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quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Os Melhores Livros de 2013


Ficção
  1. Uma caneca de tinta irlandesa, de Flann O’Brien (ed. port. Cavalo de Ferro; At Swim-Two-Birds, 1939)
  2. Mason & Dixon, de Thomas Pynchon (ed. port. Bertrand; 1997)
  3. Ópera Flutuante, de John Barth (ed. port. Sextante; The Floating Opera, 1956)
  4. Luz Antiga, de John Banville (ed. port. Porto Editora; Ancient Light, 2012)
  5. 40 Histórias, de Donald Barthelme (ed. port. Antígona; Forty Stories, 1987)


Não-ficção
  1. Viagens, de Paul Bowles (ed. port. Quetzal; Travels: Collected Writings, 1950-93; 2010)
  2. Uma coisa supostamente divertida que nunca mais vou fazer, de David Foster Wallace (ed. port. Quetzal; A Supposedly Fun Thing I’ll Never Do Again, 2009)
  3. Os Níveis da Vida, de Julian Barnes (ed. port. Quetzal; Levels of Life, 2013)


Um 2013 com muita literatura publicada subgénero lixo e, por isso, com pouca frequência em livros publicados no ano.

sábado, 21 de setembro de 2013

Só ele...

«Hoje é o último dia de Outono. Os dias que temos tido têm sido doces, comparativamente. O fim-de-semana passado, agora muito mais passado do que alguma vez antes, foi azul e avesso às nuvens, com o sol desdenhoso do dever calorífico e entregue à vocação, sempre mais show business, da iluminação.»
Miguel Esteves Cardoso, "Acaba o Outono", Como é Linda a Puta da Vida, p. 95.
[Porto: Porto Editora, 2.ª edição, Maio de 2013, 246 pp.]

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Banville, por fim...

Termina a "Trilogia Cleave", que se iniciou com o romance de uma beleza inigualável, o livro de ficção mais pungente entre todos aqueles que me passaram pelos olhos até aos dias em que escrevo estas curtas orações: Eclipse (2000); e prosseguiu com o maravilhosamente áspero O Impostor (Shroud, 2002).
Eis o Mestre Banville:

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Os Melhores Livros de 2012


É verdade, Foster Wallace elegia o etéreo “The Big Ship” de Brian Eno (álbum: Another Green World, 1977) como a sua música preferida – the spinal nature of music, como ele, DFW, confessou ao seu amigo mais chegado e que incluiu na sua última e pálida gargalhada, aparentemente inacabada no ano do fim, 2008, perante o mundo do aborrecimento esmagador e da melancolia:
«Esta canção faz-me sentir tão quente como seguro, faz com que me sinta aconchegado, como uma criança a quem acabam de tirar da banheira e a embrulharam em toalhas que foram lavadas tantas vezes que se tornaram incrivelmente suaves, mas também faz com que me sinta triste; há uma sensação de vazio no centro desse calor que se assemelha à tristeza de uma igreja sem ninguém ou a uma sala de aulas com muitas janelas através das quais só se pode ver a chuva a cair lá fora, como se no mesmo centro dessa sensação de segurança e de amparo se encontrasse a semente do vazio.»
David Foster Wallace, The Pale King, pág. 185. [Tradução livre: AMC; edição – New York: Back Bay Books, 2012, 592 pp.]
Este ano que passou foi parco em leituras por estas bandas, não só por algum aborrecimento confuso, como devido à minha eleição de obras intermináveis para a secção de leituras escolhidas.
Em resumo, 31 obras editadas em Portugal em 2012 foram lidas, 29 das quais reveladas na habitual coluna do lado direito deste blogue, onde predominou a “ficção” sobre a “não-ficção”, e votei 2 obras como excepcionais ou obra-prima, 11 como muito boas, 9 como boas e 7 como razoáveis, de cuja leitura poderia ter prescindido.
Depois de muito reflectir sobre um possível “ex-aequo” para as duas primeiras obras da lista (como ocorreu na minha lista de 2007), o resultado final foi o seguinte:

Os Melhores Livro de Ficção de 2011
  1. David Foster Wallace, A Piada Infinita (ed. port. Quetzal; Infinite Jest, 1996);
  2. Thomas Pynchon, Arco-Íris da Gravidade (ed. port. Bertrand; Gravity’s Rainbow, 1973);
  3. Ian McEwan, Mel (ed. port. Gradiva; Sweet Tooth, 2012);
  4. Saul Bellow, O Legado de Humboldt (ed. port. Quetzal; Humboldt’s Gift, 1975);
  5. Philip Roth, Goodbye, Columbus e Cinco Contos (ed. port. Dom Quixote; Goodbye, Columbus, 1959);
  6. Ali Smith, Qualquer Coisa Como (ed. port. Quetzal; Like, 1997);
  7. Julio Ramón Ribeyro, A Palavra do Mudo (ed. port. Ahab; La palabra del mudo, 1973 e ss. – selecção da edição portuguesa);
  8. Carlos Fuentes, Contos Naturais (ed. port. Porto Editora; Cuentos naturales, 2007);
  9. Enrique Vila-Matas, Ar de Dylan (ed. port. Teodolito; Aire de Dylan, 2012);
  10. Don DeLillo, O anjo Esmeralda (ed. port. Sextante; The Angel Esmeralda: Nine Stories, 2011).

Os Melhores Livro de Não-Ficção de 2012
  1. Edmund De Waal, A lebre de olhos de âmbar (ed. port. Sextante; The Hare with Amber Eyes – A Hidden Inheritance, 2010);
  2. Jonathan Franzen, A Zona de Desconforto (ed. port. Dom Quixote; The Discomfort Zone: A Personal History, 2006);
  3. Paul Auster, Diário de Inverno (ed. port. Asa; Winter Journal, 2012).

E agora a Memória, os meus melhores livros de ficção desde 2005 – ano da fundação deste blogue:
  • 2005 – Kazuo Ishiguro, Nunca Me Deixeis (ed. port. Gradiva; Never Let Me Go, 2005)
  • 2006 – Vladimir Nabokov, Convite para uma decapitação (ed. port. Assírio & Alvim; Priglasheniye na kazn, 1936)
  • 2007 – (2 obras em igualdade) Colm Tóibín, O Mestre (ed. port. Dom Quixote; The Master, 2004) & Jonathan Littell, As Benevolentes (ed. port. Dom Quixote; Les Bienveillantes, 2006)
  • 2008 – Robert Musil, O homem sem qualidades, volumes I e II (ed. port. Dom Quixote; Der Mann ohne Eigenschaften, 1930-1942)
  • 2009 – John Updike, Coelho em Paz (ed. port. Civilização; Rabbit at Rest, 1990)
  • 2010 – Saul Bellow, As Aventuras de Augie March (ed. port. Quetzal; The Adventures of Augie March, 1953)
  • 2011 – Julian Barnes, O Sentido do Fim (ed. port. Quetzal; The Sense of an Ending, 2011).

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Resvalamento do Planalto



Ando por estes dias a observar, incrédulo e impotente (já não se trata de simples acédia), a subida, ainda por cima escabrosa, dos meus índices de PMD*. Com o efeito de retroacção sónica das Bombas V pynchonianas e o seu pavlovianismo, que por cá não se manifesta pela intumescência pré-libidinosa, nas convulsões anti-osmóticas com a espantosa turgidez narrativa de DFW**, os agonizantes odores de cansaço dos pupilos da ATE*** e que nos atingem fatalmente através de espúrias cadeiras de rodas canuck's, rejeitando com incompreensível intensidade a experialista Grande Concavidade: Quo vadis PMD!
Mais de duas mil duzentas páginas… Já nem há tempo para brevidade antologiada da ex-Auster, nem para a, pela cronologia, segunda pérola nabokoviana.
Terapêutica urgente: Reeducação Prescritiva, já!

A que vis andanças podemos tornar…****    

Notas:
*Propensão Marginal para a Demência.
**David Foster Wallace.
***Academia de Ténis de Enfield (“ETA” no original).

**** To what base uses we may return…

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

39 anos, 7 meses e 3 dias

Não se trata de um filme romeno, nem tão-pouco da minha idade (sou infelizmente mais velho, embora cerca de 8 meses, para que conste), mas do tempo que decorreu entre a publicação original e a edição em Portugal de uma transgressão literária que, mesmo na actualidade, continua a fazer torcer várias mentes e a vergar à humilíssima condição de falível humano os reaccionários semideuses defensores do realismo flaubertiano (e há um muito na moda) – como se isto fosse uma competição interescolar ou de mensuração perimetral e da extensibilidade máxima do órgão da soberba na eterna refrega pela masculinidade.

É somente isto:
«Uma berraria vem através do céu. Já aconteceu antes, mas nada há que a compare com agora.»
Com chancela da Bertrand e tradução de Jorge Pereirinha Pires, eis a tão magistral, como polémica, obra de Thomas Pynchon, que motivou mesmo uma suspensão de atribuição do prémio Pulitzer em 1974, embora a obra tivesse sido unanimemente eleita pelo júri nomeado para a categoria de “Ficção” – a talho de foice, constituído pelos escritores e críticos literários Elizabeth Hardwick (1916-2007) e Alfred Kazin (1915-1998), e pelo escritor, ensaísta, eminente académico e crítico cultural Benjamin DeMott (1924-2005) , porém enfaticamente rejeitado pelos visionários membros do Conselho de Administração dos referidos galardões.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Oportuno, no dia que hoje corre…


Adapte-se o contexto.
[Shhhh... no more words / Hear only the voice within. (Jalal ad-Din Rumi, 1207-1273).]

«É uma contradição […] Que cada dia e cada noite e o mundo se dividam naqueles que fazem escutas e torturam e aqueles que se calam e continuam calados.»
Herta Müller, Já então a raposa era o caçador, pág. 128
[Alfragide: Dom Quixote, 1.ª edição, Setembro de 2012, 239 pp; tradução de Aires Graça; obra original: Der Fuchs war damals schon der Jäger, 1992.]

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Quem?

(n. 1955)

Exemplar único em Portugal: Peito Grande, Ancas Largas (Lisboa: Ulisseia, 2007).

Diziam que era o Kafka à Beira-Mar, mas enganaram-se (por pouco) nas coordenadas geográficas, saiu o suposto Kafka das letras chinesas.

O seio rosado de Virgem Maria e a terminação lombar desnuda do rechonchudo Menino Jesus vistos pelo auto-reprimido de Shandong na abertura do seu único romance editado em Portugal:   
«From where he lay on the brick-and-tamped-earth sleeping platform, his Kang, Pastor Malory saw a bright red beam of light shining down on Virgin Mary’s pink breast and on the pudgy face of the bare-bottomed Blessed Infant in her arms.»
Mo Yan, Big Breasts, Wide Hips (New York: Arcade, 2004; trad. Howard Goldblatt.)
Sinais dos tempos: A Academia Sueca dobra-se ao poderio chinês e ao seu heteróclito Socialismo de Mercado. É histórico: o autor, com a sua profissão de fé mutista, instado a comentar o Prémio Nobel da Paz atribuído ao seu colega dissidente Liu Xiaobo disse que "nada tinha a dizer", da mesma forma que uns anos antes, transcreveu mudamente, com uma fé dilacerante, um dos muitos discursos do Educador do Povo para um livro comemorativo. Mao rejubilaria. Por cá, o MRPP renovou, decerto, a sua esperança no levantamento das vítimas da fome, como se sabe, completamente extinta na dita República Popular desde a derrota, em 1949, de Chiang Kai-shek. 

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Gula

Há quem lamente um certo adormecimento do vigor da ficção ultimamente produzida pelo escritor inglês Ian McEwan. Servem-se do seu natural processo de envelhecimento como caixa-de-ressonância dessa inexorabilidade, contribuindo, assim, para a perda de algum do tão característico negrume nas suas obras mais recentes. Porém, até hoje e que se note, esse negrume tão idiossincrático pairou sempre sobre a sua arte de contar histórias, e neste conceito conseguimos facilmente encaixar a sua prosa concisa, furiosa, brutal, de um sadismo muitas vezes concretizado num humor negro subtil (embora pareça um contra-senso, a subtileza desse humor esconde-se nos pormenores da vulgar vastidão das suas paisagens narrativas) ou numa ironia tão fina e penetrante que, sem darmos por isso, nos atira para um labirinto cuja única saída é o assombro e a inquietação que esse espanto provoca.
Expiação (Atonement, 2001) e Solar (2010) são, à primeira vista, os seus romances mais atípicos, porquanto no primeiro se nota a presença de um certo lirismo e de um pathos não existentes nas obras anteriores e logo abandonados nas obras que se lhe seguiram: Sábado (Saturday, 2005) e a novela Na Praia de Chesil (On Chesil Beach, 2007); no segundo a deliberada hiperbolização do grotesco e as passagens de uma hilaridade de levar o leitor às lágrimas parecem fugir ao cânone mcewaniano. Nada de mais enganador, são artifícios que um McEwan mais refinado, e talvez, na aparência, um pouco menos fragoso, foi desenvolvendo com o maturar da sua escrita: as sombras, a perversidade e a perfídia irreparável encontram-se no subtexto, por muito que alguém se queira enganar com as atribulações do romance "Robbie/Cecilia" ou com as peripécias pessoais e profissionais do físico, burlesco e peripatético, "Michael Beard".
Com Mel (Sweet Tooth, 2012; ed. port. Gradiva), McEwan acrescenta à sua ficção, por um lado, a auto-referencialidade e, por outro, a sucessão vertiginosa de factos, pseudo-rupturas, acidentes e peripécias na narrativa, que se consubstanciam numa representação simbólica das famosas caixas chinesas.  
Se, por exemplo, a auto-referencialidade se evidencia sobretudo com a colectânea de contos negros Entre os Lençóis (In Between the Sheets, 1978) – porventura o mais perverso livro de McEwan, cujas histórias servirão como base para a fulgurante estreia literária de "Thomas Haley" –, afigura-se-me como tortuoso, e até de difícil justificação, deixar cair o epíteto de áspero ou negro para caracterizar Mel. A gula tão humana no crisol da sua existência.

Deixando a crítica aos recenseadores ajuramentados da nação lusa, termino com a minha sintética opinião: Mel é mais uma pérola literária do escritor inglês do Hampshire, uma obra-prima. Surpreendente, escrito numa cadência sufocante – à medida que as caixas se vão abrindo –, é mais uma proeza de um virtuoso que parece dispor de recursos infinitos para nos assombrar de uma forma irresistível e, no entanto e por agora, Serena.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

O Homem com Antenas de Visionário

Mais uma boa notícia (abaixo).
Nove contos escritos entre 1979 e 2011 por mais um dos autores do meu Olimpo e que empresta as suas palavras à epígrafe deste blogue à beira do colapso (nem de propósito!), editados em português pela Sextante.



Dilema Gaspar/Vladimir Ilyich: Que fazer? Dois Bukowski (Alfaguara); McEwan (Gradiva); as memórias de Rushdie, aka Franz Anton, a meticulosidade histórica da cruel Némesis sobre a hubris hitleriana de Kershaw (ambos editados na Dom Quixote); o último romance de Mrs. Auster, Siri Hustvedt (Asa); a reedição dos dois calhamaços do pós-guerra de Popper (Edições 70); e agora este.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Para os Gulosos, estirpe McEwaniana

Eu, pecador, pela gula bibliómana com a marca do mestre de Aldershot, me confesso.

Um mês após o lançamento em Inglaterra, a Gradiva (obrigado!) publica no nosso país Sweet Tooth:



quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Por fim, fecharam-se os lábios

«Às vezes, pareço-me com Montaigne quando ele observa: “Adoptei a prática de ter sempre a morte não apenas na minha mente, mas também nos lábios”.»


(West Point, NY, 3/Outubro/1925 – Hollywood Hills, CA, 31/Julho/2012)

Parte do que eu poderia dizer, já o disse.
O que dizem eles, pobre e atabalhoadamente.
E o que diz o João, porventura o maior admirador e conhecedor da vida e da obra deste americano, feroz e mordaz, neste Portugal (dos pequeninos) que quase o ignora.

terça-feira, 26 de junho de 2012

O Scozzy com Metafísica

By Martin Amis*
«Hoje em dia é tudo papelada. Foi essa a nossa evolução. Das picaretas… para a papelada.»**

Notas:
*Martin Amis, A Informação, pág. 199. Lisboa: Quetzal, Junho de 2012, 514 pp. (Tradução de Jorge Pereirinha Pires; obra original: The information, 1995.)
**E prossegue, mais adiante: «Um caos aparelhado […] a literatura [está] cada vez mais pesada e mais peluda, até tudo ter acabado e se chegar à papelada.»

segunda-feira, 18 de junho de 2012

When it grows dark we always need someone*


Beach House, “Myth”, Bloom (2012; Bella Union)


Help me to name it! (Não te acomodes na indiferença perante o teatro do sofrimento. Aquilo que fomos.)
«“Nunca sabemos quem somos. São os outros que nos dizem quem e o que somos. Explicam-nos tantas vezes quem somos, e de formas tão diferentes, que, no final, acabamos por não saber em absoluto quem somos. Todos dizem de nós algo diferente. Até nós mesmos estamos sempre a mudar de opinião. Se a isso acrescentarmos que nos esforçamos por surpreender os outros sendo várias pessoas ao mesmo tempo, o que na verdade acaba por acontecer é que acabamos por não ter a menor noção de quem somos ou poderíamos ter sido” (Juan Lancastre, A Interrupção).»
Enrique Vila-Matas, Ar de Dylan, pág. 124.
[Lisboa: Teodolito, 1.ª edição, Março de 2012, 259 pp; tradução de Miranda das Neves; obra original: Aire de Dylan, 2012.]
*Nota: «Yes. It's odd — when it turns dark you need someone.» (Patricia Hollmann”, por Margaret Sullavan (1909-1960) em Três Camaradas (Three Comrades, 1938), de Frank Borzage (1893-1962).

quarta-feira, 6 de junho de 2012

¡Qué viva España!

Philip Roth
(n. 1933, Newark, NJ, EUA)


Notas:
1) Aos vetustos membros da Academia Sueca esta notícia jamais chegará (Ah, impenetrável couraça snob esquerdóide!) Roth está entre aqueles que não participam no diálogo da cultura mundial (Engdahl dixit);
2) Para mais informações em português, consultar a notícia em actualização do Público

domingo, 20 de maio de 2012

Roth dobra o cabo das tormentas em Portugal


Espero que não seja apenas um fogacho, um daqueles lampejos que sói iluminar algumas cabeças de responsáveis editoriais em Portugal, e que se agarre o touro pelos cornos publicando paulatinamente toda a obra do maravilhoso Philip Roth que, vergonhosamente, ainda não se viu enformada pela língua de Camões neste lado do Atlântico.
Foi em 1959 que Roth lançou a sua primeira obra, constituída por uma novela e cinco contos e que desde logo colocou em rebuliço o mundo das letras norte-americanas.
Em pouco mais de meio século, com 27 obras de ficção originalmente publicadas – não entrando em consideração com as dezenas de contos e ensaios, e as obras de não-ficção –, e com a publicação garantida da sua opera omnia pela Library of America, o injustiçado não-Nobel, à maneira luso-heteróclita e descontando o republicadíssimo O Complexo de Portnoy de 1969 (Portnoy’s Complaint), só tem obra publicada a partir da sua novela dialógica de 1990 Traições (Deception), editada pela Bertrand, embora ainda não exista a publicação que se lhe seguiu: Operation Shylock (1993).
Em suma, Roth tem apenas 48% da sua obra de ficção publicada em Portugal, em que 44% se refere, apenas, aos últimos 22 anos da sua actividade literária de 53.
Amanhã, está prometido, dobrar-se-á o tormentoso cabo da metade. Uma boa esperança, espero que não vã:        

«A primeira vez que vi a Brenda, pediu-me que lhe tomasse conta dos óculos. Deu uns passos até à extremidade da prancha de saltos e fitou a piscina com olhos enevoados; até podia estar vazia, que a Brenda, míope como era, não teria dado por nada. Fez uma belíssima entrada na água e, passado um momento, estava a nadar de regresso à margem da piscina, a cabeça, de cabelos curtos e acobreados, erguida no prolongamento do corpo como uma rosa na ponta de um caule comprido. Içou-se para a margem fazendo deslizar o corpo e veio ter comigo. – Obrigada – disse, de olhos aquosos mas não por causa da água. Estendeu a mão e pegou nos óculos, mas só os pôs depois de virar costas e começar a andar. Fiquei a vê-la afastar-se. De repente apareceram-lhe as mãos atrás das costas. Agarrou os fundilhos do fato de banho com o polegar e o indicador de cada mão e com um gesto rápido repôs no lugar a carne que tinha ficado à vista. Ferveu-me o sangue nas veias.
Nessa noite, antes de jantar, telefonei-lhe.
»
Philip Roth, “Goodbye, Columbus”, Goodbye, Columbus e cinco contos, pág. 15.
[Alfragide: Dom Quixote, 1.ª edição, 2012, 304 pp.; tradução de Francisco Agarez; obra original: Goodbye, Columbus; 1959.]

terça-feira, 24 de abril de 2012

Emersão da escuridão


São só cinco minutos. Volto já (erigi a placa infernal) ao conforto identitário das trevas na época de triunfo dos esbirros das nobres causas e dos actos majestáticos – os que confortavelmente se consideram semideuses, pais da pátria, canalhas impunes no alto da sua torre de marfim.
E porquê? Apenas para aplaudir o magnífico trabalho da Asa na limpeza de esteticista dos vetustos frontispícios das obras de Paul Auster. São deslumbrantes e o Miguel Seara mostra-as aqui em pormenor.
Aproveito a oportunidade para a publicação da minha volúvel austerlista, que talvez se manifeste numa estranha, porque disciplinada, recapitulação bienal, pela recordação de um instante, o punctum que sobrevém pela câmara clara da minha memória:
  1. Leviathan (1992)
  2. A Música do Acaso (The Music of Chance, 1990)
  3. A Trilogia de Nova Iorque (The New York Trilogy, 1987)
  4. Invisível (Invisible, 2009)
  5. O Livro das Ilusões (The Book of Illusions, 2002)
  6. Palácio da Lua (Moon Palace, 1989)
  7. No País das Últimas Coisas (In the Country of Last Things, 1987)
  8. Sunset Park (2010)
  9. Timbuktu (1999)
  10. Mr. Vertigo (1994)
  11. As Loucuras de Brooklyn (The Brooklyn Follies, 2005)
  12. A Noite do Oráculo (Oracle Night, 2003)
  13. Homem na Escuridão (Man in the Dark, 2008)
  14. Viagens no Scriptorium (Travels in the Scriptorium, 2006)

Imerjo, com o capacete de bombeiro… Por vezes a identificação estética é abalada por uma certa obscenidade de discernimento que estilhaça a convicção do mais devoto, embora neste caso, conceda, é sempre auto-reparável.
«1952. Aos cinco anos, despido na banheira, só, suficientemente crescido para te lavares sem ajuda, e enquanto estás estendido de costas na água quente, o teu pénis fica de repente erecto, emergindo acima da linha de água. Até esse momento, apenas havias visto o teu pénis de cima, de pé e a olhar para baixo, mas a partir desta nova posição estratégica, mais ou menos à altura da linha de visão, discorres que a ponta do teu órgão masculino circuncidado exibe uma semelhança notável com um capacete. Um género antiquado de capacete, como o que os bombeiros usavam nos finais do século XIX. Esta revelação é-te agradável, porque nesta altura da tua vida a tua maior ambição é seres bombeiro quando cresceres, considera-lo como o trabalho mais heróico à superfície da terra (sem dúvida que o é), e quão conveniente é que tenhas um capacete de bombeiro esculpido em ti próprio, precisamente na parte do corpo que, para além disso, se parece e funciona como uma mangueira.»
Paul Auster, Diario de invierno (Winter Journal), pág. 22.
[Tradução: AMC; edição espanhola da Anagrama, Fevereiro de 2012 – a edição original americana é publicada em Agosto.]

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Bolas


É a designação inglesa. Ovos, a espanhola. Por cá ficámo-nos pela referência hortícola, embora a sinonímia seja bastante rica e imaginativa.
Não sei a razão por que ainda me exponho, mas acabei de levar uma valente biqueirada testicular – imagine-se! – pelo conteúdo de seis páginas de um livro – aconselho a leitura simultânea de dois ou mais livros para atenuar a dor (acreditem, é como o recomendado gelo para as tumefacções).
Seis páginas onde, na versão portuguesa, se fala de tintins (sic) e de pontapés nos mesmos, e debate-se sobre a dor lancinante que as mulheres desconhecem, fazendo-se a analogia com o fim do mundo e o filme de 1959, realizado por Stanley Kramer, A Hora Final (On the Beach), curiosamente baseado numa obra catastrofista de Shute – parece um imperativo.

Os guizos do fim da paciência já se fazem ouvir… 1Q84.

sábado, 7 de janeiro de 2012

Acossado por Murakami

Nos idos de Julho de 2007, após a leitura em primeira mão de Em Busca do Carneiro Selvagem do escritor japonês Haruki Murakami, decretei um período de pousio murakamiano para o meu nervo óptico. O pousio mantinha-se, persistente, inabalável e sem saudosismos, até que ao aproveitar para fazer a alusão à estreia iminente do último filme de um realizador muito cá da casa, o vietnamita Tran Anh Hung, que adaptara parte da, por mim considerada, melhor obra de ficção de Murakami (Norwegian Wood), confessei que o compromisso fora quebrado (subsistiu, ainda assim, três anos), e o arrependimento que sobreveio foi de certa forma angustiante (como nessa altura comentei).
Quinze meses decorridos, verifico que o filme de Anh Hung passou ao lado das salas de cinema portuguesas, apesar de ter sido adquirido pela maior distribuidora e detentora de espaços de projecção em Portugal, a ZON Lusomundo, e surgiu apenas no circuito comercial de DVD em parceria com a FNAC. A propósito de uma salutar discussão sobre esta inevitabilidade nacional, a pequenez do nosso mercado associada à recalcitrante iliteracia do português médio, foi-me recomendada a leitura do último romance editado em Portugal pelo escritor nipónico, convertido em orwelliano de olhos em bico, escreveu 1Q84 – lido em japonês soa a 1984, já que “9” e “Q” são palavras homófonas. Fiquei a saber que o volume que me habituara a ver em destaque nos escaparates das livrarias neste Natal (e sempre nos espaços reservados aos tops de vendas), trata-se apenas do primeiro livro (ou calhamaço) de três (com tantas ou mais páginas) da obra proto-orwelliana, cujos restantes livros irão sair a conta gotas durante este ano (fazer render o peixe, e que bem serve ao quase ictiólogo Murakami dada a profusão de cardumes nos seus livros).
Informo, para que conste onde convier, que adquiri o Livro 1 de 1Q84 de Haruki Murakami (ed. port. Casa das Letras; obra original: 1Q84 – Book 1, 2009), e, mal o abri, as razões determinantes para o início do pousio acima referido surgiram em forma de náusea – apesar da minha inata teimosia, insistindo e esforçando-me para que a sua leitura apenas termine na página 487 e quiçá, percorra os restantes volumes ainda no prelo –, vívidas rememorações de um subgénero literário nipónico do realismo mágico sul-americano: o(a) protagonista desgraçado(a) íntegro(a) e idealista, os personagens esfíngicos – normalmente velhos e cruéis , a presciência zoológica – habitualmente peixes e gatos –, o lesbianismo pubertário com descrições tácteis de pétalas de rosa, os edifícios e quartos misteriosos com alçapões para o inconsciente, os poços e as perturbações espácio-temporais, com desmaios inexplicáveis.

E a ervilha-verde demorou mais de seis páginas para descer as escadas de segurança metálicas de uma auto-estrada, com intensas recordações sáficas da sua adolescência à medida que ia pisando descalça os frios e rugosos degraus de metal.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Literatura: Os Melhores Livros de 2011


Como tem sido hábito desde a fundação deste blogue, que já passou por dois encerramentos e outros tantos regressos com nomes diferentes, a minha fúria listómana termina com a publicação dos melhores livros editados em Portugal durante o ano em causa. Não se trata, porém, de uma novidade, já que sempre existiu uma coluna do lado direito que vai engrossando à medida que novos títulos que emergiram no mercado editorial português vão passando sob os meus olhos ávidos de bibliómano. Infelizmente, a lista deste ano é mais curta que a dos seus predecessores, todavia é sobre ela que exponho, agora numa escala ordenada, os meus encantamentos literários.
Chega o momento de repetir à laia de aviso/disclaimer o processo de selecção:
Ao contrário de qualquer lista publicada nos órgãos de informação convencionais por um ou mais críticos, por meio de qualquer espécie de votação (nem que seja através de uma peroração avaliadora na sua recensão), o único critério que preside à escolha dos livros editados durante o ano para as minhas particulares sessões de leitura e sua posterior classificação (com publicação imediata no blogue) é apenas o meu gosto pessoal por determinados autores, por determinada escola literária ou por certo tipo de narrativas, embora a escolha possa haver resultado da indicação de alguém, seja um crítico literário ou um mero leitor, que me recomendou a sua leitura e, como é óbvio, desde que eu lhe confira algum tipo de autoridade na matéria – há críticos e críticos, e há leitores mais conformes às minhas preferências estético-literárias, mesmo que não os suporte. Assim, este tipo de listagem sofre, à partida, de um vício de forma, e que leva a que a maioria dos livros classificados se situe nos graus mais elevados de apreciação literária: uma escolha apriorística e condicional, sem a isenção que outros terão de apor no processo de selecção da obra a analisar, condição necessária à integridade de um crítico – no plano teórico, claro; não sou tão inocente.
Foram 37 (um não revelado) os livros editados em Portugal no ano de 2011 que passaram sob o meu crivo de bibliómano: 2 foram classificados como “obra-prima” (6 estrelas); 12 com “Muito Bom” (5 estrelas); 14 com “Bom” (4 estrelas); 5 com “A Ler” (3 estrelas); 2 com “Medíocre” (2 estrelas), e mais 1 classificado como “Mau” (1 estrela).

As listas

Os 10 Melhores Livros de 2010 – Ficção
1.º – Julian Barnes, O Sentido do Fim (ed. port. Quetzal; The Sense of an Ending, 2011);
2.º – David Vann, A Ilha de Sukkwan (ed. port. Ahab; Sukkwan Island, 2008);
3.º – Michel Houellebecq, O mapa e o território (ed. port. Alfaguara; La Carte et le Territoire, 2010)
4.º – John Banville, Os Infinitos (ed. port. Asa; The Infinities, 2009);
5.º – Don DeLillo, Ponto Ómega (ed. port. Sextante; Point Omega, 2010);
6.º – Colm Tóibín, Mães e Filhos (ed. port. Bertrand; Mothers and Sons, 2006);
7.º – Philip Roth, Némesis (ed. port. Dom Quixote; Nemesis, 2010);
8.º – Gonçalo M. Tavares, Short Movies (Caminho);
9.º – Don DeLillo, Americana (ed. port. Relógio D’Água; 1971);
10.º – Leonardo Padura, O Homem que Gostava de Cães (ed. port. Porto Editora; El hombre que amaba a los perros, 2009).

Menções Honrosas (livros que poderiam ocupar, por troca ou em simultâneo, os dois últimos lugares do Top 10, ordenados pelo nome próprio do autor)
  • Howard Jacobson, A Questão Finkler (ed. port. Porto Editora; The Finkler Question, 2010);
  • Jonathan Franzen, Liberdade (ed. port. Dom Quixote; Freedom, 2010).

Os 3 Melhores Livros de 2011 – Não-Ficção (este ano reduzida a 3 títulos)
1.º – Joseph ONeill, Rasto Negro de Sangue – Uma História de Família (ed. port. Bertrand; Blood-Dark Track: A Family History, 2001);
2.º – Patti Smith, Apenas Miúdos (ed. port. Quetzal; Just Kids, 2010);
3.º – Saul Bellow, Jerusalém, Ida e Volta – Um Relato Pessoal (ed. port. Tinta-da-China; To Jerusalem and Back: A Personal Account, 1976).

Memória (os meus melhores desde 2005)
2005Kazuo Ishiguro, Nunca Me Deixeis (ed. port. Gradiva; Never Let Me Go, 2005)
2006Vladimir Nabokov, Convite para uma decapitação (ed. port. Assírio & Alvim; Priglasheniye na kazn, 1936)
2007 – (2 obras em igualdade) Colm Tóibín, O Mestre (ed. port. Dom Quixote; The Master, 2004) & Jonathan Littell, As Benevolentes (ed. port. Dom Quixote; Les Bienveillantes, 2006)
2008Robert Musil, O homem sem qualidades, volumes I e II (ed. port. Dom Quixote; Der Mann ohne Eigenschaften, 1930-1942)
2009John Updike, Coelho em Paz (ed. port. Civilização; Rabbit at Rest, 1990)
2010Saul Bellow, As Aventuras de Augie March (ed. port. Quetzal; The Adventures of Augie March, 1953).

Finalmente, um breve excerto do melhor, para além do que aqui já foi dito em tempo oportuno e que se reflecte também nesta citação arrancada a um todo deslumbrante (no texto abaixo optou-se por uma transcrição ipsis verbis, seguindo-se, por isso, a opção da editora pela regras do abstruso e Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa; para além da incompreensível troca de artigos, o indefinido pelo definido, na tradução do título da obra para a nossa língua):
«Que sabia eu da vida, eu que vivera com tanto cuidado? Que não ganhara nem perdera, mas só deixara que a vida me acontecesse? Que tinha as ambições comuns e me adaptara demasiado cedo a que elas não se realizassem? Que evitava ferir-me e chamava a isso capacidade de sobrevivência? Que pagava as minhas contas, estava de bem com toda a gente na medida do possível, mas para quem o êxtase e o desespero depressa se tornaram meras palavras, lidas outrora nos romances? Eu, cuja autocensura nunca infligia realmente dor? Pois, havia tudo isto para refletir, enquanto eu passava por um tipo de remorso especial: uma dor finalmente infligida a alguém que sempre pensou saber como evitar ser magoado – infligida por essa mesma razão.»

Julian Barnes, O Sentido do Fim, p. 144 [Lisboa: Quetzal, Novembro de 2011, 152 pp.; tradução de Helena Cardoso; obra original: The Sense of an Ending, 2011]