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domingo, 13 de novembro de 2011

Uma punch line do atordoante Smog


«Estourei os micrómetros com os primeiros golpes que dei no saco de areia. Prendi-os com uma ligadura à volta das mãos antes de calçar as luvas e arremeti contra o saco até os dedos ficarem ensanguentados, desfeitos e em carne viva.
»O meu treinador está muito, muito impressionado. Quero dizer, não parece de todo impressionado. Cheguei a convencer-me de que descobriria o meu potencial. A semente. Da grandeza. Nem pensar.»
Bill Callahan, Letters to Emma Bowlcut (Chicago: Drag City, 2010) [excerto da “Carta 59”; tradução livre: AMC]

Persisti em esmurrar-vos nos gumes escabrosos da realidade; expostos, despidos no púlpito do desespero. Degradante exibicionismo. Sois miseráveis, afastados da ribalta pelos aduladores da podridão. Jamais saltareis para o ringue. Vós? Nunca… Nós? Em tempo algum. Até ao dia. Rebentarei. Eu.


Bill Callahan, “Riding for the Feeling”, Apocalypse (Drag City, 2011)

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Pena


«A pena é uma emoção tão horrível e tão inútil – temos de reprimi-la e guardá-la para nós mesmos. Quando tentamos exprimi-la, só pioramos as coisas.»
Paul Auster, Invisível, p. 97.
[Alfragide: Asa, 1.ª edição, Outubro de 2009, 236 pp; tradução de José Vieira de Lima; obra original: Invisible, 2009.]

Aproxima-se o dia que cobriu de dor aqueles que mais quero, e quis a sorte que se colasse à data em que os católicos no seu masoquismo perene correm em bando, de cabeça baixa, pela alvenaria dos trilhos cortados entre campas, para recordar aqueles que, por maiores que sejam a recordações de felicidade e de profundo afecto, deixaram a dor de uma perda irreparável e os terríveis “ses” que se entalam na garganta e sufocam um grito, porventura, se exteriorizado, pouco abonatório da urbanidade das nossas vidas civilizadas.
Amanhã será o dia de tréguas. A suspensão de uma provável recidiva da discussão teológica familiar entre o que acredita que o fim é um valor absoluto, de saudade e dor – o já descrente que deixou, em definitivo, de acreditar –, e aquele cuja fé se reforçou porque não acredita num Deus cruel e injusto, num Decisor impiedoso que arrebatou para si alguém na flor da idade, que só o fez para acomodar a sua alma desamparada numa vida melhor.
Amanhã, serão sete os anos de ausência que ainda não consigo conceber como caridosa.
Não é pena, nem tão-pouco uma súplica por piedade. É uma revolta pela incompreensão de tão bárbaro destino para os que cá ficaram.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Bellow, a indiferença e o meu pathos




A propósito de um episódio que se sucedeu comigo hoje através de e-mail, que me magoou profundamente pela "Indiferença" (grafada propositadamente com maiúscula) de uma amizade que julgava existir apesar da distância física (encurtada por estas diabólicas redes sociais), recordei-me de um dos personagens mais marcantes de Saul Bellow, Asa Leventhal, e da salutar reprimenda que um dos seus melhores amigos, Dan Harkavy, lhe deu, como se o quisesse acordar para um mundo que não se condói com as nossas pequenas emoções… sou assim, é o meu pathos, que me desculpem aqueles que o conseguirem.



(Levou algum tempo a encontrá-la… já é por demais conhecida a minha mania ou fórmula enquanto leitor: "sublinhar=profanação")



«Se não te importas, Asa, há uma coisa que quero sublinhar e ainda não percebeste. Não somos crianças. Somos homens vividos. É quase pecado ser tão inocente como tu és. Pensa. Está bem? Queres que o mundo inteiro goste de ti. Mas existem fatalmente pessoas que não gostam. Como eu gosto, por exemplo. Não te chega que algumas pessoas gostem de ti? Não aceitas o facto de que algumas pessoas nunca hão-de gostar de ti? (…) É uma questão de vida ou de morte?»
Saul Bellow, A Vítima, p. 75 
[Lisboa: Texto, 1.ª edição., Março de 2006, p. 75; tradução de Sofia Gomes; obra original: The Victim, 1947]

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Exibição da sapiência paterna (tragédia)

Passariam uns dez minutos das nove da manhã. Escuro, o céu forrado de cúmulos-nimbos, um frio de rachar cortado apenas pelo aquecimento do carro e pelas palavras quentes que saíam da boca de I. a caminho de mais uma jornada de luta – que saudades desses tempos revolucionários de palmo e meio – no seu colégio… de freiras.
Inquieta, interrogava-me sobre as forma e cor inauditas daquelas nuvens. Eu, com um ouvido na TSF, Obama e a tomada de posse, e outro no espanto verbalizado por uma pirralha de cinco anos perante a magnitude da paisagem atmosférica, ia dando as minhas doutas respostas, um deus-pai da meteorologia e de qualquer assunto, a confiança cega que mais tarde se transforma numa dolorosa descoberta: ele afinal não sabia tudo; tem defeitos; bazófias; podendo até, em fases extremas, redundar num parricídio de contornos pasolinianos.
Chega a pergunta inevitável:
– Papá, achas que vai haver trovoada?
Esboço um sorriso sardónico como meio indispensável para a produção
do necessário efeito ansiolítico, e imperiosamente determino que isso seria um disparate, dada a inexistência da massa de ar quente… salvo pelo gongo, a buzina do carro de trás apressa-me a encontrar um lugar, o portão do colégio está próximo. Estaciono em segunda fila. Se fosse Aristófanes dir-te-ia o que farias com a tua buzina ligada à cabeça… Aspecto exterior: impassível.
Agasalho-a, aperto-a nos meus braços e diz-me na sua candura: – depois logo contas-me, papá.
Separámo-nos. Desligo a luzes de emergência e entro de novo no carro. O candidato à imprecação aristofânica desapareceu. Cem, duzentos metros. Ainda mal se emudecera na minha face o doce e terno beijo lambuzado da despedida e abate-se sobre o meu carro uma chuva de granizo, segundos antes anunciada por um forte trovão.
Brindo à minha erudição climatérica: bravo, papá, acertaste.
De quem é a culpa?, pergunto-me. A resposta óbvia não tarda…
Se a tua mãe num domingo deste querido mês de Agosto me tem dado ouvidos e não te tem levado à praia onde uma Senhora da Nazaré (ou similar) levada em ombros a banhos de água salgada por uma multidão garrida ao som de salvas de morteiros a cada mistério rezado, talvez hoje, querida I., não tivesses medo dos trovões…

Ah, meu marialva, comigo a culpa é sempre da mulher. As voltas que a vida… perdão, o texto dá.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Colecções...

Roma, de Federico Fellini (fotograma)
Quando o Público anunciou a sua extraordinária série de livros e filmes de 25 mestres do cinema mundial, sob a marca dos Cahiers du Cinéma – série que em França foi difundida pelo jornal Le Monde – tratei de elaborar as minhas (já famosas) listas, não só para verificar quanto tempo – contado em número de sextas-feiras – duraria a fastidiosa corrida às tabacarias e quiosques da minha cidade para adquirir o apêndice do dito jornal, por uns premeditados nove euros e noventa e cinco cêntimos, como também, para efeitos de comparação com a minha já considerável videoteca, para apurar as possíveis repetições de tal empreendimento – 248,75 euros já é uma cifra razoável, a pedir ponderação.
Feita a lista, uma pequena fúria, insípida, insonora, e até inodora – acabara de esgotar o meu stock de enxofre com os desgovernos socráticos (que não o mestre de Platão) – apoderou-se de mim, tendo por alvo um heteróclito quinteto: Nuno Artur Silva, Jorge Leitão Barros, Vasco Graça Moura, João Mário Grilo e Clara Ferreira Alves, respectivamente por, Fellini (com mais de 20 filmes, alguns ½), Coppola (mais de 30), Bergman (mais de 60), Rosselini (cerca de 50) e Antonioni (quase 40). Os 9,95 passariam a financiar apenas a curta biografia, atendendo à minha feliz condição de possuidor de bases para copos robustas e mais que suficientes, que vão permitindo manter imaculados os meus móveis de design (de concepção caseira), sem aquelas inestéticas rodelas que mesmo o cristal – vejam só! –, previamente humedecido dos mais finos espíritos condensados, sói deixar.
No entanto, esta semana, após um curto desabafo da minha lusitana avareza com o meu pai, ele disse-me: «Ouve lá, compra na mesma, eu pago-te metade e fico com o DVD. A cada passo dou por mim a rir-me sozinho com situações do Roma do Fellini… lembras-te do tipo que sai da plateia e vai acender o cigarro à vela que um cantor segurava no palco?… [sim, lembro-me] “e se te fosses f*** e acendesses nos c*** do pai!”» [os asteriscos são de exclusiva responsabilidade do decoro paterno, que se verbalizaram em palavras sincopadas a apelar à imaginação (ou inteligência) do receptor]
Negócio fechado.
Lapsos de segundo que me pareceram uma eternidade. O mal já havia sido reproduzido pelo meu menear de cabeça em assentimento, embora o mais zeloso dos contabilistas, se presente, manifestasse orgulho no potencial fiel seguidor… quiçá o próprio Bartleby.
Um forte lampejo de clarividência, perfeitamente verificável num cefalópode, e a vitória de espírito filial sem condições sobre o materialismo, levantaram do tapete os contundidos respeito e carinho que sinto pelo meu querido pai. Apercebendo-me do erro, antes ainda da terrível expiação, tentei reparar o dano – que não sei se foi sentindo como tal do outro lado – e disse:
«Deixa estar, pai. Eu vou comprá-lo porque quero ficar com o livro, e não precisas de me pagar a metade pelo DVD, dou-to como prenda do dia do pai que… humm… [lentamente dando-me conta do agravamento da minha mísera condição de Ebenezer Scrooge; os tais momentos em que o silêncio, com toda a sua implacabilidade, se transforma na única tábua de salvação, enquanto não chega o tenebroso fantasma dos Dias do Pai futuros] … é na próxima terça, não é?»
Não, minha alimária, é na quarta-feira.

Hoje, à hora que finalizo este texto, percorridas cerca de uma dúzia de bancas de jornais, nem Roma, nem biografia de Federico… E o jornal da Sonae, merecia uma resposta bem ao estilo do Mestre, que esta semana, por inépcia logística tão típica das empresas lusas, desapareceu das bancas.


Ah, entretanto, o meu pai está a gozar as suas merecidas férias durienses. Quarta-feira...