«Vocês têm vinte anos, são românticos, revoltados, ignorantes, esforçam-se por amar os ídolos da revolução mundial (há ainda, na época, qualquer coisa no mundo que usa esse nome “Revolução Mundial”), Marx ou Mao, alguns vão ainda mais longe no seu zelo e tentam convencer-se de que gostam de Estaline. Mas há em vocês uma inquietação, no fundo dessa zona livre e sonhadora que habita no vosso íntimo e que resiste ao culto dos líderes, à cobarde admiração pelos vencedores. Vocês são muito ignorantes, e no entanto sentem que a Revolução é um gesto cuja grandeza prometaica [sic] não resiste à sua própria vitória, que a Revolução vitoriosa vê o tempo dos burocratas e dos polícias suceder ao dos heróis, e que não há grande Revolução a não ser nos primeiros momentos incrédulos, e depois de ser assassinada. Rosa Luxemburgo lançada ao Landwehrkanal, num dia de gelo e de sangue em 1919, Che Guevara deitado como um Cristo deposto da cruz no lavadouro do hospital de Valegrande: o que há de menos vulgar e de menos servil em vocês pressente que é eles serem vencidos o que os faz tão gloriosos. A República espanhola, a Comuna de Paris, a sua história é para vocês uma epopeia porque é feita apenas de derrotas. E ninguém te emociona mais do que aqueles que são duplamente derrotados, porque foram mortos por uma causa na qual deixaram de acreditar. Fazes bem em defender-te, a personagem que te fascina já não é a do militante, mas a muito mais romântica, a do aventureiro. Porque tu desejas, ao mesmo tempo, a fraternidade e a solidão. Tu também te sentes “desenraizado” do mundo. Sombrio, intransigente, apaixonado, desesperado, Rossel* é um dos heróis dos teus vinte anos idealistas e teatrais.» [destaque a bold de minha autoria]Olivier Rolin, Um caçador de leões, pp. 87-88[Lisboa: Sextante, 1.ª edição, Outubro de 2009, 198 pp; tradução de Tiago França; obra original: Un chasseur de lions, 2008.]
«Glenn Gould said, "Isolation is the indispensable component of human happiness."» [Contraponto] «How close to the self can we get without losing everything?»
Don DeLillo, “Counterpoint”, Brick, 2004.
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
Os amigos da Revolução
terça-feira, 3 de novembro de 2009
IMPAC 2010
- 9 votos – Aravind Adiga, O Tigre Branco (ed. port. Presença, The White Tiger);
- 8 votos (3 obras) – Muriel Barbery, A Elegância do Ouriço (ed. port. Presença, L’Élégance du hérisson); Sebastian Barry, Escritos Secretos (ed. port. Bertrand, The Secret Scripture); e Toni Morrison, A Dádiva (ed. port. Presença, A Mercy);
- 7 votos (2 obras) – Joseph O'Neill, Netherland: Terra de Sombras (ed. port. Bertrand, Netherland); e Steven Galloway, O Violoncelo de Sarajevo (ed. port. Presença, The Cellist of Sarajevo);
- 6 votos (4 obras) – David Wroblewski, A História de Edgar Sawtelle (ed. port. Bertrand, The Story of Edgar Sawtelle); Philip Hensher, The Northern Clemency; Philip Roth, Indignação (ed. port. Dom Quixote, Indignation); e Tim Winton, Breath.
- Paul Auster, pelo seu penúltimo romance Homem na Escuridão (Man in the Dark) – 4 nomeações (Alemanha, Áustria, Bélgica e Itália);
- Siri Hustvedt, por Elegia para um Americano (The Sorrows of an American) – 3 nomeações (Bélgica, Espanha e Noruega).
- o ateu literalista (com falta de divino, não consciente) José Saramago foi nomeado pela Miami-Dade Public Library (Florida, EUA) pelo seu romance As Intermitências da Morte;
- o autor brasileiro Milton Hatoum foi nomeada por uma biblioteca brasileira pelo seu romance Cinzas do Norte;
- o sofrível romance do perseguido autor indo-britânico Salman Rushdie, A Feiticeira de Florença (ed. port. Dom Quixote; The Enchantress of Florence) recebeu apenas 1 nomeação (da Kansas City Public Library, Minnesota, EUA).
- José Eduardo Agualusa, As Mulheres do meu Pai (Dom Quixote) – 2 nomeações;
- José Rodrigues dos Santos, Codex 632 (Gradiva) – 2 nomeações;
- Toni Morrison, A Dádiva (ed. port. Presença; A Mercy) – 9 nomeações.
- Aravind Adiga, O Tigre Branco (ed. port. Presença; The White Tiger) – 8 nomeações;
- José Eduardo Agualusa, As Mulheres do meu Pai (Dom Quixote) – 2 nomeações;
- José Rodrigues dos Santos, Codex 632 (Gradiva) – 2 nomeações.
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
Aquilo que eu temia
«Obras de Don DeLillo / A publicar / Ruído branco / Underworld»
«Novidade de Outubro: Ruído branco, de Don DeLillo.»
- As mais de oitocentas páginas da versão original da obra; logo, potencialmente menos vendável, dispendiosa em termos de edição, e a exigir uma tradução original sem rede ou sem muletas de edições anteriores;
- A tradução já existente da Editorial Presença, cuja edição deverá estar prestes a esgotar, aliada – e torna-se imperioso realçar este aspecto – à notoriedade de uma obra consideravelmente menos volumosa – a 1.ª edição de 1991 da referida editora não passou das 325 páginas (irão ser 400 na versão da Sextante).
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
A pilha Murakami
sábado, 17 de outubro de 2009
João Tordo, com todo o mérito
«As Três Vidas, o último romance de João Tordo, tem, de certa forma, matizes kafkianos na estrita medida do qualificativo definido por Borges, implicando, para isso, que da leitura da obra se tivesse verificado o uso (mais ou menos consciente) das seguintes premissas: a subordinação e o infinito – que Borges afirmava serem obsessões do jovem Kafka, e que, de certa forma, influenciarão, definitivamente, a sua extensa obra, plena de circularidades e perpetuidades.»
terça-feira, 13 de outubro de 2009
Invisível
«Apertei-lhe a mão pela primeira vez na Primavera de 1967. Eu era, então, estudante do segundo ano em Columbia, um rapaz ignorante com um tal apetite por livros e com a crença (ou ilusão) de que um dia seria suficientemente bom para me intitular como um poeta, e porque lia poesia, eu já conhecia o seu homónimo no Inferno de Dante, um homem morto vagueando pelos versos finais do vigésimo oitavo canto do Inferno. Bertrand de Born, o poeta da Provença do século XII, agarrando a sua cabeça decapitada pelos cabelos enquanto esta vai oscilando como uma lanterna – seguramente, uma das imagens mais grotescas naquele catálogo volumoso de alucinações e tormentos. Dante era um defensor acérrimo da obra de de Born, mas condenou-o à danação eterna por este ter aconselhado o príncipe Henrique a rebelar-se contra o seu pai, o rei Henrique II, e uma vez que de Born promoveu a divisão entre pai e filho, tornando-os inimigos, o engenhoso castigo de Dante foi o de dividir de Born dele mesmo. Daí o corpo decapitado lastimando-se no submundo, perguntando ao viajante florentino se algum sofrimento poderia ser mais terrível que este.»
Paul Auster, Invisible, pp. 3-4.
[a partir da edição, New York: Henry Holt, 1st edition, 2009, 320 pp; tradução: AMC, 2009]
contar o visto, e em pavor perdura,
sem ter mais prova, o descrevê-lo só;
senão que a consciência me assegura,
pois boa companhia nos proteja
sob a couraça de sentir-se pura.
Decerto vi, e creio inda que veja
um busto sem cabeça a andar assim
como da triste creche o resto adeja;
a fronte da guedelha pende ao fim
duma das mãos à guisa de lanterna
e olhando para nós diz: «Ai de mim!»
De si ia fazendo a si lucerna,
e eram dois num e um era nos dois:
como ser pode, o sabe quem governa.
Ao pé da ponte erguendo-se depois,
alto levanta o braço com a testa,
pondo as palavras perto de nós, pois
que foram: “Ora vê pena molesta,
tu que respiras e vais vendo os mortos:
vê se alguma é tão grande como esta.
E por que leves novas dos meus tortos
feitos, sabe que sou Bertrand de Born,
que ao rei jovem prestou os maus confortos.
Eu fiz que filho e pai revel se torne:
Aquitófel não faz mais, que Absalão
e o pai David com más punções adorne.
Pois separei pessoas que eram tão
juntas, oh dor!, o cérebro deslaço
de seu princípio que é neste troncão.
Assim se observa em mim o contrapasso.”»
Dante Alighieri, A Divina Comédia: Inferno, Canto XXVIII, vv. 112-142, pp. 257-259
[Venda Nova: Bertrand, 5.ª edição, Dezembro de 2000, 894 pp; tradução de Vasco Graça Moura; obra original: (Divina) Commedia, 1304-1321.]
Pois parece que, de bom aviso, é necessário trazer de novo Dante à colação e o segundo vale (o da tal selva), descrito, por azar, no canto XIII, do sétimo círculo do Inferno, onde os corpos caídos são transformados em árvores espinhosas sem fruto, cravados em terra firme, desnudados perante a fúria rapace das harpias:
«Surge uma ervinha e planta brava resta:
e as Harpias lhe pastam toda a folha,
fazem-lhe dor e à dor dão uma fresta.
Iremos, como os mais, pela recolha
dos despojos, mas não para vesti-los;
que não é justo ter o que se tolha.
Na triste selva vamos destruí-los
e hão-de ficar-nos corpos pendurados,
co as más sombras, nas sarças a cobri-los.»
Dante Alighieri, op. cit., Canto XIII, vv. 100-108, p. 133.
Finalmente, o que diz o Papa – segundo a frase criptográfica de Dan Brown (“a knight a pope interred”):
«Some to conceit alone their taste confine,
And glittering thoughts struck out at every line;
Pleased with a work where nothing’s just or fit;
One glaring chaos and wild heap of wit. […]»
Alexander Pope, An Essay on Criticism (pub. 1711), vv. 289-292, p.15
[Charleston, SC: Forgotten Books, 2008, 37 pp.]
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
Finalmente em descanso
Frase de abertura:
«De pé no meio do bronzeado e exaltado gentio pós-natalício do Aeroporto Regional do Sudoeste da Florida, Coelho Angstrom tem a repentina e curiosa sensação de que aquilo com que se foi encontrar, o que flutua no invisível prestes a aterrar, não é o seu filho, Nelson, a nora, Pru, e os dois filhos destes, mas sim uma coisa mais agoirenta e intimamente sua: a sua própria morte, com a silhueta imprecisa de um avião.»
John Updike, Coelho em Paz, p. 9
[Porto: Civilização, Setembro de 2009, 539 pp; tradução de Carmo Romão; obra original: Rabbit at Rest, 1990]
domingo, 4 de outubro de 2009
Roth Nogueira Pinto
Philip Roth, Indignação, p. 52
[Algragide: Dom Quixote, 1.ª edição, Setembro de 2009, 175 pp; tradução de Francisco Agarez; obra original: Indignation, 2008.]
sábado, 26 de setembro de 2009
Follas Novas
Quando visitava Santiago (há, pelo menos, nove ou dez anos que não ponho lá os pés), um dos pontos imprescindíveis do roteiro turístico era a livraria “Follas Novas” – a Díaz de Santos ficava sempre para segundo plano.Independentemente da denominação impudica em castelhano – o nome da loja está em galego, em espanhol seria qualquer coisa como “Hojas Nuevas” –, e dos trocadilhos mais ou menos infelizes a que isso dava origem, havia sempre uma visita à bem apetrechada livraria de Montero Ríos, com os livreiros mais bem preparados e qualificados que encontrei de todas as livrarias que visitei até aos dias de hoje – naquela livraria existiam verdadeiras bases de dados antropomórficas.
Para quem irá ler o romance enciclopédico de Roberto Bolaño, 2666, recentemente publicado em Portugal – já o li na sua língua original e talvez leia a versão portuguesa – irá reparar, no segundo livro “La parte de Amalfitano”, na breve referência que é feita à livraria, quando Amalfitano abre a caixa que continha os seus livros e surge misteriosamente um livro de um tal Rafael Dieste, cujo título era Testamento geométrico – parte importante da narrativa:
«Buscó en la primera página y en la última y en la contraportada alguna señal y encontró, en la primera página, la etiqueta cortada de la Librería Follas Novas, S.L., Montero Ríos 37, teléfonos 981-59-44-06 y 981-59-44-18, Santiago. Evidentemente no Santiago de Chile, único lugar del mundo en donde Amalfitano era capaz de verse a sí mismo en un estado de catatonia total, capaz de entrar en una librería, coger un libro cualquiera sin siquiera mirar la portada, pagarlo y marcharse.
»Se trataba, era obvio, de Santiago de Compostela, en Galicia.»
Roberto Bolaño, 2666 (Barcelona: Anagrama, 2004, 1126 pp.)
Serviria de presente. O destinatário estava escolhido. E, naquela noite de 24 de Dezembro, houve um par de olhos que brilhou com maior intensidade pela sua veneração musical à “Iguana”. Esse par cuja fulgência se apagou, em definitivo, há quase 7 anos… Razão de ser tudo isto que para aqui despejo.
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
"Morrer é divertido"
A ironia final de Nabokov em 138 fichas de indexação, apresentadas na sua forma original e transcritas por Dmitri.
O livro (ou a pasta de arquivo literária) será publicado pela Knopf a 17 de Novembro próximo. Até lá, repousa no 21.º andar do edifício da Random House em Nova Iorque para consulta livre, com assinatura prévia de um documento de garantia confidencialidade absoluta pelo consultante.
«Brod em lágrimas, numa noite chuvosa, na rua dos ourives e alquimistas por baixo do castelo de Praga. Cruza-se com um livreiro muito conhecido: “Por que [sic] choras, Max?” “Acabo de saber que Franz Kafka morreu.” “Oh, lamento muito. Sei da tua estima pelo moço.” “Não compreendes. Ele ordenou-me que queimasse os seus manuscritos.” “Nesse caso terás de o fazer, pela tua honra.” “Não compreendes. Franz foi um dos maiores escritores da língua alemã.” Um momento de silêncio: “Max, tenho a solução. Por que [sic] não queimas antes os teus próprios livros?”»
In George Steiner, As Lições dos Mestres.
[Lisboa: Gradiva, 2.ª edição, Outubro de 2005, pág. 69; tradução de Rui Pires Cabral; obra original: Lessons of the Masters, 2003]
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
O mocassim perdido
Anuncio ao mundo que:
- Ainda há vida neste blogue – está em estado de hibernação intermitente;
- Havendo lido os quatro romances do autor – e, digo-o sem vergonha, O Código Da Vinci divertiu-me –, a minha vontade de ler o novo livro de Dan Brown aumentou de forma considerável só pela frase de O Símbolo Perdido que Christopher Tayler, crítico do Guardian, destacou na sua recensão [via destaque no blogue da revista Ler]:
«Este tipo fugiu à polícia francesa... em mocassins?»
[trad. AMC; lost in translation? Saio, madraçamente, de pantufas.]
domingo, 12 de julho de 2009
Divagação apartidária + John Berger
«Por muito boa que seja uma lei, ela é invariavelmente inapta. É por isso que a sua aplicação deveria ser disputada ou questionada. E a prática de fazer isto corrige a sua inépcia e serve a justiça.Existem leis más que legalizam a injustiça. Tais leis não são inaptas, porque elas reforçam, quando aplicadas, exactamente aquilo que se pretendia que reforçassem. E é preciso resistir-lhes, é preciso que sejam ignoradas, desafiadas. Mas é claro, compañeros, que o nosso desafio a elas é inapto!»John Berger, De A para X. Cartas de Amor, pág. 36[Porto: Civilização, Abril de 2009, 207 pp; tradução de Isabel Baptista; obra original: From A to X. A Story in Letters, 2008]
sexta-feira, 10 de julho de 2009
Bellow, a indiferença e o meu pathos

«Se não te importas, Asa, há uma coisa que quero sublinhar e ainda não percebeste. Não somos crianças. Somos homens vividos. É quase pecado ser tão inocente como tu és. Pensa. Está bem? Queres que o mundo inteiro goste de ti. Mas existem fatalmente pessoas que não gostam. Como eu gosto, por exemplo. Não te chega que algumas pessoas gostem de ti? Não aceitas o facto de que algumas pessoas nunca hão-de gostar de ti? (…) É uma questão de vida ou de morte?»
Saul Bellow, A Vítima, p. 75
[Lisboa: Texto, 1.ª edição., Março de 2006, p. 75; tradução de Sofia Gomes; obra original: The Victim, 1947]
sábado, 14 de fevereiro de 2009
Brooklyn, by Tóibín
Data de publicação no Reino Unido: 5 de Maio de 2009 (Viking).
Nocturnes, by Ishiguro

Data de publicação no Reino Unido: 7 de Maio de 2009 (Faber and Faber).
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
Suttree
Mais uma vez escrevo um texto neste blogue – que, parecendo que não, é um sinal de resistência às minhas tentativas de bloguicídio que surgem de forma intermitente há mais de três anos –, para felicitar, senão mesmo a melhor, uma das melhores editoras nacionais: a Relógio D’Água.Para os membros do seu corpo editorial, evidenciado na figura tutelar de Francisco Vale – editor principal que tem sabido resistir ao assédio provindo da febre aquisitiva, de índole oligárquica, dos empórios lusos dos meios de comunicação e editoriais –, não há ano de publicação de uma obra (por mais longínquo que tenha sido), número de páginas de um livro (por mais volumoso que este seja), autor (por mais esquecido, hermético ou desconhecido, assim apontado pelas ondas de intelectualidade literária emanadas da perene sapiência de alguns notáveis que integram determinados órgãos de outras casas editoriais), que os assustem ou desviem do seu objectivo primordial: publicar livros de qualidade, independentemente da sua capacidade para gerar receitas imediatas, engrandecer o volume de negócios para ostentação futura, muitas vezes com lucros diminutos ou até inexistentes, apenas para alimentar a empáfia mediática.
Existem edições menos bem conseguidas – é por demais inevitável que assim seja. Há falhas de diversos níveis e gradações – claro que as há. Insucessos potencialmente ruinosos. Mas essas falhas e esses insucessos são claramente minorados, reduzidos à sua insignificância, desde que a pontaria, afinada por anos de prática e experiência no mercado dos livros, vá permitindo que se acerte quase sempre no coração do alvo. Uma marca de gestão: acompanhar o mercado em aparente silêncio, sem uma estratégia de marketing mix deliberadamente ofensiva. Reflecte-se, por exemplo, num produto bem construído, havendo-se contratado os melhores tradutores; numa excelente política de preços; numa simples, mas estudada, política de distribuição do produto literário pelos principais livreiros; são actos de gestão que quase evitam uma política promocional excessiva, meramente esbanjadora de recursos – contudo, e é de primordial importância realçar, todos estes encómios desinteressados, não devem servir de desculpa para as fracas actualização, facilidade de navegação e interactividade da página da internet da referida editora; no momento presente, reveste-se de um carácter urgente uma intervenção de fundo que permita melhorar esta funcionalidade, um dos principais pontos de contacto entre o consumidor final e a casa editora, antes de o primeiro tomar a decisão de compra.
E qual é a razão de ser de todo o palavreado anterior?
A Relógio D’Água publicará em breve uma das obras lapidares do icónico escritor norte-americano, Cormac McCarthy, nascido em Providence, no Estado de Rhode Island em 1933, vive, actualmente, enclausurado no seu rancho no Novo México, longe dos focos mediáticos. McCarthy pertence ao grupo dos quatro grandes escritores americanos contemporâneos identificado pelo crítico literário e professor univeristário, criador de cânones, Harold Bloom – para além do escritor de Providence, o “bando dos quatro” inclui os escritores Philip Roth, Don DeLillo e Thomas Pynchon, grupo a que eu, na minha modesta opinião de amante das letras, haveria juntado John Updike (falecido no passado dia 27 de Janeiro), mas que por qualquer motivo (político ou religioso, quiçá meramente por critérios estético-literários) nunca caiu nas suas graças; consulte-se, a título de exemplo, a sua obra de 1994 The Western Canon: The Books and School of the Ages, na Parte IV “The Chaotic Age”, onde Updike é apenas incluído no cânone literário ocidental pelo seu romance As Bruxas de Eastwick (The Witches of Eastwick, 1984), atirando para segundo plano toda a obra notável e multidimensional deste prolífico ficcionista, poeta e ensaísta.
Regressando ao assunto principal deste texto, a casa dirigida por Francisco Vale editará mais uma obra de ficção de autoria de Cormac McCarthy: trata-se do romance, originalmente publicado em 1979, intitulado Suttree, que se estende, nas suas versões americanas, por quase 500 páginas. O personagem principal, que dá o nome ao livro, abandona uma vida familiar e profissional confortável na cidade para se refugiar nos bairros de lata de Knoxville, partindo numa digressão que muitos comparam à de Leopold Bloom no colossal Ulisses de James Joyce – à semelhança dos itinerários joycianos de Dublin, existe um percurso em Knoxville marcado pelos lugares por onde perambulou Suttree. Por outro lado, segundo refere a crítica, Suttree é o romance mais faulkneriano de McCarthy, com notas bem vincadas de Mark Twain – já só falta falar dos taninos… –, designadamente através do seu púbere personagem Gene Harrogate que se identifica com a rebeldia anárquica de Tom Sawyer.
Suttree é o quarto de dez romances de Cormac McCarthy. Segundo a opinião de muitos entendidos em matérias qualificativo-literárias, trata-se, até ao presente, do magnum opus do autor, apesar de cronologicamente se lhe seguir a obra magistral Meridiano de Sangue (Blood Meridian, 1985), essa sim, considerada por uma grande maioria de críticos e de leitores como o seu melhor romance – onde me incluo, apesar de ainda não haver lido a primeira.
Na sua edição pela Vintage (cuja capa figura na imagem acima reproduzida) – a Vintage é uma chancela da Random House, destinada a reeditar os romances consagrados em formato paperback –, figuram nas primeiras páginas, depois da ficha técnica, algumas frases que destacam a eminência e o brilhantismo do autor, uma delas pertence a um dos escritores mais bartlebianos de toda a literatura norte-americana, Ralph Ellison (1913-1994) – escreveu e publicou em vida apenas um romance, uma obra-prima, Homem Invisível (Invisible Man, 1952). Segundo Ellison, «McCarthy é um escritor para ser lido, admirado e, muito honestamente, invejado.» [tradução: AMC]
Sem perder tempo com traduções livres, uma vez que o livro deverá estar prestes a chegar às livrarias, deixo ficar o parágrafo de abertura do romance, capítulo inicial escrito em forma de prefácio pelo próprio protagonista da obra (atente-se nestas escassas oitenta palavras, estão bem presentes os sinais idiossincráticos mccartianos em alguns neologismos e na repetição exaustiva da conjunção copulativa “e” em detrimento da vírgula):
«Dear friend now in the dusky clockless hours of the town when the streets lie black and steaming in the wake of the watertrucks and now when the drunk and the homeless have washed up in the lee of walls in alleys or abandoned lots and cats go forth highshouldered and lean in the grim perimeters about, now in these sootblacked brick or cobbled corridors where lightwire shadows make a gothic harp of cellar doors no soul shall walk save you.»
Cormac McCarthy, Suttree. New York: Vintage, May, 1992, p. 3.
Romances de Cormac McCarthy (por ordem cronológica da publicação original):
- O Guarda do Pomar (ed. port. Relógio D’Água; The Orchard Keeper, 1965);
- Outer Dark (1968);
- Filho de Deus (ed. port. Relógio D’Água; Child of God, 1974);
- Suttree (ed. port. Relógio D’Água; 1979);
- Meridiano de Sangue ou O Crepúsculo Vermelho no Oeste (ed. port. Relógio D’Água; Blood Meridian, Or the Evening Redness in the West, 1985);
- Belos Cavalos (ed. port. Teorema; All the Pretty Horses, 1992);
- The Crossing (1994);
- Cities of the Plain (1998);
- Este País Não É para Velhos (ed. port. Relógio D’Água; No Country for Old Men, 2005);
- A Estrada (ed. port. Relógio D’Água; The Road, 2006).
Nota: tendo em consideração a tão distintiva penúria qualitativa do meio editorial português, o rácio “obras editadas em Portugal/obras do autor estrangeiro”, regista um coeficiente bastante aceitável: 0,7 (7/10 ou 70% dos romances de Cormac McCarthy já se encontram editados em Portugal).
sábado, 24 de janeiro de 2009
A Casa do Esquecimento
O romance do Fernando Dinis, A Casa do Esquecimento, vencedor do Prémio Literário Fnac/Teorema de 2008, já está à venda.«Um homem – Artur Poeira, nome já em si premonitório – é esquecido pelo próprio destino. Os “esquecidos”, são, mais tarde ou mais cedo, conduzidos à Casa do Esquecimento pelo seu Destino personificado. O que acontecerá quando um “esquecido” tem oportunidade de se tornar, ele próprio, o Destino de muitas outras pessoas? É essa incógnita, que este romance absolutamente invulgar, nos desvenda, numa narrativa cheia de suspense, a que não são estranhas as influências de Kafka e Murakami.»
quarta-feira, 14 de janeiro de 2009
Benjamin Button, um assalto retroactivo?
Porém, o alto padrão de vida que mantinham, e procuravam manter, associada à destruição progressiva de uma vida pela boémia permanente, transformaram o estúrdio Tenente Francis numa máquina de produção de contos e novelas, que eram pagos à peça em revistas da especialidade e não só. Francis escreveu perto de duzentos contos, para um período de escrita tão curto (1920-1940) e se lhe acrescentarmos os cinco romances, com destaque para o inigualável O Grande Gatsby (The Great Gatsby, 1925) e o magistral Terna é a Noite (Tender is the Night, 1934), assim como o projecto de romance que redundou no inacabado e espantoso O Último Magnate (The Last Tycoon), e outras dezenas de artigos que, tal como os contos, foram publicados em revistas de reconhecido mérito, como a Scribner’s, a Harper’s, a Esquire, a Kenyon Review, ou até a Vanity Fair, percebemos que Scott era um trabalhador incansável, que provavelmente o conduziu, outros abusos à parte, à sua morte prematura nas cercanias do Natal de 1940.
A 27 de Maio de 1922, a extinta revista Collier’s publica nas suas páginas (ocupando cerca de 9 páginas dessa edição) o conto The Curious Case of Benjamin Button, mais tarde integrado numa mão cheia de antologias de histórias do próprio autor.
Hoje, o mesmo conto faz parte do domínio público, podendo ser descarregado na íntegra e de forma gratuita, na sua versão original, nas páginas do Projecto Gutenberg [ficheiro Zip], integrado na colectânea Tales of the Jazz Age, publicada em 1922 pela editora Charles Scribner’s Sons.
Hoje, o conto de F. Scott Fitzgerald ressuscitou das cinzas. Narra a história de Benjamin Button, nascido em 1860 em Baltimore, no Estado do Maryland, com a estranha idade de 70 anos, e que rejuvenesce até ao alvor da conturbada década de 1930. Segundo dizem os livros, Scott Fitzgerald escreveu a história inspirando-se nas palavras de um dos mais brilhantes pais fundadores das letras norte-americanas, Mark Twain (1935-1910) – o homem cuja existência está ligada a um fenómeno assaz curioso, nasceu e morreu entre duas aparições consecutivas do famoso Cometa Halley, em datas muito próximas, em ambas as ocasiões, do seu perigeu –, que referiu que o homem devia nascer velho, quando as preocupações e todos os problemas de vários níveis o atormentam, e morrer no berço, sem consciência da morte.
David Fincher foi o realizador escolhido para levar ao ecrã a fantástica história de retroactividade existencial. Eric Roth foi o argumentista escolhido – vencedor de um Óscar em 1995 pela adaptação do romance de Winston Groom, Forrest Gump; foi o responsável pelos argumentos de filmes como O Informador (The Insider, 1999) de Michael Mann ou Munique (Munich, 2005) de Steven Spielberg, e pelo guião de autênticas aberrações fílmicas como O Mensageiro (Postman, 1997) de Kevin Costner, ou de O Encantador de Cavalos (The Horse Whisperer, 1998) de Robert Redford, ou do mau de mais para ser verdade Mr. Jones (1993) de Mike Figgis. Roth partiu da história original de Fitzgerald, e reconstruiu com a incansável Robin Swicord, uma história trasladada para o século XX e para a cidade de Nova Orleães, no Estado do Luisiana, quando esta é fustigada pelo furacão Katrina.
Entretanto, aproveitando os milhões aplicados na promoção do filme, a Editorial Presença resolveu publicar uma tradução inédita do conto de F. Scott Fitzgerald – que, como se referiu acima, tem pouco que ver com a história levada ao grande ecrã pelo realizador de Denver.
O livro dispõe de 75 páginas, com 61 páginas úteis (as que incluem a história, entre páginas em branco na mudança de capítulo, ficha técnica e título), com as dimensões de 23 por 15 cm, letra de tamanho 13, com margens bastante folgadas. E pasme-se: P.V.P. 10 euros.
Sobre o referido conto já não recaem direitos de autor, quando muito a editora teve de pagar à produtora do filme o direito de utilização das imagens da capa e da contracapa e os honorários (à cabeça ou em percentagem do volume de vendas) à tradutora (Fernanda Pinto Rodrigues).
Repete-se à saciedade que os livros em Portugal são caros. Não partilho dessa opinião e basta atentar nos preços normalmente praticados noutros países. Todavia, isso não significa que não deixe de considerar que os direitos de propriedade intelectual são ridiculamente baixos, principalmente no caso dos novos autores, face ao preço do produto final. No entanto, neste caso específico da publicação em Portugal de O Estanho Caso de Benjamin Button, o preço é excessivo, para não usar uma expressão mais severa e acutilante – para isso, basta o título deste texto…
Scott morreu em 1940, Zelda em 1948, Frances “Scottie” (filha única do casal) deixou o mundo dos vivos em 1986 com descendência que não renovou, ou nem tão-pouco herdou, os direitos de autor sobre as obras do avô.
O súbito e legítimo interesse dos leitores pela história epónima que serve de base ao filme de Fincher, levou a que editoras de todo o mundo a editassem usando uma de duas soluções: publicação em separado, retirando-a das quatro ou cinco antologias em que estava inserida; ou publicação de uma nova antologia cujo título era emprestado pelo próprio conto.
Eis seis exemplos:
- Alemanha – editado pela Diogenes, 70 pp., €5,90;
- Espanha – editado pela Lumen (de capa dura, inclui mais 7 contos), 272 pp., €18,90;
- Estados Unidos – editado pela Juniper Grove, 32 pp., $5,95 (aprox. €4,50 ao câmbio do dia);
- França – editado pela Gallimard (bolso, inclui mais 1 conto), 103 pp., €2;
- Itália – irá ser editado pela Guanda (livro ilustrado), 130 pp., €14;
- Reino Unido – editado pela Penguin (inclui mais 6 contos do autor), 208 pp., £7,99 (aprox. 8,78 € ao câmbio do dia).
Nota final: Em 19 de Junho de 2008, a propósito do anúncio da data de estreia da 7.ª longa-metragem de David Fincher, publiquei aqui o primeiro capítulo (de onze) do referido conto, com tradução, eminentemente livre, de minha autoria. A dita tradução corresponde ao intervalo fechado de páginas entre a 7 e a 18 da edição de 75 páginas da Presença; sendo a 18 uma página em branco, corresponde a 11 páginas úteis, num total de 61, ou seja, traduzi cerca de 18% da obra. Neste momento, sinto pena de não haver traduzido os restantes 82%, destinados àqueles que têm reais dificuldades com a língua inglesa… mas, porventura, seria trabalho de burro, sem recompensa recíproca, ou seja, o esforço não seria acompanhado de uma massagem blogosférica no ego com o aumento do número de visitas.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
A chama que se apaga
Falo de Auster, Paul Benjamin. Um homem cuja escrita teve o mérito de passar à primeira no meu crivo estético-literário com as obras de ficção que começou a publicar desde 1985, sublimadas em A Trilogia de Nova Iorque (The New York Trilogy) em 1987 e com continuidade nas restantes até 1999, com Timbuktu, e para não parecer tão severo e manifestar alguma da condescendência de um admirador típico, amplio o intervalo até ao ano de 2002 quando é lançado no mercado editorial O Livro das Ilusões (The Book of Illusions). De lá para cá, publica A Noite do Oráculo (The Oracle Night, 2004), As Loucuras de Brooklyn (o romance austeriano mais atípico; The Brooklyn Follies, 2005), Viagens no Scriptorium (Travels in the Scriptorium, 2006) e Homem na Escuridão (Man in the Dark, 2008), e enreda-se, ainda mais, nas teias da metaficção, no método das caixas chinesas e na narrativa desbastada ou sem atavios, magra, sem qualquer toque de génio, como se tratasse de um conjunto de caracteres despejados para páginas em branco que, por acaso, formam palavras e frases coerentes que, porém, não se ligam a outras frases ou a outras partes do texto.
É óbvio que, enquanto escrevo estas palavras, não me sai da cabeça o seu último romance (o tal que oferecia, ou ainda oferece, o inútil saco de pano assinado) que me partiu o coração tal como a morte de Titus fez ao de Katya – Auster já nem se furta aos clichés, usa-os como muleta, com uma urgência que não se compreende. Que diabo, é este o seu trabalho. Foi esta a profissão que escolheu, como tão bem proferiu no discurso de agradecimento em Oviedo no ano 2006 (Prémio Príncipe das Astúrias). Contar histórias e falar ao interior de cada leitor que ouve, lendo, a sua narração. Se as histórias são alimento e meio de sobrevivência da espécie humana, a falta, ou a perda total, dessa qualidade, por simples desperdício, preguiça, levaria o Homem à inanição intelectual, espiritual, e, por consequência, à morte e ao limiar da sua extinção.
Em Homem na Escuridão é-nos narrada a história de um homem septuagenário que se conta histórias para fazer com que a sua mente divirja das barbaridades que o foram assolando ao longo de décadas: a conturbada vida conjugal, os profundos desgosto e amargura da filha e o diletantismo pré-adulto da neta, que num arroubo deixou a Escola de Cinema em Nova Iorque para se juntar ao dueto familiar que se encontra a remoer o passado no Estado do Vermont. A filha escreve uma biografia sobre a obscura filha mais nova de Nathaniel Hawthorne, Rose e ele recupera das sequelas de um terrível acidente de automóvel no seu quarto escuro, onde engendra as histórias que o distraem da crueldade dos dias do seu quotidiano.
Os ingredientes para uma boa história estão lá. A receita, porém, acaba por estragar ou desperdiçar as propriedades individuais desses ingredientes, retirando-lhes os elementos que adicionados a outros potenciam, por sinergia, a perfeição do produto final.
A sensação que assalta o leitor não podia ser mais desagradável. Qual Tântalo esfaimado impedido de tragar os frutos suspensos à frente dos seus olhos. Embora, aqui, o fruto surja em formas difusas – o que poderia ter sido. Pontas soltas que não se unem. Histórias que ficam por contar. Uma infinidade de possibilidades que poderiam, sem esforço, encher uma meia estante de livros. As ideias estão lá, em bruto, prontas para serem lapidadas, calmamente desenvolvidas, à espera de ganhar o brilho espectral, iridescente e inimitável de uma história bem contada.
O protagonista e a neta, em alternativa de criarem um blogue, passam o seu tempo a assistir a filmes em DVD, em silêncio, com uma atenção crítica que mais tarde é verbalizada em troca de opiniões e pontos de vista. Depois, de forma heteróclita, a neta, assaltada por uma insónia, deita-se na cama do avô e falam da vida e dos filmes que viram. Auster chega ao cúmulo de debitar em papel autênticas recensões cinematográficas e as suas perspectivas sobre filmes de realizadores não-americanos, como Ozu, Renoir ou Satyajit Ray, sem objectivo aparente – ou que eu o tenha conseguido captar – para a história que se conta. Peças desconexas e perfeitamente expurgáveis, e se retiradas contribuiriam para emagrecer a obra como num processo de lipoaspiração – extrair a camada adiposa em excesso.
É apenas no fim do romance em que, perante a hecticidade literária das páginas anteriores, surge algum lirismo ligado a uma narrativa debilmente conexa, que necessitaria de mais páginas, de argumento, adjectivação… em suma, de tutano literário capaz de fazer retinir a campainha estética de um leitor minimamente exigente.
Nas sucessivas entrevistas que deu, Auster confessou que se limitou literalmente a despejar palavras para a sua máquina de escrever e que, entre a digressão mundial para a promoção do seu mais que zurzido filme – A Vida Interior de Martin Frost (The Inner Life of Martin Frost, 2007) –, só teve tempo de largar o manuscrito no seu editor americano sem mais considerações.
Como dizia Tom LeClair no The New York Times Book Review de 19 de Setembro de 2008:
«Depois, digamos, de 10 livros, os romancistas talvez devessem ser reexaminados, tal como acontece com os cidadãos mais idosos, cuja maior propensão para acidentes os obriga a renovar a carta de condução. Os veteranos de guerras literárias deveriam submeter, de forma anónima, um novo manuscrito aos agentes literários. Sobre Homem na Escuridão, suponho que diriam, “imitação de Paul Auster de terceira categoria.” Depois, o autor poderia decidir em acelerar a escrita de uma imitação de primeira categoria dos seus trabalhos passados de primeira categoria. Ou poderia escrever uma ofensiva de quarta categoria sobre os agentes literários.» [tradução: AMC]
Benjamin, por favor, renova a tua carta.

