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sábado, 20 de novembro de 2010

O Armário e o Paquiderme*

Por vezes sou paquidérmico em relação a determinadas opiniões, que mais não são que pré-conceitos em estado latente prontos a serem arremessados para a arena de “olha que contra a corrente que eu sou”.
Não gosto mesmo nada de me citar, nem de fazer das minhas opiniões sentenças, até por razão de manter algum contacto com a realidade: ninguém lê este blogue – ou melhor, pedindo desculpa aos que me lêem, cerca de meia dúzia, tenho a consciência de que qualquer opinião que aqui emita jamais será considerada em qualquer microtertúlia em que se discuta cinema, literatura, ou qualquer outro tema que aqui desenvolvi. Não é falsa modéstia, é apenas a constatação da realidade: não distribuo empregos, nem abraço políticos, não sou dono de uma editora, não escrevo em jornais ou revistas, vivo (e espero continuar a viver) no Porto, sou apartidário, embora a minha condição de blogger dispensável se agrave por uma certa dextralidade política (o que é isso?), sou agnóstico, sempre dubitativo (e não dúbio), estou-me perfeitamente nas tintas para líderes e pseudo-líderes, para os tipos que se dizem éticos (esta é das melhores lidas ultimamente), chefes, autoridades (sobre qualquer matéria); nisso sou um anarca (não estender muito o conceito, por favor), libertário, anticonservador, cultor do meu pensamento livre (jamais constrangido), sem o fim último de insultar a diferença, embora por vezes uma boa provocação à laia de insulto sirva para aliviar um pouco desta minha idiossincrática carga emocional fortemente compressora.
Não preciso de sair do armário (pronto, já arrumei com o título), nem sinto a necessidade de me revelar, muito menos de encetar qualquer manobra de diversão que permita deixar-me mais confortável perante alguém.
A 2 de Outubro passado disse aqui:

«A primeira e, pelos vistos, frutuosa união Fincher & Sorkin chega cá no próximo dia 4 de Novembro, e tenho uma forte suspeita de que, por terras do primeiro-ministro filósofo (…), onde predominam as mentes preclaras, levará no mínimo com uma bola preta… Há quem culpe o realizador de Denver por haver realizado alguns telediscos, uma mácula jamais expurgável na carreira de um cineasta.»
E a bola preta veio de onde mais esperava: o algoz do realizador de videoclipes para Madonna, Paula Abdul, George Michael, Sting, entre outros, dificilmente reconhecerá qualquer mérito ao realizador de Denver, só se, por uma análise da crítica intracomparada, conseguir vencer um reaccionarismo, que o próprio julgará tratar-se de criatividade e de ambição cinematográfica, tal como proferia o polémico Ben Marcus nas artes literárias. Adaptando o texto à sétima arte, vem: aqueles que procuram assegurar que a cultura se afaste do progresso cinematográfico, aqueles que insistem que os sucessos fílmicos do passado devem ser solidificados, polidos e praticados pelas gerações mais jovens. Qualquer adaptação à realidade vigente é um sacrilégio. Logo, mais vale filmar de câmara ao ombro um bairro degradado de Manila e contratar uma dúzia de actores não profissionais e com uma fotografia deslavada, sem artifícios, contar uma história banal, para não se cair na malfeitoria do truque fácil de câmara, jogos de luz, filtros e montagem, e demais maquinaria associada – a profanação do cinema.
A concretização da profecia (mesmo antes de ter visto o filme, que, suponho, vi no dia a seguir à estreia – 5 de Novembro), levou-me, como já aqui disse, a suspender e arremessar para o arquivo de ficheiros “ponto doc” mortos a minha opinião mais elaborada sobre a última obra de Fincher**. Mas estarei sempre disponível para exteriorizar uma boa irritação, como se não bastasse, para não danificar ainda mais as paredes desta panela de pressão, já de si bastante combalida e com cicatrizes de repressões de antanho. O outing é a minha forma de vida. E já agora a de exibir algumas opiniões de quem muito respeito nesta matéria, apesar de discordâncias viscerais noutras ocasiões, o fio condutor no exercício da crítica jamais se cristalizou num conservadorismo bafiento:
«O filme de David Fincher possui não só a rara qualidade de ser tão inteligente como o seu brilhante herói, mas é-o da mesma forma. É arrogante, impaciente, frio, excitante e instintivamente arguto.
(…)
“A Rede Social” é um grande filme, não só devido ao seu estilo deslumbrante ou ao seu engenho visual, mas porque é admiravelmente bem-feito. Apesar das desconcertantes complicações da programação informática, da estratégia da Internet e da grande finança, o argumento de Aaron Sorkin torna tudo compreensível, e não seguimos com tanta força a história como somos puxados para detrás dela. Eu assisti ao filme rodeado por uma audiência que parecia absorta de uma forma invulgar: encontrava-se amplamente fascinada.»
Roger Ebert, “The Social Network”, Chicago Sun-Times, 29/09/2010.
Para terminar, e para um bom momento de descompressão, como seria A Rede Social se filmada por Wes Anderson, Michael Bay, Christopher Guest, Quentin Tarantino, Guillermo del Toro ou Frank Capra?

Notas: *este título não se inspirou em qualquer obra do realizador, tão cauterizado pela crítica em Portugal, Julian Schnabel.
**A minha indefectibilidade fincheriana será posta à prova no passo que o realizador do Colorado está prestes a dar. Trata-se de um remake de um filme sueco estreado no ano passado sobre o primeiro livro da trilogia-dos-títulos-em-comboio do escritor já desaparecido Stieg Larsson. Entretanto, continuo em aulas de mentalização para considerar uma obra-prima o terceiro filme da série Alien. Depois do 8.º Passageiro de Scott (o Ridley, o menos apimbalhado dos manos) e do Recontro Final de Cameron, e antes da Ressurreição do Jeunet, suponho que não necessitarei de uma sala fechada com grampos nas pálpebras para a Desforra de Fincher.

domingo, 31 de outubro de 2010

Oito

Não me canso de repetir e fazer-me ouvir: “São apenas datas, um sinal no calendário igual aos demais que se repetem três centenas e meia num ano.” E assim tento enganar, ludibriar a dor inextinguível da saudade de outros, que também é minha, e que deste modo se multiplica e intensifica pela estúpida mentira que estipulei seria dita àqueles que mais amo no dia fatal. Todavia, fico com a dúvida que a mera percepção da estupidez cometida possa servir como indicador de algum resquício de lucidez que julgara definitivamente perdida.

«Pelo menos sabes que és a pessoa mais estúpida que jamais viveu neste mundo. Quantas pessoas terão a inteligência necessária para admitir uma coisa dessas?»
Paul Auster, Sunset Park, pág. 188 [Alfragide: Asa, 1.ª edição, Outubro de 2010, 231 pp; tradução de José Vieira de Lima; obra original: Sunset Park, 2010.]
Contudo, o dia passou, permanece a dor… 8, que se declina para o infinito.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Consenso

Altruísmo, palavra tão morta para os que exercem o poder, como negociar simboliza uma acção impraticável e cedência uma impossibilidade constatada. Soberba no seu mais elevado grau de pureza que se conquistou com o exercício reiterado da teimosia, surda e manhosa, sobre as ruínas de um mundo em decomposição, enfraquecido por lutas intestinas na frente adversária. Obstinação, egoísmo que num jogo dialéctico com os patronos do consenso, uma forma espúria e perigosa de altruísmo, se sintetiza em ironia – vazia, sem consequências, como mera constatação do fracasso.
«(…)
De que forma a catástrofe,
traz perturbações ao velho método
de aplicar uma distância ao mundo?
Por cima da catástrofe, de um ponto de vista aéreo,
o homem é capaz de ironizar,
porém, já debaixo da catástrofe,
debaixo dos seus escombros,
a ironia será a última a aparecer
depois da acção instintiva de defesa,
do desespero que ainda emite ordens e tentativas,
e do último grito que assinala o fracasso.
Só depois deste grito a ironia regressa,
dizendo, quando muito:
morro, é certo, mas mesmo assim
guardo uma elegante distância em relação
à minha morte.
(…)»
Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia, pp. 37-38 (Canto I: 24-26). [Alfragide: Caminho, 1.ª edição, Outubro de 2010, 478 pp.]
Regresse à casa da partida e receba 2.000$00. Consenso: só mais um esforço. Ironia?

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

O Escravo, por Llosa

Com a descrição da aculturação forçada e o desbaste culpável e criminoso da personalidade intrínseca ao ser humano, desde que este solta o primeiro gemido neste mundo, o Nobel peruano dá início à sua carreira literária na narrativa longa de ficção, com o excepcional romance de 1962 La ciudad y los perros (A Cidade e os Cães). Uma vertiginosa alegoria. Los perros para Mario Vargas Llosa, são os cadetes internados no Colégio Militar Leoncio Prado na cidade de Lima, um microcosmos das práticas torcionárias durante o apogeu dos movimentos repressivos e a expansão dos seus ideais nas trevas da Guerra Fria, que, em nome de uma ideologia, coarctaram toda a sensibilidade em nome de um colectivo amorfo e obediente perante um directório cujos interesses se subsumem ao poder e ao seu exercício indiscriminado e cruel.
O Escravo que refiro no título do texto, é a alcunha do infeliz Ricardo Arana – talvez o personagem mais marcante e pungente de todo o memorável romance (já o li há anos e continua a marcar o meu pensamento, e quiçá parte do meu comportamento) –, o representante de uma minoria, mesmo entre os “perros” (ou os “cães”), que se vai autodestruindo pelo consentimento de aniquilação da sua vontade perante o poder dos outros, pela submissão dos seus sentimentos que enformam a sua personalidade.
Eis um trecho inesquecível deste romance, onde se retrata O Escravo e a sua sede de liberdade que pode assumir-se numa miríade de maneiras, tantas quantas as formas de pensar, sentir e agir de cada indivíduo – esta é uma alegoria de um mundo de repressão:
«Podia suportar a solidão e as humilhações que conhecia desde menino e que só feriam o seu espírito: o horrível era estar fechado, essa grande solidão exterior que não escolhera, que alguém lhe atirara para cima, como uma camisa-de-forças. Estava em frente ao quarto do tenente, no entanto, não levantava a mão para tocar. Sabia, contudo, que ia fazê-lo, tinha demorado três semanas a decidir-se, já não tinha medo, nem angústia. Era a sua mão que o atraiçoava: permanecia quieta, fraca, pegada às calças, morta. Não era a primeira vez. No Colegio Salesiano chamavam-lhe “boneca”: era tímido e tudo o assustava. “Chora, chora, boneca”, gritavam os seus companheiros no recreio, rodeando-o. Ele retrocedia até que as suas costas encontravam a parede. As caras aproximavam-se, as vozes eram mais altas, as bocas dos meninos pareciam focinhos dispostos a ferrá-lo. Punha-se a chorar. Um dia disse para si: “Tenho de fazer qualquer coisa.” Em plena aula desafiou o mais valente do ano: esquecera o seu nome e cara, os seus punhos certeiros e o seu ofegar. Quando se viu frente a ele, no canto da lixeira, encerrado dentro de um círculo de espectadores ansiosos, também não sentiu medo, nem sequer excitação: apenas um abatimento total. O corpo não respondia, nem se esquivava aos golpes; esperou que o outro se cansasse de lhe bater. Era para dar castigo a esse corpo cobarde e transformá-lo que se havia esforçado para entrar no Leoncio Prado: por isso tinha suportado esses vinte quatro largos meses. Agora já não tinha esperança; nunca seria como o Jaguar, que se impunha pela violência, nem sequer como Alberto, que podia desdobrar-se e dissimular para que os outros não fizessem dele uma vítima. A ele conheciam-no logo, tal como era, sem defesas, débil, um escravo. Só a liberdade lhe interessava agora para manejar a sua solidão à vontade, levá-la a um cinema, encerrar-se com ela em qualquer parte. Levantou a mão e bateu três vezes à porta.»
Mário Vargas Llosa, A Cidade e os Cães, pág. 106. [Mem Martins: Europa-América, 1988, 302 pp; tradução de José Eduardo Mendonça; obra original: La ciudad y los perros, 1962.]
Decorridas mais de doze horas após o anúncio, ainda persiste na minha mente um forte sentimento de exultação e de comprazimento: hoje, a Academia Nobel fez finalmente justiça. Será para manter? No início do próximo Outono veremos se o lixo ideológico de outros anos foi definitivamente expurgado daquelas mentes e reciclado em substância exclusivamente literária. Saiu-se do círculo de uma intelligentsia deslumbrada pelo exercício sedutor do poder, mesmo que arbitrário, iníquo e criminoso. Conceder o Nobel a Llosa foi uma forma de homenagear os oprimidos por Trujillo ou por Castro, à direita ou à esquerda, os filhos esmagados pelo peso dos ditadores deste mundo. O anúncio da Academia Sueca hoje de manhã sancionou esse grito de liberdade, antes que fosse tarde de mais. Llosa tem 74 anos e continua jovem e enérgico a escrever sem rodeios através da «sua cartografia das estruturas de poder e imagens incisivas da resistência, da rebelião e da derrota do indivíduo.»

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

As pulsões de Augie March

Bellow, Saul Bellow, não me canso de repetir nestas páginas que ninguém lê, a minha intensa, por vezes pungente, admiração por este artesão da palavra que, em 1976, recebeu da Academia Sueca o Prémio Nobel da Literatura e, segundo confessam as fontes subterrâneas que vogam acima das ratazanas da Academia – e permitam-me esta inversão metafórica de papéis no teatro social, justificada pela repugnância que tais seres me provocam a cada Outubro –, estava destinado ao para sempre injustiçado Borges, que, segundo o próprio, nasceu com a sina de nobelizado e morreu sem que tal distinção lhe fosse atribuída. Bellow poderia esperar, e não foi tão-pouco o prémio que o marcou como um gigante da literatura universal, atribuído já o judeu americano-cannuck era sexagenário, porquanto aquele já havia publicado as suas melhores obras – se exceptuarmos a sagração da Literatura materializada no romance Morrem Mais de Mágoa (More Die of Heartbreak), publicado onze anos após o Nobel.
Detenho-me em Augie e na irrepreensível tradução que Salvato Telles de Menezes fez para a Quetzal – corajosa editora que imprimiu três mil exemplares de uma obra-prima a que apenas, estou seguro, uma centena de pessoas neste país atribuirá algum valor –, e no momento em que o nosso “herói”, acompanhando Mrs. Renling, a sua patroa e pretensa mentora milionária da alta sociedade de Chicago, numa deslocação à estância de repouso de Benton Harbor, num hotel de luxo bordejando as margens do rio St. Joseph, no ponto em que águas deste se fundem com as do lago Michigan, se apaixona arrebatadamente pela intocável e inacessível Esther Fenchel, num convencimento de sucesso a não ser que a sua pátina de «credenciais forjadas» por um jogo de aparências abrisse uma brecha e deixasse ver o mundo de pobreza que se escondia por baixo:
«Eu trabalhava, com o coração nas mãos, em prol do maior êxito possível nestes limites, como um impostor. Passava horas preparando-me para ser uma petição viva. Por meio de uma concentração muda e de uma batalha para atrair as atenções. A única maneira que consegui conceber, na minha paixão pitoresca e carregada de sangue. Porém, da mesma forma que um prenúncio de praga pode ser sentido no vento brando que faz tremular bandeiras e na beleza de um porto – uma cena de paz activa e segura –, talvez pudesse, apesar de toda a minha aparência equilibrada de quem vive circunstâncias normais e tranquilas, ter passado o tom dos meus pensamentos pelo ar – na praia, no relvado enfeitado de flores, no grande espaço aberto da sala de jantar branca e dourada –, e estes pensamentos eram que poderia sujeitar-me a ser enforcado nos cabelos da rapariga – coisas desta ordem. Sonhava pesadamente com os lábios dela, com as mãos, seios, pernas, entre pernas. Ela não podia baixar-se para apanhar uma bola no campo de ténis – eu parado e hirto, com um foulard com cavalos castanhos sobre um fundo verde engenhosamente enfiado numa argola de madeira talhada à mão que Renling tornara popular nessa estação em Evanston –, não podia testemunhar isto, dizia eu, sem sentir uma pontada de amor e adoração nas minhas entranhas pela curva das suas ancas, a gloriosa forma virginal do seu traseiro, o seu macio e protegido segredo. Onde ser admitido com amor seria o endosso do mundo, de que não era a infecunda confusão que distantes temores secos sugeriam e sussurravam, mas necessário, justificado, a validade da justificação comprovada pelo júbilo. Que se aceitasse, aprovasse, beijasse, usasse as suas mãos em mim, me deixasse tocar no pó de barro do campo de ténis colado às suas pernas, o leve suor, a sujidade e o suor íntimos, livrar-me-ia do mal da falsidade – mostraria que não havia nada que fosse falso, ofensivo ou leviano que não pudesse ser corrigido!»
Saul Bellow, As Aventuras de Augie March, pp. 192-193. [Lisboa: Quetzal, Setembro de 2010, 712 pp; tradução de Salvato Telles de Menezes; obra original: The Adventures of Augie March, 1953.]
É Bellow no seu melhor. Um parágrafo inteiro de puro deleite e arrebatamento literário, em que uma palavra a mais ou a menos estragaria a obra de arte subsumida no bombardeamento de um feixe de sentimentos que perpassam pela mente pré-adulta de Augie.
Também a Literatura (assim grafada) tem os seus momentos em que a síndrome de Stendhal se pode manifestar através do cadinho dos seus sintomas pela arte etérea que alguns dos seus artesãos apõem aos seus escritos: a perfeição, craftsmanship (perde toda a sua potência na tradução).
Por fim, a recusa e o vórtice que transforma as pulsões num buraco negro aglutinador da esperança: «O sangue fugiu-me da cabeça, do pescoço, dos ombros, e desmaiei pura e simplesmente.» (pág. 197)

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Tran Anh Hung

O seu nome assemelha-se a uma onomatopeia retirada das páginas coloridas de uma fantasia gráfica maniqueísta da DC Comics ou da Marvel; porém, no mundo mais restrito da cinefilia, onde remanescem alguns estouvados que insistem em despender alguns dos seus parcos recursos para conseguirem obter o acesso a cinematografias alternativas de forma a proporcionar o enchimento estético da retina, aquela onomatopeia aliterante há muito que vai servindo para identificar um notável realizador vietnamita, quase desconhecido do público português pela imperiosas leis do nosso mercado, oligarca por definição, tanto no circuito da distribuição e da exibição cinematográficas, como no mercado de DVD.
Nascido em 1962 na tristemente célebre cidade de Da Nang, o jovem futuro cineasta viveu a sua infância em Saigão (hoje Ho Chi Minh). Em 1975, fugia com a sua família para França após a queda de Saigão sob o domínio dos norte-vietnamitas e perante o inevitável colapso e retirada das tropas americanas das terras meridionais da Indochina, encurraladas a oeste pelos khmers vermelhos cambojanos. Hoje, aquele rapaz que nasceu sob o estridor das bombas, dos gritos de martírio de uma população dizimada e o “cheiro a napalm pela manhã” (ou odor?), é um cidadão francês de pleno direito e um dos mais ilustres realizadores da inimitável indústria asiática de cinema.
Em Portugal, Tran Ahn Hung é sobretudo conhecido pelo seu maravilhoso filme de estreia, O Odor da Papaia Verde (Mùi du du xanh, 1993), que lhe valeu a nomeação para o Óscar para Melhor Filme Estrangeiro em 1994 (perdê-lo-ia para o mediano Belle Epoque do realizador espanhol Fernando Trueba) e que antes lhe havia permitido a saída do quase anonimato – embora já tivesse dado que falar com as suas duas curtas-metragens anteriores – ao vencer o Caméra d’Or no Festival de Cannes de 1993 – júri nesse ano presidido pela actriz Micheline Presle, a volúvel “Marthe Grangier” de Radiguet levado à grande tela pelo infame Claude Autant-Lara.
De lá para cá, Tran Ahn Hung realizou dois filmes notáveis: Cyclo (Xich lo, 1995) e “Em Pleno Verão” (título possível em português; Mua he chieu thang dung / À la verticale de l'été, 2000); o primeiro com projecção limitada no nosso país, o segundo nem sequer viu a luz da projecção em solo luso – valha-me o mercado espanhol que permitiu aprofundar a minha admiração pelo notável esteta asiático. Com o assombroso e brutal Cyclo, o realizador franco-vietnamita conquistou o Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza em 1995 (Bienal de Veneza) – curiosamente, como é demais conhecido, um evento anual quase desde a sua fundação em 1932 – derrotando, entre outros, o nosso João César Monteiro, o recentemente falecido Claude Chabrol, Ettore Scola, Spike Lee ou Hirokazu Koreeda.
Em 2008, o cineasta asiático aventura-se no domínio do inglês, com uma produção multinacional (britânica, chinesa, espanhola, francesa e irlandesa), e cria I Come with the Rain (“Venho com a Chuva”, tradução possível para a nossa língua), tendo por protagonista o sex symbol norte-americano Josh Hartnett (que o interpretou ainda embalado pelo reconhecimento público do personagem-tipo em A Dália Negra de Brian De Palma) e a jovem estrela da televisão japonesa Takuya Kimura. Trata-se da 4.ª longa-metragem do autor vietnamita, cuja cópia se dissipou, misteriosamente, no éter dos circuitos comercial e independente de cinema, com estreias modestas no Extremo Oriente, estando apenas disponível no lado ocidental por vias esconsas e pouco recomendáveis em nome do cumprimento da lei. Há quem assegure que foi o próprio Tran Ahn Hung que procurou esse fim face à implacável rasoira de alguns sectores importantes da crítica internacional, apesar de terem surgido outras bastante positivas, as más foram suficientemente arrasadoras, e logo para a obra que marcou o regresso do cineasta ao grande ecrã após oito anos de ausência – se houver oportunidade, direi de minha justiça sobre este filme em que nos assomam sentimentos de amor e ódio quase simultâneos.
Uma curiosidade: todos os filmes contam com a presença da actriz vietnamita Yenkhe Tran Nu (n. 1968), assume o papel de mulher do realizador no mundo fora da tela: bela, de uma transcendência exótica difícil de definir com o seu sorriso enigmático de Mona Lisa, de gestos dóceis, lentos e de uma perfeição estudada, porém graciosa e profunda, de um equilíbrio oriental nos momentos mais frementes e buliçosos.
O que é Tran Ahn Hung?
Imagens fortes, com toda a carga polissémica do qualificativo: verdes deslumbrantes – a natureza húmida do Vietname; a iridescência bruxuleante e voluptuosa da gastronomia oriental; o suor endémico que escorre por aquela pele de tez acobreada, entre o ébano da Índia e o ebúrneo envelhecido da China. Movimentos de câmara enleantes e claustrofóbicos, como se os nossos olhos deambulassem por um mural gigantesco, incapaz de ser captado na sua plenitude pela insolúvel finitude espacial congénita do nosso campo visual – uma sensação de confinamento, que Tran Ahn Hung solta com mestria nos momentos adequados, mostrando-nos o pormenor que não nos poderia escapar. Os silêncios que nunca são mudos, sempre matizados pelos sons da fauna local – o chilreio dos pássaros exóticos, o sibilar dos répteis, o coaxar das rãs, o barulho ininterrupto dos mais espantosos insectos –, ou pelo bulício de uma metrópole babélica, como em Cyclo – o marralhar dos comerciantes, os escapes estridentes das motocicletas, a chiadeira dos travões dos táxis, o gotejar do desespero na solidão do lar degradado: a humidade, as lágrimas, o suor e o sangue. A banda sonora que irrompe mansamente para depois desaparecer de forma abrupta, regressamos ao silêncio, como alerta simbólico para o brotar de uma mensagem forte, que tem de ser retida, pode tratar-se de um desenlace perturbador – como com “Creep” dos Radiohead em Cyclo – ou das entrelinhas de uma emoção inconfessável, o despertar para um tabu pronto a ser quebrado – como com “Pale Blue Eyes” ou “Coney Island Baby” dos Velvet Underground e Lou Reed, no filme “Em Pleno Verão” – ou a paixão ardente, porém inocente, paciente, feita de uma longa espera mas pronta a eclodir, a derrubar os muros das convenções e estratos sociais – o 3.º andamento da Suite Bergamasque de DebussyClair de Lune”, ou o arrebatamento dos dois últimos prelúdios para piano de Chopin, em O Odor da Papaia Verde. A violência gráfica de “Venho com a Chuva” atinge os seus momentos culminantes com três faixas dos Radiohead, todas retiradas de álbuns diferentes: “Nude” (In Rainbows, 2007); “Climbing Up the Walls” (OK Computer, 1997); e “Bullet Proof..I Wish I Was” (The Bends, 1995).
E agora vem aí Jonny Greenwood com Murakami e os seus Beatles
[Na imagem: “Lien” (a irmã mais nova) por Yenkhe Tran Nu e “Hai” (o irmão) pelo actor Ngo Quang Hai, dançando ao som de “Coney Island Baby” de Lou Reed, em Mua he chieu thang dung – À la verticale de l'été, 2000.]
--- Fim da parte I (a parte II, a razão de ser deste texto, para quando houver tempo) ---

sábado, 18 de setembro de 2010

Círculo Vicioso Infernal

Ouvir em continuous playAfraid of Everyone”, repetindo para mim mesmo, como uma decisão irrevogável, I’ll defend my family with my orange umbrella (e sobrevém-me em pensamento uma irritação pela estupidez nacional: weary of the punctured and rotten pink one).

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Aquela cabeça…

Contava-se frequentemente entre o meu grupo restrito de amigos que emergiu da turba profissional, e como forma de incutir a boa disposição quase automática entre os presentes, uma história recente – que agora já tem bem mais de uma década – produzida por uma visita ministerial ao nosso local de trabalho, em que, como seria de esperar, tanto pelo cumprimento do protocolo, como pela incrustada prática académica do fazer-se notar, todo o directório dos ungidos pela cátedra se uniu ao seu séquito. A dada altura, o Ministro, em plena sala de convívio, entre hors d’œuvre e copos de plástico agradecidamente abastecidos a champanhe – once in a lifetime, diriam uns para os outros, para destoar do linguajar de soberba dos aperitivos –, interpelou um circunstante (membro do nosso círculo restrito) sobre se aquela figura de cabelos brancos, que se ria entre rissóis de camarão e guardanapos de papel, era a pessoa que ele, Ministro, pensava tratar-se. Perante a resposta afirmativa, declarou, em primeiro lugar, que estava impressionado pelo impecável estado de conservação da criatura, para, logo de seguida, pormenorizar a sua relação que evoluiu de aluno/professor para a de colegas de profissão, terminando com a frase: «Um homem inteligentíssimo e com uma cultura bem acima da média, todavia sempre preferiu a sinuosidade do caminho alternativo à recta para chegar do ponto A ao ponto B», a que acrescentou, despedindo simultaneamente o interlocutor de ocasião: «Ah, aquela cabeça…»
Como testemunha ocular, e dada a envolvente da história, posso assegurar sem necessidade de contraprova, a tal “cabeça” não era a de Christopher Nolan, até porque tem menos quarenta anos de bombardeamentos sinápticos e trabalha para o reconhecimento de outras academias.
É isso mesmo, não é necessário um enorme esforço de concentração, em poucas linhas confessei que já me foi dada a oportunidade de ver o filme de que todos falam na actualidade: A Origem (Inception, 2010) do realizador britânico (n. 1970) Christopher Nolan.
Nolan, apesar da ainda jovem idade, já nos obsequiou com sete longas-metragens, entre as quais vi, claramente vistas, quatro: Memento (2000), Insomnia (2002), O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight, 2008), e este último que atrás referi; desconfio se realmente vi Batman – O Início (Batman Begins, 2005), dada a profusão de filmes, actores e realizadores que, respectivamente, versaram, encarnaram e dirigiram o morcego moralista de Gotham; não vi os restantes dois, entre eles o muito aplaudido O Terceiro Passo (The Prestige, 2006).
Em A Origem, há uma frase lapidar que nos foi sendo bombardeada nos três ou quatros trailers que há quase seis meses foram sendo criteriosamente projectados nas salas de cinema:
«Qual é o parasita mais resiliente? Uma ideia. Uma simples ideia provinda da mente humana pode construir cidades. Uma ideia pode transformar o mundo e reescrever todas as regras. E é por isso que tenho de a roubar.» [tradução: AMC]
Uma ideia. Injecção de sonhos. Arquitectura de realidades alternativas. Imaginação em socalcos. Resultado: muita parra e pouca uva.
Há uma frase que retirei de um dos livros que neste momento vou desbravando – neste caso em particular com algum deleite pelo desafio intelectual, num momento em que necessito mais do que nunca da leveza espiritual de uma sitcom para confortar a minha mente em efervescência –, que, apesar da complexidade temática, da exigência de reflexão absoluta e de tudo o que foi dito em páginas anteriores da obra que a explicita e circunstancia, caracteriza bem os nossos tempos: «Irrito, logo existo.» (cf. Peter Sloterdijk, Cólera e Tempo, ed. Relógio D’Água, 2010). E Nolan levou-me à exasperação pela tortuosidade obesa de ideias, que mais não é que uma carapaça espaventosa e arraialesca vazia de conteúdo. A Origem, é uma peça meta-fílmica composta em duas horas e meia, que de facto poderia ser traduzida por “documentário de uma ideia” (jamais por obra de arte cinematográfica), como se tratasse de uma prelecção de filosofia do cinema. Aliás, o tom eminentemente preleccionista do filme resultou, porventura, de uma consciencialização de Nolan pela impotência imagética em contar a história, por mais ou menos arabescos visuais e sonoros que introduzisse; muito embora se possa ter apercebido de que o isco de apelo às massas estivesse no ponto certo para mais um retumbante êxito comercial – estava certo, a frieza dos números não o desmente; a horda de admiradores medrou que até dá gosto.
Na minha humilíssima opinião de aficionado da coisa fílmica, Nolan poderia ter aprendido com o ainda recente fenómeno de ascensão e queda em três actos dos manos Wachowski, por um lado, em como se constrói uma história na intrincada dialéctica ficção tecnológica/metaficção, sintetizada no sucesso quase unânime de Matrix (1999), como, por outro, nos desastres subsequentes pelo vazio narrativo de The Matrix Reloaded e The Matrix Revolutions (ambos de 2003). Depois, apesar dos milhões arrecadados, mediante a lembrança de um aforismo ultra-universal de que “o dinheiro não traz a felicidade”, aconselha-se, para a sua saúde psíquica, que o jovem Christopher deixe repousar aquela mente que vai sendo estorcegada pela popularidade filistina do espalhafato, e que caminha em progressão geométrica para o paroxismo do nebuloso e hermético, e não para a, decerto pretendida, abstracção, obviamente admissível sob o ponto de vista estético.
Em suma, a auto-assunção da genialidade, tem estes efeitos colaterais. Neste momento, apenas subjaz a questão: O que se seguirá? Mais um projecto sobre o famoso rato alado. E quem, desta feita, será o cordeiro sacrificial? “Ah, aquela cabeça…”
PS – Peço as minhas mais sinceras desculpas pela forma brusca como terminei o texto, a cheirar a incompletude de argumentos que reforcem a minha opinião sobre o filme, mas vou ver se o meu pião, que ainda há pouco rodava lá fora sobre uma mesa de pinho pacense, continua a girar… É mesmo importante que o faça… agora.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Amizade Volúvel

Uma sucessão de repetições, de signos, de argumentos estafados que permitam sustentar uma justificação para algo que nem eu próprio consigo compreender: a manutenção deste blogue. Começou como um vício entendido como uma amálgama de paixão pela arte de escrever e uma imperiosa necessidade de catarse, e que agora se arrasta pela rede como um tormento, em que um título de um radicalismo inusitado emerge como um combatente obstinado frente a uma vontade persistente de encerramento definitivo. Voltar ao anonimato da vidinha enfadonha – talvez seja esse o obstáculo, mesmo conhecendo o pequeníssimo alcance dos escritos aqui produzidos. Não é um lamento, nem uma falsa modéstia, é uma constatação empírica, que tarda em ser racionalizada, derrotando as emoções, essas vadias que me vão deixando nu perante o mundo.
Volto a repetir-me. Nunca mais. É o terceiro título que aponho a este blogue desde que, em 17 de Dezembro de 2005, iniciei a minha viagem quase solitária pela blogosfera – sem compromissos, vínculos, reservas e obediências, senão à minha consciência, manifestação da minha liberdade individual jamais coarctada ou circunscrita a qualquer directório.
Volto a pisar os passos históricos destes quase cinco anos. Todos os títulos tiveram a sua origem em Sophia, sempre fundamentados em estados de espírito, de cuja incansável e persistente indagação sobre a obra poética da minha autora de eleição possibilitou que pressentisse a emergência de uma harmonia perfeita entre aqueles e os poemas escolhidos que foram figurando neste espaço.
Nunca mais, bem poderia ser um título interjectivo como reacção à sentida necessidade de isolamento – uma demanda pela integridade da minha consciência, pela minha liberdade intelectual. Por vezes invejando a coragem de um eremita, outras lastimando um destino que me impuseram como forma de luta perante o fingimento, a desconsideração episódica, o desprezo intermitente, o sórdido jogo de interesses a que nenhuma amizade deveria resistir, sob pena de se transformar numa relação parasitária, aviltante e potencialmente destrutiva: a insistência na sua manutenção – por indolência, apatia ou até pelas grilhetas da mais sórdida subjugação –, vai contribuindo de forma subliminar para a alienação total do eu.
A conclusão pela interjeição, agora realizada, serve-me de argumento quase perfeito para defender que o processo corrosivo de uma convivência insana se transforme num facto irreparável – som estrídulo que me mantém alerta –, permanente, sem remissão, de pura e simples abdicação, de aprovação sem resistência de um método de tortura auto-infligida. Mas, já não são eles, somos nós o nosso inferno, em que a misantropia abusando da sua simplicidade – como é fácil desprezar os outros – se vai hospedando nos interstícios dessa fragilidade, o “nunca mais” absolutiza-se e daí a interrogação de DeLillo que decora, como epígrafe, a parte cimeira deste blogue: até onde? Qual é a chave para encontrar o equilíbrio entre a cedência desmedida inculcadora de infelicidade e o isolamento como busca da felicidade? Perante a ubiquidade do inferno, em nós, nos outros, que caminho escolher? Haverá neste caso um jogo iterativo de escolha do “mal menor” que se renova a cada segundo que passa? Para que fogueira deveremos arremessar os toros de madeira lúbrica à espera de ser lambida? Sustentar o fogo de uma amizade volúvel ou avivar lume cujas labaredas são meras manifestações de uma angústia que advém da terrível agnição dos nossos medos e distorções do espírito, outrora em estado latente, hoje alimentadas pelo rugido do silêncio do isolamento?
Abro livros com uma avidez estonteante para neles encontrar as chaves que permitam descodificar e validar o meu estado de alma, como se um todo emaranhado de caracteres se combinasse no momento exacto em que os meus olhos indagadores cruzam vorazmente esse conjunto estruturado de palavras. Recorro, pois, a Orwell e ao seu extraordinário ensaio “A Prevenção da Literatura” (1946), que parte da discussão da Areopagitica (1644) de Milton, como denúncia de todas as formas de totalitarismo que cerceiam a liberdade de expressão, intelectual e criativa. Volvidas as primeiras páginas, Orwell cita o refrão de um velho hino religioso da América puritana composto em 1873 por Philip P. Bliss (1838-1876), para demonstrar mais adiante o processo em curso da colectivização do eu, que aniquila, acima das outras artes, a literatura enquanto exercício puro dessas liberdades. O hino oitocentista baseou-se na personagem bíblica de Daniel, condenado à cova dos leões por desafiar as ordens iníquas do seu rei, Dario: «Ousa ser um Daniel, / Ousa erguer-te só; / Ousa o teu fito vincar, / Ousa dar-lhe voz.» Orwell acusa: «Para tornar este hino actual, teríamos de iniciar cada verso com a expressão “Não ouses”, já que a nossa época possui como traço peculiar o facto de os rebeldes contra a ordem vigente […] se oporem também à ideia de integridade individual.» (in George Orwell, “A Prevenção da Literatura”, Livros & Cigarros. Lisboa: Antígona, 2010, trad. Paulo Faria, p. 44).
E prossigo com Enrique Vila-Matas quando este regista no seu volúvel caderno do “deve e haver” o regresso insólito de alguém que julgara haver perdido para sempre:

«O amigo que regressou depois de um ano de ausência. Liga cá para casa só para cumprimentar e quase sem ocultar que o faz por puro compromisso. Está mais calculista do que nunca. E eu, seja como for, não faço parte do seu campo de interesses. Creio perceber que não gosta nada de mim. […] Trata-se apenas que me tem um certo afecto, mas não está interessado em mim e é muito possível que, na realidade, eu nunca tenha tido qualquer interesse para ele. Talvez se sinta melhor com gente que o admira, ou talvez melhor com outros, apenas. Não tem importância, digo para comigo. Não vejo por que razão as amizades haveriam de durar mais do que as paixões.»
Enrique Vila-Matas, Diário Volúvel, p. 250 [Lisboa: Teorema, Fevereiro de 2010, 287 pp; tradução de Jorge Fallorca; obra original: Dietario Voluble, 2008].

A descoberta das marcas já profundas de uma amizade falhada que se foi alimentando de bons momentos – que, todavia, serviram para toldar equívocos, faltas de respeito e ataques implacáveis à nossa auto-estima –, tal como o fim abrupto de uma paixão, é susceptível de infundir no nosso espírito a inevitabilidade (como um pesadelo que se repete ab aeterno) de uma longa travessia por campos de destruição surrados e sombrios, que só o será – a dura constatação desse malogro – se não assumirmos uma ruptura definitiva, sem meias medidas e dando por esgotado o crédito de sucessivos pedidos de clemência, como o fogo passional que se extinguiu, cujos agravos o tempo se encarregará de dissolver pelos difusos refúgios da memória. Para isso, para evitar esse sofrimento que não se cala com um mero pedido de explicações, oriento a minha vida para um rotundo, definitivo, interjectivo e irreversível: partir, sempre; regressar, na sua significação de retroceder, calcar os caminhos já trilhados, “nunca mais!
Ah, como era sábio Antonio Machado.
Nota: na imagem acima, reprodução de Daniel na Cova dos Leões, de Peter Paul Rubens (1577-1640), circa 1615, óleo sobre tela.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Tratado sobre o isolamento

Querido Diário,
Ainda não encontrei a minha Alicudi, (in)felizmente. Porventura impotente para me interrogar sobre quão próximo poderei estar de mim próprio (o inferno?), eu e a natureza… sem tudo perder. (cf. epígrafe, DeLillo)
Nada Pessoal. Vi a desolação interior de Urszula Antoniak e lembrei-me do inefável “Gerardo” (Renato Carpentieri), correndo como um louco, fugindo da isola, gritando, enconsta abaixo, enquanto o ferry soltava amarras:
«Televisione! Ascensore! Telefono! Acqua calda!»
Caro Diário,
Distancio-me. Vou abandonando o mundo dos afectos… álgido. Explicar-te-ei em nova entrada… uma teoria do equilíbrio?
Por enquanto vejo-me ao espelho, esquadrinho o meu rosto em busca de uma realidade alternativa, paralela e intermutável, de que possa escapar assim que os meus braços caírem puxando o fio – marioneta que grita ao criador – que fará soar o alarme:

quinta-feira, 27 de maio de 2010

O Peixe-Gato e a Cosmogonia de um Mancuniano

Júbilo e resignação. Uma alegria desmedida quando, por mero acaso, descobri que a obra-prima do realizador britânico Mike Leigh, Nu (Naked, 1993) foi finalmente editada em DVD em Portugal*, seguida da assunção da triste realidade materializada no conformismo que de imediato se abateu sobre o meu estado de espírito volátil – arriscando-me a citar Dalí através de Orwell, citação assestada em obra não escrita por Rui Santos, que «toda a vida quando vista de dentro, não passa de uma série de derrotas» –, porque nasci neste canto geográfico da finisterra, onde tudo o que potencialmente poderá ser apreciado como arte pertence a dois tipos de categorias de acesso restrito. A primeira categoria tem um cariz mais prático, físico, de mera locomoção; e a segunda resulta da estrutura da mentalidade de um povo: filistina, utilitarista e consumista. A primeira porque, pelos custos de transacção, se constitui numa ínfima minoria a parte dos portugueses que pode deslocar-se ao concelho (e não me enganei na circunscrição administrativo-geográfica) que absorve 63% do bolo monetário reservado à cultura – é aí que quase tudo acontece –, criando os necessários hábitos de consumo dos bens e das manifestações culturais; a segunda manifesta-se na falta de edição (sob que forma for) de marcos referenciais da cultura universal, por cedência ao imediatismo do espectáculo pirotécnico de um pequeno conjunto de baboseiras de valor acrescentado nulo, ou melhor, de depreciação progressiva de alguma intelectualidade residual que ainda subjaz findo o período ontogenético.
Todavia, mesmo considerando todas as dificuldades acima referidas, celebremos o pouco do muito que poderia ser feito. Finalmente, iremos ter as deambulações do mancuniano em Londres, Johnny (a grande interpretação do actor britânico, nascido em 1963, David Thewlis) e as suas asserções existencialistas derramadas nos escombros da degradação da sociedade ocidental contemporânea. Um filme para ver e rever, e a ele voltar regularmente.
Por último, o peixe-gato lascivo já tem distribuição garantida em Portugal. As tais cabriolas ronronantes aquáticas que fazem parte do filme vencedor da Palma de Ouro da edição deste ano do Festival de Cannes, anunciado aqui, e que se apresenta sob o título O Tio Boonme que se Lembra das Suas Vidas Anteriores, realizado pelo tailandês Apichatpong Weerasethakul*. Entretanto, fica o aviso para as senhoras (e não só) mais sensíveis a este tipo fauniano de frenesim interclassista: cuidado com as imitações e deixem de lado o espadarte por este poder vir a revelar-se como uma experiência potencialmente mais pungente. E isto, apesar da premência de novas formas de alcançar receitas turísticas para a Madeira – por favor, deixem, neste aspecto, a caridade de lado (ainda que me assemelhe a um bronze que soa ou a um címbalo que retine**…)
Notas:
* saúde-se a Midas Filmes por haver permitido, através da sua actuação enquanto agente de cultura, a comunicação destas duas novidades.
** 1 Coríntios 13:1

sábado, 22 de maio de 2010

No dia em que Sirk e Visconti se fundiram na tela

Uma inquietação sobre a realidade que chegou até mim em caracteres negros nas edições do dia dos matutinos lusos – podia haver-lhe chamado uma inflamação, não fora a primazia comodista e superficial dada à emanação lúbrica de pólenes fecundadores que, afagados pelo vento, acasalam com os meus olhos e as minhas mucosas nasais – sobreveio quando li que foi criada a primeira célula artificial em laboratório por um tal de Craig Venter. E se uma inflamação é potencialmente mais abrasiva que uma inquietação, não há nada como fazer cair sobre o assunto um manto de silêncio, à laia de um Donoso, escarninho, expondo ao ridículo o reaccionarismo literário de antanho e por curiosa anteposição ao seu revivalismo defendido por tão ilustre gente; aquela turba que, ainda hoje, beija os pés ao sumo-sacerdote James do Bosque – reduzido à condição de poeira episódica pelo canonizador Bloom, que desabrocha (e não, não me refiro aqui ao cúmulo da inocência) e é de imediato varrida pelo vento da irrelevância, concluindo pela inexistência do tal do Bosque na crítica literária, nem para corroborar o arcaico princípio cartesiano.
Deixemos a botânica, o Bosque a Desabrochar, as rememorações de Donoso, o realismo e a lanugem das gramíneas e voltemos ao manto de silêncio.
Entrei numa das vinte salas do UCI para assistir a mais um filme não-americano. Se na semana passada foi o claustrofóbico israelita, vencedor do último Leão de Ouro em Veneza, para esta reservei um italiano do, para mim, quase desconhecido realizador siciliano Luca Guadagnino (n. 1971), Eu Sou o Amor (Io sono l’amore*).
Decorridas duas horas, saí da sala como uma sensação estranha de enfartamento – não encontro melhor descrição para a espécie de mal-estar de que parecia padecer. Ainda os olhos se habituavam à luminosidade exterior e dei por mim a divagar sobre se tinha acabado de ver uma película realizada por um mutante que houvesse assumido, por um lado, a brusquidão, a violência psicológica, os zooms repentistas de Visconti e, por outro, o melodrama vívido, delirante, em technicolor de Sirk, como Imitação, antes de se despedir da América que o acolheu durante os anos do terror nazi. Focando na parte italiana da mimese (sintetizada no genoma do mutante), há, de facto, laivos de O Leopardo (Il gattopardo, 1963) como alguns lhe apontam. Todavia o que afluiu à minha mente cinéfila foi sobretudo o ímpeto e o delírio de Os Malditos (La caduta degli dei, 1969) e o lado mais áspero de Violência e Paixão (Gruppo di famiglia in un interno, 1974). Mas também há Haynes – talvez um dos braços do mutante, ou mesmo parte do tronco – e o seu premiadíssimo Longe do Paraíso (Far from Heaven, 2002).
Tilda Swinton é soberba. Arrisco-me mesmo a proferir uma sentença abonatória: neste momento, é a melhor actriz em actividade. Guadagnino é espalhafatoso na cor, nos grandes planos, na, a título de exemplo, duradoura cena de sexo quase explícita, numa, de certo modo estafada, metáfora imagética com abelhas, insectos, flores e polinizações, de onde sobressaem os cumes alcantilados das montanhas envolventes; é, em suma, um abusador do simbolismo, da mensagem subliminar que qualquer mente mais atenta não deixará de tentar descodificar, culminando com o plano da “caverna obscura”, já depois da ficha que anuncia o elenco e que os pressurosos filistinos já não vêem – quais bonecos articulados que tratam os créditos finais com menor apreço que o manual de instruções de uma loção capilar. Reflexos platónicos? A renúncia à descoberta da verdade, o triunfo do amor corpóreo como paralisia e fautor do acomodamento nas trevas da caverna?
Assaltam-me, ainda agora, sentimentos contraditórios: admiração e desassossego, o entranhado, por anos de aprendizagem, horror ao melodramático e a descoberta da beleza numa cascata de emoções a brotar do celulóide.
Obra-prima? O tempo e um novo visionamento o dirão. Por enquanto, não chegarei ao cúmulo de lhe justapor o rótulo OFNI (Objecto Fílmico Não Identificado), como, directamente de Cannes e com alguma graça, escreveu Olivier Delcroix acerca do Ricky de Ozon nas páginas do Le Figaro.
Nota: *título baseado na famosa ária do 3.º acto da ópera Andrea Chénier (1896) do compositor italiano Umberto Giordano (1867-1948). No filme é usado o registo da ária interpretada por Maria Callas (gravada ao vivo no Scala de Milão em 1955), tal como aparece no momento mais dramático do filme de 1993 de Jonathan Demme Filadélfia (Philadelphia), cujas imagens surgem simbolicamente no leito conjugal de Emma (Swinton) e Recchi (Delbono). Do libreto, os últimos versos:
«(…)Eu sou o amor, eu sou o amor, amor,
E o anjo aproxima-se, beija-me,
E é o beijo da morte!
O corpo de moribunda é o meu corpo.
Então leva-o.
Eu sou já uma coisa morta!» [versão: AMC]

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Luz. Trevas. Impotência.

[Eis a minha contribuição para o exercício de memória sobre os Joy Division, notavelmente organizado pelo Manuel A. Domingos no seu blogue sob o título Licht und Blindheit (inspirado no EP de 1980, com número limitado de cópias, da pequena e selectiva editora francesa Sordide Sentimental, e no ensaio de um dos seus fundadores, Jean-Pierre Turmel), a propósito da passagem dos 30 anos da morte trágica de Ian Curtis.]
Contacto
Fim dos anos 80. Vivia nas guitarras estridentes de Joey Santiago, nos gritos animalescos de Iggy, nas ondas emplumadas de Bowie, na voz cavernosa de Murphy – curioso trio este, a iguana, o camaleão e o vampiro –, e ao lado, como meio libertador da overdose sonora dos incessantemente repetidos, repousava o quarteto de Manchester, usado mas não abusado, ouvido por letargia, porém não cravado na memória de uma mente febril pré-universitária. Talvez o Substance, compilação de 1988.
Foi S. que me iniciou no mundo sepulcral da voz cava de Ian, das batidas hipnóticas e continuamente repetidas numa caixa de ritmos de Morris, dos abalos sísmicos provindos do baixo de Hook, da melodia – foram sempre acordes melódicos – que se soltava da guitarra de Sumner: “Transmission”, “Passover”, “Dead Souls”, “She’s Lost Control”, “Leaders of Men”, “Shadowplay”, “Novelty” e “A Means to an End”; mesmo antes de “Komakino”, “Love Will Tear Us Apart” ou de “Atmosphere”. Mas vão sendo todas repetidamente queimadas pelo laser a pulsar entre “zeros” e “uns”.
Foi S. na sua voz carente, doce e afectada, entre afagos e efervescências sensuais, que me levou a trocar o pançudo Charles Thompson por Curtis no pedestal cimeiro dos veneráveis. Descíamos as escadas daquele bar escavado no subsolo da capital transmontana, mas já antes corríamos febrilmente rumo à boca do monstro que soltava os sons de um baixo gótico cuja reverberação sentíamos cá fora sob os nossos pés, que lá dentro parecia ressumar – lágrimas espessas de suor delirantes – daquelas paredes graníticas cavernosas: BarBaros, foi esse o local da epifania. Entre vapores alcoólicos e gestos desregrados de lubricidade, fui aluno competente da história narrada em surdina sobre os factos que conduziram o quarteto para o abismo e para loucura necrófila que se lhe seguiu, deturpando comportamentos, ocultando factos, gerando patranhas pós-modernas, deificando excessos que não eram tolerados, pela sede mercantilista que se comprazia em vender os miasmas da morte em pacotes factícios.
Ingestão
Num artigo publicado por Jon Savage no The Guardian em 2008 por esta ocasião de hábito rememorativo, todavia a propósito da estreia do documentário Joy Division escrito pelo próprio e realizado por Grant Gee, o escritor, jornalista e musicógrafo britânico faz uma dissecação do interior de Curtis e dos seus estados de alma, concluindo pelo seu medo primordial do isolamento, que ressalta das letras febrilmente marcadas a maiúsculas, entre a luz ofuscante e o desespero sombrio, na dialéctica luz e trevas, que se sintetiza na urgência em sentir o toque e o calor humanos.
Em suma, apesar da miríade de perspectivas que cada fã tem das atribulações do sujeito idolatrado, sempre entendi que foi num violento sentimento de impotência que a vida e o tempo de Ian se fizeram curtos, que de alguma forma apura e explicita todos os medos, apreensões e enfados, ou talvez, rivalize com a dilacerantemente percebida auto-estima nula.
O impulso corajoso da emancipação prematura, foi-se aniquilando com a necessária obediência a um ritual para pôr uma máquina a funcionar, que se foi montando à volta dele à porta de uma sala de espectáculos fechada que acabara de receber o Camaleão.
Ian era o fulcro, a mola impulsionadora, o vórtice aglutinador do único caminho para o sucesso, e ele sentia-o como um fardo que pesava toneladas, que o arremetia para as trevas de um poço húmido e profundo – afinal, de onde partiu toda a engenharia do processo criativo.
Dando um pequeno salto histórico. Desencadeou-se a sua epilepsia. A vizinhança da digressão para os Estados Unidos foi o catalisador de um cadinho efervescente de circunstâncias interiores rumo à catástrofe. A impotência perante um futuro antecipado como esmagador debaixo das luzes da ribalta, a conciliação entre a vida provinciana e anódina com Deborah e Natalie (n. 1979) e o arrojo de Annik, entre o prazer de compor e sobretudo de escrever, e a entendida função de pedra angular de uma entourage que, sem ele, se desfaria como um castelo de cartas – como, aliás, se veio a provar: Hook, Morris e Sumner, mas também Gretton e Wilson, e por fim a própria Annik. Os Joy Division esfumaram-se numa nuvem de cinzas – tão bem fotografada por Corbijn no teledisco apocalíptico de “Atmosphere” (1988), como no biopic Control (2007) –, e com o seu fim terminou para sempre um sub-estilo que não era pré-, pós-, ex-, proto- (juntem-se-lhes os prefixos que quiserem): pop, rock, punk, gótico, new wave, electrónico, garage, e por aí fora.
Depois da digressão continental nos primeiros meses de Janeiro de 1980, veio o ritmo inexorável do estúdio. Concluiu-se o segundo e último álbum do efémero grupo: Closer. O mais arcano, inexpugnável e transcendentalmente inacessível a não iniciados pela, talvez única, corrente esotérica que nasceu de geração espontânea e cujo grão-mestre morreu no momento em que aquela se erigiu no vento de Macclesfield e se difundiu pelo mundo através das ondas etéreas de uma sonoridade irrepetível.
Gozo
Entre Closer (“mais próximo”, com o frontispício tumular baseado numa fotografia de Bernard Pierre Wolff no Cemitério Monumental de Staglieno, Génova) e outros dispersos surgiu “Komakino”, levando à letra após uma simples tradução do alemão “Cinema Coma”. Foi em Junho de 1980, já Ian Kevin Curtis garroteara as suas súplicas na madrugada de 18 de Maio de 1980, que aquela voz cavernosa e implacável emergiu das trevas, gravada em milhares de círculos rotativos de plástico flexível, e cantou:
«A sombra que se manteve na beira da estrada / Faz-me sempre lembrar de ti.» [versão AMC]

sábado, 16 de janeiro de 2010

Deixai vir a mim as criancinhas


Pode parecer que, em tempos recentes, este blogue se acomodou na crista de uma vaga, aparentemente libertadora, de pedoterapia regressiva – um imergir curativo na massa obscura e decerto informe da minha mente, onde se preservam as cicatrizes da pressão de forças contrárias que moldaram o meu ego. Porém, a frase que ilumina o título não é nova – ó luz do mundo (recomenda-se o lenitivo óleo sobre tela de Holman Hunt). Uma só (e breve) ablução involuntária no rio sagrado da doutrina cristã na tenra idade, ministrada por um afanoso proselitista, confere ao púbere prosélito uma certeza da sua prolação há, pelo menos, 1977 anos. Assim nos transformam em objectos de fé que almejam alcançar o estatuto de pobres santos das agruras do mundo, todavia alegres na nossa vivência. Mas como dizia Michaux, num dos seus opúsculos místicos dedicados à repressão do eu, mesmo os santos alegres por vezes não conseguem escapar às violências.
Retornemos à frase. Um título. Ela acha-se lá no primeiro de Gutenberg, na repartição dos sinópticos – exceptua-se, por isso, o apocalíptico. E dá-me imenso jeito para esboçar uma tentativa de gracejo pela ambiguidade semântica e apertar O Laço Branco. A pureza que advém da Palavra. Só que Haneke subverteu a palavra, embora filmando como Dreyer, inóspito, austero e perfeccionista, optou pela desesperança e a indelével crueldade da Reforma, ao sobrelevar a mácula sem redenção, nem por força de uma directa intervenção divina – o deus ex machina dreyeriano de Ordet.
Uma parábola negra? Era uma vez um austríaco, nascido numa aldeia dos arrabaldes de Linz que se tornou alemão…
Es war einmal um alemão de Munique de nascimento (onde tudo começou, porventura nascido bem perto da Bürgerbräukeller ou da Löwenbräukeller) que se tornou austríaco e assim cresceu na aldeia de Wiener Neustadt…
Uma aldeia-tipo, situada no norte da Alemanha, incubadora da malignidade: Eichwald. A acção decorre em pleno advento das atrocidades do século alemão (1913-1914). Elíptico, tal como as secura e indiferença daquela assembleia imperturbável ante a sordícia de um passado recente bárbaro e criminoso (ver imagem), contrastando com a perturbadora surdez, sob o negro que se dissemina aos olhos atónitos do espectador, no fade out final – o habitual apelo exegético de Haneke.
Em suma, permite-se até ao mais pueril dos exegetas uma interpretação reducionista em apenas uma frase: «A liberalização do onanismo teria evitado o holocausto.»
Notas:
  1. Não tendo visto dois dos cinco filmes candidatos ao Globo de Ouro de “Melhor Filme em Língua Estrangeira” – acho inacreditável que o (segundo dizem) monumental Baaria de Tornatore não tenha ainda data marcada para a sua estreia em cinema no nosso país –, prevejo, ainda assim, pelo que pude ver dos três que restam, uma votação cerrada que ditará o seu vencedor no próximo domingo. Embora conceda uma preferência milimétrica a Um Profeta (Un Prophète) de Audiard, não posso afastar o maravilhoso e inesquecível drama enredado de Almodóvar e este Haneke (Palma de Ouro em Cannes em 2009) – todos tão diferentes entre si, nos planos técnico, ético e estético, o que dificulta a tarefa do prognóstico.
  2. É de recordar o subtítulo original de O Laço Branco: «Eine Deutsche Kindergeschichte» escrito, numa lentidão estudada, a vermelho sangue no genérico inicial num cursivo indecifrável («Uma história alemã para crianças».)

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Mann


Escuso-me de, aqui e agora, falar sobre o efeito que as obras do realizador norte-americano, nascido em Chicago em 1943, produzem em mim, um misto de admiração vertiginosa e de regalo cinéfilo pela forma como Michael Mann modela os cenários, em que câmara e actores parecem pertencer a um corpus uno, indiviso, criando no espectador uma sensação de movimento perpétuo de imagens cuja origem sugere um passe de magia, inescrutável e sem interesse na sua indagação porquanto estragaria o feitiço que nos fixou ao ecrã.
Escuso-me de falar da sua filmografia, dos encantos e das frustrações, da decepção com o mais recente Inimigos Públicos (Public Enemies, 2009).
Gostaria apenas de aqui deixar a confissão de um vício e a última consequência na reiteração desse vício: sempre que qualquer canal televisivo nacional transmite um filme cujo assombro ultrapassou a fronteira por mim delineada entre o bom e a obra-prima, por mais vezes que o tenha visto, mesmo que aquele seja parte integrante da minha vasta filmoteca, que está à mão de semear, não consigo deixar de assistir à transmissão da obra até ao fim, aturando os infindáveis intervalos e prejudicando as horas de sono que tanta falta me farão no dia seguinte quando, libertado das amarras etéreas da arte, regresso ao mundo para produzir e retirar os proventos que me permitem pagá-las.
Foi assim na última quarta-feira à noite. A TVI – estação televisiva pródiga nos espaços publicitários desmedidos – transmitia O Informador (The Insider, 1999). Enfiado na cama, de auscultadores sem fios amarrados à cabeça – ao lado havia quem protestasse: outra vez!? Deixa-me dormir… –, não perdi nenhum dos cerca de 150 minutos desse filme-portento, bastante subavaliado perante a restante filmografia do realizador. Tudo nele é perfeito: a fotografia de Dante Spinotti, o minucioso argumento urdido pelo próprio Mann e Eric Roth, a música divina sobretudo da minha mui estimada Lisa Gerrard e de Pieter Bourke – impossível ficar indiferente perante “Sacrifice” –, as célebres guitarradas de Santaolalla em “Iguazu”, as orquestrações de Revell, as sublimes interpretações de Russell Crowe, Plummer e Pacino – no caso deste, talvez seja a sua última grande interpretação até aos dias que correm –, e a mão, que tudo uniu, de Mann.
Vi o filme talvez pela 14.ª ou 15.ª vez. Continuo a descobrir pormenores que conseguem fazer o que até ao momento me parecia sempre impossível: engrandecê-lo. O fotograma representado em cima é um entre vários pontos de zénite cinematográfico: o quadro familiar que se esfumou pela dissensão, a opção pelo dever altruísta de denúncia da prática de um crime sobre a comunidade e o zelo, egoísta, dos interesses exclusivamente familiares – Crowe ficou só, emoldurado pelo negrume da noite, onde um segurança privado vela no jardim pela sua integridade física, mas que jamais conseguirá salvaguardar a liberdade perdida por uma família destroçada. Wigand (Crowe) está só naquele quadro de desolação, onde uns fotogramas antes estivera acompanhado por Liane (Diane Venora), que fugiu e o afastou das suas filhas para sempre.
Será porventura um cliché, uma dúvida que emerge em milhares de lares no momento em que os caminhos se bifurcam, mas apetece-me dizer: felizes aqueles que passam por este mundo isentos de opções dilacerantes, mas, por muito paradoxal que isso possa afigurar-se a esses que vivem evitando o risco, perante a tranquilidade de espírito que advém da luta contra tudo o resto que emerge como confortável, escolhi a infelicidade.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

4



Começou com o Porque, continuou com o In Absentia e em princípio acabará com o inabalável Nunca Mais. Todos se inspiraram em Sophia, ostentando diferentes epígrafes, que revelaram os meus estados de alma no momento inaugural de cada espaço de divagação.
Evolução temporal e alguns dados estatísticos (fonte: Sitemeter):
  • Porque, criado a 17 de Dezembro de 2005, encerrado a 23 de Setembro de 2006. Foram publicados 535 textos e contou com 33.862 visitantes (45.123 de páginas visitadas). Poema de Sophia: “Porque”; epígrafe de Bernardo Soares (Pessoa), Livro do Desassossego: «Tendo visto com que lucidez e coerência lógica certos loucos justificam, a si próprios e aos outros, as suas ideias delirantes, perdi para sempre a segura certeza da lucidez da minha lucidez.»
  • In Absentia, criado a 2 de Dezembro de 2006, encerrado a 6 de Abril de 2008. Foram publicados 457 textos e contou com 43.649 visitantes (57.817 de páginas visitadas). Poema de Sophia: “Ausência”; epígrafe de Raymond Carver, do conto “Jerry, Molly e Sam”: «Ele ficou ali sentado. Pensou que, bem vistas as coisas, não se sentia muito mal com a sua consciência. O mundo estava cheio de cães. Havia cães e havia cães. Com alguns cães não havia nada a fazer.» (Sob a fina camada do título do blogue, pairou um alto-relevo dos primeiros versos do poema “The Fascination of What’s Difficult”, de William Butler Yeats.)
  • Nunca Mais, criado a 30 de Abril de 2008, sempre na iminência de encerrar. Foram publicados 302 textos, incluindo este, e contou com 30.386 visitantes (38.608 de páginas visitadas) até às 13 horas de hoje. Poema de Sophia: “Nunca Mais”; Epígrafe de Don DeLillo (verificou-se uma pausa para reflexão entre 24 de Fevereiro e 23 de Setembro deste ano)
  • Somatório dos hiatos temporais entre a criação e a extinção de blogues, e pausa para reflexão: 305 dias (70+24+211), em 1461 dias possíveis.
  • Dias de actividade: 1156
  • Número total de visitantes: 107.897 (141.548 de páginas visitadas)
E, assim, quis assinalar a passagem do quarto ano, recorrendo a uma espécie de tuning blogosférico para ilustrar a efeméride. E, porventura, através dos ensinamentos que logrei obter por esta experiência que se estendeu pelo último quadriénio, o tuning, pese embora o germanismo, seja a expressão efectiva para alguma da blogosfera dita de referência: muito espaventosa, munida de atavios de um deslumbramento ofuscante e que pungem o ouvido mais delicado por uma barulheira ensurdecedora, mas que apenas cobrem, dissimulam, a pobreza de espírito, a fraqueza intelectual e o arrivismo impetuoso dos escribas.
Não tenho dúvidas de que as generalizações são perigosas, porquanto atingem todos sem excepção, mas no lado direito deste texto suponho que existe uma lista bastante extensa daqueles que não incluo no grupo de tuning da blogosfera lusa – a esmagadora maioria ficou de fora dada a limitação humana do número de blogues que conheço.
Os restantes são aqueles que medem a blogosfera pelos amiguismos potencialmente ascensores ao Olimpo opinativo bem pago, e que se distinguem dos restantes porque ritualmente praticam o “deslincamento” – a arma de arremesso, o qualificativo de menosprezo em acção.
Era um prazer deslincar… A frase não é nova, foi devidamente profanada para servir o fim deste texto pirómano. A que temperatura ardem os blogues? Talvez à temperatura do sobreaquecimento neuronal perante algo que não se entende, ou que se julga entender como agente promotor do enfraquecimento da média qualitativa dos poucos blogues que surgem no arrolamento: tida como a fina-flor da blogosfera, carregada de uma erudição ímpar, que dá vontade de ostentar pelo aplauso que forçosamente advirá da criteriosa selecção que captou o sublime da opinião publicada em hipertexto.
No princípio fui banido do arrolamento de um blogue, cujo promotor se convenceu da sua eminência literária, guindado pela bajulação nauseante dos “delta menos”. Esse acto foi a faísca que fez disparar o lança-chamas do deslincamento: «I love the smell of napalm in the morning.» já dizia o Duvall. Enfim, o horror. O horror.
«You can either surf, or you can fight!»
Fight, fight, fight… Ladeiras, vales de lágrimas, lugares antinómicos e quejandos. Não se pode agradar a todos. E logo agora que o Technorati resolveu entrar de férias… por inabilidade dos seus programadores. «In a war there are many moments for compassion and tender action.» Mesmo seguindo o conrado-coppoliano “Kurtz”, aproveitando a alegoria para o “unlink back”my tender moment of joy between bloggers – há sempre um gosto amargo de fel, como cantava a Bethânia, em jeito de grito de alerta.
Enfim, avancemos. É tempo de comemoração, e acresce que atravessamos a quadra da paz e da harmonia fraterna entre os homens. O anúncio foi feito – 4 anos. Agradeço, antecipadamente, as centenas de mensagens de felicitações recebidas.
PS – obrigado ao construtor bávaro de Ingolstadt, pela utilização abusiva do emblema que há uns tempos simbolizou uma importante revolução tecnológica, aproveitada hoje para passear e ostentar as máquinas no asfalto liso das ruas das nossas cidades.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

O inelutável caminho para a servidão

«Dêem-nos, por exemplo, mais independência, desamarrem-nos as mãos a todos, alarguem o campo das nossas actividades, abrandem a vigilância e nós… garanto-vos: a primeira coisa que faríamos seria voltar a pedir que nos vigiassem.»
Fiodor Dostoievski, Cadernos do Subterrâneo, p. 188
[Lisboa: Assírio & Alvim, Dezembro de 2000, 191 pp; tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra; obra original: Zapíski iz podpólia, 1864.]
Como Camus havia constatado, nunca se negando ao combate – palavras revividas na notável obra de Daniel –, referindo-se à abdicação dos homens perante a violência e o despotismo, evidenciada pelos que se comportam como espectadores bebendo as palavras sábias dos ilustres intelectuais. A tal inelutabilidade que uma vez postulada pelos segundos, conquista pelo comodismo a felicidade dos primeiros, deixando caminho aberto para a servidão que, no fim, pelo curso da história, é encarada como justa.
«Quaisquer que sejam as nossas imperfeições pessoais, a nobreza da nossa profissão radicará sempre em dois compromissos difíceis de manter: a recusa de mentir sobre o que se sabe e a resistência à opressão.»
Albert Camus, “Discursos da Suécia” (Prelecção Nobel, 10 de Dezembro de 1957), O Avesso e o Direito seguido de Discurso da Suécia, p. 85
[Lisboa: Livros do Brasil, Junho 2007, 119 pp; Tradução de Sousa Victorino; obras originais incluídas nesta compilação: L’Envers et l’endroit (1937); Discours de Suède (1958)]