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quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Os amigos da Revolução

Há anos, surgiram nos Estados Unidos – o Império do Mal, responsável por todos os cataclismos à escala global: políticos, económicos, sociais, culturais, ambientais, tecnológicos –, pela evolvente propiciatória da livre iniciativa e do mercado concorrencial, empresas privadas que se dedicam à limpeza das “zonas de crime”: lavam carpetes, tapam os buracos de balas perdidas, repõem o stock de picadores de gelo (quiçá de picaretas mexicanas, com a marca de água do NKVD) e de conjuntos lustrosos de facas de cozinha; só não garantem a desinfecção do idealismo e da mitomania do coitadinho – está ainda para surgir um insecticida iconoclasta. Mas sobre a mitomania revolucionária, deixo as despesas do verbo a quem conhece (por palavras e actos) o assunto por dentro, Olivier Rolin (n. 1947):
«Vocês têm vinte anos, são românticos, revoltados, ignorantes, esforçam-se por amar os ídolos da revolução mundial (há ainda, na época, qualquer coisa no mundo que usa esse nome “Revolução Mundial”), Marx ou Mao, alguns vão ainda mais longe no seu zelo e tentam convencer-se de que gostam de Estaline. Mas há em vocês uma inquietação, no fundo dessa zona livre e sonhadora que habita no vosso íntimo e que resiste ao culto dos líderes, à cobarde admiração pelos vencedores. Vocês são muito ignorantes, e no entanto sentem que a Revolução é um gesto cuja grandeza prometaica [sic] não resiste à sua própria vitória, que a Revolução vitoriosa vê o tempo dos burocratas e dos polícias suceder ao dos heróis, e que não há grande Revolução a não ser nos primeiros momentos incrédulos, e depois de ser assassinada. Rosa Luxemburgo lançada ao Landwehrkanal, num dia de gelo e de sangue em 1919, Che Guevara deitado como um Cristo deposto da cruz no lavadouro do hospital de Valegrande: o que há de menos vulgar e de menos servil em vocês pressente que é eles serem vencidos o que os faz tão gloriosos. A República espanhola, a Comuna de Paris, a sua história é para vocês uma epopeia porque é feita apenas de derrotas. E ninguém te emociona mais do que aqueles que são duplamente derrotados, porque foram mortos por uma causa na qual deixaram de acreditar. Fazes bem em defender-te, a personagem que te fascina já não é a do militante, mas a muito mais romântica, a do aventureiro. Porque tu desejas, ao mesmo tempo, a fraternidade e a solidão. Tu também te sentes “desenraizado” do mundo. Sombrio, intransigente, apaixonado, desesperado, Rossel* é um dos heróis dos teus vinte anos idealistas e teatrais.» [destaque a bold de minha autoria]
Olivier Rolin, Um caçador de leões, pp. 87-88
[Lisboa: Sextante, 1.ª edição, Outubro de 2009, 198 pp; tradução de Tiago França; obra original: Un chasseur de lions, 2008.]

*[nota minha]: Louis Rossel (1844-1871), coronel do Exército Francês, o único oficial a juntar-se à Comuna de Paris (em Março de 1871), como resistente à invasão prussiana da França, e a capitulação desta perante Guilherme I e o seu chanceler Otto Bismarck. Morreu fuzilado perante ordens do presidente Adolphe Thiers, que esmagou a insurreição e destruiu a Comuna quarenta dias depois de haver sido instituída.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

IMPAC 2010

[Há pelo menos três anos que este texto se vai repetindo, como a biblioteca borgiana, tendendo para um infinito – se me julgasse eterno… –, apenas com algumas alterações numéricas que, muito ao jeito do pragmatismo anglo-saxónico, se constrói pelo emprego do método “fill in the blanks”. Tentarei, porém, mudar alguma coisa. Nem que seja uma vírgula, uma palavra pelo seu sinónimo directo (ou até por um erro ortográfico grosseiro, um obstinado apelo à atenção do leitor), vários pontos de exclamação (tão vituperados, ultimamente, ó símbolo viril; tratados como proscritos e condenados à chama com poder calorífero decerto superior a 451ºF onde jazem as cinzas das “reticências”, do “ponto e vírgula” e do “travessão”). Basta! Enfim…]

Ontem, foi anunciada a lista dos semifinalistas do International IMPAC Dublin Literary Award. A lista deste ano é constituída por 156 romances (mais 10 que em 2009) de outros tantos autores.
Nesta primeira fase de selecção intervieram 163 bibliotecas (mais 10), espalhadas por 123 cidades (mais 6) de 43 países (menos 4) de todos os cantos do mundo.
Segue-se, agora, uma 2.ª fase, a cargo de um júri pré-seleccionado constituído por cinco elementos, e presidido por um sexto sem direito a voto, neste caso é o famoso juiz/escritor norte-americano Eugene R. Sullivan (tal como no ano passado). A primeira tarefa do júri é desbastar a lista inicial, seleccionando aproximadamente dez obras que integrarão a lista de finalistas, cuja divulgação está marcada para o dia 14 de Abril de 2010.
Escolhidos os finalistas, atinge-se a 3.ª e última etapa, que consiste na eleição da obra vencedora dos cem mil euros em jogo que reverterão na íntegra para o autor, no caso de a obra seleccionada ter sido publicada originalmente em língua inglesa, ou serão repartidos numa proporção de ¾ para o autor e ¼ para o tradutor nos outros casos – note-se que das 156 obras seleccionadas este ano, 41 foram traduzidas para o inglês. O vencedor do IMPAC Award de 2010 será anunciado no dia 17 de Junho de 2010.
A curiosidade deste prémio reside precisamente nestas duas fases distintas de selecção, onde há a intervenção de especialistas de dois níveis distintos: bibliotecários, na 1.ª fase, e autores, críticos, editores e gente das letras nas duas últimas fases.
As regras para as bibliotecas seleccionadas através de candidatura previamente elaborada são bastante simples:
- O Dublin City Council, através da administração das bibliotecas públicas da cidade de Dublin recebe uma lista de obras de ficção nomeadas por responsáveis de bibliotecas espalhadas pelas capitais e principais cidades de países de todo o mundo.
- Cada biblioteca pode nomear até 3 obras de ficção que apenas têm de obedecer a uma condição: a sua publicação em língua inglesa.


Para o prémio de 2010 só poderiam ser nomeadas:
- Obras originalmente publicadas em inglês durante o ano de 2008;
ou,
- Obras originalmente publicadas noutra língua entre o quadriénio 2004/2008 e que hajam sido publicadas em inglês durante o ano de 2008.
Para o prémio de 2010, destacaram-se dez obras que obtiveram mais de cinco votos (entre as quais constam oito que já foram publicadas em Portugal, curiosamente, apenas distribuídas por 3 editoras: 4 da Presença, 3 da Bertrand e 1 da Dom Quixote), no total dos 300 votos exercidos (para um máximo de 489 votos) pelas 163 bibliotecas (1 biblioteca – 3 obras diferentes; 1 obra – 1 voto). Lidera a lista o Booker Prize de 2008:
  • 9 votosAravind Adiga, O Tigre Branco (ed. port. Presença, The White Tiger); 
  • 8 votos (3 obras)Muriel Barbery, A Elegância do Ouriço (ed. port. Presença, L’Élégance du hérisson); Sebastian Barry, Escritos Secretos (ed. port. Bertrand, The Secret Scripture); e Toni Morrison, A Dádiva (ed. port. Presença, A Mercy); 
  • 7 votos (2 obras)Joseph O'Neill, Netherland: Terra de Sombras (ed. port. Bertrand, Netherland); e Steven Galloway, O Violoncelo de Sarajevo (ed. port. Presença, The Cellist of Sarajevo); 
  • 6 votos (4 obras)David Wroblewski, A História de Edgar Sawtelle (ed. port. Bertrand, The Story of Edgar Sawtelle); Philip Hensher, The Northern Clemency; Philip Roth, Indignação (ed. port. Dom Quixote, Indignation); e Tim Winton, Breath.
Seguem-se cinco obras com cinco votos, de onde destaco o romance magistral de David Lodge, A Vida em Surdina (Deaf Sentence) – até há bem pouco tempo figurava com 6 estrelas (Obra-Prima) neste blogue (ver coluna do lado esquerdo) onde fazia companhia a Thomas Mann; todavia, dada a excepcionalidade da classificação, foi reclassificado, tendo sido destronado por Updike. Esta obra de Lodge foi publicada em Portugal pela Asa, e é, sem sombra de dúvida, um dos melhores romances editados em 2009 no nosso país, um daqueles que me levou às lágrimas tanto pelas peripécias da vida de um erudito em perda irreversível do sentido da audição, como pelos momentos mais melancólicos onde, através do picaresco, perpassa uma ternura esteticamente comovente.
De notar, que, atendendo ao historial deste prémio, toda a estatística que atrás despejei, no essencial as que incluem as obras com o maior número de nomeações, pode revelar-se apenas como mera indicação ou mero mostruário para não retirar o sentido lúdico (maníaco?) ao evento, ou seja, sem força vinculativa para a escolha dos finalistas e do vencedor a ocorrer no próximo ano. A palavra final cabe sempre ao júri seleccionado, podendo eleger como vencedor uma obra que, no limite, tenha obtido apenas uma nomeação (1 voto). Aliás, se atentarmos nos vencedores dos quatro últimos anos, verificamos que o vencedor de 2009, o bostoniano Michael Thomas, pela sua obra Man Gone Down, foi nomeado apenas por 1 biblioteca nos Barbados; tal como ocorreu com o vencedor de 2008, o autor canadiano-libanês Rawi Hage, Como a Raiva ao Vento (De Niro's Game), nomeado apenas por 1 biblioteca e conterrânea, a Winnipeg Public Library, no Canadá; enquanto o vencedor de 2007, o norueguês Per Petterson, com o admirável romance Cavalos Roubados (Ut og stjæle hester), foi nomeado somente por 2 bibliotecas, e ambas norueguesas; porém, em contraste com os seus sucessores, o vencedor de 2006, Colm Tóibín, com a sua inolvidável obra semi-ficcional sobre parte da vida de Henry James, O Mestre (The Master), foi previamente nomeado por 17 bibliotecas espalhadas pelo mundo.
Será ainda de notar que, pela primeira vez na curta história dos IMPAC Awards, foram nomeadas duas obras distintas pertencentes a um casal literário – e, diga-se, bastante famoso no mundo das letras –, ambas editadas pela Asa [fonte: Miguel Seara]: 
  • Paul Auster, pelo seu penúltimo romance Homem na Escuridão (Man in the Dark) – 4 nomeações (Alemanha, Áustria, Bélgica e Itália); 
  • Siri Hustvedt, por Elegia para um Americano (The Sorrows of an American) – 3 nomeações (Bélgica, Espanha e Noruega).

Finalmente, três destaques, por razões diversas para três autores:
  • o ateu literalista (com falta de divino, não consciente) José Saramago foi nomeado pela Miami-Dade Public Library (Florida, EUA) pelo seu romance As Intermitências da Morte;
  • o autor brasileiro Milton Hatoum foi nomeada por uma biblioteca brasileira pelo seu romance Cinzas do Norte;
  • o sofrível romance do perseguido autor indo-britânico Salman Rushdie, A Feiticeira de Florença (ed. port. Dom Quixote; The Enchantress of Florence) recebeu apenas 1 nomeação (da Kansas City Public Library, Minnesota, EUA).
    Para terminar,deixo ficar a habitual referência ao comportamento eleitoral das nossas inventivas bibliotecas participantes. Uma vez mais, Portugal participou na referida 1.ª fase de nomeação através das suas duas habituais bibliotecas: a Biblioteca Pública Municipal do Porto (BPMP) ao jardim de São Lázaro e a Biblioteca Municipal Central de Lisboa (BMCL), situada no Palácio das Galveias – pouco chauvinistas, ao que parece… 
    BMCL: 
    • José Eduardo Agualusa, As Mulheres do meu Pai (Dom Quixote) – 2 nomeações; 
    • José Rodrigues dos Santos, Codex 632 (Gradiva) – 2 nomeações; 
    • Toni Morrison, A Dádiva (ed. port. Presença; A Mercy) – 9 nomeações. 
    BPMP (este ano, ao contrário de outros, exerceu a totalidade dos 3 votos a que tinha direito, e finalmente não escolheu uma obra do escritor nova-iorquino, residente na Invicta, Richard Zimler): 
    • Aravind Adiga, O Tigre Branco (ed. port. Presença; The White Tiger) – 8 nomeações; 
    • José Eduardo Agualusa, As Mulheres do meu Pai (Dom Quixote) – 2 nomeações; 
    • José Rodrigues dos Santos, Codex 632 (Gradiva) – 2 nomeações.
      Para o ano, se SaraMago, ou deus, ou outra entidade por eles permitir, cá estarei para apresentar um texto quase automático com a listagem da 1.ª fase do IMPAC de 2011.

      sexta-feira, 30 de outubro de 2009

      Aquilo que eu temia

      Há mais de um ano quando a neófita e desde logo louvável Sextante Editora entrou na denominada velocidade de cruzeiro editorial – após um arranque atribulado, em que se viu forçada a mudar de nome para evitar possíveis confusões com outras editoras no mercado, e escolheu este que corresponde a uma editora brasileira –, publicaram-se, numa base sistemática, obras originais de autores nacionais, que acabaram mais tarde por ser objecto de atribuição de importantes prémios literários, e optou-se por uma escolha criteriosa de obras, na sua maioria inéditas em Portugal, de autores estrangeiros consagrados. Enquadram-se neste último caso nomes como Cheever, Echenoz, A.S. Byatt, Pasternak, Truman Capote, Le Clézio e o meu mui estimado autor norte-americano Don DeLillo.
      Em Novembro de 2007, a Sextante publicava O Homem em Queda (Falling Man), o último romance do ilustre escritor nova-iorquino – pessoa responsável pela epígrafe deste blogue – publicado originalmente em Maio desse mesmo ano nos Estados Unidos, com uma tradução exemplar de Paulo Faria (aliás, em harmonia plena com o seu padrão de trabalho).
      Em suma, o meu júbilo pelo anúncio, embora não tenha tido paralelo após leitura pela qualidade do romance de DeLillo  – em boa verdade revelou-se uma pequena decepção –, deveu-se mais à oportunidade temporal da sua publicação – meio ano após a publicação original, o que é raro no meio editorial nacional –, como também pela escolha do mencionado tradutor, Paulo Faria, um dos poucos nomes cuja inscrição nas primeiras páginas de um livro me deixam a firme certeza de não ter de ingerir um (ou vários) Xanax por uma tradução exasperante.
      A talho de foice, dada a minha comprovada listomania – que alguém, não me lembro de quem (deve constar de um dos textos deste blogue, cuja bela preguiça não me permitiu encontrá-lo), condenou os colegas listómanos ao padecimento da síndrome de Asperger – apresentarei, num dia destes, uma pequena (dada a escassez de matéria-prima) relação  dos melhores tradutores nacionais.
      Na badana da contracapa do dito romance, houve um conjunto de caracteres que se destacou pelo brilho ofuscante da asseveração que aí era produzida, pelo menos para um delilliano (um verdadeiro trava-línguas):
      «Obras de Don DeLillo / A publicar / Ruído branco / Underworld»
      Assim que li aquela badana, perguntei-me por que motivo se duplicaria a publicação de uma obra [Ruído Branco] que ainda estava perfeitamente acessível no mercado livreiro, na sua versão de 1991 da Presença? Seria pela sua constatada tradução mais que sofrível, encomendando para o efeito a sua retradução a um notável tradutor da nossa praça?
      A segunda resposta afigurava-se-me positiva. De facto, a tradução de White Noise (1985) de Rui Wahnon, tal como ocorreu com a de Libra (1988), é de exasperar um santo bibliófilo, moderadamente apreciador das obras de DeLillo. E o mercado literário e os seus consumidores só têm a ganhar com traduções posteriores que procurem corrigir as traduções existentes e com isso captar, de forma mais eficaz, a verdadeira essência, o espírito que o autor emprestou à obra.
      Ruído Branco é, na realidade, um romance arrebatador, profundamente envolvente, admirável na gestão das expectativas do leitor, no recobro do seu fôlego, em suma, é uma obra genial engendrada por um colosso literário. Das oito* entre as catorze obras de ficção escritas por Don DeLillo – deixando de parte os contos e as peças de teatro – que tive a feliz oportunidade de ler, aquela é, sem sombra de dúvida e na minha pessoalíssima opinião, a melhor obra do autor de Nova Iorque, com a qual, este, até aos dias que correm, venceu o seu único National Book Award (o de 1985).
      É oficial. Acabei de receber a informação enviada pela própria editora:
      «Novidade de Outubro: Ruído branco, de Don DeLillo.»

      Aconteceu o que temia depois de ler aquela badana, cuja informação transcrevi. Underworld, considerada a magnum opus de DeLillo, iria ficar para segundo plano. E esta predição baseou-se, essencialmente, em dois factores:
      1. As mais de oitocentas páginas da versão original da obra; logo, potencialmente menos vendável, dispendiosa em termos de edição, e a exigir uma tradução original sem rede ou sem muletas de edições anteriores;
      2. A tradução já existente da Editorial Presença, cuja edição deverá estar prestes a esgotar, aliada – e torna-se imperioso realçar este aspecto – à notoriedade de uma obra consideravelmente menos volumosa – a 1.ª edição de 1991 da referida editora não passou das 325 páginas (irão ser 400 na versão da Sextante).

      Mas o choque foi ainda maior, quando no dito auto de notícia pude ler «Tradução do inglês / por Rui Wahnon». Ai, não!
      Resta saber se rectificada pelo próprio que, é justo dizer-se, partilhou responsabilidades com o trabalho de revisão de um talvez adormecido Fernando Cunha Rebelo, ou dissecada por um revisor literário mais atento e conhecedor das falhas da tradução de 91. Se assim não for, pese embora a mudança de editora, trata-se de uma mera reimpressão em casa nova, que não acrescenta nada de positivo à obra traduzida, apenas perpetua o erro; ao invés da recomendável reedição de uma obra-prima da literatura americana traduzida com zelo e mestria que não faça desmerecer esse epíteto em português e que lhe foi merecidamente aposto pela versão original em língua inglesa.
      Quanto a Underwold (1997)**, só me resta esperar, de preferência deitado em colchão ortopédico não vá o diabo tecê-las.

      _____________________________
      *Nota, obras lidas de DeLillo: Cão em Fuga (1978), Os Nomes (1982), Ruído Branco (1985), Libra (1988), Mao II (1991), O Corpo Enquanto Arte (2001), Cosmópolis (2003) e O Homem em Queda (2007).
      **Nota, honras e prémios literários concedidos à obra Underworld: finalista vencido do National Book Award 1997 (perdeu para O Regresso do Soldado – Cold Mountain de Charles Frazier), do Pulitzer Prize for Fiction de 1998 (perdeu para o memorável Pastoral Americana de Philip Roth) e do concurso pontual, realizado em 2006, pelo The New York Times – Best Work of American Fiction of the Last 25 Years (perdeu para Beloved de Toni Morrison, autora galardoada com o Prémio Nobel da Literatura em 1993); venceu o American Book Award em 1988, o Jerusalem Prize (1999), o William Dean Howells Medal (2000) e o Riccardo Bacchelli International Award (2000).

      quarta-feira, 28 de outubro de 2009

      A pilha Murakami

      Curiosas as metamorfoses diárias da minha biblioteca pessoal.
      Não compro somente livros de um conjunto restrito de autores que me inebriam perante a minha sede de leitura – apesar de o “restrito” ser bastante amplo, há que dar novos mundos à minha biblioteca –, embora haja alguns que figuram na utópica listagem da “obra completa”; existem outros, porém, que, por variadíssimas razões, deixei de comprar e de ler, mesmo até à socapa numa livraria ou biblioteca pública sem despender o vil metal; há outros, ainda, recomendados por tudo e por nada, por todos e por ninguém – basta neste caso um vislumbre da capa, a leitura de uma sedutora frase de abertura –, que têm o poder de influenciar a minha alta propensão para o gasto livreiro.
      A biblioteca vai mudando à causa, bibliófila e oneomaníaca, de comprar consideravelmente mais livros que o tempo disponível para os ler. Agiganta-se no espaço. Não é ela eterna e infinita?
      No princípio, com Murakami, era o verbo no particípio “livro comprado, livro lido”; um passado que à sétima obra do autor publicada em Portugal mudou de forma silenciosa (Dança, Dança, Dança; ed. port. Casa das Letras): já não o li e sucedeu-se um empilhar de lombadas alvas com letras arrevesadas de vermelho e negro que desprestigia a carteira – que é um mimo de a ver farta –, e entulha a biblioteca, que se pretende qualitativamente irrepreensível, como objecto de ostentação puramente onanista – não tem de ser pública, nem figurar em local em que cada visitante solte um suspiro de admiração estonteado pela grandeza da coisa. É, por definição e teimosia, um prazer privado, não partilhável e jamais fungível como um subproduto do ócio.
      Agora, anuncia-se uma autobiografia. Corridas de fundo e literatura. Esforço físico e musculação mental. Suor transformado em caracteres ideográficos, com jacto marcado para o mercado norte-americano que se encarrega de espalhar a epidemia dos universos oníricos murakamianos pelo mundo ocidental – realismo mágico da pubescência fechada em poços e quartos escuros, esperando por cataclismos de proporções bíblicas como recurso final a um Deus ex machina singular e absurdamente xintoísta.
      Murakami corre. O nosso engenheiro-filósofo contemporâneo corre para aclarar as ideias que irão ser transubstanciadas em estratégias sobre o xadrez do casaco da Ministra do Trabalho, de apelido André. Cedo o passo, alivia-se o orçamento. A biblioteca continuará a transformar-se, seguindo por outros caminhos não trilhados pelas solas pneumáticas do andarilho jactancioso – a maiêutica em movimento (geração Magalhães). Talvez, num futuro próximo, os nossos trilhos se cruzem num ponto longínquo ideal que por agora não vislumbro.
      Haja fé e saúde. A pilha, por enquanto, manterá a medida do seu peso. Nem mais um grama! (e mais um ponto de exclamação, admirem-se.)

      sábado, 17 de outubro de 2009

      João Tordo, com todo o mérito

      É oficial, João Tordo é o vencedor do Prémio Literário José Saramago (de periodicidade bienal) de 2009 (que, segundo o blogue da revista Ler, passará a anual a partir deste ano, com a atribuição seguinte a ocorrer já em 2010) pelo seu magnífico romance As Três Vidas, publicado em 2008 pela editora matosinhense QuidNovi – a talho de foice, refira-se que é a segunda vez (e consecutiva) que o prémio galardoa uma obra publicada por esta editora.
      Fiquei duplamente satisfeito com a notícia. No que respeita ao primeiro motivo poder-me-ão apontar alguma vacuidade (como se me importasse), pela vaidade, porquanto assenta no orgulho da confirmação de um dos meus livros preferidos editados em 2008, que mereceu neste mesmo espaço a minha apreciação, em jeito de recensão: fôlego, dizia eu.
      Em segundo lugar, e apesar de não conhecer pessoalmente o João Tordo, esta realidade alternativa a que convencionámos chamar de blogosfera, teve o condão de me fazer aproximar do João através da palavra impressa em hipertexto. Embora, muitos desses encontros se hajam declarado em encarniçados recontros clubísticos. O João tem o terrível defeito de amar o vermelho das papoilas saltitantes – para saúde dele, espero que expurgadas do leite modorrento que lhes corre pelos veios, meio metafórico pelo uso deliberado da mentira sobre o povo, segundo os íntegros e translúcidos dirigentes soviéticos de 1917 até 1989 –, por aqui, como é sabido, a chama do dragão continua a manter intacto um horizonte de esperança sob a óptica do vencedor.

      Parabéns, João.

      Para os mais preguiçosos na activação da ligação supracitada, aqui fica um excerto do que escrevi, há quase um ano, a propósito da leitura de As Três Vidas, um panegírico envolvendo Borges e Kafka (João em boa companhia):
      «As Três Vidas, o último romance de João Tordo, tem, de certa forma, matizes kafkianos na estrita medida do qualificativo definido por Borges, implicando, para isso, que da leitura da obra se tivesse verificado o uso (mais ou menos consciente) das seguintes premissas: a subordinação e o infinito – que Borges afirmava serem obsessões do jovem Kafka, e que, de certa forma, influenciarão, definitivamente, a sua extensa obra, plena de circularidades e perpetuidades.»
      Lista dos vencedores do Prémio Literário José Saramago desde a sua fundação:
      2007 – valter hugo mãeO remorso de Baltasar Serapião (QuidNovi)
      2005 – Gonçalo M. TavaresJerusalém (Caminho)
      2003 – Adriana LisboaSinfonia em Branco (Temas e Debates)
      2001 – José Luís PeixotoNenhum Olhar (Temas e Debates)
      1999 – Paulo José MirandaNatureza Morta (Cotovia)

      terça-feira, 13 de outubro de 2009

      Invisível

      É já no próximo dia 27 que a Asa publicará em estreia mundial, numa operação inédita em Portugal com uma obra do autor em causa, a tradução para a nossa língua do último romance de Paul Auster, Invisível (Invisible, no seu título original), com tradução garantida, e por mim aplaudida, porquanto é sinónimo de qualidade, por José Vieira de Lima.

      Na abertura temos Auster e a alusão a uma das suas obras de eleição da sua juventude: a referência alegórica ao oitavo círculo do Inferno de Dante que se divide em dez fossos (Malebolge ou bolsas circulares), em concreto ao nono fosso, dedicado aos “semeadores de escândalo e de cisma”.
      O primeiro parágrafo reza assim (tradução minha, que de hoje a quinze dias será distintamente derrogada pela do tradutor oficial):

      «Apertei-lhe a mão pela primeira vez na Primavera de 1967. Eu era, então, estudante do segundo ano em Columbia, um rapaz ignorante com um tal apetite por livros e com a crença (ou ilusão) de que um dia seria suficientemente bom para me intitular como um poeta, e porque lia poesia, eu já conhecia o seu homónimo no Inferno de Dante, um homem morto vagueando pelos versos finais do vigésimo oitavo canto do Inferno. Bertrand de Born, o poeta da Provença do século XII, agarrando a sua cabeça decapitada pelos cabelos enquanto esta vai oscilando como uma lanterna – seguramente, uma das imagens mais grotescas naquele catálogo volumoso de alucinações e tormentos. Dante era um defensor acérrimo da obra de de Born, mas condenou-o à danação eterna por este ter aconselhado o príncipe Henrique a rebelar-se contra o seu pai, o rei Henrique II, e uma vez que de Born promoveu a divisão entre pai e filho, tornando-os inimigos, o engenhoso castigo de Dante foi o de dividir de Born dele mesmo. Daí o corpo decapitado lastimando-se no submundo, perguntando ao viajante florentino se algum sofrimento poderia ser mais terrível que este.»
      Paul Auster, Invisible, pp. 3-4.
      [a partir da edição, New York: Henry Holt, 1st edition, 2009, 320 pp; tradução: AMC, 2009]
      Mas, para que não se perca a cabeça, eis Virgílio e Dante no seu encontro com martirizado, ao decepamento, Bertrand (ao lado, figura a famosa ilustração de Gustave Doré):

      «Mas eu fiquei a olhar a fila e vou
      contar o visto, e em pavor perdura,
      sem ter mais prova, o descrevê-lo só;
      senão que a consciência me assegura,
      pois boa companhia nos proteja
      sob a couraça de sentir-se pura.
      Decerto vi, e creio inda que veja
      um busto sem cabeça a andar assim
      como da triste creche o resto adeja;
      a fronte da guedelha pende ao fim
      duma das mãos à guisa de lanterna
      e olhando para nós diz: «Ai de mim!»
      De si ia fazendo a si lucerna,
      e eram dois num e um era nos dois:
      como ser pode, o sabe quem governa.
      Ao pé da ponte erguendo-se depois,
      alto levanta o braço com a testa,
      pondo as palavras perto de nós, pois
      que foram: “Ora vê pena molesta,
      tu que respiras e vais vendo os mortos:
      vê se alguma é tão grande como esta.
      E por que leves novas dos meus tortos
      feitos, sabe que sou Bertrand de Born,
      que ao rei jovem prestou os maus confortos.
      Eu fiz que filho e pai revel se torne:
      Aquitófel não faz mais, que Absalão
      e o pai David com más punções adorne.
      Pois separei pessoas que eram tão
      juntas, oh dor!, o cérebro deslaço
      de seu princípio que é neste troncão.
      Assim se observa em mim o contrapasso.”»
      Dante Alighieri, A Divina Comédia: Inferno, Canto XXVIII, vv. 112-142, pp. 257-259
      [Venda Nova: Bertrand, 5.ª edição, Dezembro de 2000, 894 pp; tradução de Vasco Graça Moura; obra original: (Divina) Commedia, 1304-1321.]


      Nota: Aproveitando a maré dantesca, há uma nota final inquietante num texto de Casanova brandindo o seu canhão literário (por vezes perde-se, na selva alegórica, um “n” ânglico para as coisas fazerem sentido) sempre pronto a disparar fazendo mira ao mais firme divergente – sem que, necessariamente, houvesse ocorrido um cisma... fundamento para corpo mutilado – com as suas alegações peremptórias em assuntos livrescos (porventura um imagem poética que ganha força pela hipérbole):


      Pois parece que, de bom aviso, é necessário trazer de novo Dante à colação e o segundo vale (o da tal selva), descrito, por azar, no canto XIII, do sétimo círculo do Inferno, onde os corpos caídos são transformados em árvores espinhosas sem fruto, cravados em terra firme, desnudados perante a fúria rapace das harpias:

      «Surge uma ervinha e planta brava resta:
      e as Harpias lhe pastam toda a folha,
      fazem-lhe dor e à dor dão uma fresta.
      Iremos, como os mais, pela recolha
      dos despojos, mas não para vesti-los;
      que não é justo ter o que se tolha.
      Na triste selva vamos destruí-los
      e hão-de ficar-nos corpos pendurados,
      co as más sombras, nas sarças a cobri-los.»
      Dante Alighieri, op. cit., Canto XIII, vv. 100-108, p. 133.

      Finalmente, o que diz o Papa – segundo a frase criptográfica de Dan Brown (“a knight a pope interred”):

      «Some to conceit alone their taste confine,
      And glittering thoughts struck out at every line;
      Pleased with a work where nothing’s just or fit;
      One glaring chaos and wild heap of wit. […]»
      Alexander Pope, An Essay on Criticism (pub. 1711), vv. 289-292, p.15
      [Charleston, SC: Forgotten Books, 2008, 37 pp.]

      segunda-feira, 12 de outubro de 2009

      Finalmente em descanso

      Termina em Portugal a “tetralogia do Coelho” com a publicação do seu último livro. John Updike (1932-2009, morreu a 27 de Janeiro) –, o “colosso” como há pouco tempo o definiu Philip Roth referindo-se ao espanto que sempre lhe provocou Updike não haver recebido o Prémio Nobel –, publicou em 1990 o último livro da tetralogia, sob o título original de Rabbit at Rest. Com ele venceu o Pulitzer em 1991 e o National Book Critics Circle Award em 1990. Em 2001, publica uma novela, “Rabbit Remembered”, inserida na sua colectânea de contos Licks of Love, uma pequena sequela que narra, sem a presença do personagem epónimo Harry “Rabbit” Angstrom, as vidas de alguns personagens que integraram a tetralogia e cujos destinos foram, de certa modo, forjados pelo personagem agora desaparecido, vogando como um espectro de destruição. Pede-se a sua publicação.

      Frase de abertura:
      «De pé no meio do bronzeado e exaltado gentio pós-natalício do Aeroporto Regional do Sudoeste da Florida, Coelho Angstrom tem a repentina e curiosa sensação de que aquilo com que se foi encontrar, o que flutua no invisível prestes a aterrar, não é o seu filho, Nelson, a nora, Pru, e os dois filhos destes, mas sim uma coisa mais agoirenta e intimamente sua: a sua própria morte, com a silhueta imprecisa de um avião.»
      John Updike, Coelho em Paz, p. 9
      [Porto: Civilização, Setembro de 2009, 539 pp; tradução de Carmo Romão; obra original: Rabbit at Rest, 1990]

      domingo, 4 de outubro de 2009

      Roth Nogueira Pinto

      «Será para isto que serve a eternidade, para uma pessoa remoer todas as minudências de uma vida inteira? Quem poderia imaginar que ia ter de se lembrar para sempre de cada momento da vida, até ao mais pequeno pormenor? Ou será que esta vida depois da morte é só minha e, do mesmo modo que cada vida é única, também cada vida depois da morte o é, cada vida depois da morte é uma impressão digital imperecível diferente de todas as outras? Não tenho maneira de saber. Tal como na vida, só sei o que é, e na morte, o que é, é afinal o que foi. Não só estamos acorrentados à nossa vida enquanto a vivemos como continuamos presos a ela depois de morrermos.»
      Philip Roth, Indignação, p. 52
      [Algragide: Dom Quixote, 1.ª edição, Setembro de 2009, 175 pp; tradução de Francisco Agarez; obra original: Indignation, 2008.]


      sábado, 26 de setembro de 2009

      Follas Novas

      Pormenor do interior da livraria Follas Novas, Santiago de Compostela, EspanhaQuando visitava Santiago (há, pelo menos, nove ou dez anos que não ponho lá os pés), um dos pontos imprescindíveis do roteiro turístico era a livraria “Follas Novas” – a Díaz de Santos ficava sempre para segundo plano.
      Independentemente da denominação impudica em castelhano – o nome da loja está em galego, em espanhol seria qualquer coisa como “Hojas Nuevas” –, e dos trocadilhos mais ou menos infelizes a que isso dava origem, havia sempre uma visita à bem apetrechada livraria de Montero Ríos, com os livreiros mais bem preparados e qualificados que encontrei de todas as livrarias que visitei até aos dias de hoje – naquela livraria existiam verdadeiras bases de dados antropomórficas.

      Para quem irá ler o romance enciclopédico de Roberto Bolaño, 2666, recentemente publicado em Portugal – já o li na sua língua original e talvez leia a versão portuguesa – irá reparar, no segundo livro “La parte de Amalfitano”, na breve referência que é feita à livraria, quando Amalfitano abre a caixa que continha os seus livros e surge misteriosamente um livro de um tal Rafael Dieste, cujo título era Testamento geométrico – parte importante da narrativa:

      «Buscó en la primera página y en la última y en la contraportada alguna señal y encontró, en la primera página, la etiqueta cortada de la Librería Follas Novas, S.L., Montero Ríos 37, teléfonos 981-59-44-06 y 981-59-44-18, Santiago. Evidentemente no Santiago de Chile, único lugar del mundo en donde Amalfitano era capaz de verse a sí mismo en un estado de catatonia total, capaz de entrar en una librería, coger un libro cualquiera sin siquiera mirar la portada, pagarlo y marcharse.
      »Se trataba, era obvio, de Santiago de Compostela, en Galicia.»
      Roberto Bolaño, 2666 (Barcelona: Anagrama, 2004, 1126 pp.)

      Lembro-me bem de uma das últimas visitas – talvez até a última –, muito próxima da quadra natalícia, quando encontrei na “Follas Novas” uma magnífica fotobiografia de James Osterberg, mais conhecido por Iggy Pop, com texto traduzido em castelhano.
      Serviria de presente. O destinatário estava escolhido. E, naquela noite de 24 de Dezembro, houve um par de olhos que brilhou com maior intensidade pela sua veneração musical à “Iguana”. Esse par cuja fulgência se apagou, em definitivo, há quase 7 anos… Razão de ser tudo isto que para aqui despejo.

      quinta-feira, 24 de setembro de 2009

      "Morrer é divertido"

      «The Nabokov Code» por Ron Rosenbaum (Slate)
      A ironia final de Nabokov em 138 fichas de indexação, apresentadas na sua forma original e transcritas por Dmitri.

      O livro (ou a pasta de arquivo literária) será publicado pela Knopf a 17 de Novembro próximo. Até lá, repousa no 21.º andar do edifício da Random House em Nova Iorque para consulta livre, com assinatura prévia de um documento de garantia confidencialidade absoluta pelo consultante.
      Cito Steiner, como fiz há mais de um ano e meio a propósito deste assunto:

      «Brod em lágrimas, numa noite chuvosa, na rua dos ourives e alquimistas por baixo do castelo de Praga. Cruza-se com um livreiro muito conhecido: “Por que [sic] choras, Max?” “Acabo de saber que Franz Kafka morreu.” “Oh, lamento muito. Sei da tua estima pelo moço.” “Não compreendes. Ele ordenou-me que queimasse os seus manuscritos.” “Nesse caso terás de o fazer, pela tua honra.” “Não compreendes. Franz foi um dos maiores escritores da língua alemã.” Um momento de silêncio: “Max, tenho a solução. Por que [sic] não queimas antes os teus próprios livros?”»
      In George Steiner, As Lições dos Mestres.
      [Lisboa: Gradiva, 2.ª edição, Outubro de 2005, pág. 69; tradução de Rui Pires Cabral; obra original: Lessons of the Masters, 2003]

      quarta-feira, 23 de setembro de 2009

      O mocassim perdido

      Anuncio ao mundo que:

      • Ainda há vida neste blogue – está em estado de hibernação intermitente;
      • Havendo lido os quatro romances do autor – e, digo-o sem vergonha, O Código Da Vinci divertiu-me –, a minha vontade de ler o novo livro de Dan Brown aumentou de forma considerável só pela frase de O Símbolo Perdido que Christopher Tayler, crítico do Guardian, destacou na sua recensão [via destaque no blogue da revista Ler]:

      «Este tipo fugiu à polícia francesa... em mocassins?»
      [trad. AMC; lost in translation? Saio, madraçamente, de pantufas.]

      domingo, 12 de julho de 2009

      Divagação apartidária + John Berger

      Porque é que deixamos que um grupo compacto, homogéneo na mediocridade dos seus elementos - meros veneradores de uma insígnia infame -, nos maltrate, humilhe e despedace até ao nível da indigência intelectual?
      Despojos da prostituição do poder político. A ditadura dos partidos aniquilou de vez a hipótese de alcance de uma qualquer visão remota de Democracia. E eles que nos enchem os ouvidos com o "dever cívico"… votai!… dever cívico…
      Mas existe "bem comum" para que possa considerar-se o voto como um gesto altruísta a favor do bem-estar da comunidade em que, sem voto, nos inseriram? Grupos de interesse… gentalha arrivista… chusma de necrófagos que se aproveita dos pedaços da alma que se vão extinguindo com a implacável voragem da desesperança que se assenhoreou de um povo exânime.
      As leis por encomenda, por John Berger (título de minha autoria, convenientemente adequado ao ambiente político de podridão, cujo cheiro nos tolhe o discernimento):
      «Por muito boa que seja uma lei, ela é invariavelmente inapta. É por isso que a sua aplicação deveria ser disputada ou questionada. E a prática de fazer isto corrige a sua inépcia e serve a justiça.
      Existem leis más que legalizam a injustiça. Tais leis não são inaptas, porque elas reforçam, quando aplicadas, exactamente aquilo que se pretendia que reforçassem. E é preciso resistir-lhes, é preciso que sejam ignoradas, desafiadas. Mas é claro, compañeros, que o nosso desafio a elas é inapto!»
      John Berger, De A para X. Cartas de Amor, pág. 36
      [Porto: Civilização, Abril de 2009, 207 pp; tradução de Isabel Baptista; obra original: From A to X. A Story in Letters, 2008]

      sexta-feira, 10 de julho de 2009

      Bellow, a indiferença e o meu pathos




      A propósito de um episódio que se sucedeu comigo hoje através de e-mail, que me magoou profundamente pela "Indiferença" (grafada propositadamente com maiúscula) de uma amizade que julgava existir apesar da distância física (encurtada por estas diabólicas redes sociais), recordei-me de um dos personagens mais marcantes de Saul Bellow, Asa Leventhal, e da salutar reprimenda que um dos seus melhores amigos, Dan Harkavy, lhe deu, como se o quisesse acordar para um mundo que não se condói com as nossas pequenas emoções… sou assim, é o meu pathos, que me desculpem aqueles que o conseguirem.



      (Levou algum tempo a encontrá-la… já é por demais conhecida a minha mania ou fórmula enquanto leitor: "sublinhar=profanação")



      «Se não te importas, Asa, há uma coisa que quero sublinhar e ainda não percebeste. Não somos crianças. Somos homens vividos. É quase pecado ser tão inocente como tu és. Pensa. Está bem? Queres que o mundo inteiro goste de ti. Mas existem fatalmente pessoas que não gostam. Como eu gosto, por exemplo. Não te chega que algumas pessoas gostem de ti? Não aceitas o facto de que algumas pessoas nunca hão-de gostar de ti? (…) É uma questão de vida ou de morte?»
      Saul Bellow, A Vítima, p. 75 
      [Lisboa: Texto, 1.ª edição., Março de 2006, p. 75; tradução de Sofia Gomes; obra original: The Victim, 1947]

      sábado, 14 de fevereiro de 2009

      Brooklyn, by Tóibín

      À atenção da Dom Quixote / LeYa (editora portuguesa que publicou os últimos romances do autor irlandês, galardoado com IMPAC Award pelo seu último romance O Mestre (The Master, 2004), editado em Portugal no ano de 2007).


      Data de publicação no Reino Unido: 5 de Maio de 2009 (Viking).

      Nocturnes, by Ishiguro

      À atenção da Gradiva (editora portuguesa que publicou quatro dos seis romances do autor anglo-nipónico, que poderia ser tão expedita como o foi na publicação do último trabalho de Ian McEwan, Na Praia de Chesil):


      Data de publicação no Reino Unido: 7 de Maio de 2009 (Faber and Faber).

      quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

      Suttree

      Mais uma vez escrevo um texto neste blogue – que, parecendo que não, é um sinal de resistência às minhas tentativas de bloguicídio que surgem de forma intermitente há mais de três anos –, para felicitar, senão mesmo a melhor, uma das melhores editoras nacionais: a Relógio D’Água.
      Para os membros do seu corpo editorial, evidenciado na figura tutelar de Francisco Vale – editor principal que tem sabido resistir ao assédio provindo da febre aquisitiva, de índole oligárquica, dos empórios lusos dos meios de comunicação e editoriais –, não há ano de publicação de uma obra (por mais longínquo que tenha sido), número de páginas de um livro (por mais volumoso que este seja), autor (por mais esquecido, hermético ou desconhecido, assim apontado pelas ondas de intelectualidade literária emanadas da perene sapiência de alguns notáveis que integram determinados órgãos de outras casas editoriais), que os assustem ou desviem do seu objectivo primordial: publicar livros de qualidade, independentemente da sua capacidade para gerar receitas imediatas, engrandecer o volume de negócios para ostentação futura, muitas vezes com lucros diminutos ou até inexistentes, apenas para alimentar a empáfia mediática.
      Existem edições menos bem conseguidas – é por demais inevitável que assim seja. Há falhas de diversos níveis e gradações – claro que as há. Insucessos potencialmente ruinosos. Mas essas falhas e esses insucessos são claramente minorados, reduzidos à sua insignificância, desde que a pontaria, afinada por anos de prática e experiência no mercado dos livros, vá permitindo que se acerte quase sempre no coração do alvo. Uma marca de gestão: acompanhar o mercado em aparente silêncio, sem uma estratégia de marketing mix deliberadamente ofensiva. Reflecte-se, por exemplo, num produto bem construído, havendo-se contratado os melhores tradutores; numa excelente política de preços; numa simples, mas estudada, política de distribuição do produto literário pelos principais livreiros; são actos de gestão que quase evitam uma política promocional excessiva, meramente esbanjadora de recursos – contudo, e é de primordial importância realçar, todos estes encómios desinteressados, não devem servir de desculpa para as fracas actualização, facilidade de navegação e interactividade da página da internet da referida editora; no momento presente, reveste-se de um carácter urgente uma intervenção de fundo que permita melhorar esta funcionalidade, um dos principais pontos de contacto entre o consumidor final e a casa editora, antes de o primeiro tomar a decisão de compra.

      E qual é a razão de ser de todo o palavreado anterior?
      A Relógio D’Água publicará em breve uma das obras lapidares do icónico escritor norte-americano, Cormac McCarthy, nascido em Providence, no Estado de Rhode Island em 1933, vive, actualmente, enclausurado no seu rancho no Novo México, longe dos focos mediáticos. McCarthy pertence ao grupo dos quatro grandes escritores americanos contemporâneos identificado pelo crítico literário e professor univeristário, criador de cânones, Harold Bloom – para além do escritor de Providence, o “bando dos quatro” inclui os escritores Philip Roth, Don DeLillo e Thomas Pynchon, grupo a que eu, na minha modesta opinião de amante das letras, haveria juntado John Updike (falecido no passado dia 27 de Janeiro), mas que por qualquer motivo (político ou religioso, quiçá meramente por critérios estético-literários) nunca caiu nas suas graças; consulte-se, a título de exemplo, a sua obra de 1994 The Western Canon: The Books and School of the Ages, na Parte IV “The Chaotic Age”, onde Updike é apenas incluído no cânone literário ocidental pelo seu romance As Bruxas de Eastwick (The Witches of Eastwick, 1984), atirando para segundo plano toda a obra notável e multidimensional deste prolífico ficcionista, poeta e ensaísta.
      Regressando ao assunto principal deste texto, a casa dirigida por Francisco Vale editará mais uma obra de ficção de autoria de Cormac McCarthy: trata-se do romance, originalmente publicado em 1979, intitulado Suttree, que se estende, nas suas versões americanas, por quase 500 páginas. O personagem principal, que dá o nome ao livro, abandona uma vida familiar e profissional confortável na cidade para se refugiar nos bairros de lata de Knoxville, partindo numa digressão que muitos comparam à de Leopold Bloom no colossal Ulisses de James Joyce – à semelhança dos itinerários joycianos de Dublin, existe um percurso em Knoxville marcado pelos lugares por onde perambulou Suttree. Por outro lado, segundo refere a crítica, Suttree é o romance mais faulkneriano de McCarthy, com notas bem vincadas de Mark Twain – já só falta falar dos taninos… –, designadamente através do seu púbere personagem Gene Harrogate que se identifica com a rebeldia anárquica de Tom Sawyer.
      Suttree é o quarto de dez romances de Cormac McCarthy. Segundo a opinião de muitos entendidos em matérias qualificativo-literárias, trata-se, até ao presente, do magnum opus do autor, apesar de cronologicamente se lhe seguir a obra magistral Meridiano de Sangue (Blood Meridian, 1985), essa sim, considerada por uma grande maioria de críticos e de leitores como o seu melhor romance – onde me incluo, apesar de ainda não haver lido a primeira.
      Na sua edição pela Vintage (cuja capa figura na imagem acima reproduzida) – a Vintage é uma chancela da Random House, destinada a reeditar os romances consagrados em formato paperback –, figuram nas primeiras páginas, depois da ficha técnica, algumas frases que destacam a eminência e o brilhantismo do autor, uma delas pertence a um dos escritores mais bartlebianos de toda a literatura norte-americana, Ralph Ellison (1913-1994) – escreveu e publicou em vida apenas um romance, uma obra-prima, Homem Invisível (Invisible Man, 1952). Segundo Ellison, «McCarthy é um escritor para ser lido, admirado e, muito honestamente, invejado.» [tradução: AMC]

      Sem perder tempo com traduções livres, uma vez que o livro deverá estar prestes a chegar às livrarias, deixo ficar o parágrafo de abertura do romance, capítulo inicial escrito em forma de prefácio pelo próprio protagonista da obra (atente-se nestas escassas oitenta palavras, estão bem presentes os sinais idiossincráticos mccartianos em alguns neologismos e na repetição exaustiva da conjunção copulativa “e” em detrimento da vírgula):

      «Dear friend now in the dusky clockless hours of the town when the streets lie black and steaming in the wake of the watertrucks and now when the drunk and the homeless have washed up in the lee of walls in alleys or abandoned lots and cats go forth highshouldered and lean in the grim perimeters about, now in these sootblacked brick or cobbled corridors where lightwire shadows make a gothic harp of cellar doors no soul shall walk save you.»
      Cormac McCarthy, Suttree. New York: Vintage, May, 1992, p. 3.

      Romances de Cormac McCarthy (por ordem cronológica da publicação original):

      • O Guarda do Pomar (ed. port. Relógio D’Água; The Orchard Keeper, 1965);
      • Outer Dark (1968);
      • Filho de Deus (ed. port. Relógio D’Água; Child of God, 1974);
      • Suttree (ed. port. Relógio D’Água; 1979);
      • Meridiano de Sangue ou O Crepúsculo Vermelho no Oeste (ed. port. Relógio D’Água; Blood Meridian, Or the Evening Redness in the West, 1985);
      • Belos Cavalos (ed. port. Teorema; All the Pretty Horses, 1992);
      • The Crossing (1994);
      • Cities of the Plain (1998);
      • Este País Não É para Velhos (ed. port. Relógio D’Água; No Country for Old Men, 2005);
      • A Estrada (ed. port. Relógio D’Água; The Road, 2006).

      Nota: tendo em consideração a tão distintiva penúria qualitativa do meio editorial português, o rácio “obras editadas em Portugal/obras do autor estrangeiro”, regista um coeficiente bastante aceitável: 0,7 (7/10 ou 70% dos romances de Cormac McCarthy já se encontram editados em Portugal).

      sábado, 24 de janeiro de 2009

      A Casa do Esquecimento

      O romance do Fernando Dinis, A Casa do Esquecimento, vencedor do Prémio Literário Fnac/Teorema de 2008, já está à venda.

      Eis a sinopse fornecida pela editora:

      «Um homem – Artur Poeira, nome já em si premonitório – é esquecido pelo próprio destino. Os “esquecidos”, são, mais tarde ou mais cedo, conduzidos à Casa do Esquecimento pelo seu Destino personificado. O que acontecerá quando um “esquecido” tem oportunidade de se tornar, ele próprio, o Destino de muitas outras pessoas? É essa incógnita, que este romance absolutamente invulgar, nos desvenda, numa narrativa cheia de suspense, a que não são estranhas as influências de Kafka e Murakami.»

      Uma vez mais, os meus parabéns ao Fernando.

      quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

      Benjamin Button, um assalto retroactivo?

      Um dia um tal de Francis, Tenente do Exército americano, jurara à sua atrevida boneca provinciana Zelda que haveria de ser famoso. Conseguiu. Francis e Zelda casaram após a confirmação da iminência de uma carreira literária de sucesso.
      Porém, o alto padrão de vida que mantinham, e procuravam manter, associada à destruição progressiva de uma vida pela boémia permanente, transformaram o estúrdio Tenente Francis numa máquina de produção de contos e novelas, que eram pagos à peça em revistas da especialidade e não só. Francis escreveu perto de duzentos contos, para um período de escrita tão curto (1920-1940) e se lhe acrescentarmos os cinco romances, com destaque para o inigualável O Grande Gatsby (The Great Gatsby, 1925) e o magistral Terna é a Noite (Tender is the Night, 1934), assim como o projecto de romance que redundou no inacabado e espantoso O Último Magnate (The Last Tycoon), e outras dezenas de artigos que, tal como os contos, foram publicados em revistas de reconhecido mérito, como a Scribner’s, a Harper’s, a Esquire, a Kenyon Review, ou até a Vanity Fair, percebemos que Scott era um trabalhador incansável, que provavelmente o conduziu, outros abusos à parte, à sua morte prematura nas cercanias do Natal de 1940.
      A 27 de Maio de 1922, a extinta revista Collier’s publica nas suas páginas (ocupando cerca de 9 páginas dessa edição) o conto The Curious Case of Benjamin Button, mais tarde integrado numa mão cheia de antologias de histórias do próprio autor.
      Hoje, o mesmo conto faz parte do domínio público, podendo ser descarregado na íntegra e de forma gratuita, na sua versão original, nas páginas do Projecto Gutenberg [ficheiro Zip], integrado na colectânea Tales of the Jazz Age, publicada em 1922 pela editora Charles Scribner’s Sons.
      Hoje, o conto de F. Scott Fitzgerald ressuscitou das cinzas. Narra a história de Benjamin Button, nascido em 1860 em Baltimore, no Estado do Maryland, com a estranha idade de 70 anos, e que rejuvenesce até ao alvor da conturbada década de 1930. Segundo dizem os livros, Scott Fitzgerald escreveu a história inspirando-se nas palavras de um dos mais brilhantes pais fundadores das letras norte-americanas, Mark Twain (1935-1910) – o homem cuja existência está ligada a um fenómeno assaz curioso, nasceu e morreu entre duas aparições consecutivas do famoso Cometa Halley, em datas muito próximas, em ambas as ocasiões, do seu perigeu –, que referiu que o homem devia nascer velho, quando as preocupações e todos os problemas de vários níveis o atormentam, e morrer no berço, sem consciência da morte.
      David Fincher foi o realizador escolhido para levar ao ecrã a fantástica história de retroactividade existencial. Eric Roth foi o argumentista escolhido – vencedor de um Óscar em 1995 pela adaptação do romance de Winston Groom, Forrest Gump; foi o responsável pelos argumentos de filmes como O Informador (The Insider, 1999) de Michael Mann ou Munique (Munich, 2005) de Steven Spielberg, e pelo guião de autênticas aberrações fílmicas como O Mensageiro (Postman, 1997) de Kevin Costner, ou de O Encantador de Cavalos (The Horse Whisperer, 1998) de Robert Redford, ou do mau de mais para ser verdade Mr. Jones (1993) de Mike Figgis. Roth partiu da história original de Fitzgerald, e reconstruiu com a incansável Robin Swicord, uma história trasladada para o século XX e para a cidade de Nova Orleães, no Estado do Luisiana, quando esta é fustigada pelo furacão Katrina.
      O filme estreia esta quinta-feira (dia 15) em Portugal.

      Entretanto, aproveitando os milhões aplicados na promoção do filme, a Editorial Presença resolveu publicar uma tradução inédita do conto de F. Scott Fitzgerald – que, como se referiu acima, tem pouco que ver com a história levada ao grande ecrã pelo realizador de Denver.
      O livro dispõe de 75 páginas, com 61 páginas úteis (as que incluem a história, entre páginas em branco na mudança de capítulo, ficha técnica e título), com as dimensões de 23 por 15 cm, letra de tamanho 13, com margens bastante folgadas. E pasme-se: P.V.P. 10 euros.
      Sobre o referido conto já não recaem direitos de autor, quando muito a editora teve de pagar à produtora do filme o direito de utilização das imagens da capa e da contracapa e os honorários (à cabeça ou em percentagem do volume de vendas) à tradutora (Fernanda Pinto Rodrigues).
      Repete-se à saciedade que os livros em Portugal são caros. Não partilho dessa opinião e basta atentar nos preços normalmente praticados noutros países. Todavia, isso não significa que não deixe de considerar que os direitos de propriedade intelectual são ridiculamente baixos, principalmente no caso dos novos autores, face ao preço do produto final. No entanto, neste caso específico da publicação em Portugal de O Estanho Caso de Benjamin Button, o preço é excessivo, para não usar uma expressão mais severa e acutilante – para isso, basta o título deste texto…
      Scott morreu em 1940, Zelda em 1948, Frances “Scottie” (filha única do casal) deixou o mundo dos vivos em 1986 com descendência que não renovou, ou nem tão-pouco herdou, os direitos de autor sobre as obras do avô.
      O súbito e legítimo interesse dos leitores pela história epónima que serve de base ao filme de Fincher, levou a que editoras de todo o mundo a editassem usando uma de duas soluções: publicação em separado, retirando-a das quatro ou cinco antologias em que estava inserida; ou publicação de uma nova antologia cujo título era emprestado pelo próprio conto.

      Eis seis exemplos:

      • Alemanha – editado pela Diogenes, 70 pp., €5,90;
      • Espanha – editado pela Lumen (de capa dura, inclui mais 7 contos), 272 pp., €18,90;
      • Estados Unidos – editado pela Juniper Grove, 32 pp., $5,95 (aprox. €4,50 ao câmbio do dia);
      • França – editado pela Gallimard (bolso, inclui mais 1 conto), 103 pp., €2;
      • Itália – irá ser editado pela Guanda (livro ilustrado), 130 pp., €14;
      • Reino Unido – editado pela Penguin (inclui mais 6 contos do autor), 208 pp., £7,99 (aprox. 8,78 € ao câmbio do dia).

      Nota final: Em 19 de Junho de 2008, a propósito do anúncio da data de estreia da 7.ª longa-metragem de David Fincher, publiquei aqui o primeiro capítulo (de onze) do referido conto, com tradução, eminentemente livre, de minha autoria. A dita tradução corresponde ao intervalo fechado de páginas entre a 7 e a 18 da edição de 75 páginas da Presença; sendo a 18 uma página em branco, corresponde a 11 páginas úteis, num total de 61, ou seja, traduzi cerca de 18% da obra. Neste momento, sinto pena de não haver traduzido os restantes 82%, destinados àqueles que têm reais dificuldades com a língua inglesa… mas, porventura, seria trabalho de burro, sem recompensa recíproca, ou seja, o esforço não seria acompanhado de uma massagem blogosférica no ego com o aumento do número de visitas.

      quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

      A chama que se apaga

      Este é dos tais textos que vamos evitando escrever. Quiçá não o devesse mesmo ter escrito, esperando sempre, como espera um admirador, um quase incondicional, um amante arrebatado turvado pela incandescência da paixão, que com o tempo o destinatário dessas admiração, incondicionalidade ou paixão acabe por não nos desiludir e, cumprindo a sua tarefa, seja ela qual for, o alimento da nossa admiração, mantenha ou amplie, ou que pelo menos reponha com a brevidade necessária, o brilho artístico, neste caso literário, que nos ofusca ou um dia nos ofuscou. É essa a esperança do admirador apaixonadamente incondicional, mas há limites.
      Falo de Auster, Paul Benjamin. Um homem cuja escrita teve o mérito de passar à primeira no meu crivo estético-literário com as obras de ficção que começou a publicar desde 1985, sublimadas em A Trilogia de Nova Iorque (The New York Trilogy) em 1987 e com continuidade nas restantes até 1999, com Timbuktu, e para não parecer tão severo e manifestar alguma da condescendência de um admirador típico, amplio o intervalo até ao ano de 2002 quando é lançado no mercado editorial O Livro das Ilusões (The Book of Illusions). De lá para cá, publica A Noite do Oráculo (The Oracle Night, 2004), As Loucuras de Brooklyn (o romance austeriano mais atípico; The Brooklyn Follies, 2005), Viagens no Scriptorium (Travels in the Scriptorium, 2006) e Homem na Escuridão (Man in the Dark, 2008), e enreda-se, ainda mais, nas teias da metaficção, no método das caixas chinesas e na narrativa desbastada ou sem atavios, magra, sem qualquer toque de génio, como se tratasse de um conjunto de caracteres despejados para páginas em branco que, por acaso, formam palavras e frases coerentes que, porém, não se ligam a outras frases ou a outras partes do texto.
      É óbvio que, enquanto escrevo estas palavras, não me sai da cabeça o seu último romance (o tal que oferecia, ou ainda oferece, o inútil saco de pano assinado) que me partiu o coração tal como a morte de Titus fez ao de Katya – Auster já nem se furta aos clichés, usa-os como muleta, com uma urgência que não se compreende. Que diabo, é este o seu trabalho. Foi esta a profissão que escolheu, como tão bem proferiu no discurso de agradecimento em Oviedo no ano 2006 (Prémio Príncipe das Astúrias). Contar histórias e falar ao interior de cada leitor que ouve, lendo, a sua narração. Se as histórias são alimento e meio de sobrevivência da espécie humana, a falta, ou a perda total, dessa qualidade, por simples desperdício, preguiça, levaria o Homem à inanição intelectual, espiritual, e, por consequência, à morte e ao limiar da sua extinção.
      Em Homem na Escuridão é-nos narrada a história de um homem septuagenário que se conta histórias para fazer com que a sua mente divirja das barbaridades que o foram assolando ao longo de décadas: a conturbada vida conjugal, os profundos desgosto e amargura da filha e o diletantismo pré-adulto da neta, que num arroubo deixou a Escola de Cinema em Nova Iorque para se juntar ao dueto familiar que se encontra a remoer o passado no Estado do Vermont. A filha escreve uma biografia sobre a obscura filha mais nova de Nathaniel Hawthorne, Rose e ele recupera das sequelas de um terrível acidente de automóvel no seu quarto escuro, onde engendra as histórias que o distraem da crueldade dos dias do seu quotidiano.
      Os ingredientes para uma boa história estão lá. A receita, porém, acaba por estragar ou desperdiçar as propriedades individuais desses ingredientes, retirando-lhes os elementos que adicionados a outros potenciam, por sinergia, a perfeição do produto final.
      A sensação que assalta o leitor não podia ser mais desagradável. Qual Tântalo esfaimado impedido de tragar os frutos suspensos à frente dos seus olhos. Embora, aqui, o fruto surja em formas difusas – o que poderia ter sido. Pontas soltas que não se unem. Histórias que ficam por contar. Uma infinidade de possibilidades que poderiam, sem esforço, encher uma meia estante de livros. As ideias estão lá, em bruto, prontas para serem lapidadas, calmamente desenvolvidas, à espera de ganhar o brilho espectral, iridescente e inimitável de uma história bem contada.
      O protagonista e a neta, em alternativa de criarem um blogue, passam o seu tempo a assistir a filmes em DVD, em silêncio, com uma atenção crítica que mais tarde é verbalizada em troca de opiniões e pontos de vista. Depois, de forma heteróclita, a neta, assaltada por uma insónia, deita-se na cama do avô e falam da vida e dos filmes que viram. Auster chega ao cúmulo de debitar em papel autênticas recensões cinematográficas e as suas perspectivas sobre filmes de realizadores não-americanos, como Ozu, Renoir ou Satyajit Ray, sem objectivo aparente – ou que eu o tenha conseguido captar – para a história que se conta. Peças desconexas e perfeitamente expurgáveis, e se retiradas contribuiriam para emagrecer a obra como num processo de lipoaspiração – extrair a camada adiposa em excesso.
      É apenas no fim do romance em que, perante a hecticidade literária das páginas anteriores, surge algum lirismo ligado a uma narrativa debilmente conexa, que necessitaria de mais páginas, de argumento, adjectivação… em suma, de tutano literário capaz de fazer retinir a campainha estética de um leitor minimamente exigente.

      Nas sucessivas entrevistas que deu, Auster confessou que se limitou literalmente a despejar palavras para a sua máquina de escrever e que, entre a digressão mundial para a promoção do seu mais que zurzido filme – A Vida Interior de Martin Frost (The Inner Life of Martin Frost, 2007) –, só teve tempo de largar o manuscrito no seu editor americano sem mais considerações.
      Como dizia Tom LeClair no The New York Times Book Review de 19 de Setembro de 2008:

      «Depois, digamos, de 10 livros, os romancistas talvez devessem ser reexaminados, tal como acontece com os cidadãos mais idosos, cuja maior propensão para acidentes os obriga a renovar a carta de condução. Os veteranos de guerras literárias deveriam submeter, de forma anónima, um novo manuscrito aos agentes literários. Sobre Homem na Escuridão, suponho que diriam, “imitação de Paul Auster de terceira categoria.” Depois, o autor poderia decidir em acelerar a escrita de uma imitação de primeira categoria dos seus trabalhos passados de primeira categoria. Ou poderia escrever uma ofensiva de quarta categoria sobre os agentes literários.» [tradução: AMC]

      Para finalizar, gostaria de deixar aqui um apelo que, com as estadas e curtas digressões em Portugal, o próprio Auster possivelmente poderia ler sem grandes dificuldades, deixando de lado a preguiça natural dos anglófonos em aprender qualquer palavra de outro idioma:

      Benjamin, por favor, renova a tua carta.