuridão, modificando o mundo na minha cabeça à medida que vou combatendo outro ataque de insónia, outra noite em branco na imensidão americana.»
Paul Auster, Man in the Dark (data de publicação: 21/08/2008) [frase de abertura; tradução: AMC]

quinta-feira, 20 de março de 2008

A fábula e o contador de histórias

É um terrível lugar-comum, mas atrevo-me a renová-lo afirmando que uma paixão não se explica, nem sequer se discute. Não há racionalidade que permita compreender o arrebatamento, a agitação, o caldeirão fervente de emoções humanas perante o objecto elevado à idolatria. Sou assim com Auster, como fui com outros ídolos da juventude, do futebol à fórmula 1, do cinema à música. Tive talvez a sorte (ou o azar, para muitos, os que censuram esta minha admiração incondicional) de me iniciar com A Trilogia de Nova Iorque (The New York Trilogy, 1987), que me levou a ler de uma assentada A Música do Acaso (The Music of Chance, 1990) e Leviathan (1992) – por feliz coincidência, continua a ser o meu trio preferido de obras de Auster, dos 165 conjuntos de três obras, diferentes entre si, que permitem combinar os 11 romances até hoje publicados e por mim lidos na íntegra (ou 13?*)
Depois, por esses tempos de frenesim austeriano percorri as livrarias e consegui encontrar Palácio da Lua (Moon Palace, 1989) e Timbuktu (1999) que acabara de ser publicada, e, ainda mais tarde, O Livro das Ilusões (The Book of Illusions, 2002) e A Noite do Oráculo (The Oracle Night, 2004). Para terminar com As Loucuras de Brooklyn (The Brooklyn Follies, 2005) e Viagens no Scriptorium (Travels in the Scriptorium, 2007).
Percorri páginas na internet, sítios de leilões e espaços físicos de livrarias e alfarrabistas, contactei a editora, mas nunca encontrei No País das Últimas Coisas (In the Country of Last Things, 1987) e Mr. Vertigo (1994). Resisti, tentando não infringir a velha regra que aponho na leitura enquanto divertimento: só leio em português, apesar de me poderem apontar os inconvenientes deletérios das traduções; mas se assim fosse, ficar-me-ia apenas pelos autores de língua inglesa e espanhola, e alguns franceses mais acessíveis, e jamais haveria lido Tchékhov, Gogol, Tolstói, Dostoievski, Walser, Benjamin, Kafka, Musil, Mann, Böll, Rilke, Eco, Calvino, Pirandello, Moravia, Pasolini, Mishima, Ibsen, Hamsun, Laxness e por aí em diante. Infelizmente não leio alemão ou russo ou até norueguês. Não navego em pensamentos com a Enterprise e os seus imaginosos aparelhos de tradução automática para Ferengis ou Klingons.

Que outra coisa senão uma verdadeira paixão é capaz de fazer invalidar um todo intrincado de princípios auto-impostos para tentar arrancar da existência uma alegria breve, efémera, asseverando conscientemente o merecimento da aplicação da pena que será, sabemo-lo, cumprida com zelo. Somos eminentemente livres, é certo, porém o paradoxo está na dificuldade em divisar que coordenadas usar no estabelecimento das barreiras dentro das quais podemos exercer essa tal liberdade, com vista a alcançar a inatingível quimera da felicidade plena – que insatisfação, que sede, que angústia… sinto-as, e a reflexão agrava-as. Assim, racionalmente derroguei o princípio, li, sem dramas e, em boa verdade e com bom senso, sem motivos para que os houvesse, In the Country of Last Things e Mr. Vertigo na língua em que originalmente foram publicadas.
Bom, para encerrar esta minha divagação estéril, bastaria referir que a insignificância da infracção em nada beliscou uma paixão que se vai estruturando – tem graça conjugar este último verbo com a volatilidade de um sentimento exaltado –, nem tão-pouco seria necessário travestir-me de Florentino Ariza à espera de Fermina Daza (a estreia cinematográfica de amanhã de gente das letras colombianas nobelizada levou-me a esta comparação no mínimo destemperada). A estupidez também tem limites; talvez os conceitos de paixão e de estupidez sejam irmãos no infortúnio.

Há três dias acabei de reler Mr. Vertigo, agora em português, na edição deste ano da Asa.
Li-o com a mesma avidez de um inédito. Cheguei às conclusões que havia chegado outrora; e não há muito mais a acrescentar às primeiras impressões retiradas da sua leitura na língua original. Curiosamente, o inestético frontispício escolhido pela editora portuguesa contém uma simples frase retirada de uma recensão de 1994 publicada no periódico britânico The Independent:

«Uma grandiosa obra de literatura pela mão de um monstro da fábula moderna norte-americana.»

Volto à prelecção Nobel de Doris Lessing e ao discurso de Auster em Oviedo a propósito do recebimento do Prémio Príncipe de Astúrias das Letras. Ambos, de maneiras diferentes, especularam sobre a aparente inutilidade da arte, em concreto da literatura: não sacia a sede, não mata a fome, não acaba com a miséria humana na luta pela sobrevivência; mas divisam a necessidade primordial que o Homem tem da fábula. A menina-mãe africana de Lessing que lê fragmentos de Anna Karénina, abandonados por quem tudo tem, enquanto espera sedenta com o filho amarrado ao corpo exposta ao sol quente de África que lhe encham a bilha de água potável, é uma das mais belas imagens dessa utilidade onírica da literatura. Não é um muro que se ergue para esconder o problema, é apenas o enriquecimento de um imaginário, do fortalecimento espiritual indispensável à própria sobrevivência; não é prostração, indolência ou desistência, é antes o cumprir somente humano de uma função vital: sonhar.

Mr. Vertigo é Auster a fazer uma vez mais um apelo deliberado às suas publicitadas influências literárias, nos tempos em que descobriu que escrever seria a sua missão enquanto vagueasse neste mundo: Dickens, mas sobretudo, como acaba por confessar em entrevista, Carlo Collodi e a versão não adulterada de Pinóquio.
Eis Walter Claireborne Rawley na primeira pessoa, no primeiro parágrafo da obra:

«Tinha doze anos quando caminhei sobre as águas pela primeira vez. Foi o homem de preto quem me ensinou a fazer isso e não vou pôr-me para aqui com histórias e dizer que aprendi o truque da noite para o dia. Quando o Mestre Yehudi me descobriu tinha eu nove anos e era um dos muitos órfãos que mendigavam nas ruas de Saint Louis, e só ao fim de três anos de um treino incessante é que ele me deixou mostrar as minhas habilidades em público. Isso aconteceu em 1927, o ano de Babe Ruth e Charles Lindbergh, esse mesmo ano em que a noite começou a cair sobre o mundo para todo o sempre. Continuei a trabalhar até poucos dias antes do crash de Outubro e devo dizer que aquilo que fiz nesse poucos anos foi maior do que tudo o que aqueles dois cavalheiros possam ter sonhado. Eu fiz o que nenhum americano tinha feito antes de mim, o que ninguém fez desde então.»
Paul Auster, Mr. Vertigo (pág. 7)

Mr. Vertigo é um conto de fadas que se vai transformando num épico americano. Não faltam as alusões ao Ku Klux Klan, ao desastre da Lei Seca, à dizimação dos índios, ao crash bolsista de Outubro de 1929 e à II Guerra Mundial, e as metamorfoses que um mendigo de nove anos vai sofrendo ao longo da sua vida, de miséria e de prosperidade, de fome e da abundância, de santidade e da mais extrema violência, do amor ao ódio exacerbado.
Retirado das ruas de Saint Louis, Missouri por um judeu de origem húngara, o Mestre Yehudi – uma percebida referência a mestre da ilusão Harry Houdini –, sob a promessa de um dia poder vir a voar, Walter Rawley (a sonoridade do seu nome muito próxima do de Sir Walter Raleigh não é fruto da coincidência, é antes o acaso materializado pela pena do seu principal efabulador) troca as ruas da sua cidade por uma zona desolada do Kansas, nas cercanias de Wichita, onde terá por companhia, para além do Mestre, um rapaz negro deformado, um pouco mais velho, com uma inteligência e uma cultura acima da média – que no futuro lhe garantirão a uma bolsa de estudo e uma entrada em Yale para iniciar os estudos universitários –, sugestivamente chamado de Esopo, e uma anciã índia, sobrinha do famoso Touro Sentado, da tribo Sioux, carinhosamente chamada de Mãe Sioux, a que não falta Mrs. Witherspoon (ou Mrs. W.), o último vértice de um triângulo quando a primeira tragédia, que se confunde com a história do racismo na América, bate à porta.
E, para mais não revelar, fico-me por estas já extensas palavras, sobre mais um romance; convicto, porém, de que o leitor, pelas mais diversas razões que se circunscrevem às emanações etéreas de uma obra deste tipo, dele não se conseguirá livrar nos tempos mais imediatos após o encerramento da página número 299, a última.
Abaixo do meu trio sagrado, A Trilogia de Nova Iorque, A Música do Acaso e Leviathan; quase a par com o duo Palácio da Lua e de No País das Últimas Coisas; mas ao nível do deslumbrantemente terno Timbuktu e do engenhoso Viagens no Scriptorium, Mr. Vertigo é imperdível… aliás, como todas as restantes obras deste judeu, que há 61 anos nascia em Newark, Nova Jérsia e que um dia respondeu à sua própria pergunta “Não sei porque me dedico a isto?”, desta forma:

«Nunca quis trabalhar noutra coisa.»

Classificação: ***** (Muito Bom)

Referência bibliográfica
Paul Auster, Mr. Vertigo. Porto: Asa, 1.ª edição, Março de 2008, 304 pp. (tradução de José Vieira de Lima; obra original: Mr. Vertigo, 1994).


Nota: *A contagem não é pacífica, embora, pela minudência da questão, não seja objecto de polémica. O 12.º romance de Paul Auster, Man in the Dark, vem a caminho, será publicado nos Estado Unidos no próximo mês de Agosto e, provavelmente, tê-lo-emos em português no próximo Natal. No entanto, há quem inicie a contagem das obras de ficção de meia e longa narrativa do autor norte-americano, a partir da novela ou romance curto “Cidade de Vidro” (City of Glass) publicado em 1985, desdobrando assim a famosa Trilogia, que prosseguiu com a publicação em separado de “Fantasmas” (Ghosts) em 1986 e que apenas ganhou corpo como um trio de obras com a conclusão de “O Quarto Fechado” (The Locked Room) no mesmo ano. Em 1987, por sugestão da editora inglesa
Faber & Faber, as três histórias formaram-se como partes integrantes e perfeitamente indissociáveis de uma só obra, A Trilogia de Nova Iorque e daí, dada essa trindade que apenas ganha sentido na unidade, preferir o “11” como número de obras de ficção publicadas por Auster, e isto, claro, no dia em que escrevo este texto.

quinta-feira, 13 de março de 2008

Literatura

«Ria-me nalgumas partes, chorava noutras, e que mais pode uma pessoa querer de um livro senão isso mesmo – a possibilidade de sentir o delicioso aguilhão da alegria e a ferroada terrível da tristeza? Agora que chegou a minha vez de escrever um livro, não há um único dia em que não pense em Esopo lá em cima no seu quarto. Já lá vão sessenta e cinco Primaveras, mas é como se eu estivesse ainda a vê-lo sentado à secretária, rabiscando no papel almaço, avançando na redacção das suas memórias juvenis, enquanto a luz que se coava pela janela fazia ressaltar as partículas de poeira que dançavam à volta dele. Se me concentrar um pouco mais, ainda consigo ouvir a sua respiração, o ar que entrava e saía dos seus pulmões, ainda consigo ouvir o aparo da caneta arranhando o papel.»
Paul Auster, Mr. Vertigo, pág. 94
(Porto: Asa, 1.ª edição, Março de 2008, 306 pp.; tradução de José Vieira de Lima; obra original: Mr. Vertigo, 1994)

terça-feira, 11 de março de 2008

O 6.º romance


Já está disponível nas livrarias a reedição do 6.º romance do autor norte-americano Paul Auster (n. 1947), agora sob a chancela da Asa, depois de se haverem esgotado há anos as duas primeiras edições a cargo da Editorial Presença.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Mand i mørke

Entenderam?
É o título do novo romance de Paul Auster (o seu 12.º)... em dinamarquês.
Tal como sucedeu com a obra anterior Viagens no Scriptorium (Travels in the Scriptorium, Jan/2007; Jun/2006 na Dinamarca), os dinamarqueses, uns austerianos de primeira água, assim como a generalidade dos nórdicos, irão poder desfrutar, com razoável antecipação, da estreia mundial de Man in the Dark, romance que só será publicado nos Estados Unidos no próximo mês de Setembro.




Nem me atrevo, sequer, a conjecturar sobre a data de publicação em Portugal…

Nota: via fonte (normalmente) bem informada, o blogue do basco Aitor Alonso.

terça-feira, 4 de março de 2008

Mr. Vertigo

Para um português amante de literatura, há pequenos nadas, talvez o sejam e assim permaneçam para essa massa informe de leitores lusos de Coelho, Allende, Sparks, Modignani e quejandos, que potencialmente se transformam em incomensuráveis irritações nos limites da autoflagelação por amor ao próximo – entenda-se vizinho.
Por mais que me esforce não consigo vislumbrar um fio de racionalidade no mercado editorial luso da denominada grande literatura. São títulos que se deixam de editar sem razão aparente, são outros de grandes autores que nunca conheceram as palavras de Pessoa, outros ainda que são dados como mortos, mas que convivem com o pó dos babilónicos armazéns das distribuidoras – e quem já não experimentou comprar pelo menos um exemplar desses tais que, apesar do irrepreensível aspecto exterior, assim que abertos lançam esporos da mais perigosa bicharada microscópica que o odor bafiento não deixa enganar.

(Já agora, a talho de foice, gostaria de sugerir a presença de equipas do INEM à porta desses eventos – a imagem de Rene Russo, Spacey e Hoffman, no filme de Wolfgang Petersen parece-me adequada como exemplo – especializadas em doenças de rápida disseminação bacteriológica por uma exposta população num pequeno raio de acção.)

Um dos mais belos livros de Auster (logo, da História da Literatura, e aqueles que, infelizmente, me vão conhecendo através destas miseráveis linhas diárias entendem a plausibilidade desta minha afirmação) encontrava-se esgotado há anos no mercado editorial português. Falo do admiravelmente mágico Mr. Vertigo – figura de estilo: austérbole, ou hipérbole austeriana, por vezes pode metamorfosear-se numa simples perífrase samsa(?) –, publicado originalmente por Paul Auster em 1994. É o seu 6.º romance – 8.º se desmantelarmos a Trilogia em Cidade de Vidro (City of Glass, 1985), Fantasmas (Ghosts, 1986) e O Quarto Fechado (The Locked Room, 1986) –, seguiu-se, então, à Trilogia de Nova Iorque (New York Trilogy, 1987); No País das Últimas Coisas (In the Country of the Last Things, 1987); Palácio da Lua (Moon Palace, 1989); A Música do Acaso (The Music of Chance, 1990) e Leviathan (1992).
Com efeito, a Editorial Presença editou logo no ano de 1995 a versão portuguesa do romance em epígrafe, que, segundo me dizem as fontes – da Moura, de Boliqueime, o próprio bruxo ex-padre de Vilar de Perdizes –, ficou-se pela 2.ª edição em 1997. De lá para cá, por mais pedidos às livrarias, missivas enviadas às editoras, contactos nas feiras dos livros, que houvesse levado a cabo, ninguém me soube responder cabalmente sobre o destino do aéreo Walter Claireborne Rawley – uma das personagens mais marcantes da bibliografia de Auster – e no meio disto tudo houve quem me instruísse que o autor usava saias e que já havia morrido com muito orgulho e algum preconceito
Nos últimos anos da década de 90 do século passado – a trabalheira que dá elaborar um texto sempre que se muda de século; para mim o século passado continua a ser o XIX, ou “chiche” como muitos lêem –, a Asa adquiriu os direitos de publicação das obras do autor judeu norte-americano, nascido em Newark a 3 de Fevereiro de 1947, fanático, como Roth – seu conterrâneo –, dos Mets – DeLillo é dos Yankees (menos um a gostar dos Yankees, presumo) –, residente e oficialmente declarado filho do bairro de Brooklyn – foi inclusivamente instituído o Auster Day – em Nova Iorque… ah, pois, a Asa desde então passou a editar não só as obras que Auster foi escrevendo e publicando, como reeditou algumas das anteriores que já existiam na bibliografia nacional sob outra chancela. Todavia, até o critério de reedição primou pelo absurdo editorial: a Asa reeditou as obras da Presença que ainda se podiam encontrar nos escaparates das livrarias, como por exemplo: A Música do Acaso, a Trilogia de Nova Iorque, Leviathan e Solidão Reinventada (obra de não-ficção que a Asa rebaptizou de Inventar a Solidão), excepto Palácio da Lua que, há um par de anos, alguns exemplares ainda poderiam ser descortinados nas livrarias. Quanto a Mr. Vertigo e No País da Últimas Coisas, nem vê-los – nem precisava dos itálicos para o título desta última obra dada a sua aplicabilidade a esta miséria de território.
Mas a LeYa, no seu arrebatamento luxurioso pelo vagabundo dos espaços Han Solo, levantou lubricamente a Asa e pelo menos (re)concebeu Mr Vertigo.
Eis o primeiro parágrafo, com tradução da casa:

«Eu tinha doze anos na primeira vez que caminhei sobre a água. O homem vestido de negro ensinou-me a fazê-lo, e não vou fingir que aprendi o truque da noite para o dia. O Mestre Yehudi encontrou-me quando eu tinha nove anos, era um órfão que mendigava por tostões nas ruas de Saint Louis, e trabalhou perseverantemente comigo durante três anos antes de me autorizar a exibir o meu número em público. Isso foi em 1927, o ano de Babe Ruth e de Charles Lindbergh, no preciso ano em que a noite começou a cair no mundo para sempre. Continuei a representar até poucos dias antes do crash bolsista de Outubro de 29, e o que eu fiz era maior do que algo que esses dois senhores pudessem ter sonhado. Fiz o que nenhum americano fizera antes de mim e que ninguém jamais fez desde então.»
[Tradução: AMC, 2008; a partir da versão original (em inglês) Mr. Vertigo (1994), New York: Viking Books (Penguin)].


Pronto, já só faltam as restantes 303 páginas e meia, espero que traduzidas pelo mais que habituado aos austerianismos José Vieira de Lima.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

On not winning the Nobel Prize

Doris LessingPor motivos de saúde Doris Lessing não compareceu à sessão solene de entrega dos Prémios Nobel de 2007, realizada em Estocolmo na passada segunda-feira, dia 10 de Dezembro. No entanto, a escritora britânica, nascida em 1919 na antiga Pérsia, enviou a prelecção (ou oração de sapiência) Nobel, parte integrante e indispensável do ritual dos galardões desde a sua fundação em 1901.
A prelecção de Lessing intitula-se “On not winning the Nobel Prize”, disponibilizada a 7 de Dezembro.
Sou franco, nunca li um livro de Doris Lessing, apesar de, a priori, lhe conhecer alguns dos seus traços biográficos mais marcantes – facto que, essencialmente, ficou a dever-se ao seu rutilante activismo literário –, conhecimento que aprofundei após a entrega do galardão no passado dia 11 de Outubro.
Li o texto, e lembrei-me da prelecção de Auster proferida a 23 de Outubro do ano passado na sessão de atribuição do Prémio Príncipe das Astúrias para as Letras de 2006, quando refere «Que sentido tem a arte, em particular a arte de contar histórias, no tal mundo real? Nenhum que me ocorra agora – pelo menos num sentido prático da coisa. Um livro nunca encheu o estômago de uma criança faminta.» (texto na íntegra,
traduzido por mim e publicado neste blogue em jeito de comemoração no dia em que Paul Benjamin Auster completou 60 anos).
Lessing pega no mesmo tema, introduz-lhe o sabor das histórias que povoaram o seu imaginário em terras africanas*, e, no seu final, narra a fabulosa história ficcionada de uma rapariga negra que, no meio da miséria provocada por um longo período de seca em África, enquanto aguarda numa fila de espera, ao pó e com os seus dois filhos pendurados nas suas vestes, para que um indiano lhe encha de água a vasilha que transporta, lê extasiada um fragmento de Anna Karénina de Tolstói... E de onde veio esse fragmento? Um simples pedaço de uma obra-prima da literatura universal poderá mudar uma vida?

Ler
aqui (em inglês) a excepcional e comovente prelecção de Lessing. A ela, à autora, prometo que irei voltar sob a forma da narrativa longa (vencida a barreira...)

Nota: *Lessing, no decurso do texto, aconselha os jovens escritores a não desistir perante a voracidade mediática do mercado literário nos tempos que correm, e diz:

«E nós, os velhos, apetece-nos sussurrar nesses ouvidos inocentes. “Ainda manténs o teu espaço? O teu solo, o teu lugar único e essencial onde as tuas próprias vozes te poderão falar, a ti sozinho, onde poderás sonhar. Oh, agarra-te a isso, não o deixes escapar.”» Doris Lessing, On not winning the Nobel Prize. Stockholm: Nobel Lecture, December 7, 2007. [tradução livre: AMC]

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Todas as canções (de amor) contam a mesma história

Louis Garrel em AS CANÇÕES DE AMOR
O acaso. Encontrei uma brecha para, com toda a propriedade de crítico de circunstância, poder zurzir em Auster pelo seu filme A Vida Interior de Martin Frost que, ao que por aí se diz e apelando à minha memória intermitente e nublada – outrora de elefante, segundo me juravam abonar os mais próximos –, repisada posteriormente pela crítica do Luís Miguel Oliveira, quanto menos dele se falar, menos amolgada sairá a imagem do autor.

Todavia, algo ou alguém, embora, à partida, haja encaminhado toda a minha fúria à máquina dispensadora de bilhetes de parque em urgente processo de actualização de software, impediu que chegasse à bilheteira a tempo de assistir à projecção de tão mal afamado filme. Não foi desta. Paciência.
Nem tudo se perdeu. À hora a que cheguei à dita bilheteira, após uma corrida (lenta) de elevador panorâmico, enjaulado com três catraias entre os 12 e os 14 anos a soltar impropérios discricionários, cuja grosseria faria corar uma peixeira do Bolhão, iniciava-se a exibição do último filme de Christophe Honoré, As Canções de Amor (Les chansons d’amour), com Louis Garrel como protagonista.
Sobre o filme não falarei, até porque há
quem dele haja falado com toda a propriedade. No entanto, não sei se é o espírito que se adapta à coisa e dela tem a percepção da sua plena maleabilidade para a satisfação do desejo, ou se a coisa por lá se queda esperando a nossa, e bem antecipada, comparência: o surgimento do inescrutável momento linear que nos transporta por vias ainda mais sinistras, obscuras, que parecem cumprir um objectivo há muito programado por uma mão pretensamente divina, onde apenas se nos apresenta o resultado final.
Outubro, o mês de todos os meus medos…
Foi em Paris que assisti à criação do nódulo que, de forma inexpugnável e definitiva, concretizado em morte onze meses depois, iria ensombrar e condenar uma vida, a minha vida, a uma dor atroz e perene pela falta que me fazes, pela tua partida a destempo, pela tua ausência.
Adiante…
Na imagem Louis Garrel, poderoso, austero, com a sua tão própria e paradoxal fleuma expressiva e camaleónica, uma das mais sólidas promessas no campo performativo do cinema mundial, vagueando pelas ruas de Paris, esplendorosa, imponente, características que, em concomitância com o mais negro dos sofrimentos, esmagam o desalentado ou aquele cuja fé se vai desvanecendo… o céu cinzento de Paris, a melancolia magistralmente captada por Honoré, e as canções… de amor de Alex Beaupain.

Alex Beaupain – “Au Parc” (cantada por Chiara Mastroianni)

Même soleil d'hiver
Mêmes bruits de brindilles
Le bout des doigts glacé
Le givre sur les grilles
Mêmes odeurs d'humus
La terre qui se terre

Tout y sera, tout y sera
A part toi

Parc de la Pépinière, fin de semaine,
Encore une heure, encore une heure à peine,
Encore une heure de jour et la nuit vient

Même température,
Le mercure à zéro
Même mélancolie fauve
Au portillon du zoo
Mêmes parents pressés,
Leurs enfants en manteaux

Tout y sera, tout y sera
A part toi

Parc de la Pépinière, fin de semaine,
Encore une heure, encore une heure à peine,
Encore une heure de jour et la nuit vient

J'aurais beau décalquer
Refaire les mêmes parcours
Reprendre les mêmes allées
Au mêmes heures du jours
J'aurais beau être la même
J'aurais beau être belle

Tout y sera, tout y sera
A part toi

Parc de la Pépinière, fin de semaine,
Encore une heure, encore une heure à peine,
Encore une heure de jour et la nuit vient
Et puis... rien.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Ruínas – (VnS IV, epílogo)

Quatro citações, ou melhor, três possíveis epígrafes e uma citação deliberada. A segunda serviu de epígrafe ao texto de onde foi retirada a primeira. O autor da terceira influenciou decisivamente os labirintos narrativos do autor da primeira, a quem este chamou em El conto policial de o Pai da literatura do género, criando com Os Crimes da Rua Morgue o primeiro mistério do quarto fechado – um crime é cometido dentro de um quarto onde aparentemente ninguém pôde entrar, sendo, ademais, descartada a hipótese de suicídio – e ambos são, declaradamente, duas fontes de inspiração primordiais para o autor da quarta citação.

«Com alívio, com admiração, com terror, compreendeu que ele próprio também era uma aparência, que outro estava a sonhá-lo.»
Jorge Luís Borges, “As Ruínas Circulares”, Ficções (Ficciones, 1944)

«E se ele deixasse de sonhar contigo, onde pensas que estarias?»
Lewis Carroll, Alice do outro lado espelho (Through the Looking Glass, 1871)

«Is all that we see or seem / But a dream within a dream?»
Edgar Allan Poe, A Dream within a Dream (1849)

«Não vai acabar nunca. Porque Mr. Blank é um de nós agora, e, por muito que se debata para compreender a sua provação, acabará sempre por se sentir perdido. […] Sem ele nós não somos nada, mas o paradoxo é que nós, as criaturas imaginadas por uma outra mente, sobreviveremos à mente que nos criou, já que, a partir do momento em que somos lançadas no mundo, continuamos a existir para sempre, e as nossas histórias continuam a ser contadas, mesmo depois da nossa morte.»
Paul Auster, Viagens no Scriptorium, pág. 114.


Depois do mais dissemelhante de todos os seus romances, As Loucuras de Brooklyn (Brooklyn Follies, 2005), Auster regressa à prosa metaficcional com Viagens no Scriptorium (Travels in the Scriptorium, 2007).
«O velho está sentado na beira da cama estreita, mão abertas fincadas nos joelhos, cabeça baixa, olhos fixos no chão.» (frase de abertura da obra, pág. 7).
O velho é Mr. Blank, um homem confuso, «encalhado no meio das criaturas que povoam a sua imaginação». Mr. Blank encontra-se fechado num quarto de uma só janela com a cortina corrida. Não sabe se a porta está trancada, não sabe se para lá da cortina poderá ver o mundo – que mundo? – enquanto ouve, lá fora, «o grito esbatido de um pássaro». Mas, de momento, aquilo que o atormenta é o não saber responder à pergunta primordial que abre todo um universo repleto de novas perguntas: «Quem é ele? Que faz aqui? Quando chegou e quanto tempo permanecerá aqui?» (pág. 7)
Blank não sabe, mas sobre si existe um mecanismo de vigilância que escrutina todos os seus movimentos. A tangibilidade resume-se a um conjunto de objectos, sobre os quais estão apostos rótulos com os seus respectivos nomes: um candeeiro, uma cama, uma secretária com um manuscrito nela pousado, uma cadeira, onde se senta e balança o corpo, e, de repente, sem o mínimo esforço, surge-lhe a primeira revelação, embora difusa, obscurecida, distante sem que consiga mensurar essa distância, fraca para responder às perguntas que o atormentam. Sobre o seu passado ocorre-lhe uma vaga memória de um cavalo de balouço, Whitey, «e que, na mente da criança que Mr. Blank foi, não era um objecto de madeira pintado de branco, mas um ser vivo, um cavalo de verdade», onde no seu dorso percorria os caminhos traçados pela sua imaginação. A imaginação como construtora da realidade.
A partir deste ponto ao quarto acorrerá um conjunto de pessoas diferentes entre si, cada um por sua vez, umas que o ajudam nas tarefas diárias, físicas e fisiológicas, essenciais à sua sobrevivência, e outras que, munidas de uma autoridade cujas origem e legitimidade não compreende, lhe recordam a árdua tarefa que tem pela frente, como uma pena que terá de cumprir pelo mal que lhes infligiu no passado.
Em Viagens no Scriptorium temos Auster numa reflexão profunda, apesar da enganosa superficialidade, talvez provinda de uma leitura negligente ou até intencionalmente desvirtuada, sobre a literatura e a arte de contar histórias, sobre o criador e a intertextualidade da sua obra, sobre a zona nebulosa entre a realidade e a ficção, o sonho e a verdade.
Nesta obra reencontramos Auster no seu campo predilecto, a navegar em territórios que só ele, de momento, sabe explorar: a efabulação metadiegética, quem manipula quem, quem conta a história, o confronto entre o criador e os sujeitos da sua criação, o epítome da narrativa circular que nesta obra é provida de personagens pertencentes a obras anteriores, aqui como lá forjadas pelo potencial onírico de um homem que quis contar histórias a um público ávido de ilusão, de um inebriamento provocado por uma sensação de plausibilidade ou de verosimilhança da sua mais arreigada utopia.
Não erro se disser que esta é uma obra do autor para os seus leitores mais fiéis. Auster completou 60 anos no ano de estreia de Viagens no Scriptorium, e os seus fãs agradecem-lhe, à laia de comemoração, o engenhoso desfile de personagens que povoaram os seus imaginários pelo acto, puro e simples, de leitura das suas obras de ficção que, para um austeriano, se conseguem identificar com alguma facilidade no decurso da narrativa: No País das Últimas Coisas, A Trilogia de Nova Iorque, A Noite do Oráculo, Palácio da Lua, Leviathan ou O Livro das Ilusões.
Auto-indulgente? Auto-referencial? Manipula sem critério os seus personagens, e com isso os seus leitores, julgando dispor de um poder especial de emanação divina?
Deixem-me sonhar, porque é com o sonho que me alento perante a realidade e com a criação artística que vou descobrindo a verdade.
Se parares de sonhar…
Escuro.

Classificação: ***** (Muito Bom)

Referência bibliográfica:
Paul Auster, Viagens no Scriptorium. Porto: Asa, 1.ª edição, Setembro de 2007, 115 pp. (tradução de José Vieira de Lima; obra original: Travels in the Scriptorium, 2007).


Já a seguir: Men in the Dark.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Elucidação – (VnS III)

Ópera: representação de Werther de Jules Massenet; Turim, Itália
Chama-me à razão este texto do Jorge no seu Yesterday Man – e eu que pensava que ao meu não iria voltar… ironizava, pois.
O desmiolado Werther – no início apenas um defeito mental, ainda nem sequer sonhara que a língua poderia ter destas literalidades semânticas –, perdido de amores por Carlota, comprometidíssima com o estóico Alberto na imaginária Walheim, deu um tiro na cabeça porque não teve a real consciência de que se tratava de um lírico, ou melhor, um tipo maçador, peganhento, enfim, um carrapato vampírico sugador da felicidade alheia.
Porém, mais desmiolados foram os seus seguidores que, catapultados por um doidivanas, resolveram fazer do tiro aos miolos o desporto nacional. O próprio jovem – o avôJohann Wolfgang nunca previra tais resultados, levando-o mesmo, mais tarde, a ridicularizar e a depreciar o seu próprio livro, escrito quando ainda tinha 25 anos de idade e numa fase em que atravessava a desolação de uma paixão avassaladora, por uma tal de Carlota, tão típica dos arrebatados espíritos românticos de jovens adultos.
O tio Émile negou a relação causa e efeito imediato, embora, confrontado com o caso das mortes miméticas, tenha referido que tal sofrimento induzido por via literária poderia, eventualmente, precipitar, ou conduzir a uma triste conclusão, quem, à partida, possuísse o bicho wertheriano – leia-se suicida – lá bem dentro da pobre e dúctil mioleira.
Nem o tio foi tolo, nem tão-pouco o avô engendrou uma arma artesanal de destruição em massa – para isso, embora mais tarde e com efeitos menos devastadores, dispunha de Fausto e do seu contrato com Mefistófeles, cuja relação deu origem a um livro bem mais pesado e por isso mais contundente e letal.

Em suma, o título do meu texto,
A Explicação de Durkheim, era sucedido de um código entre parênteses: VnS. Ora, a abreviatura corresponde a Viagens no Scriptorium, o título do último romance de Paul Auster, publicado em Portugal há 15 dias pelas Edições Asa. Como sou um austeriano dos sete costados, fui (e vou) protelando a publicação da minha opinião pessoal sobre a sua última obra. Continuo à espera que o tempo me traga algum discernimento opinativo, não embotado pelo putativo fundamentalismo literário.
Assim, fui publicando uma série de textos casuais – este é apenas o terceiro –, cuja única relação é o próprio romance, recorrendo a artigos sobre ele publicados por esse mundo fora.
A Explicação de Durkheim pretendia ser um texto irónico, ridicularizando alguns dos críticos – principalmente alguns ingleses e norte-americanos – que tentaram destruir a obra recorrendo a argumentos estapafúrdios e, por vezes, a roçar o mais baixo insulto pessoal.
Quando escrevi o dito texto, tinha em mente duas recensões que, há um ano, após a publicação do romance no Reino Unido (Outubro de 2006), me deixaram à beira de um estado de fúria irreprimível. Refiro-me ao texto de Alfred Hickling no jornal The Guardian, e mais especificamente ao da tem-tudo-para-ser-uma-boa-de-uma-arrivista
Deborah Friedell no Times Literary Supplement, onde surgiu um curto e esplêndido comentário de réplica, escrito por um leitor nova-iorquino, sobre o qual me inspirei para chamar Durkheim à colação. Eis o texto do feliz comentário:

«I stopped reading Paul Auster years ago for reasons eloquently laid out above. I don't mind him, he can't hurt you if you don't read him, but good Lord his admirers. I can only be grateful to newspaper reviewers who stick with overrated, self-satisfied writers and read their every new book, just so they can alert us in case they reform themselves. Hats off, Deborah. You are the mirror image of the canary in the coal mine. I'll risk a trip back in if you perk up.»

A literatura não mata, mas por vezes mói. Mas… por outras, mói tanto que, como Pável Vassílievitch, há sempre um benfazejo pisa-papéis à mão… mas, os jurados absolveram-no [“Drama”, conto de Anton Tchékhov]. Foi uma boa causa...

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Vida interior – (VnS II)

Em Espanha, na região autónoma do País Basco, decorre a 55.ª edição do Festival de Cinema de San Sebastián (ou, para os mais sensíveis, o Donostia Zinemaldia).
Paul Auster preside ao júri deste ano, composto por nomes como: o realizador britânico, de 39 anos, Peter Webber, dirigiu o terrífico Hannibal Rising e o premiado Rapariga com brinco de pérola; ou a actriz italiana Nicoletta Braschi, mais conhecida por ser mulher do pateta Roberto Benigni e haver protagonizado a grande maioria dos filmes que este dirigiu; ou ainda, a eterna promessa espanhola na área da interpretação cinematográfica, Eduardo Noriega.
No passado dia 23, em exibição fora do concurso, deu-se a estreia europeia do mais recente filme realizado por Paul Auster, co-produzido por Paulo Branco e rodado em 2006 numa casa de Sintra, The Inner Life of Martin Frost (na imagem, os protagonistas: David Thewlis e Irène Jacob).
A crítica internacional, e principalmente a espanhola, que assistiu à première – os americanos pronunciam-na “pri-meer” –, embora, à laia de preâmbulo, fosse inicialmente elogiosa, castigou Auster com a peroração de alguma lhaneza conceptual da obra, tomando como ponto de partida, ou em tom de justificação, a (de)formação e o talento eminentemente literários do autor norte-americano.
Eis um exemplo do que acabei de referir, pela pena de Ángel S. Harguindey, director-adjunto do diário espanhol
El País e crítico de cinema:

«Paul Auster é um dos mais brilhantes escritores contemporâneos. O seu talento literário está fora de questão. Outra coisa distinta é a sua vertente cinematográfica, uma ocupação que já não pode ser considerada como capricho pois o filme que apresentou ontem [23/09/2007], fora do concurso (Auster preside o júri do certame), é a sua terceira longa-metragem, depois de Blue in the Face (co-realizada com Wayne Wang) e Lulu on the bridge, para além de Smoke. A Vida Interior de Martin Frost narra uma história engenhosa sobre um escritor que decide descansar uns tempos numa casa longe do ruído do dia-a-dia, onde surge uma mulher estranha, que nos vamos apercebendo de que se trata da sua musa inspiradora e com a qual mantém uma enleante história de amor, tão plausível como fantástica. Os dois personagens e a casa são os protagonistas de um filme intimista, calmo, com diálogos divertidos e inteligentes, cuja ironia cresce quando aparecem dois personagens secundários: a bela filha de Auster e um admirável canalizador (Michael Imperioli, um dos protagonistas da série televisiva Os Sopranos) com vocação para autor de best-sellers. A questão chave é que Auster não domina a narração cinematográfica com a sabedoria que demonstra na Literatura, de tal modo que o filme conta uma história com estilo ingénuo e rudimentar.»
In El País, 24/09/2007 [tradução livre: AMC]

O guião de A Vida Interior de Martin Frost – cujo processo de escrita terminou em 1999 – apresenta algumas semelhanças com a obra mais metadiegética e borgiana de Auster, Viagens no Scriptorium, publicada em 2007, apesar de se basear num personagem ficcional dentro da ficção do romance O Livro das Ilusões (2002).
Na conferência de imprensa que se seguiu à exibição do filme, depois de algumas comparações que lhe foram feitas com Providence, filme de 1977 de Alain Resnais, ou com Swimming Pool, filme de 2003 do também francês François Ozon, Auster pronunciou-se sobre as críticas literária e cinematográfica, e referiu-se ao poder destruidor dos críticos quando movidos por um ódio apriorístico, centrados no autor e alheados da obra recenseada:
«Se, à partida, pretenderes odiar algo podes odiá-lo com a maior das facilidades, podes destruir qualquer obra mesmo que seja uma obra incrível… experimentem-no com uma obra de Shakespeare ou de Tolstói... é muito fácil.»
Depois citou uma frase de Siri Hustvedt, a sua mulher, escritora e crítica de arte, referindo-se à relação inevitável do artista e da sua obra com a crítica:

«A arte é como o sexo, se não se está relaxado não se consegue gozar.»