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quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Os Melhores Livros de 2013


Ficção
  1. Uma caneca de tinta irlandesa, de Flann O’Brien (ed. port. Cavalo de Ferro; At Swim-Two-Birds, 1939)
  2. Mason & Dixon, de Thomas Pynchon (ed. port. Bertrand; 1997)
  3. Ópera Flutuante, de John Barth (ed. port. Sextante; The Floating Opera, 1956)
  4. Luz Antiga, de John Banville (ed. port. Porto Editora; Ancient Light, 2012)
  5. 40 Histórias, de Donald Barthelme (ed. port. Antígona; Forty Stories, 1987)


Não-ficção
  1. Viagens, de Paul Bowles (ed. port. Quetzal; Travels: Collected Writings, 1950-93; 2010)
  2. Uma coisa supostamente divertida que nunca mais vou fazer, de David Foster Wallace (ed. port. Quetzal; A Supposedly Fun Thing I’ll Never Do Again, 2009)
  3. Os Níveis da Vida, de Julian Barnes (ed. port. Quetzal; Levels of Life, 2013)


Um 2013 com muita literatura publicada subgénero lixo e, por isso, com pouca frequência em livros publicados no ano.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Parágrafos Redundantes

Como de uma obra para outra o deslumbramento se torna em abominação literária.
Um exemplo da dissipação da palavra impressa numa manta de retalhos norueguesa premiada, a que chamaram romance:
«Eu sabia exa[c]tamente qual a cabana que queria. Disse-lhe o número. Ela [a recepcionista/proprietária] abriu a porta, pousou o balde no vestíbulo e vi-a a tirar a chave do quadro na parede que tinha várias fileiras de pequenos ganchos, um número para cada gancho e o mesmo número na placa plástica presa ao porta-chaves.»
Per Petterson, Maldito seja o rio do tempo, p. 208.
[Alfragide: Dom Quixote, 1.ª edição, Junho de 2013, 237 pp; tradução de Maria João Freire de Andrade; obra original: Jeg forbanner tidens elv, 2008 – se bem que, por preguiça ou por falta de pilim para pagar a um tradutor de norueguês/português, a editora tenha optado por traduzir da tradução em língua inglesa: I Curse the River of Time.]

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Banville, por fim...

Termina a "Trilogia Cleave", que se iniciou com o romance de uma beleza inigualável, o livro de ficção mais pungente entre todos aqueles que me passaram pelos olhos até aos dias em que escrevo estas curtas orações: Eclipse (2000); e prosseguiu com o maravilhosamente áspero O Impostor (Shroud, 2002).
Eis o Mestre Banville:

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Traições e Engano



Já anda por aí um novo velho livro de Roth, o Philip – embora duvide e suplique para que essa dúvida tenha razão de ser, sim, é o tal que anunciou ao mundo que terminou o seu período de escrita com o maravilhoso Némesis –, o livro intitula-se Engano e não é um equívoco se nos aflorar da mente que já o vimos por terras de Portugal, traduzido na nossa língua: pois, chamava-se Traições, numa versão em capa floreada.
Deception é uma novela de Roth originalmente publicada em 1990 e traduzida em Portugal, no ano seguinte, por Filomena Andrade e Sousa para a Bertrand. Agora, o livro reedita-se com Engano pela Dom Quixote, com tradução de Francisco Agarez, acompanhado de um preço inacreditável de 16,90 euros (dispõe de 208 páginas, mais 32 que a edição da Bertrand, dando-se o facto curioso de que a narrativa de ambos se inicia, precisamente, na mesma página, a 9 – faz-se render o peixe com letra de corpo... Gobern).
Quando em Maio do ano anterior a Dom Quixote iniciou, ao que parecia, a publicação da opera omnia do escritor de Newark, com o aparecimento do fabuloso Goodbye, Columbus (a primeira obra de Roth; publicada em 1959), tudo parecia indicar que se seguiria a tradução do 1.º romance do autor, Letting Go de 1962, seguindo-se o 2.º – e o único cujo protagonista é uma mulher – When She Was Good de 1967.
Pura ilusão.
Note-se, não sou contra a repetição de traduções. Por vezes, a repetição consegue inculcar-nos outra perspectiva da obra que outrora lêramos e de cuja leitura fixáramos doutrina – sem ler o original, não sabemos se por diminuição ou aumento da traição do traduttore. Porém, sou contra o desperdício de traduções sempre que se verifiquem estas duas condições em simultâneo: (1) obras que já existem aceitavelmente traduzidas no mercado nacional e (2) quando grande parte da obra do autor em questão – e neste caso, quase unanimemente considerada como brilhante – ainda não se encontra editada na nossa língua – há um apagão luso de Roth entre 1962 e 1990, com a excepção de O Complexo de Portnoy de 1969 (Portnoy's Complaint).

Para efeitos comparativos o bom, o mau e o vilão (o original, a perda na tradução, e a tradução, já de si perdida, e agora desperdiçada segundo a minha impugnável reflexão – carregar na imagem para a ampliar):


sábado, 5 de janeiro de 2013

Medula

O nosso conhecido, mui estimado e bukowskiano blogger, Manuel A. Domingos, lançou-se num projecto editorial denominado Medula, prometendo novidades para breve.

Para ir acompanhando.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Os Melhores Livros de 2012


É verdade, Foster Wallace elegia o etéreo “The Big Ship” de Brian Eno (álbum: Another Green World, 1977) como a sua música preferida – the spinal nature of music, como ele, DFW, confessou ao seu amigo mais chegado e que incluiu na sua última e pálida gargalhada, aparentemente inacabada no ano do fim, 2008, perante o mundo do aborrecimento esmagador e da melancolia:
«Esta canção faz-me sentir tão quente como seguro, faz com que me sinta aconchegado, como uma criança a quem acabam de tirar da banheira e a embrulharam em toalhas que foram lavadas tantas vezes que se tornaram incrivelmente suaves, mas também faz com que me sinta triste; há uma sensação de vazio no centro desse calor que se assemelha à tristeza de uma igreja sem ninguém ou a uma sala de aulas com muitas janelas através das quais só se pode ver a chuva a cair lá fora, como se no mesmo centro dessa sensação de segurança e de amparo se encontrasse a semente do vazio.»
David Foster Wallace, The Pale King, pág. 185. [Tradução livre: AMC; edição – New York: Back Bay Books, 2012, 592 pp.]
Este ano que passou foi parco em leituras por estas bandas, não só por algum aborrecimento confuso, como devido à minha eleição de obras intermináveis para a secção de leituras escolhidas.
Em resumo, 31 obras editadas em Portugal em 2012 foram lidas, 29 das quais reveladas na habitual coluna do lado direito deste blogue, onde predominou a “ficção” sobre a “não-ficção”, e votei 2 obras como excepcionais ou obra-prima, 11 como muito boas, 9 como boas e 7 como razoáveis, de cuja leitura poderia ter prescindido.
Depois de muito reflectir sobre um possível “ex-aequo” para as duas primeiras obras da lista (como ocorreu na minha lista de 2007), o resultado final foi o seguinte:

Os Melhores Livro de Ficção de 2011
  1. David Foster Wallace, A Piada Infinita (ed. port. Quetzal; Infinite Jest, 1996);
  2. Thomas Pynchon, Arco-Íris da Gravidade (ed. port. Bertrand; Gravity’s Rainbow, 1973);
  3. Ian McEwan, Mel (ed. port. Gradiva; Sweet Tooth, 2012);
  4. Saul Bellow, O Legado de Humboldt (ed. port. Quetzal; Humboldt’s Gift, 1975);
  5. Philip Roth, Goodbye, Columbus e Cinco Contos (ed. port. Dom Quixote; Goodbye, Columbus, 1959);
  6. Ali Smith, Qualquer Coisa Como (ed. port. Quetzal; Like, 1997);
  7. Julio Ramón Ribeyro, A Palavra do Mudo (ed. port. Ahab; La palabra del mudo, 1973 e ss. – selecção da edição portuguesa);
  8. Carlos Fuentes, Contos Naturais (ed. port. Porto Editora; Cuentos naturales, 2007);
  9. Enrique Vila-Matas, Ar de Dylan (ed. port. Teodolito; Aire de Dylan, 2012);
  10. Don DeLillo, O anjo Esmeralda (ed. port. Sextante; The Angel Esmeralda: Nine Stories, 2011).

Os Melhores Livro de Não-Ficção de 2012
  1. Edmund De Waal, A lebre de olhos de âmbar (ed. port. Sextante; The Hare with Amber Eyes – A Hidden Inheritance, 2010);
  2. Jonathan Franzen, A Zona de Desconforto (ed. port. Dom Quixote; The Discomfort Zone: A Personal History, 2006);
  3. Paul Auster, Diário de Inverno (ed. port. Asa; Winter Journal, 2012).

E agora a Memória, os meus melhores livros de ficção desde 2005 – ano da fundação deste blogue:
  • 2005 – Kazuo Ishiguro, Nunca Me Deixeis (ed. port. Gradiva; Never Let Me Go, 2005)
  • 2006 – Vladimir Nabokov, Convite para uma decapitação (ed. port. Assírio & Alvim; Priglasheniye na kazn, 1936)
  • 2007 – (2 obras em igualdade) Colm Tóibín, O Mestre (ed. port. Dom Quixote; The Master, 2004) & Jonathan Littell, As Benevolentes (ed. port. Dom Quixote; Les Bienveillantes, 2006)
  • 2008 – Robert Musil, O homem sem qualidades, volumes I e II (ed. port. Dom Quixote; Der Mann ohne Eigenschaften, 1930-1942)
  • 2009 – John Updike, Coelho em Paz (ed. port. Civilização; Rabbit at Rest, 1990)
  • 2010 – Saul Bellow, As Aventuras de Augie March (ed. port. Quetzal; The Adventures of Augie March, 1953)
  • 2011 – Julian Barnes, O Sentido do Fim (ed. port. Quetzal; The Sense of an Ending, 2011).

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Os Bons Anos

Já não há nenhuns, apenas o fedor da infinita graça desta perambulação sem sentido, a infinita graça da visão em paralaxe.
«Ah, pobre Yorick! Eu conheci-o, Horácio, uma pessoa de infinita graça, da mais fina fantasia.»
Levantado o véu sobre o Melhor Livro de 2012 (era um de dois), fica Brian Eno para ouvir em repetição infinita (a música de sua preferência):



Uma suave e eficaz sobrevivência para 2013.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

39 anos, 7 meses e 3 dias

Não se trata de um filme romeno, nem tão-pouco da minha idade (sou infelizmente mais velho, embora cerca de 8 meses, para que conste), mas do tempo que decorreu entre a publicação original e a edição em Portugal de uma transgressão literária que, mesmo na actualidade, continua a fazer torcer várias mentes e a vergar à humilíssima condição de falível humano os reaccionários semideuses defensores do realismo flaubertiano (e há um muito na moda) – como se isto fosse uma competição interescolar ou de mensuração perimetral e da extensibilidade máxima do órgão da soberba na eterna refrega pela masculinidade.

É somente isto:
«Uma berraria vem através do céu. Já aconteceu antes, mas nada há que a compare com agora.»
Com chancela da Bertrand e tradução de Jorge Pereirinha Pires, eis a tão magistral, como polémica, obra de Thomas Pynchon, que motivou mesmo uma suspensão de atribuição do prémio Pulitzer em 1974, embora a obra tivesse sido unanimemente eleita pelo júri nomeado para a categoria de “Ficção” – a talho de foice, constituído pelos escritores e críticos literários Elizabeth Hardwick (1916-2007) e Alfred Kazin (1915-1998), e pelo escritor, ensaísta, eminente académico e crítico cultural Benjamin DeMott (1924-2005) , porém enfaticamente rejeitado pelos visionários membros do Conselho de Administração dos referidos galardões.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Gula

Há quem lamente um certo adormecimento do vigor da ficção ultimamente produzida pelo escritor inglês Ian McEwan. Servem-se do seu natural processo de envelhecimento como caixa-de-ressonância dessa inexorabilidade, contribuindo, assim, para a perda de algum do tão característico negrume nas suas obras mais recentes. Porém, até hoje e que se note, esse negrume tão idiossincrático pairou sempre sobre a sua arte de contar histórias, e neste conceito conseguimos facilmente encaixar a sua prosa concisa, furiosa, brutal, de um sadismo muitas vezes concretizado num humor negro subtil (embora pareça um contra-senso, a subtileza desse humor esconde-se nos pormenores da vulgar vastidão das suas paisagens narrativas) ou numa ironia tão fina e penetrante que, sem darmos por isso, nos atira para um labirinto cuja única saída é o assombro e a inquietação que esse espanto provoca.
Expiação (Atonement, 2001) e Solar (2010) são, à primeira vista, os seus romances mais atípicos, porquanto no primeiro se nota a presença de um certo lirismo e de um pathos não existentes nas obras anteriores e logo abandonados nas obras que se lhe seguiram: Sábado (Saturday, 2005) e a novela Na Praia de Chesil (On Chesil Beach, 2007); no segundo a deliberada hiperbolização do grotesco e as passagens de uma hilaridade de levar o leitor às lágrimas parecem fugir ao cânone mcewaniano. Nada de mais enganador, são artifícios que um McEwan mais refinado, e talvez, na aparência, um pouco menos fragoso, foi desenvolvendo com o maturar da sua escrita: as sombras, a perversidade e a perfídia irreparável encontram-se no subtexto, por muito que alguém se queira enganar com as atribulações do romance "Robbie/Cecilia" ou com as peripécias pessoais e profissionais do físico, burlesco e peripatético, "Michael Beard".
Com Mel (Sweet Tooth, 2012; ed. port. Gradiva), McEwan acrescenta à sua ficção, por um lado, a auto-referencialidade e, por outro, a sucessão vertiginosa de factos, pseudo-rupturas, acidentes e peripécias na narrativa, que se consubstanciam numa representação simbólica das famosas caixas chinesas.  
Se, por exemplo, a auto-referencialidade se evidencia sobretudo com a colectânea de contos negros Entre os Lençóis (In Between the Sheets, 1978) – porventura o mais perverso livro de McEwan, cujas histórias servirão como base para a fulgurante estreia literária de "Thomas Haley" –, afigura-se-me como tortuoso, e até de difícil justificação, deixar cair o epíteto de áspero ou negro para caracterizar Mel. A gula tão humana no crisol da sua existência.

Deixando a crítica aos recenseadores ajuramentados da nação lusa, termino com a minha sintética opinião: Mel é mais uma pérola literária do escritor inglês do Hampshire, uma obra-prima. Surpreendente, escrito numa cadência sufocante – à medida que as caixas se vão abrindo –, é mais uma proeza de um virtuoso que parece dispor de recursos infinitos para nos assombrar de uma forma irresistível e, no entanto e por agora, Serena.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

O Homem com Antenas de Visionário

Mais uma boa notícia (abaixo).
Nove contos escritos entre 1979 e 2011 por mais um dos autores do meu Olimpo e que empresta as suas palavras à epígrafe deste blogue à beira do colapso (nem de propósito!), editados em português pela Sextante.



Dilema Gaspar/Vladimir Ilyich: Que fazer? Dois Bukowski (Alfaguara); McEwan (Gradiva); as memórias de Rushdie, aka Franz Anton, a meticulosidade histórica da cruel Némesis sobre a hubris hitleriana de Kershaw (ambos editados na Dom Quixote); o último romance de Mrs. Auster, Siri Hustvedt (Asa); a reedição dos dois calhamaços do pós-guerra de Popper (Edições 70); e agora este.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Para os Gulosos, estirpe McEwaniana

Eu, pecador, pela gula bibliómana com a marca do mestre de Aldershot, me confesso.

Um mês após o lançamento em Inglaterra, a Gradiva (obrigado!) publica no nosso país Sweet Tooth:



domingo, 20 de maio de 2012

Roth dobra o cabo das tormentas em Portugal


Espero que não seja apenas um fogacho, um daqueles lampejos que sói iluminar algumas cabeças de responsáveis editoriais em Portugal, e que se agarre o touro pelos cornos publicando paulatinamente toda a obra do maravilhoso Philip Roth que, vergonhosamente, ainda não se viu enformada pela língua de Camões neste lado do Atlântico.
Foi em 1959 que Roth lançou a sua primeira obra, constituída por uma novela e cinco contos e que desde logo colocou em rebuliço o mundo das letras norte-americanas.
Em pouco mais de meio século, com 27 obras de ficção originalmente publicadas – não entrando em consideração com as dezenas de contos e ensaios, e as obras de não-ficção –, e com a publicação garantida da sua opera omnia pela Library of America, o injustiçado não-Nobel, à maneira luso-heteróclita e descontando o republicadíssimo O Complexo de Portnoy de 1969 (Portnoy’s Complaint), só tem obra publicada a partir da sua novela dialógica de 1990 Traições (Deception), editada pela Bertrand, embora ainda não exista a publicação que se lhe seguiu: Operation Shylock (1993).
Em suma, Roth tem apenas 48% da sua obra de ficção publicada em Portugal, em que 44% se refere, apenas, aos últimos 22 anos da sua actividade literária de 53.
Amanhã, está prometido, dobrar-se-á o tormentoso cabo da metade. Uma boa esperança, espero que não vã:        

«A primeira vez que vi a Brenda, pediu-me que lhe tomasse conta dos óculos. Deu uns passos até à extremidade da prancha de saltos e fitou a piscina com olhos enevoados; até podia estar vazia, que a Brenda, míope como era, não teria dado por nada. Fez uma belíssima entrada na água e, passado um momento, estava a nadar de regresso à margem da piscina, a cabeça, de cabelos curtos e acobreados, erguida no prolongamento do corpo como uma rosa na ponta de um caule comprido. Içou-se para a margem fazendo deslizar o corpo e veio ter comigo. – Obrigada – disse, de olhos aquosos mas não por causa da água. Estendeu a mão e pegou nos óculos, mas só os pôs depois de virar costas e começar a andar. Fiquei a vê-la afastar-se. De repente apareceram-lhe as mãos atrás das costas. Agarrou os fundilhos do fato de banho com o polegar e o indicador de cada mão e com um gesto rápido repôs no lugar a carne que tinha ficado à vista. Ferveu-me o sangue nas veias.
Nessa noite, antes de jantar, telefonei-lhe.
»
Philip Roth, “Goodbye, Columbus”, Goodbye, Columbus e cinco contos, pág. 15.
[Alfragide: Dom Quixote, 1.ª edição, 2012, 304 pp.; tradução de Francisco Agarez; obra original: Goodbye, Columbus; 1959.]

sábado, 7 de janeiro de 2012

Acossado por Murakami

Nos idos de Julho de 2007, após a leitura em primeira mão de Em Busca do Carneiro Selvagem do escritor japonês Haruki Murakami, decretei um período de pousio murakamiano para o meu nervo óptico. O pousio mantinha-se, persistente, inabalável e sem saudosismos, até que ao aproveitar para fazer a alusão à estreia iminente do último filme de um realizador muito cá da casa, o vietnamita Tran Anh Hung, que adaptara parte da, por mim considerada, melhor obra de ficção de Murakami (Norwegian Wood), confessei que o compromisso fora quebrado (subsistiu, ainda assim, três anos), e o arrependimento que sobreveio foi de certa forma angustiante (como nessa altura comentei).
Quinze meses decorridos, verifico que o filme de Anh Hung passou ao lado das salas de cinema portuguesas, apesar de ter sido adquirido pela maior distribuidora e detentora de espaços de projecção em Portugal, a ZON Lusomundo, e surgiu apenas no circuito comercial de DVD em parceria com a FNAC. A propósito de uma salutar discussão sobre esta inevitabilidade nacional, a pequenez do nosso mercado associada à recalcitrante iliteracia do português médio, foi-me recomendada a leitura do último romance editado em Portugal pelo escritor nipónico, convertido em orwelliano de olhos em bico, escreveu 1Q84 – lido em japonês soa a 1984, já que “9” e “Q” são palavras homófonas. Fiquei a saber que o volume que me habituara a ver em destaque nos escaparates das livrarias neste Natal (e sempre nos espaços reservados aos tops de vendas), trata-se apenas do primeiro livro (ou calhamaço) de três (com tantas ou mais páginas) da obra proto-orwelliana, cujos restantes livros irão sair a conta gotas durante este ano (fazer render o peixe, e que bem serve ao quase ictiólogo Murakami dada a profusão de cardumes nos seus livros).
Informo, para que conste onde convier, que adquiri o Livro 1 de 1Q84 de Haruki Murakami (ed. port. Casa das Letras; obra original: 1Q84 – Book 1, 2009), e, mal o abri, as razões determinantes para o início do pousio acima referido surgiram em forma de náusea – apesar da minha inata teimosia, insistindo e esforçando-me para que a sua leitura apenas termine na página 487 e quiçá, percorra os restantes volumes ainda no prelo –, vívidas rememorações de um subgénero literário nipónico do realismo mágico sul-americano: o(a) protagonista desgraçado(a) íntegro(a) e idealista, os personagens esfíngicos – normalmente velhos e cruéis , a presciência zoológica – habitualmente peixes e gatos –, o lesbianismo pubertário com descrições tácteis de pétalas de rosa, os edifícios e quartos misteriosos com alçapões para o inconsciente, os poços e as perturbações espácio-temporais, com desmaios inexplicáveis.

E a ervilha-verde demorou mais de seis páginas para descer as escadas de segurança metálicas de uma auto-estrada, com intensas recordações sáficas da sua adolescência à medida que ia pisando descalça os frios e rugosos degraus de metal.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Literatura: Os Melhores Livros de 2011


Como tem sido hábito desde a fundação deste blogue, que já passou por dois encerramentos e outros tantos regressos com nomes diferentes, a minha fúria listómana termina com a publicação dos melhores livros editados em Portugal durante o ano em causa. Não se trata, porém, de uma novidade, já que sempre existiu uma coluna do lado direito que vai engrossando à medida que novos títulos que emergiram no mercado editorial português vão passando sob os meus olhos ávidos de bibliómano. Infelizmente, a lista deste ano é mais curta que a dos seus predecessores, todavia é sobre ela que exponho, agora numa escala ordenada, os meus encantamentos literários.
Chega o momento de repetir à laia de aviso/disclaimer o processo de selecção:
Ao contrário de qualquer lista publicada nos órgãos de informação convencionais por um ou mais críticos, por meio de qualquer espécie de votação (nem que seja através de uma peroração avaliadora na sua recensão), o único critério que preside à escolha dos livros editados durante o ano para as minhas particulares sessões de leitura e sua posterior classificação (com publicação imediata no blogue) é apenas o meu gosto pessoal por determinados autores, por determinada escola literária ou por certo tipo de narrativas, embora a escolha possa haver resultado da indicação de alguém, seja um crítico literário ou um mero leitor, que me recomendou a sua leitura e, como é óbvio, desde que eu lhe confira algum tipo de autoridade na matéria – há críticos e críticos, e há leitores mais conformes às minhas preferências estético-literárias, mesmo que não os suporte. Assim, este tipo de listagem sofre, à partida, de um vício de forma, e que leva a que a maioria dos livros classificados se situe nos graus mais elevados de apreciação literária: uma escolha apriorística e condicional, sem a isenção que outros terão de apor no processo de selecção da obra a analisar, condição necessária à integridade de um crítico – no plano teórico, claro; não sou tão inocente.
Foram 37 (um não revelado) os livros editados em Portugal no ano de 2011 que passaram sob o meu crivo de bibliómano: 2 foram classificados como “obra-prima” (6 estrelas); 12 com “Muito Bom” (5 estrelas); 14 com “Bom” (4 estrelas); 5 com “A Ler” (3 estrelas); 2 com “Medíocre” (2 estrelas), e mais 1 classificado como “Mau” (1 estrela).

As listas

Os 10 Melhores Livros de 2010 – Ficção
1.º – Julian Barnes, O Sentido do Fim (ed. port. Quetzal; The Sense of an Ending, 2011);
2.º – David Vann, A Ilha de Sukkwan (ed. port. Ahab; Sukkwan Island, 2008);
3.º – Michel Houellebecq, O mapa e o território (ed. port. Alfaguara; La Carte et le Territoire, 2010)
4.º – John Banville, Os Infinitos (ed. port. Asa; The Infinities, 2009);
5.º – Don DeLillo, Ponto Ómega (ed. port. Sextante; Point Omega, 2010);
6.º – Colm Tóibín, Mães e Filhos (ed. port. Bertrand; Mothers and Sons, 2006);
7.º – Philip Roth, Némesis (ed. port. Dom Quixote; Nemesis, 2010);
8.º – Gonçalo M. Tavares, Short Movies (Caminho);
9.º – Don DeLillo, Americana (ed. port. Relógio D’Água; 1971);
10.º – Leonardo Padura, O Homem que Gostava de Cães (ed. port. Porto Editora; El hombre que amaba a los perros, 2009).

Menções Honrosas (livros que poderiam ocupar, por troca ou em simultâneo, os dois últimos lugares do Top 10, ordenados pelo nome próprio do autor)
  • Howard Jacobson, A Questão Finkler (ed. port. Porto Editora; The Finkler Question, 2010);
  • Jonathan Franzen, Liberdade (ed. port. Dom Quixote; Freedom, 2010).

Os 3 Melhores Livros de 2011 – Não-Ficção (este ano reduzida a 3 títulos)
1.º – Joseph ONeill, Rasto Negro de Sangue – Uma História de Família (ed. port. Bertrand; Blood-Dark Track: A Family History, 2001);
2.º – Patti Smith, Apenas Miúdos (ed. port. Quetzal; Just Kids, 2010);
3.º – Saul Bellow, Jerusalém, Ida e Volta – Um Relato Pessoal (ed. port. Tinta-da-China; To Jerusalem and Back: A Personal Account, 1976).

Memória (os meus melhores desde 2005)
2005Kazuo Ishiguro, Nunca Me Deixeis (ed. port. Gradiva; Never Let Me Go, 2005)
2006Vladimir Nabokov, Convite para uma decapitação (ed. port. Assírio & Alvim; Priglasheniye na kazn, 1936)
2007 – (2 obras em igualdade) Colm Tóibín, O Mestre (ed. port. Dom Quixote; The Master, 2004) & Jonathan Littell, As Benevolentes (ed. port. Dom Quixote; Les Bienveillantes, 2006)
2008Robert Musil, O homem sem qualidades, volumes I e II (ed. port. Dom Quixote; Der Mann ohne Eigenschaften, 1930-1942)
2009John Updike, Coelho em Paz (ed. port. Civilização; Rabbit at Rest, 1990)
2010Saul Bellow, As Aventuras de Augie March (ed. port. Quetzal; The Adventures of Augie March, 1953).

Finalmente, um breve excerto do melhor, para além do que aqui já foi dito em tempo oportuno e que se reflecte também nesta citação arrancada a um todo deslumbrante (no texto abaixo optou-se por uma transcrição ipsis verbis, seguindo-se, por isso, a opção da editora pela regras do abstruso e Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa; para além da incompreensível troca de artigos, o indefinido pelo definido, na tradução do título da obra para a nossa língua):
«Que sabia eu da vida, eu que vivera com tanto cuidado? Que não ganhara nem perdera, mas só deixara que a vida me acontecesse? Que tinha as ambições comuns e me adaptara demasiado cedo a que elas não se realizassem? Que evitava ferir-me e chamava a isso capacidade de sobrevivência? Que pagava as minhas contas, estava de bem com toda a gente na medida do possível, mas para quem o êxtase e o desespero depressa se tornaram meras palavras, lidas outrora nos romances? Eu, cuja autocensura nunca infligia realmente dor? Pois, havia tudo isto para refletir, enquanto eu passava por um tipo de remorso especial: uma dor finalmente infligida a alguém que sempre pensou saber como evitar ser magoado – infligida por essa mesma razão.»

Julian Barnes, O Sentido do Fim, p. 144 [Lisboa: Quetzal, Novembro de 2011, 152 pp.; tradução de Helena Cardoso; obra original: The Sense of an Ending, 2011]

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Memória


Nada de resenhas, críticas, ou pseudo-recensões – ainda me vergastam pela foice cravada na seara dourada deles. Trata-se apenas da exteriorização de um desassossego. Perdão! Fui assombrado pelo quarteto de palavras que formam a frase que encerra a centena e meia de páginas deste aqui ao lado – o Booker Prize deste ano. Talvez aquele que nos últimos dois ou três anos mais fez vibrar a corda sensível da minha condição de leitor ávido: «Há uma grande agitação.» [There is great unrest] – unrest.
     
Acumulação.
Seguimos com as nossas vida sem perceber… nunca percebemos. Caminhos trilhados a remover obstáculos que se vão acumulando, formando muros insuperáveis para quem outrora nos rodeou e seguia os nossos passos; e quando olhamos para trás apenas vislumbramos vultos difusos, uma memória esparsa que se foi enterrando nos escombros do quotidiano pelo egoísmo intrínseco à nossa subsistência.      
Responsabilidade.
A tomada de consciência. O despertar da memória – puxar os fios soltos que adejam ao vento, radicados ao solo estéril, que a libertam do entulho opaco, infecto e nauseabundo –, a miséria humana. A culpa pela dor atroz infligida.  
Agitação.
Não há reparação, nem nunca iremos perceber que todos os actos praticados com esse fim apenas irão servir para ampliar o sofrimento provocado. Resta o remorso:
«Às vezes penso que a finalidade da vida é reconciliar-nos com a sua eventual perda esgotando-nos, e provando, por muito tempo que leve, que a vida não é tão boa como se diz.»

Julian Barnes, O Sentido do Fim, pág. 109

[Lisboa: Quetzal, Novembro de 2011, 152 pp.; tradução de Helena Cardoso.]

sábado, 29 de outubro de 2011

MH & AH: 1065 páginas.


Até breve...


PS - Aquela coisa do Finkler e do finklarismo tem mesmo piada. Repousou por aqui seis meses e vale mesmo a pena ser aberto e deixá-lo respirar, especialmente devido ao denso e brumoso momento por que passa a nossa vida (bom, diga-se, a minha...) Estrelização próxima, e por muito que custe aos estrelados (e até nem desdenho dos agora escalfados em lume brando) e aos guardiões pretorianos de constelação alheia que, por nebulosa atitude, votam à matéria escura aquele que ousa tão baixo estrelar. (Dou-vos um mandamento novo, contado com o de "amai-vos uns aos outros como...", será o 12.º: Não baixamente estrelarás o teu próximo [leia-se, o meu amigo].)  

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Tinha perdido a magia

E como num estranho processo de contágio, porventura um exercício deliberado de auto-recriminação em forma de novela, Roth transpôs o fracasso de Simon Axler para a luta encarniçada, que referia numa entrevista recente, de Philip, o escritor, até alcançar a obra: o tal abatimento pós-escrita.
Não é que não se sinta aquela voz impulsiva e obstinada com que nos permitiu, felizmente, captar a sua criatividade, que julgáramos infinita, ao longo da sua espantosa obra. Mas esses, os deuses, também falham. E o libidinoso grotesco que Roth maneja como ninguém, é mesmo neste caso liminarmente grotesco e artificial, como o falo verde de látex, de onde o nosso espírito, por mais indulgente que seja e mesmo com arnês, já não consegue fugir até ao pretendido pathos tchekhoviano final, puerilmente falhado.
[Sobre A Humilhação]

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Stoppard devora Franzen

Se há expressão corrente que mais me fascina, pela sua pseudo-singeleza metafórica, é aquela que retrata um bibliómano como “um devorador de livros” – sintetizando, um bibliófago –, um vulgar verme que se alimenta de papel. Todavia, este meu indomável fascínio atinge o seu clímax quando, pela metonímia, se antropomorfiza o verme criando um leitor de homens que, embebido na metáfora, se transforma num antropófago.
Na selecção anual dos melhores livros de 2010 pela insuportável equipa de críticos do diário britânico The Guardian, foi pedida a contribuição de autores consagrados, de cineastas e até do público leitor (desconheço, neste último caso, de que forma se revestiu e qual o peso atribuído à participação). Na listagem final o inevitável afilhado de Oprah, o enfatuado, e assumidamente invejoso, Jonathan Franzen, lá conquistou o lugar cimeiro com o calhamaço Freedom – uma pretensa bofetada inglesa aos seus ex-colonos americanos que ousaram em não lhe atribuir o National Book Award – e, depois, verifiquei, alvoraçando-me as entranhas, que até Bret Easton Ellis consta da lista dos 29 melhores, com aquela coisa inenarrável entre a novela e o romance em forma de livro (o que eu já aqui espumei devido à mera existência dessa bagatela literária!) Se fizerem uma simples pesquisa googliana e introduzirem as expressões “snubbed” “freedom” e “franzen” chegam a um resultado próximo das 13.300 páginas. Mas, se substituírem as duas últimas expressões na barra de pesquisa por “solar” e “mcewan” obtém-se um resultado a rondar as 1980 páginas da internet (e na maioria delas o termo “ignorado, com alguma premeditação”, nem está associado aos restantes dois). É triste, e logo na obra mais alegre e desassombrada do, a par de Ishiguro, melhor escritor inglês vivo.
Continuando nas escolhas do Guardian, constatamos que o dramaturgo Tom Stoppard também participou nos jogos florais de fim de ano, e depois de no primeiro parágrafo se haver referido, com alguma ironia, à miríade de livros que leu, logo no dealbar do ano que agora termina, sobre a implosão de Wall Street, abordou a parte mais importante e séria no segundo:
«Também este ano, retirei um enorme prazer das últimas 518 páginas do livro de Jonathan Franzen The Corrections (Fourth Estate)*, que havia posto de parte em 2001 para o ler quando tivesse tempo. Encontro-me agora na página 14 de Freedom. Altamente recomendado.» [tradução livre: AMC; nota minha: *romance publicado em Portugal em 2003 pela Dom Quixote, sob o título Correcções, que na sua 1.ª edição continha 512 páginas; já a versão referida por Stoppard contém 526 páginas (1.ª edição britânica em 2001).]

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Literatura: Os Melhores Livros de 2010

Das listas de final do ano em que manifesto as minhas preferências sobre os produtos artísticos em três das suas áreas, esta, a dos melhores livros, é a que menos surpresas contém. O leitor e meio que está atento ao meu blogue desde a sua fundação a 17 de Dezembro de 2005 (chamava-se, então, Porque), sabe que na sua coluna do lado direito figurou sempre uma listagem de actualização permanente de livros editados em Portugal no ano correspondente, por mim lidos e classificados de acordo com cinco categorias (mais uma, a título excepcional, a “obra-prima”) de apreciação literária, desde o “Muito Bom” (5 estrelas) ao “Mau” (1 estrela). A única novidade a apresentar está na segunda hierarquização que estabeleço no final do ano entre os livros que mais gostei, normalmente aqueles que foram por mim classificados com 5 ou 6 estrelas, que se materializa na publicação de duas listas ordinais: (1) a dos 10 melhores livros de ficção e (2) a dos 5 melhores livros de não-ficção (ensaio, crónicas, memórias, biografia, científicos, etc.).
Ao contrário de qualquer lista publicada nos órgãos de informação convencionais por um, de forma isolada, ou mais críticos, por qualquer espécie de votação, o único critério que preside à escolha dos livros editados durante o ano em que os irei ler e posteriormente atribuir-lhes uma classificação (com publicação imediata no blogue) é apenas o meu gosto pessoal por determinados autores, por determinada escola literária ou por certo tipo de narrativas, embora a escolha possa haver resultado da indicação de alguém, seja um crítico literário ou um mero leitor, que me recomendou a sua leitura e, como é óbvio, desde que eu lhe confira algum tipo de autoridade na matéria – há críticos e críticos, e há leitores mais conformes às minhas preferências estético-literárias, mesmo que não os suporte. Assim, este tipo de listagem sofre, à partida, de um vício de forma, e que leva a que a maioria dos livros classificados se situe nos graus mais altos de apreciação literária: uma escolha apriorística e condicional, sem a isenção que outros terão de apor no processo de selecção da obra a analisar, condição necessária a um crítico – no plano teórico, claro; não sou tão inocente.
Foram 41 os livros editados em Portugal no ano de 2010 que passaram sob o meu crivo de bibliómano: 3 foram classificados como “obra-prima” (6 estrelas); 14 com “Muito Bom” (5 estrelas); 12 com “Bom” (4 estrelas); 8 com “A Ler” (3 estrelas); 2 com “Medíocre” (2 estrelas), e mais 2 classificados como “Mau” (1 estrela).
As listas

Os 10 Melhores Livros de 2010 – Ficção
1.º – Saul Bellow, As Aventuras de Augie March (ed. port. Quetzal; The Adventures of Augie March, 1953)
2.º – Don DeLillo, Submundo (ed. port. Sextante; Underworld, 1997)
3.º – Sophia de Mello Breyner Andresen, Obra Poética (Caminho)
4.º – Thomas Pynchon, Vício Intrínseco (ed. port. Bertrand; Inherent Vice, 2009)
5.º – valter hugo mãe, a máquina de fazer espanhóis (Alfaguara)
6.º – Lydia Davis, Break It Down – Demolição (ed. port. Ulisseia; Break It Down, 1986)
7.º – William Gaddis, Agapé, Agonia (ed. port. Ahab; Agapé Agape, 2002)
8.º – Ian McEwan, Solar (ed. port. Gradiva; 2010)
9.º – John Cheever, Crónica de Wapshot (ed. port. Relógio D’Água; The Wapshot Chronicle, 1957)
10.º – Norman Manea, O Regresso do Hooligan (ed. port. Asa; Întoarcerea huliganului, 2003)

Menções Honrosas (livros que poderiam ocupar, por troca ou em simultâneo, os quatro últimos lugares do Top 10, ordenados pelo nome próprio do autor)
  • Charles Bukowski, Ham on Rye – Pão com Fiambre (ed. port. Ulisseia; Ham on Rye, 1982)
  • John Updike, As Lágrimas do Meu Pai (ed. port. Civilização; My Father’s Tears and Other Stories, 2009)
  • Martin Amis, A Viúva Grávida (ed. port. Quetzal; The Pregnant Widow, 2010)
  • Sherwood Anderson; Winesburg, Ohio (ed. port. Ahab; 1919)

Os 5 Melhores Livros de 2010 – Não-Ficção
1.º – George Steiner, George Steiner em The New Yorker (edição de Robert Boyers) (ed. port. Gradiva; George Steiner at The New Yorker, 2008)
2.º – George Orwell, Livros & Cigarros (ed. port. Antígona, antologia da editora portuguesa; ensaios publicados entre 1936 e 1952)
3.º – Peter Sloterdijk, Cólera e Tempo (ed. port. Relógio D’Água; Zorn und Zeit. Politisch-psychologischer Versuch, 2006)
4.º – John Newsinger, George Orwell – Uma Biografia Política (ed. port. Antígona; Orwell’s Politics, 1999)
5.º – Andrew Sullivan, A Alma Conservadora (ed. port. Quetzal; The Conservative Soul, 2006)

Memória (os meus melhores desde 2005)
2005 – Kazuo Ishiguro, Nunca Me Deixeis (ed. port. Gradiva; Never Let Me Go, 2005)
2006 – Vladimir Nabokov, Convite para uma decapitação (ed. port. Assírio & Alvim; Priglasheniye na kazn, 1936)
2007 – (2 obras em igualdade) Colm Tóibín, O Mestre (ed. port. Dom Quixote; The Master, 2004) & Jonathan Littell, As Benevolentes (ed. port. Dom Quixote; Les Bienveillantes, 2006)
2008 – Robert Musil, O homem sem qualidades, volumes I e II (ed. port. Dom Quixote; Der Mann ohne Eigenschaften, 1930-1942)
2009 – John Updike, Coelho em Paz (ed. port. Civilização; Rabbit at Rest, 1990)

Por fim, uma verdadeira pérola, num mar literário pejado delas (um belo retrato – a Humanidade e a versão do real):

«Não é correcto pensar que todas as outras pessoas têm mais força de carácter que nós. Ora, é óbvio que isso não é verdade, é apenas a nossa imaginação a exagerar a visão que as pessoas têm de nós, interpretando erradamente que gostam de nós pelo que não somos, ou que não gostam de nós pelo que não somos, tanto por equívoco como por preguiça. A saída deve ser não nos importarmos, mas, para isso, temos de saber com o que nos devemos realmente importar e entender o que agrada ou não agrada em nós. Mas pensamos que cada nova pessoa que chega está preocupada com isso e atenta a isso? Não. E importamo-nos que cada uma delas se importe por sua vez? Nem pensar. Porque, de qualquer modo, não há uma única pessoa no mundo que consiga mostrar o que é sem se sentir um pouco exposta e envergonhada e, estando preocupada com isso, não pode importar-se, mas tem de tentar parecer melhor e mais forte do que as outras pessoas todas – que loucura! Entretanto, não sente nenhuma força de verdade em si, engana e é enganada, depende da burla, mas acredita anormalmente na força dos fortes. Durante este tempo todo, ninguém deixa que nada de genuíno apareça, nem sabe o que é real e o que não é. E estes são os desfigurados, degenerados e sombrios seres humanos – a simples Humanidade.» [E continua no parágrafo seguinte.]
Saul Bellow, As Aventuras de Augie March, p. 534 [Lisboa: Quetzal, Setembro de 2010, 709 pp; tradução de Salvato Telles de Menezes; obra original: The Adventures of Augie March, 1953.]

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Os preços

Já aqui tenho elogiado algumas editoras que têm vindo a recuperar os grandes nomes da literatura universal, editando as suas obras até hoje inéditas em Portugal (ou caídas no olvido rumo aos alfarrabistas há dezenas de anos). Por mera preguiça, não fui verificar os meus escassamente incontáveis textos anteriores, e já não sei se a Ulisseia, agora chancela do grupo editorial Babel de Paulo Teixeira Pinto, já foi vítima dos meus elogios ou agraciada com a minha descomprometida verrina. Todavia, recorro à depauperada memória mais fresca para informar que a dita já foi objecto sacrificial por louvor aquando da publicação recente do Ham on Rye de Bukowski, com tradução do meu amigo invisível (apenas blogosférico) Manuel A. Domingos – o problema da coisa, isolamo-nos atrás destes muros cintilantes de cristais líquidos, e cremos que somos imensamente apreciados e até populares, apesar de o infalível contador não deixar a sombra de uma dúvida.
Volto à Ulisseia, trazendo-a ao pelourinho do aplauso pelas obras entretanto publicadas, com especial destaque do viciante deleite que retiro da leitura lenta e cuidada, quase como um meticuloso exercício de degustação, de Break It Down – Demolição da autora norte-americana Lydia Davis – a “ex” do Paul Auster, a sua companheira de viagem em tradução por França no início dos anos 70 do século passado (não sei se, com ele, ficou a conhecer o mestre Beckett), compartilhadora da fome que o judeu de Newark descreve nos suas memórias, e mulher entre 1974 e 1978, mãe do agora atinado (creio eu) Daniel Auster –, com uma tradução, que até chateia pela irrepreensibilidade, pelo nosso guardião do universo borgiano, José Mário Silva. [Frontispício da obra, acima reproduzido.]
De minha parte, enquanto leitor passivo – de nenhuma forma participante na elaboração da política editorial da referida editora –, espero que se continue a traduzir a obra desta autora, até há bem pouco tempo passível de ser conotada (e luso-conjecturada) com a mulher do intangível criador de vestuário desportivo, com lojas abertas ao público. E, como refere José Luís Peixoto no prefácio a este livro de histórias breves quando refere a tradução, também eu sou defensor do primeiro lado [cf. subcapítulo ‘Prefácio’ do “Prefácio”, de Break It Down – Demolição], e apugilista dessa prática (pronto a defender a ideia num ringue de boxe à laia de um Mailer a levar uns ganchos mortíferos de Vidal – e não me enganei, e até faço um apelo à Porto Editora para que na próxima revisão do seu dicionário introduza o vocábulo tão ouvido nas tertúlias erudito-futebolísticas deste país), que afinal é bem mais habitual em Portugal.
Gostaria de ter terminado o texto no parágrafo anterior, mas o título impede-me, apenas por uma questão de pudor (prefiro-o, neste caso, à honra): duzentas e cinco páginas impressas em edição brochada custam dezanove euros e cinquenta cêntimos – dezanove cêntimos a folha impressa. Considero um verdadeiro exagero e abstenho-me de enquadrar a questão na conjuntura socioeconómica do país (pois bem, acabei de o fazer). Aliás, sem ter feito uma exaustiva análise comparada, a generalidade dos livros da Babel merecem que os preços sejam sovados…
Máxima surfista modificada e aumentada: destruam os preços e não os livros (e a carteira de quem os compra).