Mostrar mensagens com a etiqueta Literatura. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Literatura. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Quem?

As Novas Oportunidades in motion nas ilhas britânicas. Howard Jacobson, escritor-humorista mancuniano, nascido em 1942, venceu o Booker Prize de 2010, com The Finkler Question. E o júri considerou o pré-septuagenário como sendo em parte depositário «da mais espirituosa, pungente e verdadeiramente perspicaz prosa humorística na língua inglesa» – por andavas tu no nosso país (e talvez no teu), seu folgazão? E a obra «foi descrita como “maravilhosa” e “irrepreensivelmente satisfatória” e como um romance “pleno de sentido de humor, chama, inteligência, sensibilidade e compreensão”».
A obra debruça-se (com equilíbrio assegurado) sobre «o amor, a perda e a amizade masculina, explorando o que significa ser judeu nos dias que correm.» Estranho, este argumento parece-me familiar… [notícia em português aqui.]
[E cá está o neo-Booker, em cima na fotografia; tradução mal-amanhada aqui da casa; uma brutal enxaqueca (não repassada por artes do oculto ao premiado, cf. imagem) que deliu qualquer hipótese para o humor e a dor até foi, de certa forma, inculcadora de algum desprezo por quem o possa possuir em barda por estas horas, cuja falta me levou ao, muito praticado por esse país fora, “copiar e colar” partes do texto disponível na página do prémio, e acrescente-se mais um motivo (ou dois?): é de tradição anunciar aqui o Booker e estou a borrifar-me para o vencedor e as suas cinquenta mil libras esterlinas – troca-as por euros, que a coisa parece imparável por estes dias – e o jantarzinho lacrimejante, quando McEwan e Amis ficaram de fora em ano de excelentes romances; vai uns graminhas infinitesimais de clonixina? De codeína? De hidrocodona? E deixem-se lá de trocadilhos lúbrico-farmacológicos, que isto é assunto sério. A enxaqueca, claro.]

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

O Escravo, por Llosa

Com a descrição da aculturação forçada e o desbaste culpável e criminoso da personalidade intrínseca ao ser humano, desde que este solta o primeiro gemido neste mundo, o Nobel peruano dá início à sua carreira literária na narrativa longa de ficção, com o excepcional romance de 1962 La ciudad y los perros (A Cidade e os Cães). Uma vertiginosa alegoria. Los perros para Mario Vargas Llosa, são os cadetes internados no Colégio Militar Leoncio Prado na cidade de Lima, um microcosmos das práticas torcionárias durante o apogeu dos movimentos repressivos e a expansão dos seus ideais nas trevas da Guerra Fria, que, em nome de uma ideologia, coarctaram toda a sensibilidade em nome de um colectivo amorfo e obediente perante um directório cujos interesses se subsumem ao poder e ao seu exercício indiscriminado e cruel.
O Escravo que refiro no título do texto, é a alcunha do infeliz Ricardo Arana – talvez o personagem mais marcante e pungente de todo o memorável romance (já o li há anos e continua a marcar o meu pensamento, e quiçá parte do meu comportamento) –, o representante de uma minoria, mesmo entre os “perros” (ou os “cães”), que se vai autodestruindo pelo consentimento de aniquilação da sua vontade perante o poder dos outros, pela submissão dos seus sentimentos que enformam a sua personalidade.
Eis um trecho inesquecível deste romance, onde se retrata O Escravo e a sua sede de liberdade que pode assumir-se numa miríade de maneiras, tantas quantas as formas de pensar, sentir e agir de cada indivíduo – esta é uma alegoria de um mundo de repressão:
«Podia suportar a solidão e as humilhações que conhecia desde menino e que só feriam o seu espírito: o horrível era estar fechado, essa grande solidão exterior que não escolhera, que alguém lhe atirara para cima, como uma camisa-de-forças. Estava em frente ao quarto do tenente, no entanto, não levantava a mão para tocar. Sabia, contudo, que ia fazê-lo, tinha demorado três semanas a decidir-se, já não tinha medo, nem angústia. Era a sua mão que o atraiçoava: permanecia quieta, fraca, pegada às calças, morta. Não era a primeira vez. No Colegio Salesiano chamavam-lhe “boneca”: era tímido e tudo o assustava. “Chora, chora, boneca”, gritavam os seus companheiros no recreio, rodeando-o. Ele retrocedia até que as suas costas encontravam a parede. As caras aproximavam-se, as vozes eram mais altas, as bocas dos meninos pareciam focinhos dispostos a ferrá-lo. Punha-se a chorar. Um dia disse para si: “Tenho de fazer qualquer coisa.” Em plena aula desafiou o mais valente do ano: esquecera o seu nome e cara, os seus punhos certeiros e o seu ofegar. Quando se viu frente a ele, no canto da lixeira, encerrado dentro de um círculo de espectadores ansiosos, também não sentiu medo, nem sequer excitação: apenas um abatimento total. O corpo não respondia, nem se esquivava aos golpes; esperou que o outro se cansasse de lhe bater. Era para dar castigo a esse corpo cobarde e transformá-lo que se havia esforçado para entrar no Leoncio Prado: por isso tinha suportado esses vinte quatro largos meses. Agora já não tinha esperança; nunca seria como o Jaguar, que se impunha pela violência, nem sequer como Alberto, que podia desdobrar-se e dissimular para que os outros não fizessem dele uma vítima. A ele conheciam-no logo, tal como era, sem defesas, débil, um escravo. Só a liberdade lhe interessava agora para manejar a sua solidão à vontade, levá-la a um cinema, encerrar-se com ela em qualquer parte. Levantou a mão e bateu três vezes à porta.»
Mário Vargas Llosa, A Cidade e os Cães, pág. 106. [Mem Martins: Europa-América, 1988, 302 pp; tradução de José Eduardo Mendonça; obra original: La ciudad y los perros, 1962.]
Decorridas mais de doze horas após o anúncio, ainda persiste na minha mente um forte sentimento de exultação e de comprazimento: hoje, a Academia Nobel fez finalmente justiça. Será para manter? No início do próximo Outono veremos se o lixo ideológico de outros anos foi definitivamente expurgado daquelas mentes e reciclado em substância exclusivamente literária. Saiu-se do círculo de uma intelligentsia deslumbrada pelo exercício sedutor do poder, mesmo que arbitrário, iníquo e criminoso. Conceder o Nobel a Llosa foi uma forma de homenagear os oprimidos por Trujillo ou por Castro, à direita ou à esquerda, os filhos esmagados pelo peso dos ditadores deste mundo. O anúncio da Academia Sueca hoje de manhã sancionou esse grito de liberdade, antes que fosse tarde de mais. Llosa tem 74 anos e continua jovem e enérgico a escrever sem rodeios através da «sua cartografia das estruturas de poder e imagens incisivas da resistência, da rebelião e da derrota do indivíduo.»

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Prémio Nobel da Literatura 2010

Os 18 vigorosos membros (com uma média de idades a rondar os 72 anos) da Academia Sueca (fundada em 1786 pelo rei sueco Gustavo III) elegeram este ano:

(n. 1936, Arequipa, Peru)
FINALMENTE! Fez-se justiça ao mais brilhante escritor latino-americano vivo. 
(Llosa, apesar de ser um dissidente da esquerda radical, deverá seguramente participar no “grande diálogo da Literatura”, critério em nada abstracto para a atribuição de um prémio com esta dimensão, com forte impacto não só nos meios culturais internacionais, interferindo com o orgulho de nações, como também na vertente económico-financeira das empresas que operam no suficientemente rentável mercado editorial. García Márquez estará, decerto, a caminho de Havana para chorar no ombro amigo do fidel ditador.)
Para mais informações, ler aqui artigo em permanente actualização.
Os meus preferidos: A Cidade e os Cães (La ciudad y los perros, 1962); A Casa Verde (La casa verde, 1966); Os Cadernos de Dom Rigoberto (Los cuadernos de don Rigoberto, 1997); A Tia Julia e o Escrevedor (La tía Julia y el escribidor, 1977); A Festa do Chibo (La Fiesta del Chivo, 2000) e até, o recente e brutal, e não menos soberbo, Travessuras da Menina Má (Travesuras de la niña mala, 2006).

domingo, 3 de outubro de 2010

Nobel da Literatura 2010 – anúncio

É já na próxima quinta-feira, dia 7 de Outubro, pelo meio-dia (hora de Lisboa), que será anunciado o 107.º vencedor do Prémio Nobel da Literatura, na sua 103.ª edição desde que começou a ser atribuído no primeiro ano do século XX.
Como tem sido hábito aqui neste blogue, tentar-se-á dar notícia do laureado em cima do acontecimento, isto é, se a rede, normalmente congestionada na ocasião, o permitir. É que os assuntos para-literários também são notícia, embora desprovidos da arte e intelectualidade superiores que os zelosos literatos (patrulheiros) adoptam nos seus comportamentos públicos, cuja pulsão snobenta conduz ao desprezo daqueles que se dedicam a este tipo de jogos florais. Pues que, a mí me encantan los juegos florales.
Outra pequena nuance ou exercício de desperdício de palavras comummente associados a esta ocasião, consiste em verificar as probabilidades atribuídas a autores consagrados pelas casas de apostas – no caso do Nobel da Literatura, já se tornou tradição citar a tabela da casa inglesa Ladbrokes, que em 2006 acertou em cheio no autor laureado, o turco Orhan Pamuk. Assim sendo, confiramos as probabilidades retiradas da tabela de apostas publicada hoje dos 15 nomes mais prováveis a arrecadar o Nobel da Literatura:

1) Tomas Tranströmer (n. 1931; Suécia), com 4/1
2) Haruki Murakami (n. 1949; Japão), com 7/1
3) Ko Un (n. 1933; Coreia do Sul), com 8/1
--- Adonis (n. 1930; Síria)
5) Adam Zagajewski (n. 1945; Ucrânia/Polónia), com 10/1
6) Antonio Tabucchi (n. 1943; Itália), com 12/1
7) Les Murray (n. 1938, Austrália), com 13/1
8) Yves Bonnefoy (n. 1923; França), com 15/1
--- Assia Djebar (n. 1936; Argélia)
--- Thomas Pynchon (n. 1937; Estados Unidos)
11) Joyce Carol Oates (n. 1938; Estados Unidos), com 18/1
--- Margaret Atwood (n. 1939; Canadá)
--- Alice Munro (n. 1931; Canadá)
--- A.S. Byatt (n. 1936; Reino Unido)
--- Michel Tournier (n. 1924; França)
Na lista surge também António Lobo Antunes (n. 1942) com uma probabilidade associada de 35/1.
Entre os 72 nomes constantes da lista, para além dos referidos anteriormente, em que apenas Thomas Pynchon e Margaret Atwood me deixam entusiasmado, há 8 (com Pynchon e Atwood, são 10) que pertencem ao clube restrito da devoção literária aqui da casa e que considero merecerem o Nobel:
  • Philip Roth (20/1);
  • Don DeLillo (22/1);
  • Mario Vargas Llosa (25/1);
  • Milan Kundera (25/1);
  • Umberto Eco (45/1);
  • Ian McEwan (50/1);
  • John Banville (66/1);
  • Paul Auster (66/1).

Há, no entanto, alguns outros autores, para além dos 10 atrás referidos e de ALA, cuja atribuição do Nobel de 2010 não me deixaria, de forma alguma, nada desagradado, como são os casos de Munro, Byatt, Cormac McCarthy, Magris, Oz, Handke, Carlos Fuentes, Modiano, Javier Marías, Barnes, Atiq Rahimi ou o notável serôdio norte-americano William H. Gass.
Mencionei 23 autores em 72 que constam da listagem da Ladbrokes e tenho, desde já, uma certeza: nenhum deles irá vencer, ou porque não participam no diálogo da cultura universal, ou porque são de direita, ou mesmo de esquerda, mas americanos, ou até porque os seus nomes são excessivamente conhecidos e os seus livros vendáveis (segundo os critérios obscuros da Academia Sueca).
Em memória de Henry James, Pessoa, Proust, Joyce, Woolf, Musil, Nabokov, Walser, Borges, Bernhard e Updike.   

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

As pulsões de Augie March

Bellow, Saul Bellow, não me canso de repetir nestas páginas que ninguém lê, a minha intensa, por vezes pungente, admiração por este artesão da palavra que, em 1976, recebeu da Academia Sueca o Prémio Nobel da Literatura e, segundo confessam as fontes subterrâneas que vogam acima das ratazanas da Academia – e permitam-me esta inversão metafórica de papéis no teatro social, justificada pela repugnância que tais seres me provocam a cada Outubro –, estava destinado ao para sempre injustiçado Borges, que, segundo o próprio, nasceu com a sina de nobelizado e morreu sem que tal distinção lhe fosse atribuída. Bellow poderia esperar, e não foi tão-pouco o prémio que o marcou como um gigante da literatura universal, atribuído já o judeu americano-cannuck era sexagenário, porquanto aquele já havia publicado as suas melhores obras – se exceptuarmos a sagração da Literatura materializada no romance Morrem Mais de Mágoa (More Die of Heartbreak), publicado onze anos após o Nobel.
Detenho-me em Augie e na irrepreensível tradução que Salvato Telles de Menezes fez para a Quetzal – corajosa editora que imprimiu três mil exemplares de uma obra-prima a que apenas, estou seguro, uma centena de pessoas neste país atribuirá algum valor –, e no momento em que o nosso “herói”, acompanhando Mrs. Renling, a sua patroa e pretensa mentora milionária da alta sociedade de Chicago, numa deslocação à estância de repouso de Benton Harbor, num hotel de luxo bordejando as margens do rio St. Joseph, no ponto em que águas deste se fundem com as do lago Michigan, se apaixona arrebatadamente pela intocável e inacessível Esther Fenchel, num convencimento de sucesso a não ser que a sua pátina de «credenciais forjadas» por um jogo de aparências abrisse uma brecha e deixasse ver o mundo de pobreza que se escondia por baixo:
«Eu trabalhava, com o coração nas mãos, em prol do maior êxito possível nestes limites, como um impostor. Passava horas preparando-me para ser uma petição viva. Por meio de uma concentração muda e de uma batalha para atrair as atenções. A única maneira que consegui conceber, na minha paixão pitoresca e carregada de sangue. Porém, da mesma forma que um prenúncio de praga pode ser sentido no vento brando que faz tremular bandeiras e na beleza de um porto – uma cena de paz activa e segura –, talvez pudesse, apesar de toda a minha aparência equilibrada de quem vive circunstâncias normais e tranquilas, ter passado o tom dos meus pensamentos pelo ar – na praia, no relvado enfeitado de flores, no grande espaço aberto da sala de jantar branca e dourada –, e estes pensamentos eram que poderia sujeitar-me a ser enforcado nos cabelos da rapariga – coisas desta ordem. Sonhava pesadamente com os lábios dela, com as mãos, seios, pernas, entre pernas. Ela não podia baixar-se para apanhar uma bola no campo de ténis – eu parado e hirto, com um foulard com cavalos castanhos sobre um fundo verde engenhosamente enfiado numa argola de madeira talhada à mão que Renling tornara popular nessa estação em Evanston –, não podia testemunhar isto, dizia eu, sem sentir uma pontada de amor e adoração nas minhas entranhas pela curva das suas ancas, a gloriosa forma virginal do seu traseiro, o seu macio e protegido segredo. Onde ser admitido com amor seria o endosso do mundo, de que não era a infecunda confusão que distantes temores secos sugeriam e sussurravam, mas necessário, justificado, a validade da justificação comprovada pelo júbilo. Que se aceitasse, aprovasse, beijasse, usasse as suas mãos em mim, me deixasse tocar no pó de barro do campo de ténis colado às suas pernas, o leve suor, a sujidade e o suor íntimos, livrar-me-ia do mal da falsidade – mostraria que não havia nada que fosse falso, ofensivo ou leviano que não pudesse ser corrigido!»
Saul Bellow, As Aventuras de Augie March, pp. 192-193. [Lisboa: Quetzal, Setembro de 2010, 712 pp; tradução de Salvato Telles de Menezes; obra original: The Adventures of Augie March, 1953.]
É Bellow no seu melhor. Um parágrafo inteiro de puro deleite e arrebatamento literário, em que uma palavra a mais ou a menos estragaria a obra de arte subsumida no bombardeamento de um feixe de sentimentos que perpassam pela mente pré-adulta de Augie.
Também a Literatura (assim grafada) tem os seus momentos em que a síndrome de Stendhal se pode manifestar através do cadinho dos seus sintomas pela arte etérea que alguns dos seus artesãos apõem aos seus escritos: a perfeição, craftsmanship (perde toda a sua potência na tradução).
Por fim, a recusa e o vórtice que transforma as pulsões num buraco negro aglutinador da esperança: «O sangue fugiu-me da cabeça, do pescoço, dos ombros, e desmaiei pura e simplesmente.» (pág. 197)

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

PEN/Saul Bellow Award 2010

Merecido este prémio de carreira na ficção americana atribuído, na minha humilde opinião, ao melhor escritor da actualidade, Don DeLillo, curiosamente enquanto me vou deleitando com a leitura de As Aventuras de Augie March (The Adventures of Augie March), numa excelente edição da Quetzal, escrito em 1953 pelo excelso autor que deu o nome à distinção.
DeLillo, de ascendência italiana, nasceu no distrito do Bronx, na sua Nova Iorque, a 20 de Novembro de 1936: Submundo (Underworld, 1997; ed. port. Sextante), Ruído Branco (White Noise, 1985; ed. port. Presença / Sextante), Os Nomes (The Names, 1982; ed. port. Relógio D’Água), Mao II (1991; ed. port. Relógio D’Água), Libra (1988; ed. port. Presença) ou Cosmópolis (Cosmopolis, 2003; ed. port. Relógio D’Água) já mereciam esta distinção (romances ordenados de acordo com a minha preferência, deixando três de fora que já tive a oportunidade de ler, mas que conjugam mal com os acima referidos, pelo menor brilho – por ler, remanescem seis de um total de 16 romances já publicados pelo autor galardoado, os cinco primeiros da sua carreira, a que se junta o de Cleo Birdwell, não entrando em linha de conta com Point Omega, o seu último, publicado este ano e a ser editado nos próximos meses em Portugal).
Três dos quatro melhores romancistas norte-americanos contemporâneos vivos, seguindo as palavras proferidas num artigo de opinião de 2003 pelo erudito de Harvard, Harold Bloom (Philip Roth em 2007, Cormac McCarthy em 2009 e agora Don DeLillo), já receberam o prémio, neste momento fica em falta a sua atribuição a Thomas Pynchon, para se fazer o pleno dos “4 Grandes”, com o patrocínio do pai Bellow, o melhor deles todos.
Parabéns de um admirador portuense.

sábado, 25 de setembro de 2010

Náuseas Imperiais

Lisboetizando-me, trata-se daquelas carregadas de cevada, a cheirar a fermentação e a um insistente processo de levedação, alcoolicamente proibitivas, denunciadas pelo cheiro a benzina, pela dor de cabeça latejante e o inevitável vómito biliar que se nos apresenta de forma eruptiva no dia seguinte.
É assim o último romance do chavalo BEE da cidade dos anjos que resolveu repescar o seu sucesso de há 25 anos e escrever no mesmo estilo incipiente e cadavérico, perdoável, e até honorável, num jovem de vinte anos que se atirou de cabeça no mundo literário para contar as suas vacuidades burgueso-criminosas sob a forma de pseudónimos e sexos trocados, todavia inadmissível num jovem de 46 anos que não aprendeu a lidar com os seus traumas.
Mas se a história é deploravelmente enjoativa, a sua tradução para a nossa língua é repulsiva. Não há página, entre as 177, com letra de tamanho 12 e espaço e meio entre linhas, que não tenha o seu erro de palmatória em língua portuguesa. É o advérbio “demais” usado e abusado quando se pretende referir o excesso de alguma coisa; é o verbo “haver”, impessoal na sua acepção de “existir”, apresentando nesta situação formas verbais em todas as pessoas do singular ao plural; é a inconsistência no uso do “porque” e do “por que”, já de si uma fonte de polémica entre linguistas nacionais; é a terceira pessoa do presente do indicativo do verbo “vir” – “vêm” – substituída, quiçá por problema oftalmológico do tradutor, por “vêem”; são às dezenas as passagens de discurso directo ao indirecto que estão por assinalar devidamente pelo escolhido travessão, ou então, são incontáveis as vezes em que os diálogos são todos processados num só parágrafo, numa orgia gráfica entre “vírgulas”, “pontos finais” e “travessões” que fariam corar o José Castelo Branco, até pela terceira via de “género”; e, parafraseando este último, até é fino que apareça “New York” ao invés da forma portuguesa da Grande Maçã, “Nova Iorque”; mas depois vem o “112” em vez do “911”, o que é admissível, no entanto incoerente, e mesmo aviltante, quando se traduz a referência do narrador na página 114 que esteve “à porta do ER em Cedars-Sinai” (pág. 114) – o “ER” são as “urgências” e o “Cedars-Sinai” o famosíssimo hospital-universidade de Los Angeles, e não uma sala VIP de um clube nocturno exclusivo de Hollywood.
Um Nausef. E pronto. Acabei de tomar um antiemético muito conhecido sem nada receber por isso, nem uma viagem a um importante congresso à República Dominicana.
Referência bibliográfica
Bret Easton Ellis, Quartos Imperiais. Lisboa: Teorema, Agosto de 2010, 177 pp. Tradução de José Luís Luna, com revisão de José Costa; obra original: Imperial Bedrooms, 2010.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Carey para o “Tri”

Hoje, à hora do almoço, Andrew Motion, presidente do júri do Booker Prize 2010, anunciou a habitual lista dos seis romances finalistas, candidatos a receber o mais prestigiado galardão a premiar uma obra de ficção de língua inglesa publicada originalmente na Commonwealth ou na Irlanda.
Peter Carey consta da lista, curiosamente com o único romance de entre os restantes finalistas que até agora teve o privilégio de ser editado em Portugal (Gradiva), Parrot e Olivier na América (Parrot and Olivier in America), um pretendente a calhamaço com quase quinhentas páginas; uma comédia, por vezes picaresca, sob um pano do fundo dramático e sério da liberdade e da democracia na América, que retrata as relações entre Alexis de Tocqueville e um seu criado.
Eis a lista completa de finalistas, retirados do “Booker’s Dozen” anunciado em finais de Julho:
  • Peter Carey, Parrot e Olivier na América (ed. port. Gradiva; Parrot and Olivier in America)
  • Emma Donoghue, Room
  • Damon Galgut, In a Strange Room
  • Howard Jacobson, The Finkler Question
  • Andrea Levy, The Long Song
  • Tom McCarthy, C
Fazendo fé nos prognósticos da opinião literária publicada, Carey – escritor australiano, radicado nos Estados Unidos –, prepara-se para ser o primeiro romancista a alcançar o “TriBooker” (expressão obviamente minha), ou seja, a vencer o Booker Prize por três vezes (ler aqui para mais informação), desde a sua instituição em 1969. O único escritor que estaria nessas condições seria o Nobel da Literatura de 2003, o escritor sul-africano, radicado na Austrália, J.M. Coetzee, que venceu o dito prémio em 1983 e 1999.
E assim vão as glórias do mundo, eu, um luso radicado na lusitana imundície, com longas e felizes escapadelas por outros reinos da Ibéria, que até nem aprecia muito o autor australiano, não poderia deixar de manifestar a minha raiva – vá lá, comedida, já que se trata apenas de um prémio, e um bom leitor ou entendido do assunto literário jamais deverá render-se a essa coisa kitsch de prémios, meras sinecuras diletantes – pela não presença, nem sequer na dúzia de frade anterior de dois excelentes romances ingleses publicados este ano: Solar de Ian McEwan e A Viúva Grávida (The Pregnant Widow) de Martin Amis.
Há quem diga, usando a técnica futebolística de caracterização dos fenómenos, sejam eles de que índole for, é apenas o Booker in Motion.

sábado, 28 de agosto de 2010

Presente ou prenda?

Presente de Morte foi o título escolhido em Portugal para apresentar a última diabrura devaneante do menino-prodígio norte-americano Richard Kelly (n. 1971) que, com vinte e nove anos, assustou meio mundo, assim como o jovem púbere Donnie Darko (Jake Gyllenhaal) com um coelho psicadélico ectoplasmático e marcadamente apocalíptico.
The Box, ou A Caixa, é o seu título original, tal como original – podem substituir o adjectivo por heteróclito – foi a designação seleccionada para o circuito comercial português, que decerto teve o cunho da cerebral e erudita Cinha Jardim que tem horror a “prenda” para denominar uma “oferenda”, embora neste último caso a palavra tenha uma conotação mais bíblica e por isso mais próxima do bafio confessional que marcou o homem, por ela reverenciado, originário do Vimieiro, Santa Comba Dão, Viseu, que governou o país entre 1932 e 1968, e daí o seu uso poder ser interpretado como uma dupla heresia.
Saindo do mundo intelectual onde se cultiva o cinhismo, desta feita Kelly adaptou ao grande ecrã um conto, “Button, Button”, do autor prolixo de ficção científica Richard Matheson – publicado pela primeira vez na revista Playboy na edição de Junho de 1970, tendo como playmate nas icónicas centerfold Elaine Morton (julgo ser assaz relevante ter aposto neste texto esta nota, assim como a sua hiperligação de pendor biográfico).
O Coelho (esqueçam-se da minha deambulação pelo mundo das coelhinhas) transformou-se num homem enigmático, grotesco e cauterizado de nome Arlington Steward (Frank Langella, que substituiu à última hora Sandro Correia, uma vítima de outros raios, mais pneumáticos), e Donnie no casal Lewis (interpretado por Cameron Diaz e James Marsden), e mais uma vez, e de forma engenhosa, o sobrenatural se transubstancia num pano de fundo moral, cujas ganância e volúpia do materialismo sobressaem como teste de resistência à integridade humana. Estávamos na época de Gerald Ford, em plena efervescência da conquista do planeta vermelho e do lançamento da sonda espacial Viking 1.
Neste momento, e decorridas quase vinte e quatro horas da sua projecção perante estes meus olhos que muito já devoraram de arte cinematográfica, o filme subsiste no terrível limbo dos OFNI (Objecto Fílmico Não Identificado). Está, por enquanto, bastante longe do prazer que retirei do assombroso Donnie Darko (2001), embora perdure na minha mente um gérmen ambivalente e paroxísmico, pronto a eclodir, como um raio chamuscador que rasga os céus rumo a terra firme, numa aversão desmesurada ou numa afeição arrebatada; como até pode por lá permanecer (porventura acomodado num vácuo que por ora soberbamente desconheço) e definhar por inanição e indiferença.
Derrogando, com imenso prazer, o cinhismo balofo: que rica prenda Kelly nos deixou, manifestamente ignorada pelo mundo contemporâneo da cinefilia.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Um dos melhores romances dos últimos tempos…

…adaptado ao cinema por uma dupla com um passado cinematográfico arrepiantemente inútil e vazio: Romanek & Garland. Sobre este temor pré-visionamento ler o aqui escrevi há mais de dois meses, quando recebi a notícia da pós-produção do filme que se avizinha. Pobre Ishiguro
Tal como referi em 29 de Maio último, na minha memória ainda perduram os malefícios com que, por falta de engenho, a dupla Wright & Hampton ensombrou, sem reparação possível, o meu segundo romance dos últimos tempos: refiro-me, é claro, ao filme Expiação (Atonement, 2007), baseado na obra-prima homónima de 2001 do excelso Ian McEwan.
Resta esperar para ver. Não há outro remédio. Ou então, até à data da sua estreia em Portugal (ainda não marcada), tentar iniciar um exercício de exorcização dos fantasmas de catalogação apriorística – Max von Sydow deixa de jogar xadrez com a morte, desembaraça-te da armadura e veste os paramentos…
No elenco: Keira Knightley, Carey Mulligan, Andrew Garfield, Charlotte Rampling e Sally Hawkins.
Eis o primeiro vídeo de apresentação de Nunca Me Deixes (Never Let Me Go, 2010):

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Mais próximos

As boas notícias e as incógnitas do meio editorial português.
Imune à crítica do crítico vingador de Flaubert – quem lhe terá passado semelhante procuração? Ao homem do discurso indirecto livre, casado com uma romancista sofrível, e tal vez sofredora, e que vê a ficção como a pianola de Gaddis ou o multiusos pianocktail de Vian, cristalizada no século XIX –, Auster prossegue e prepara-se para ver publicado o seu 14.º romance desde que iniciou a carreira no campo da ficção em 1985, com a publicação da novela Cidade de Vidro (City of Glass), mais tarde integrada na sua, até hoje, obra mais admirada e objecto de culto, A Trilogia de Nova Iorque (The New York Trilogy, 1987), o seu primeiro romance, constituído por três partes interligadas de acordo com o seu leitmotiv. Eis que em breve chegará Sunset Park, cujo primeiro parágrafo aqui reproduzo, devidamente traduzido:


«Faz quase um ano que ele começou a tirar fotografias de objectos abandonados. Há pelo menos dois serviços por dia, por vezes chegam a seis ou sete, e de cada vez que ele e os seus colegas entram noutra casa, são confrontados pelas coisas, inúmeros objectos usados deixados para trás pelas famílias que partiram. Todas as pessoas ausentes fugiram à pressa, com vergonha, confusas, e é certo que, qualquer que seja o sítio em que agora vivam (se é que encontraram outro lugar para viver e não estão acampadas nas ruas) as suas novas residências são mais pequenas que as casas que perderam. Cada casa é uma história de fracasso – de bancarrota e de incumprimento, de dívidas e de hipotecas executadas – e ele resolveu assumir as responsabilidades deste emprego para documentar os últimos, os vestígios remanescentes daquelas vidas dissipadas para provar que, em tempos, as famílias desaparecidas aqui estiveram, que os fantasmas de pessoas que ele nunca verá e jamais conhecerá, continuam presentes nos objectos sem préstimo espalhados pelas suas casas vazias.»
Paul Auster, Sunset Park, p. 3 [excerto de obra a publicar em Novembro próximo pela Henry Holt no mercado norte-americano; 320 pp. – tradução livre: AMC, 2010]
Notas e questões (do mercado editorial):
1 – Tal como aconteceu com Invisível (Invisible, 2009) e segundo os editores nacionais do escritor originário de Newark, que gosta de ser reconhecido como um filho de Brooklyn, a Asa lançará a obra no mercado livreiro nacional no mesmo dia em que esta estrear nos Estados Unidos.
2 – Prometida para publicação em Setembro em Portugal, está finalmente o magistral romance As Aventuras de Augie March (The Adventures of Augie March, 1953), considerado por muitos dos seus mais fervorosos leitores como a obra-prima do autor norte-americano, nascido no Canadá no Dia de Portugal, Saul Bellow (1915-2005), Prémio Nobel da Literatura em 1976 – trata-se do seu 3.º romance. O anúncio foi feito pelo seu editor, Francisco José Viegas, no seu blogue A Origem das Espécies, e terá, como é óbvio, a chancela da brilhantemente renovada Quetzal.
3 – Para além da referida obra de Bellow, até hoje inédita em Portugal, a Quetzal irá publicar de uma só assentada o primeiro romance da já longa carreira literária de Martin Amis, inacreditavelmente ainda virgem na aridez do solo literário português, O Diário de Raquel (The Rachel Papers, 1973); e, pela primeira vez, um ensaio de escritor, polemista, jornalista e eminente blogger Andrew Sullivan, A Alma Conservadora (The Conservative Soul, 2006).
4 – Para finalizar, uma singela pergunta por quem se interessa por estas coisas aborrecidas, como ler: será que a Dom Quixote, desde que passou para o grupo LeYa, para além de muitos outros, se esqueceu de Philip Roth? Para quando a edição de The Humbling (2009) e/ou de Nemesis (2010)? Suponho que ainda detêm os direitos autorais de Roth.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Gaddis

Uma notável recensão. Acabei de a ler há poucos minutos. Não sei se foi ou não foi hoje publicada na edição impressa da Ípsilon – para o caso não interessa, está acessível na rede –, e se a menciono com atraso, isso não lhe retira a pertinência e nem prejudica o propósito destas curtas linhas que aqui pretendo deixar. O texto crítico a que me refiro é de João Bonifácio que discorre, de forma admirável, sobre o mais recente romance publicado pela venerável editora portuense Ahab: Ágape, Agonia (Agapē Agape), quinta e última obra de ficção do escritor norte-americano William Gaddis (1922-1998), terminada no ano da sua morte, mas apenas publicada em 2002.
No quarto parágrafo, Bonifácio, crítico temerário, escreveu uma asserção susceptível de causar algum estrépito na turba dos ungidos pelos literários óleos da lusa mediocridade, decerto com consequências sísmicas nas suas infelizes doxologias, embora JB, muito longe de ser um novato ou crítico inexperiente, haja feito a devida ressalva – não vá o diabo tecê-las e garantir-lhe o enxofre pestilento de mais uma polémica estéril e morrinhenta (adjectivo meteorológico):
«Se nos é permitida a insolência, não nos recordamos de melhor primeiro capítulo que o de abertura de “Carpenter’s Gothic”».
Não foi necessário fazer um grande esforço de memória para me recordar desse capítulo e dos parágrafos que o delimitam; recordação que me fez despertar uma saudade que me irá levar a uma releitura muito em breve. Lembrei-me de um pássaro, o deus ex machina surpreendentemente deslocado para o início da narrativa, mas que deambula estropiado, alma penada num círculo borgiano, ao longo das entrecruzadas e alienadas conversas telefónicas. É um simples e genial desvario literário, que começa assim:
«O pássaro – um pombo-correio ou uma pomba brava? (ela sabia que havia pombos por ali) – esvoaçou pelos ares, sem cor definida, no crepúsculo. Aquilo que ela confundiu inicialmente com um trapo velho bateu as asas na cara do mais novo dos rapazes, que sacudiu a lama da face atingida, agarrou o pássaro e atirou-o para um dos amigos. Este improvisou um bastão com um ramo e divertiu-se a atirá-lo ao ar até ficar pendurado na copa de uma árvore. Depois abanou-a e o pássaro caiu por entre um turbilhão de folhas numa poça de água formada pela chuva da noite anterior. Voltou a agarrá-lo e prosseguiu a sua brincadeira cruel. Parecia um volante de badmington, cujas penas caíam a cada pancada do bastão, até que por fim chocou contra uma placa amarela que assinalava um beco, na esquina da casa onde as crianças costumavam brincar àquela hora do dia.
»Quando o telefone tocou, já ela se tinha afastado e tentava refazer-se do que acabava de presenciar.»
William Gaddis, Gótico Americano, p. 5 [Lisboa: Difusão Cultural, Fevereiro de 1991, 270 pp; tradução de Muriel Alves Brazil; obra original: Carpenter’s Gothic, 1985]
Fante, Stuparich, Solstad, Sherwood Anderson e agora Gaddis, com promessa de reedição da obra atrás referida Carpenter’s Gothic – embora pedisse, egoisticamente, uma troca por pelo menos um dos calhamaços The Recognitions (1955), com quase mil páginas na versão original, ou J R (1975), com mais de setecentas – assim se vai fazendo a Ahab.
Numa época em que o meio editorial português no campo da ficção e da poesia se concentra em três grupos (LeYa, Babel e Porto Editora), há umas pequenas ilhas onde ainda prolifera a qualidade literária e que, acima de tudo, nos garantem a diversidade. A Ahab é a mais recente nesse arquipélago, onde com critério e obstinação vai combatendo os monstros neptuninos informes que foram engordando à custa do filistinismo tão curial à época do lixo metamorfoseado em caracteres impressos em livro ou em bytes numa consola de livros digitais.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Booker Prize 2010 – semifinalistas

Foi anunciada há poucos minutos a lista de romances semifinalistas que concorrem ao Booker Prize de 2010, patrocinado pelo grupo financeiro Man desde 2002. Para o vencedor, a anunciar no próximo dia 12 de Outubro*, está reservado um prémio monetário de 50.000 libras esterlinas, que corresponde, aproximadamente, a 60.000 euros.
Eis o habitualmente designado por “Booker’s dozen”** seleccionado pelo júri, que este ano é presidido por Andrew Motion, e que inclui 13 títulos de outros tantos autores (por ordem alfabética do apelido do autor – por enquanto, apenas uma obra está editada no mercado nacional, surgindo na listagem com o título em português):

  • Peter Carey, Parrot e Olivier na América (ed. port. Gradiva; Parrot and Olivier in America)
  • Emma Donoghue, Room
  • Helen Dunmore, The Betrayal
  • Damon Galgut, In a Strange Room
  • Howard Jacobson, The Finkler Question
  • Andrea Levy, The Long Song
  • Tom McCarthy, C
  • David Mitchell, The Thousand Autumns of Jacob de Zoet
  • Lisa Moore, February
  • Paul Murray, Skippy Dies
  • Rose Tremain, Trespass
  • Christos Tsiolkas, The Slap
  • Alan Warner, The Stars in the Bright Sky

Notas: *Os seis finalistas serão anunciados no próximo dia 7 de Setembro.
**designação adoptada nos anos mais recentes pelos organizadores para a longlist, que tem a sua origem na expressão inglesa do século XIII “baker’s dozen” ou “dúzia dos padeiros” (tradução literal), que em Portugal se designa por “dúzia de frade”, que significa treze (uma dúzia de treze).
***(act.) Mais informação em português, aqui.

domingo, 4 de julho de 2010

O regresso do fedelho

Tem sido lento o processo criativo do autor norte-americano, nascido em Los Angeles em 1964, Bret Easton Ellis. De facto, Ellis acabou de publicar o seu sétimo romance, depois de se haver estreado auspiciosamente com o seu minimalista e desbastado de eloquência lírica, epítome da, na altura, recém-criada geração MTV, Menos que Zero (Less Than Zero, 1985) quando tinha apenas vinte anos. Seguiram-se o fraquinho As Regras da Atracção (The Rules of Attraction, 1987), o tenebrosamente estranho e prodigioso Psicopata Americano (American Psycho, 1991), o modesto e sem qualquer valor acrescentado literário (um novo conceito, porventura mensurável) Os Confidentes (The Informers, 1994) – muito menos o filme que nele se baseou, o paupérrimo Os Informadores, do australiano Gregor Jordan –, o magnífico, cru e tão houellebecquiano Glamorama (1998) e, finalmente, o thriller existencialista, de certa forma desequilibrado pela estranha mescla de sentimentos contraditórios que me assomaram durante a sua leitura, e carregado de um pathos inédito em Ellis, Lunar Park (2005) – afinal, o homem não é de pedra, frio, hedonista e sem adiposidades sentimentais, e talvez por aquele ter sido escrito durante os seis anos de quase idílio amantético com o escultor Michael Wade Kaplan (1974-2004), que terminou de forma abrupta, Kaplan morre com apenas trinta anos, vítima de um fulminante ataque cardíaco; na realidade, este triste episódio acaba por fazer despertar o autor do torpor passional e pôr um fim à longa travessia do deserto em assuntos literários.
Em 2010, Ellis reaparece no mercado editorial com Imperial Bedrooms (uma vez mais tendo Elvis Costello como inspiração para o título), que o autor confirma, para depois parecer contestar a evidência – dado porventura o anátema normalmente associado ao vocábulo –, tratar-se de uma sequela da sua obra de estreia, incluindo os jovens personagens frívolos, mimados, degradantes e celerados, agora na idade adulta na Los Angeles da actualidade, um Menos Que Zero (na sua mais recente reedição) com upgrade: um par de cornos. Eles são adultos diplomados, com mais posses e poder, e por isso com maior capacidade de abrir o leque de horrores psicopatológicos. Senão atente-se no parágrafo de abertura da obra:

«Eles fizeram um filme sobre nós. O filme baseou-se num livro escrito por alguém que conhecíamos. O livro baseava-se numa história simples sobre quatro semanas passadas na cidade em que crescemos e na sua grande parte reproduzia um retrato fiel. Foi catalogado como ficção mas apenas alguns detalhes foram alterados, os nossos nomes não o foram e não havia nada nele que não houvesse ocorrido. Por exemplo, houve de facto a projecção de um filme snuff naquele quarto em Malibu numa tarde de Janeiro, e sim, eu abandonei o quarto e dirigi-me ao terraço mirando distraidamente o Pacífico onde o autor tentou consolar-me, assegurando-me que os gritos produzidos pelas crianças ao serem torturadas eram falsos, mas ele sorria enquanto proferia tudo isto e eu tive de me retirar. Outros exemplos: a minha namorada na realidade atropelou um coiote nos desfiladeiros sob Mulholland e foi fielmente relatado um jantar de natal com a minha família no Chasen’s que deplorei e, por casualidade, contei ao autor. E uma rapariga de doze anos foi mesmo violada em grupo – eu estava com o autor naquele quarto de West Hollywood, que no livro apenas descreve uma vaga relutância de minha parte e falhou em descrever com exactidão aquilo que eu realmente sentira nessa noite – o desejo, o choque, o medo que eu tinha do autor, um rapaz louro e solitário por quem a rapariga com que eu andava estava meio apaixonada. Mas o escritor jamais corresponderia ao seu amor porque estava demasiado perdido na sua própria passividade para estabelecer a ligação de que ela necessitava, e assim ela regressou a mim, mas na altura já era tarde de mais, e como o escritor ficou ressentido quando ela voltara a dar-me atenção, eu tornei-me no belo e nebuloso narrador, inabilitado no amor e na bondade. Foi desta forma que me tornei no perturbado rapaz das festas que vagueia pelos despojos, com sangue a correr do nariz, fazendo perguntas que não carecem de resposta. Foi desta forma que me tornei no rapaz que nunca compreendeu o funcionamento das coisas. Foi desta forma que me tornei no rapaz que jamais conseguiria manter uma amizade. Foi desta forma que me tornei no rapaz que não pôde amar a rapariga.» [tradução impudicamente livre: AMC, 2010]
Bret Easton Ellis, Imperial Bedrooms, pp. 3-4 [New York: Knopf, first edition, June 2010, 192 pp.]

quarta-feira, 30 de junho de 2010

O Capitão Metro

Uma fábula do n.º 7, o não-whitmaniano Capitão, Meu Capitão (a jornada assustadora prossegue): «Perguntem ao Carlos Queiroz.»
«Vivo no 11.º andar do edifício American Gardens na West 81st Street. Chamo-me Patrick Bateman e tenho 27 anos. Eu creio no cuidar de nós próprios com uma dieta equilibrada e um rigoroso programa de exercícios. De manhã, se a minha cara está um pouco inchada, aponho-lhe um saco de gelo enquanto faço abdominais – agora, já chego aos mil. Depois de retirar o saco de gelo, uso uma loção forte de limpeza dos poros. No duche, uso um gel refrescante de limpeza. De seguida utilizo uma escova com creme de mel e amêndoas e na cara esfrego um gel esfoliante. Depois aplico uma máscara de ervas e menta, que deixo na cara durante dez minutos enquanto preparo o resto da minha rotina. Uso sempre uma loção aftershave com o mínimo ou mesmo sem álcool, porque este seca-nos a pele do rosto e faz-nos parecer mais velhos. Depois vem o hidratante e de seguida aplico o bálsamo anti-rugas para os olhos, a que se segue a loção protectora hidratante final. Existe uma ideia de um Patrick Bateman, um género de abstracção, mas na realidade não existe um eu; é apenas uma entidade, algo de ilusório. E embora consiga esconder o meu olhar frio e até me consigam dar um aperto de mão e sentir a minha carne a envolver firmemente a sua carne, e até sentir que os nossos estilos de vida são provavelmente comparáveis; eu, simplesmente, não estou lá.»
Do argumento do filme Psicopata Americano (American Psycho, 2000), adaptado ao cinema por Mary Harron e baseado no romance homónimo, publicado em 1991, de autoria do escritor californiano Bret Easton Ellis.
Trabalhar? Com toda esta beleza e preparos, com ecrãs gigantes que me procuram e fixam, em que atesto as formas etéreas do meu rosto, senão do corpo inteiro, a cada cinco segundos!? Gritos histéricos de mulherio (e não só, valha-nos a sorte da lucrativa ambiguidade!) esfaimado… Trabalhar, unir esforços, respeitar hierarquias, lutar por um ideal. Assumir as funções de Capitão, que não passam apenas por ostentar aquela liga que nos aperta o braço, o mais fino adorno futebolístico que nos permitem usar em campo – deveria ser cravado de diamantes, tal como os círculos que enfeitam as minhas frágeis orelhas no pós-desafio. Porém, uma marca não faz isso, quando muito é multinacional, global na sua abstracção. Eu não existo. 
¡Hala Madrid!... y, pues que, con “El Especial” y los euros.

sábado, 26 de junho de 2010

O Mural (nova versão)


«A raiz da palavra hipócrita em grego antigo encontra-se no verbo hypokrino, que possuía um conjunto de sentidos, podendo ir do simples discurso, à oratória, à representação cénica, à dissimulação ou à falsidade.»* [tradução AMC]
Robert Scholes, The Rise and Fall of English [em tradução livre A Ascensão e Queda da Língua Inglesa], p. 81 [Yale University Press, February 1998, 220 pp.]
Houve de tudo, viu-se de tudo, falou-se de tudo, mas com uma deformação sectária apriorística capaz de fazer retinir as campainhas da pura náusea ao ser mais resistente das intoxicações de pendor unanimista. A intelligentsia estava presente. O camarada Jerónimo discursou, o coordenador Louçã (o eufemismo mais bem esgalhado da política portuguesa, que o diga Joana Amaral Dias que foi bem co-ordenada rumo à empoeirada prateleira trotskista, onde porventura jazem uma famosa picareta e a expressão, com o mesmo prefixo, “colaborador”) vituperou, usando todo o seu fel – cujas reservas parecem não se esgotar –, levantando o seu queixo anguloso e bradando com toda a sua acrimónia facciosa, o mais alto magistrado da nação.
António Costa, numa atitude nobre, sem nunca deixar os seus laivos de populismo – está-lhe na massa do sangue e acautela-se já o problema sucessório –, ao franquear as portas da Câmara Municipal de Lisboa, previu um velório, seguido de funeral em homenagem ao notável escritor recentemente desaparecido. Porém, e basta seguir a voragem da apropriação com que se digladiam as esquerdas nacionais, o velório passou num ápice a comício, cujos senhores disseminadores da moral, proprietários do pacifismo e edificadores da ética (republicana, tão em moda) organizaram sob o pretexto da morte de mais um sectário, cujas tragédias monstruosas do século XX não desfizeram a irredutibilidade das suas posições de apoio incondicional à tirania comunista, um verdadeiro espectáculo de multimédia (só faltou a pirotecnia, não se esquecendo, porém, da useira piromania ad hominem) com comentários de circunstância, intervenções da laia de flash interviews, conferências de imprensa, comunicados, uma espécie de feijoada da Caras da Bibá, um “quem é quem” à moda portuguesa, a que só faltou a destreza criativa com as t-shirts estandardizadas previamente distribuídas.
Falou-se de um tal de Lara – o mesmo que fez parte da turba Moderna e foi um dos condenados no processo da famosa Universidade, sentenciado em 2003 a dois anos de prisão com pena suspensa pelo crime de “administração danosa” –, que nos idos de 1992, então Subsecretário de Estado da Cultura de Santana Lopes num Governo de Cavaco Silva, vetou o acesso de O Evangelho Segundo Jesus Cristo à lista de candidatos do Prémio Literário Europeu. E este incidente lamentável com dezoito anos, serviu para, na hora do luto, apoucar, depreciar, enxovalhar o Presidente da República Portuguesa apelidando-o de iletrado, mesquinho, revanchista, ressentido, tacanho e provinciano, chegando mesmo em diversos foros à desfaçatez do insulto brejeiro, boçal e ordinário que me eximo de expor neste texto. De banal e medíocre o defunto já o houvera insultado. Deixou, no entanto, os sequazes colectivistas para terminar a obra, de cujas agitação, histeria, insensatez e imundície provêm do acto eleitoral onde o candidato-Alegre-trovador-combatente-intelectual-humanista – um homem sisudo, poeta de primeira água, todavia, um prosador mais que mediano, político resvaladiço e volúvel, plantado num campo de paradoxos movido por um tropismo meramente eleitoralista – disputará com aquele demónio de Boliqueime – o tal sobre quem caíram os pecados do mundo da dialéctica em espiral.
Cavaco (tal como Gama, a 2.ª figura na hierarquia do Estado) pode ter errado ao não comparecer no funeral-comício aos Paços do Concelho de Lisboa (onde da mesma forma e com o mesmo matiz rubro se celebrou, uns meses antes, a vitória rara do clube do regime); mas com toda a certeza não se enganou nos valores democráticos e de liberdade, de uma imutabilidade recalcitrante, preconizados pelo camarada-defunto (demonstrados à saciedade em pleno PREC), baseados na filosofia, na doutrina e na práxis dos quatro acima representados no mural – é essa moral deles. Não foi a estética, muito menos a técnica, mas porventura a moral, assim grafada, das diversas diatribes e anátemas do camarada-defunto que estiveram na origem da omissão presencial, que no entanto se fez representar pelo segundo elemento da hierarquia do círculo presidencial. E se acima disse que Cavaco pode ter errado, restrinjo o campo de acção do verbo apenas à falta de iniciativa de elevar as exéquias fúnebres à condição de “nacional”, num país em que é constitucionalmente garantida a plena liberdade de expressão e consagrado o livre pensamento, independentemente da maior ou menor identificação com os conceitos do homenageado.
E facilmente se percebe o que a ambos, em vida, os distinguia, através de uma simples análise dos presentes. Se para uns a Coreia do Norte é quase uma democracia, para outros o Terror Vermelho trotskista era um mal necessário. E no século XXI continuamos a discutir Maiakovsky contra Mandelstam. Purgas contra a luta pela sobrevivência das diferenças num espaço comum de liberdades. Os Gulags, o colectivismo intelectual, o pensamento único contra a energia criadora em cada um de nós.
E se muitos, fornidos do magnésio para a memória – fumos, injecções e aspirações – não se esquecem da negra data de 1992, eu, como muita boa gente, não me esqueço de uma outra, mais negra e inquietante: 17 de Outubro de 1998 (e por curiosidade, os números têm destas coisas, a data combina-se para formar a cosmogonia do terror; ah, aquele Outubro juliano!...) Foi um sábado, no Centro de Desportos e Congressos de Matosinhos (cf. Pravda Lusitano, de 22/10/1998), a noite da infâmia: enquanto milhares são martirizados e assassinados por delito de opinião nas prisões cubanas, enquanto nesse sítio os “laras” estão armados de Kalashnikov, investidos com a mão de ferro da tortura, munidos do livro vermelho que suspende os direitos do Homem em prol de uma ideologia totalitária, Saramago entra em palco de braço dado a Fidel Castro, discursa em primeiro lugar e ouve de seguida, embevecido, hipnotizado, o comandante durante horas a fio a ditar o discurso estafado de quase quarenta anos (na altura, hoje já são mais de cinquenta). E como dizia Isaiah Berlin em The First and the Last (1999; NYRB, p. 57): «Causar dor, matar e torturar são actos geralmente condenados; mas se não forem cometidos para meu benefício pessoal e sim em prol de um ismo – socialismo, nacionalismo, fascismo, comunismo, de crenças religiosas fanáticas, do progresso, ou do cumprimento das leis da História –, então, esses actos são aceitáveis.»**
Mas esses (e regressemos à citação inicial do eminente filólogo Robert Scholes, aludindo aos descendentes da voz grega hypokrino), os que agora criticam, vituperam e desancam o mais elevado magistrado da nação – com espaços bem remunerados nos jornais, rádios e televisões, dominados historicamente pela esquerda mais radical e sectária – foram os mesmos que boicotaram a prestação do devido e merecido tributo na Assembleia da República ao poeta, ensaísta, dramaturgo António Manuel Couto Viana (1923-2010) que, curiosamente, tinha a mesma idade de Saramago e morreu apenas dez dias antes, sob o pretexto de supostas ligações fascistas de outrora, aventando-se a possibilidade de se haver alistado ao lado de Franco na Guerra Civil Espanhola (1936-1939) – seria um rapaz precoce que entre os 13, no mínimo, e os 16 anos, no máximo, já combatia por terras espanholas em nome de um ideal. Pobre país em que 20% da população votante se faz representar por gente deste calibre, onde a verdade, a honestidade intelectual e a transparência de procedimentos são aniquilados em nome de um colectivismo cuja História mostrou a índole e a prática torcionária e aniquiladora das liberdades individuais. Foram alguns desses que nos idos de 1980 festejaram a morte trágica do Primeiro-Ministro e do Ministro da Defesa nacionais, quando voavam sobre Camarate com destino ao Porto, e um rapaz incrédulo, com apenas 8 anos, e com alguma memória, questionava a autoridade familiar mais provecta a razão de ser das garrafas de champanhe, dos foguetes e dos urros de alegria perante as vidas despedaçadas naquele 4 de Dezembro.
Porém, a verdade, que todos querem arrebatar, subsiste e remanescerá pelos tempos nos escritos feéricos do autor da Azinhaga do Ribatejo. A verdade está nas narrativas inovadoras na, já de si, tão maltratada língua portuguesa e pungentes no seu lirismo, cuja ficção foi estonteando o mundo pela sua arte de contar histórias. A verdade está na sua ficção: no Memorial do Convento (1982), em O Ano da Morte de Ricardo Reis (1986) e em As Intermitências da Morte (2005; e, após um período de dura resistência, o meu primeiro de muitos contactos com a ficção saramaguiana) – a minha trilogia pessoal.
---
Para terminar, uma curiosa passagem de um interessantíssimo artigo, publicado em 2007:
«Há cinco anos, [Saramago] conseguiu provocar um escândalo à escala global quando, numa visita à Faixa de Gaza, comparou a situação nos territórios palestinianos a “Auschwitz”.
»Para o crítico literário Harold Bloom, a comparação com Auschwitz foi “de uma falta de imaginação e de humanidade imperdoável” por parte de um romancista que ele considera “o segundo melhor, apenas atrás de Philip Roth” entre os escritores vivos. “Os romances de Saramago são ilimitadamente inventivos, ilimitadamente bondosos, ilimitadamente engenhosos”, disse-me Bloom, “mas deixa-me perplexo como é que o homem não consegue crescer politicamente. Em 2007, ser um português estalinista significa simplesmente não estar a viver no mundo real.”»
Fernanda Eberstadt, “José Saramago, the Unexpected Fantasist”, The New York Times, August 26, 2007.
---
Notas: *Citação reproduzida da fonte primária, por sugestão da obra autobiográfica O Regresso do Hooligan, de Norman Manea (ed. port. Asa; p. 300).
**Citação retirada de Paul Hollander, O Fim do Compromisso (ed. port. Pedra da Lua, Fev/2009, p. 32, trad. de Virgílio Viseu).

sexta-feira, 18 de junho de 2010

IMPAC 2010 - Vencedor

Foi anunciado ontem, ao fim da tarde, o romance vencedor da edição de 2010 do milionário International IMPAC Dublin Literary Award. Uma vez mais (tal como ocorreu com Rawi Hage em 2008), foi premiado um primeiro romance, desta feita do escritor holandês Gerbrand Bakker (n. 1962) – que já antes se estreara na literatura infanto-juvenil – trata-se do elucidativo, para a esmagadora maioria da blogosfera lusa que não entende uma palavra sequer de neerlandês, Boven is het stil (2006), obra que foi nomeada na fase inicial por quatro bibliotecas, todas holandesas. Ainda sem edição marcada para Portugal, o romance foi traduzido para inglês em 2008 sob o título The Twin. De notar, que Bakker, para além de haver sido o primeiro holandês a vencer este galardão desde a sua fundação em 1996, derrotou, entre outros, nomes já consagrados como Christoph Hein, Joseph O’Neill, Marilynne Robinson ou Zoe Heller.

Nota: para mais informações consultar o sítio oficial do prémio.




Vencedores anteriores:
2009 – Michael Thomas – Man Gone Down
2008 – Rawi Hage – Como a Raiva ao Vento (Civilização, 2008)
2007 – Per Petterson – Cavalos Roubados (Casa das Letras, 2008)
2006 – Colm Tóibín – O Mestre (Dom Quixote, 2007)
2005 – Edward P. Jones – The Known World
2004 – Tahar Ben Jelloun – Uma Ofuscante Ausência de Luz (Asa, 2003)
2003 – Orhan Pamuk – O Meu Nome é Vermelho (Presença, 2007)
2002 – Michel Houellebecq – Partículas Elementares (Temas e Debates, 1999)
2001 – Alistair MacLeod – No Great Mischief
2000 – Nicola Barker – À Flor da Pele (Gradiva, 2000)
1999 – Andrew Miller – A Dor Industriosa (Teorema, 1999)
1998 – Herta Müller – A Terra das Ameixas Verdes (Difel, 1999)
1997 – Javier Marías – Coração Tão Branco (Relógio D’Água, 1994)
1996 – David Malouf – Recordando a Babilónia (Assírio & Alvim, 2009)

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Beat to its socks

Pode ler-se, num círculo autocolante aposto à capa da edição portuguesa de mais uma entre dezenas de biografias e livros de memórias sobre o pai beatnik Jack Kerouac, a seguinte frase: «Primeira biografia em português» a rodear o nome do autor biografado, que surge estampado a vermelho e encimando o recorte vazio dos emblemáticos sinais de trânsito que demarcam as estradas norte-americanas.
Apesar de a edição brasileira do mesmo livro datar de 2007, não belisca de forma alguma a veracidade da frase promocional. Na realidade, e nos dias que correm, também no Brasil é a única biografia de Kerouac disponível na língua de Camões.
Para quem conhece outros livros versados sobre a vida do autor de Pela Estrada Fora, para além de alguns factos que, à custa da reiteração, fazem parte do folclore que rodeou aquele bando de desordeiros, toxicómanos, bêbados, pederastas, criminosos (também escreviam livros e pintavam), e que são do conhecimento de alguém com o mínimo interesse na coisa literária, especialmente na literatura americana da segunda metade do século XX, o livro de Yves Buin é uma síntese de biografias de maior fôlego – cito as do lynchiano Barry Gifford e a de Gerald Nicosia, que aliás são profusamente referenciadas por Buin ao longo do texto; como os testemunhos oculares escritos pelos companheiros de viagem do próprio biografado, também eles parte integrante do ruidoso movimento Beat: destaco, neste caso, as obras de John Clellon Holmes ou as de Joyce Johnson (Glassman), assim como as referências cruzadas da omnipresente Carolyn Cassady (mulher de Neal Cassady durante quinze anos e mãe dos seus três filhos – o inspirador do magnum opus de Kerouac, na pele de “Dean Moriarty” – e vértice de um sórdido triângulo luxurioso completado por aqueles).
A obra apresentada por Buin é um apanhado, como uma súmula académica pronta a servir de única base de estudo ao estudante mais indolente, da tortuosa biografia de Kerouac. O livro do pedopsiquiatra francês – e é curioso o prefixo profissional, já que, no auge do movimento cultural retratado, o biógrafo poderia ter sido de uma utilidade ímpar pelos diversos traumas decerto infundidos por aquele bando a inúmeros potenciais clientes – em nada acrescenta ao já publicado, para além de, por um lado e porventura num esforço de síntese, funcionar como um repositório de nomes sem qualquer referência biográfica (prática comummente conhecida por name dropping, que pode ser bem mais viciante que o consumo de yage), e, por outro, se tratar de um texto cronologicamente confuso, sem um marco histórico definido, com recurso a analepses e prolepses consecutivas, que por vezes faz distar dois parágrafos em duas ou mais dezenas de anos. E para dar o remate final poderia trazer à colação a objectividade do investigador que, na prática, sai prejudicada por uma longa narrativa que espremida se assemelha a uma espécie de elegia ao inocente mago literário canuck, apesar de nela se evidenciar uma posição íntima, como um severo ralhete paternalista, de censura pelos excessos cometidos.
Mas o pior não está no texto publicado originalmente pela Gallimard em 2006. A sua edição portuguesa é um verdadeiro desastre: uma tradução miserável, o que indica uma revisão literária ausente ou negligente. Ao longo das trezentas páginas não há um par que não escape a, pelo menos, um erro ortográfico e/ou de sintaxe, e até a um enxame de erros nitidamente tipográficos. É simplesmente inadmissível e ultrajante para o leitor luso, aquele que, em vias de extinção, gasta os seus parcos recursos na aquisição de uma obra com esta especificidade literária, apresentar um livro cujo chorrilho de asneiras torna quase impraticável a sua leitura. Se há casos em que mesmo uma má tradução não implica inexequibilidade da leitura, este seguramente que não é um deles. Muito do que foi dito nos parágrafos anteriores poderá, admito, advir do estado de irritação crescente à medida que me fui embrenhando no livro – erros de género e de número, então, são aos magotes, assim como, é assaz perceptível uma espreitadela, talvez à laia de muleta, na edição brasileira, bem patente no emprego de alguns termos apenas usados por terras de Vera Cruz. Aos responsáveis da editora atrevo-me a lançar um desafio: retirem, rápida e prontamente, a 1.ª edição do mercado, façam uma revisão literária, remodelem a capa com a aposição de uma frase do género “nova tradução” ou “2.ª edição revista”.
A beatitude lusa compadece-se destes casos, sem que se vislumbre qualquer hipótese de usar o qualificativo como um catalisador do engrandecimento do espírito, como defendia Kerouac e Clellon Holmes para a sua embrionária geração; talvez fosse preferível começarmos por adoptar e a adaptar, de uma vez por todas, como uma fatalidade, a origem do termo criado, em primeira mão, pelo beatnik Herbert Huncke, neste caso como a nação estéril, derrotada ou prostrada: beat to its socks.
Referência bibliográfica:
Yves Buin, Jack Kerouac – Biografia. Lisboa: Bertrand, Abril de 2010, 301 pp; tradução de Ana Godinho; obra original: Kerouac, 2006.