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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Ler devagar...

…e saborear cada palavra:

«Mrs Gereth had said she would go with the rest to church, but suddenly it seemed to her that she should not be able to wait even till church-time for relief: breakfast, at Waterbath, was a punctual meal, and she had still nearly an hour on her hands. Knowing the church to be near, she prepared in her room for the little rural walk, and on her way down again, passing through corridors and observing imbecilities of decoration, the æsthetic misery of the big commodious house, she felt a return of the tide of last night’s irritation, a renewal of everything she could secretly suffer from ugliness and stupidity. Why did she consent to such contacts? why did she so rashly expose herself? She had had, heaven knew, her reasons, but the whole experience was to be sharper than she had feared. To get away from it and out into the air, into the presence of sky and trees, flowers and birds, was a necessity of every nerve. The flowers at Waterbath bath would probably go wrong in colour and the nightingales sing out of tune; but she remembered to have heard the place described as possessing those advantages that are usually spoken of as natural. There were advantages enough it clearly didn’t possess. It was hard for her to believe that a woman could look presentable who had been kept awake for hours by the wallpaper in her room; yet none the less, as in her fresh widow’s weeds she rustled across the hall, she was sustained by the consciousness, which always added to the unction of her social Sundays, that she was, as usual, the only person in the house incapable of wearing in her preparation the horrible stamp of the same exceptional smartness that would be conspicuous in a grocer’s wife. She would rather have perished than have looked endimanchée
Henry James, The Spoils of Poynton (1897; ed. Oxford World's Classics, 2000, p. 1)

(E tudo isto a propósito do temperamento e dos gostos pessoais na avaliação de uma obra literária. Tão maneirista, pedante e aristocrata, e no entanto um dos melhores de sempre – o Mestre.)

Apesar do carácter retórico da pergunta, Sérgio, ensaio uma resposta: claro que é.
A nossa (deles, americanos) estimável Michiko é insuportavelmente feminista e misândrica, maniqueísta, cultora do ódio de estimação (que o digam Roth ou Mailer, este último num qualquer tipo de manifestação ectoplásmica), talvez induzida pela soberba do legado para o mundo literário de uma marca própria; porém, sabe de literatura e de como se constrói uma recensão, disseca, por vezes com um excesso de minúcia, as obras analisadas. É irritante e de crítica na maioria das vezes criticável (pleonasmo propositado, não sei por que carga de água...), mas irrepreensível no rigor – não é por acaso que já venceu um Pulitzer pela carreira de recenseadora.
A nossa (e aqui, infelizmente, o possessivo assenta-nos bem) Dóris Graça Dias é a imagem do país. E porque é nele que temos de viver, onde um simples texto de lamentação, ao invés de agir como agente preventivo para um comportamento desprezível, é normalmente visto como uma apologia, então fiquemo-nos pelos adjectivos que, de forma inexorável, a ele se agarram como lapas às rochas: pequenino, mesquinho, invejoso e, sobretudo neste caso, oportunista – o velho hábito luso do massacre, constante e sem piedade, do debilitado –, um imenso viveiro para a ostentação, para o snobismo grosseiro (ver etimologia, sine nobilitate).

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Elucidação – (VnS III)

Ópera: representação de Werther de Jules Massenet; Turim, Itália
Chama-me à razão este texto do Jorge no seu Yesterday Man – e eu que pensava que ao meu não iria voltar… ironizava, pois.
O desmiolado Werther – no início apenas um defeito mental, ainda nem sequer sonhara que a língua poderia ter destas literalidades semânticas –, perdido de amores por Carlota, comprometidíssima com o estóico Alberto na imaginária Walheim, deu um tiro na cabeça porque não teve a real consciência de que se tratava de um lírico, ou melhor, um tipo maçador, peganhento, enfim, um carrapato vampírico sugador da felicidade alheia.
Porém, mais desmiolados foram os seus seguidores que, catapultados por um doidivanas, resolveram fazer do tiro aos miolos o desporto nacional. O próprio jovem – o avôJohann Wolfgang nunca previra tais resultados, levando-o mesmo, mais tarde, a ridicularizar e a depreciar o seu próprio livro, escrito quando ainda tinha 25 anos de idade e numa fase em que atravessava a desolação de uma paixão avassaladora, por uma tal de Carlota, tão típica dos arrebatados espíritos românticos de jovens adultos.
O tio Émile negou a relação causa e efeito imediato, embora, confrontado com o caso das mortes miméticas, tenha referido que tal sofrimento induzido por via literária poderia, eventualmente, precipitar, ou conduzir a uma triste conclusão, quem, à partida, possuísse o bicho wertheriano – leia-se suicida – lá bem dentro da pobre e dúctil mioleira.
Nem o tio foi tolo, nem tão-pouco o avô engendrou uma arma artesanal de destruição em massa – para isso, embora mais tarde e com efeitos menos devastadores, dispunha de Fausto e do seu contrato com Mefistófeles, cuja relação deu origem a um livro bem mais pesado e por isso mais contundente e letal.

Em suma, o título do meu texto,
A Explicação de Durkheim, era sucedido de um código entre parênteses: VnS. Ora, a abreviatura corresponde a Viagens no Scriptorium, o título do último romance de Paul Auster, publicado em Portugal há 15 dias pelas Edições Asa. Como sou um austeriano dos sete costados, fui (e vou) protelando a publicação da minha opinião pessoal sobre a sua última obra. Continuo à espera que o tempo me traga algum discernimento opinativo, não embotado pelo putativo fundamentalismo literário.
Assim, fui publicando uma série de textos casuais – este é apenas o terceiro –, cuja única relação é o próprio romance, recorrendo a artigos sobre ele publicados por esse mundo fora.
A Explicação de Durkheim pretendia ser um texto irónico, ridicularizando alguns dos críticos – principalmente alguns ingleses e norte-americanos – que tentaram destruir a obra recorrendo a argumentos estapafúrdios e, por vezes, a roçar o mais baixo insulto pessoal.
Quando escrevi o dito texto, tinha em mente duas recensões que, há um ano, após a publicação do romance no Reino Unido (Outubro de 2006), me deixaram à beira de um estado de fúria irreprimível. Refiro-me ao texto de Alfred Hickling no jornal The Guardian, e mais especificamente ao da tem-tudo-para-ser-uma-boa-de-uma-arrivista
Deborah Friedell no Times Literary Supplement, onde surgiu um curto e esplêndido comentário de réplica, escrito por um leitor nova-iorquino, sobre o qual me inspirei para chamar Durkheim à colação. Eis o texto do feliz comentário:

«I stopped reading Paul Auster years ago for reasons eloquently laid out above. I don't mind him, he can't hurt you if you don't read him, but good Lord his admirers. I can only be grateful to newspaper reviewers who stick with overrated, self-satisfied writers and read their every new book, just so they can alert us in case they reform themselves. Hats off, Deborah. You are the mirror image of the canary in the coal mine. I'll risk a trip back in if you perk up.»

A literatura não mata, mas por vezes mói. Mas… por outras, mói tanto que, como Pável Vassílievitch, há sempre um benfazejo pisa-papéis à mão… mas, os jurados absolveram-no [“Drama”, conto de Anton Tchékhov]. Foi uma boa causa...

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

The Twofer

Michiko KakutaniRoth já o havia confirmado, Nathan Zuckerman – para muitos o alter-ego do autor norte-americano – despede-se do público com Exist Ghost, o nono livro a contar com o atormentado personagem – décimo com a compilação Zuckerman Bound (1985) –, havendo intervindo em seis como protagonista (incluindo o mais recente) e nos restantes como narrador e personagem secundário.
Depois da valente zurzidela em Todo-o-Mundo (Everyman, 2006), que foi devidamente precedida por outras impiedosas recensões, com destaque para Teatro de Sabbath (Sabbath’s Theater, 1995), Michiko Kakutani, crítica literária residente do periódico
The New York Times, vencedora do Pulitzer para a Crítica em 1998 pela sua «escrita apaixonada e inteligente sobre livros e literatura contemporânea» [tradução AMC], aprova o último romance de Philip Roth – o que pode significar que, de facto, o achou uma maravilha, dada a sua embirração com o escritor de Newark e quejandos (já lá vamos…)
Em boa verdade, para a letrada nipo-americana nem tudo é mau com Roth. Kakutani sempre se confessou como admiradora incondicional da Trilogia Americana (do pós-guerra), com especial destaque para Pastoral Americana (American Pastoral, 1997) – curiosamente, o meu romance preferido, entre a dezena que tive a oportunidade de ler de Philip Roth.
Porém, a misoginia latente nas restantes obras do autor, a informal, solta e obscena linguagem usada – na minha óptica, um dos temperos que contribuem para a excepcionalidade do produto final rothiano –, acrescentando-se, segundo palavras da própria, a superficialidade ou lhaneza de algumas das suas últimas obras como Animal Moribundo (The Dying Animal, 2001) e de Todo-o-Mundo, deram-lhe o ensejo para desancar, através de uma prosa rebuscada, perifrástica e com grande intensidade adjectival, usando a sua página no The New York Times Book Review como veículo da sua verrina, um dos mitos vivos da literatura norte-americana, cuja obra será publicada na íntegra, e ainda em vida, na Library of America.
Mas Philip Roth não é a única presa nas garras do falcão desgrenhado de origem japonesa. Aliás, Kakutani é suficientemente conhecida pela sua acerba implicância com os escritores anglo-saxónicos, brancos e do sexo masculino, e quase todos pertencentes à mesma geração: Updike e Pynchon, para além do já ido pai Bellow, e, em especial, Norman Mailer, com quem já se envolveu em ferozes altercações, chegando ao ponto de este último se ter visto na obrigação de defender Roth, com o qual mantém uma animosidade surda, de origem bellowniana, quando Kakutani trucidou Teatro de Sabbath.
Em 2005, em entrevista à revista Rolling Stone, Mailer disse:
«Kakutani é uma mulher kamikaze. Ela despreza os escritores masculinos e brancos, e eu sou o seu alvo preferido […] Todavia, os editores do Times não a podem despedir. Eles têm medo dela. Com as leis de discriminação e por aí fora, bom, ela é uma “três em um”[1]… Asiática, feminista, e… ah, qual é a terceira? Bom… vamos antes chamá-la de “dois em um”[2]… Ela é um adereço, e, provavelmente, lá no fundo, ela sabe disso.» [tradução AMC]

Shame on you, Mr. Mailer. (O autor deste blogue a aderir ao p.c.)

Notas:
[1] Tradução aproximada para “Threefer”, uso mais correcto em “conjunto de três produtos pelo preço de um”.
[2] Tradução aproximada para “Twofer”, mais correcto “conjunto de dois produtos pelo preço de um”. Pode também utilizar-se para mencionar uma pessoa pertencente a dois grupos minoritários ou objecto de discriminação, beneficiária por duas vias de um sistema de quotas (cf. "
twofer." Dictionary.com Unabridged (v 1.1). Random House, Inc. 04 Oct. 2007. No caso Mailer referia-se à condição de “mulher asiática”.

Recomendação: Ler o artigo The Twilight of the Old Goats de autoria do jornalista, crítico literário e ensaísta D.T. Max, publicado em Maio de 1997 na revista digital Salon.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Vida interior – (VnS II)

Em Espanha, na região autónoma do País Basco, decorre a 55.ª edição do Festival de Cinema de San Sebastián (ou, para os mais sensíveis, o Donostia Zinemaldia).
Paul Auster preside ao júri deste ano, composto por nomes como: o realizador britânico, de 39 anos, Peter Webber, dirigiu o terrífico Hannibal Rising e o premiado Rapariga com brinco de pérola; ou a actriz italiana Nicoletta Braschi, mais conhecida por ser mulher do pateta Roberto Benigni e haver protagonizado a grande maioria dos filmes que este dirigiu; ou ainda, a eterna promessa espanhola na área da interpretação cinematográfica, Eduardo Noriega.
No passado dia 23, em exibição fora do concurso, deu-se a estreia europeia do mais recente filme realizado por Paul Auster, co-produzido por Paulo Branco e rodado em 2006 numa casa de Sintra, The Inner Life of Martin Frost (na imagem, os protagonistas: David Thewlis e Irène Jacob).
A crítica internacional, e principalmente a espanhola, que assistiu à première – os americanos pronunciam-na “pri-meer” –, embora, à laia de preâmbulo, fosse inicialmente elogiosa, castigou Auster com a peroração de alguma lhaneza conceptual da obra, tomando como ponto de partida, ou em tom de justificação, a (de)formação e o talento eminentemente literários do autor norte-americano.
Eis um exemplo do que acabei de referir, pela pena de Ángel S. Harguindey, director-adjunto do diário espanhol
El País e crítico de cinema:

«Paul Auster é um dos mais brilhantes escritores contemporâneos. O seu talento literário está fora de questão. Outra coisa distinta é a sua vertente cinematográfica, uma ocupação que já não pode ser considerada como capricho pois o filme que apresentou ontem [23/09/2007], fora do concurso (Auster preside o júri do certame), é a sua terceira longa-metragem, depois de Blue in the Face (co-realizada com Wayne Wang) e Lulu on the bridge, para além de Smoke. A Vida Interior de Martin Frost narra uma história engenhosa sobre um escritor que decide descansar uns tempos numa casa longe do ruído do dia-a-dia, onde surge uma mulher estranha, que nos vamos apercebendo de que se trata da sua musa inspiradora e com a qual mantém uma enleante história de amor, tão plausível como fantástica. Os dois personagens e a casa são os protagonistas de um filme intimista, calmo, com diálogos divertidos e inteligentes, cuja ironia cresce quando aparecem dois personagens secundários: a bela filha de Auster e um admirável canalizador (Michael Imperioli, um dos protagonistas da série televisiva Os Sopranos) com vocação para autor de best-sellers. A questão chave é que Auster não domina a narração cinematográfica com a sabedoria que demonstra na Literatura, de tal modo que o filme conta uma história com estilo ingénuo e rudimentar.»
In El País, 24/09/2007 [tradução livre: AMC]

O guião de A Vida Interior de Martin Frost – cujo processo de escrita terminou em 1999 – apresenta algumas semelhanças com a obra mais metadiegética e borgiana de Auster, Viagens no Scriptorium, publicada em 2007, apesar de se basear num personagem ficcional dentro da ficção do romance O Livro das Ilusões (2002).
Na conferência de imprensa que se seguiu à exibição do filme, depois de algumas comparações que lhe foram feitas com Providence, filme de 1977 de Alain Resnais, ou com Swimming Pool, filme de 2003 do também francês François Ozon, Auster pronunciou-se sobre as críticas literária e cinematográfica, e referiu-se ao poder destruidor dos críticos quando movidos por um ódio apriorístico, centrados no autor e alheados da obra recenseada:
«Se, à partida, pretenderes odiar algo podes odiá-lo com a maior das facilidades, podes destruir qualquer obra mesmo que seja uma obra incrível… experimentem-no com uma obra de Shakespeare ou de Tolstói... é muito fácil.»
Depois citou uma frase de Siri Hustvedt, a sua mulher, escritora e crítica de arte, referindo-se à relação inevitável do artista e da sua obra com a crítica:

«A arte é como o sexo, se não se está relaxado não se consegue gozar.»

terça-feira, 25 de setembro de 2007

A explicação de Durkheim (VnS – I)

«Como me sinto feliz por ter partido!»
J. W. Goethe, Werther


Cento e vinte e três anos depois, Émile (para os amigos) dissertava sobre o suicídio e o surpreendente efeito de contágio da acção do seu perpetrador à sociedade – a terrível constatação da prevalência de um fenómeno que, mesmo visto de forma isolada ou individualizada já se declarava como obscuro, agora excede o limite do individual mediante a exposição da sua forte carga mimética, adquirindo, em definitivo um carácter sociológico, ou seja, assumindo-o como uma enfermidade social.

Resta-nos perceber, recorrendo a Durkheim, o que terá levado o jovem Johann Wolfgang, com apenas 25 anos (1774), a proferir, prologando num percebido tom irónico apenas consentido pela liberdade literária, o seguinte aviso:

«E tu, ó alma sensível que sofres dos mesmos pesares: que o teu coração dolorido encontre alívio na descrição das mágoas que ele [Werther] sofreu e que este livro seja para ti um amigo, se, por impiedade da sorte, ou por tua própria culpa, te não for dado encontrar afeição mais real.»


Durkheim professava que o suicídio primitivo era, apenas, o detonador do acto do imitador, o catalisador da reacção, uma vez que a tendência de atentar contra a própria vida resultava de uma patologia preexistente, de uma predisposição, como o acordar de um gigante adormecido na nossa psique.

Antecipando em muito, e de forma mais rebuscada, o homicídio por meios audiovisuais invocado por António Oliveira em meados dos anos 90 do século XX, por ocasião da revelação do famoso “Caso Paula”, que envolveu a selecção nacional de futebol e uma empresa de serviços de aluguer de corpos femininos vivos, Goethe, ao publicar a obra referenciada, cometeu um acto quase-genocida, eventualmente doloso.

Tal é o poder da Literatura e dos seus celerados personagens, criados pela pena de um irresponsável, ou até, de um criminoso em larga escala.
Valha-nos o papel do crítico, profissional ou amador, para nos alertar para este flagelo oculto, dissimulado por essa coisa chamada arte.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Mudar a (de) vida

«Na verdade, partindo da interpretação que faço do desafio lançado pelo manuel, os livros que não mudaram a nossa vida são aqueles que nos defraudaram nas expectativas sobre eles criadas. Quanto aos outros, pura e simplesmente nos esquecemos deles.»

Este é um excerto de um texto interpretativo escrito pelo Henrique no seu Insónia, e com ele anulou-se, por conformidade absoluta, a necessidade por mim sentida de elaboração de um exórdio sobre o mais recente, e incandescente, assunto da blogosfera: o já célebre desafio do manuel a. domingos, os «10 Livros que Não Mudaram a Minha Vida».
No limite, reduzindo o assunto aos píncaros do risível, poderia afirmar que não houve livro que não tivesse mudado a minha vida. Com todos gastei tempo, com a esmagadora maioria fiquei financeiramente mais pobre – excluindo o valor actual do bem (livro) e da avaliação do seu valor intangível através da sua julgada qualidade literária, que compensem o seu valor de aquisição –, com todos houve, se quisermos, um custo de oportunidade, enquadrável na macroteoria do célebre trade-off trabalho/lazer, da qual resulta a noção de felicidade plena, alcançável por uma combinação óptima dos factores. A beleza da coisa advém da infinitude de combinações óptimas, normal e tristemente subsumidas na agregação dos óptimos individuais num óptimo social, normalmente gerado e controlado por uma elite – e por aqui concluo, aproximar-me-ia perigosamente de Pareto e dos seus princípio e equilíbrio e teria, então, de entrar na inevitabilidade da abordagem da massificação cultural e da entropia social…

De regresso ao tema…
Quando J. Peder Zane convidou 125 escritores para se pronunciarem sobre os seus dez livros preferidos, o resultado final não surpreendeu, respeitou-se o cânone literário da cultura ocidental: 1.º Tolstoi – Anna Karénina; 2.º Flaubert – Madame Bovary; 3.º Tolstoi – Guerra e Paz; 4.º Nabokov – Lolita; 5.º M. Twain – As Aventuras de Huckleberry Finn; 6.º Shakespeare – Hamlet; 7.º F. Scott Fitzgerald – O Grande Gatsby; 8.º Proust – Em Busca do Tempo Perdido (obra completa); 9.º Tchékhov – Contos; 10.º George Eliot – Middlemarch.
Simultaneamente, o autor do livro convidou os cibernautas a postarem as suas preferências. O resultado – livros mais citados – foi: 1.º Tolstoi – Anna Karénina; 2.º F. Scott Fitzgerald – O Grande Gatsby; 3.º Nabokov – Lolita; 4.º Dostoievski – Crime e Castigo; 5.º Harper Lee – Por favor, não matem a cotovia; 6.º Lee K. Abbott – All Things, All at Once; 7.º Tolstoi – Guerra e Paz e Joyce – Ulisses; 9.º Vonnegut – Matadouro 5; 10.º Dostoievski – Os Irmãos Karamazov.
Descubra as diferenças.
Venceu o cânone. Embora, verdade seja dita, a essa escolha jamais seria aposta qualquer tipo de objecção ou enunciada como objecto de execração e de chacota, se essa informe, impura e torpe mole humana, lida nos grandes números numa tabela de totais, houvesse cometido a ousadia de o derrogar. Plebeísmos… que horror!
Porém, o Francisco e o Eduardo são escritores – que diabo! –, a doxa literária, sempre tão atenta e pronta para a vozearia, rebelou-se de imediato. Confunde-se destreza literária com enlevação estética, reconhecimento da valia de uma obra com o grau de inebriamento por ela induzido. Em suma, mistura-se cientificidade com gosto pessoal.
Da cientificidade pouco tenho a dizer, não tenho formação que me permita avaliá-la. No que diz respeito ao gosto pessoal são-me permitidos o debate livre e a eventual dissonância, jamais a condenação.
Antes de terminar, chamo de novo a atenção para a série de ensaios dialogantes do Luís Mourão, sob o título de "Os que não mudaram" – um exercício elegante e prodigioso de discussão literária.

Por fim, seguindo o espírito e não a letra do desafio do Manuel, indicarei as obras de dez autores que quase idolatro, cujo título correspondente foi a excepção no elevadíssimo grau de encantamento que me instigou o conjunto da obra:

  • Bret Easton EllisLunar Park (Lunar Park, 2005);
  • Don DeLilloO Corpo Enquanto Arte (The Body Artist, 2001);
  • Enrique Vila-MatasDoutor Pasavento (Doctor Pasavento, 2005);
  • Ian McEwanO Inocente (The Innocent, 1990);
  • John UpdikeO Terrorista (The Terrorist, 2006);
  • Paul AusterA Noite do Oráculo (The Oracle Night, 2003);
  • Salman RushdieShalimar, O Palhaço (Shalimar, The Clown; 2005);
  • Saul BellowRavelstein (Ravelstein, 2000);
  • Vladimir NabokovRiso na Escuridão (Kamera Obskura, 1938);
  • W. G. SebaldAusterlitz (Austerlitz, 2001).

Nota – ainda está para aparecer um título de Philip Roth

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

Ainda McEwan

Christopher HitchensNo último número (Julho/Agosto) da revista norte-americana The Atlantic (anteriormente designada por The Atlantic Monthly), o escritor, crítico e colunista britânico, residente nos Estados Unidos, Christopher Hitchens escreve sobre o último trabalho do seu eminente compatriota Ian McEwan, Na Praia de Chesil, e a consagração deste último como o escritor nacional“Think of England”.
Entre outros assuntos conexos, Hitchens, tal como fizeram alguns críticos literários antes dele, fala da coincidência histórica entre a novela de McEwan e o célebre poema de Philip Larkin (1922-1985) “Annus Mirabilis”, escrito em 1967 – trezentos anos após o poema épico homónimo de John Dryden que narra os acontecimentos do Grande Incêndio de Londres (entre 2 e 5 de Setembro de 1666) e, segundo se supõe, atribuindo-lhe uma natureza miraculosa ou decorrente da vontade divina devido ao pequeno número de baixas; assim como a vitória esmagadora da armada inglesa sobre os holandeses na Batalha de Lowestoft a 13 de Junho do mesmo ano, o ano da besta do 2.º milénio.

Da leitura do artigo, passando por uma releitura das sinopses fornecidas pela editora e até de algumas críticas, concluí que existe uma disfuncionalidade cronológica entre o autor, a editora e as inúmeras recensões publicadas na imprensa de língua inglesa antes da publicação da obra, alastrando-se, de forma pandémica, aos textos que se seguiram – virulência assaz frequente no crítico profissional que não lê a obra recenseada e que, imbuído de um curioso espírito de solidariedade profissional, vulgo engenho mimético, acaba por cair no mesmo erro, embora, por um zelo singular, a exegese surja sempre num estilo mui íntimo, revelador da erudição e da cientificidade literária do autor.
Bem, ou então… tudo está correcto, McEwan desfruta da companhia do seu meio-irmão recentemente descoberto, enquanto esboça a próxima obra, e o mundo, na sua inexorabilidade, pula e avança… e eu, na minha eventual neurose obsessivo-compulsiva, que se manifesta por um putativo rigor anacrónico, insisto num pormenor decerto obviável – e não recebo nada por isso.

Para que se possa entender o propósito desta torturante, quiçá tortuosa, arguição, convém delinear um fio condutor que, pelo menos, permita um pequeno vislumbre da sua finalidade (inutilidade), seguindo, para o efeito, um método por etapas.
Em primeiro lugar, é de todo aconselhável começar com o tal poema de Larkin:

Sexual intercourse began
In nineteen sixty-three
(which was rather late for me) –
Between the end of the Chatterley ban
And the Beatles' first LP.

Up to then there'd only been
A sort of bargaining,
A wrangle for the ring,
A shame that started at sixteen
And spread to everything.

Then all at once the quarrel sank:
Everyone felt the same,
And every life became
A brilliant breaking of the bank,
A quite unlosable game.

So life was never better than
In nineteen sixty-three
(Though just too late for me) –
Between the end of the Chatterley ban
And the Beatles' first LP.


Philip Larkin, “Annus Mirabilis”, (1967)

(Segundo Hitchens – merecendo inclusive nota de destaque na revista:
«Somente Philip Larkin logrou descrever o sexo de forma ainda mais crua em comparação com a que aqui [Na Praia de Chesil] faz McEwan. Não houve imperícia, falhanço ou desgraça que tivesse ficado por revelar.» [Tradução Livre: AMC])

Em segundo lugar, se dispuserem de alguma reserva mental que vos permita ler, ou então reler – podendo, neste último caso, redundar num processo autopunitivo mais severo –, qualquer texto por mim escrito e publicado neste blogue, escrevi no passado dia 2 de Maio
este texto – também indicado na coluna da direita – sobre a minha experiência de leitura desta pequena obra-prima de McEwan.

Em terceiro lugar, Hitchens, as sinopses das edições inglesa e portuguesa do livro de McEwan e a generalidade dos críticos afirmam, de forma categórica e inequívoca, que a acção principal de Na Praia de Chesil – a famosa noite de núpcias – decorre no Verão de 1962. Ora, no caso do meu estimado leitor haver arriscado o esgotamento da sua paciência lendo
o meu texto de pseudo-recensão – e se chegou até aqui, por que não dar o benefício da dúvida e fazer mais um esforço –, certamente verificou que situo a dita acção no Verão de 1963.

Hipótese nula: a acção de Na Praia da Chesil ocorre no dealbar do coito como forma de expressão sexual.

Ou seja, rejeitar a Hipótese Pré-Larkin, em detrimento da Hipótese, mais poética, de coetaneidade.

Começando pela análise do poema de Larkin, consegue-se, facilmente, delimitar um período para o alvor da explicitação sexual:

  • the end of the Chatterley ban”, fim do processo judicial que visava proibir a venda do romance O Amante de Lady Chatterley de D. H. Lawrence: 2 de Novembro de 1960;
  • the Beatles' first LP”, estreia do primeiro L.P. dos BeatlesPlease Please Me, editado pela Parlophone (empresa subsidiária da EMI): 22 de Março de 1963.

Outros factos históricos:

  • os Beatles assinam o primeiro contrato com a EMI a 6 de Junho de 1962, nos famosos estúdios de Abbey Road, Londres, e publicam o primeiro single “Love Me Do” em 5 de Outubro de 1962, que integrava a canção “P.S. I Love You”. Segundo as inúmeras biografias e artigos de enciclopédia, o primeiro single teve um sucesso moderado, atingindo apenas a 17.ª posição no top de vendas do Reino Unido. O segundo single – que iria emprestar o nome ao primeiro álbum – “Please Please Me” é lançado no mercado britânico a 11 de Fevereiro de 1963 – foi primeiro grande sucesso dos Beatles, atingiu as 2.ª e 3.ª posições nos tops de vendas do Reino Unido e dos Estados Unidos, respectivamente.

Factos apontados no enredo da novela Na Praia de Chesil de Ian McEwan:
Edward Mayhew [destaques meus]:

  • «[Edward] Tinha nascido em 1940, demasiado tarde no século, para acreditar que estava a maltratar o corpo» (pág. 21).
  • «Naquela manhã, enquanto se vestia para o casamento […] decidira que nenhuma das figuras da sua lista poderia ter conhecido aquele tipo de satisfação […] Ali estava ele [Edward], um homem magnificamente realizado, ou quase realizado. Com vinte e três anos, já quase os tinha superado a todos.» (pp. 15-16)
  • «Ele [Edward] tinha nascido em Julho de 1940, na semana em que começou a batalha de Inglaterra.» (pág. 51). A batalha de Inglaterra, refere-se às hostilidades entre a Luftewaffe e a R.A.F. pelo domínio dos céus e pela supremacia aérea, iniciou-se a 10 de Julho de 1940 (quarta-feira).
  • «O Casal […] chegara ao entardecer ao hotel na costa de Dorset com um tempo que não era perfeito para meados de Julho» (pp. 7-8).
  • Seguindo as regras da aritmética mais simples, se o nosso herói nasceu em Julho de 1940, entre os dias 7 (domingo) e 13 (sábado), e se contava 23 anos, a acção desenrola-se, fatalmente, no ano de 1963, mais concretamente no Verão desse ano.

Referências musicais:

  • «Ele fê-la ouvir interpretações “desajeitadas mas respeitáveis” das canções do Chuck Berry pelos Beatles e os Rolling Stones.» (pág. 100). O primeiro single dos Rolling Stones saiu para o mercado a 7 de Junho de 1963, tratava-se de “Come On”, uma cover de uma canção de Chuck Berry. Todavia, segundo o The Complete Works of the Rolling Stones 1962 - 2007, entre 1962 e 1963, os Rolling Stones já tinham no seu repertório algumas canções de Chuck Berry: Brown-Eyed Handsome Man, Childhood Sweetheart, Don’t Lie To Me, Jaguar and Thunderbird, Johnny B. Goode, Little Queenie, No Money Down, Our Little Rendezvous e Sweet Little Sixteen. O período retratado nesta fase do livro, refere-se à fase do conhecimento mútuo pré-matrimónio, e neste caso relata os antagónicos gostos musicais de ambos. Episódio ocorrido, pelo menos, um ano antes do casamento.

Referências políticas:

  • «E ele [MacMillan] tinha despedido um terço do seu gabinete na “noite das facas longas”, o que exigia coragem. Mac the Knife, chamava-lhe um cabeçalho, Macbeth!, dizia outro.» (pág. 30). Nesta parte da narrativa, Edward tenta ocupar a sua mente com assuntos políticos para evitar ejacular precocemente, enquanto abraça Florence e ambos se beijam freneticamente. A “noite das facas longas” refere-se ao despedimento compulsivo de cerca de um terço dos membros do Governo pelo Primeiro-Ministro britânico Harold MacMillan numa só noite: 13 de Julho de 1962.

Conclusão: hipótese nula não rejeitada. Rectifica lá as datas, Hitchens. A acção principal da novela Na Praia de Chesil não decorre na fase pré-coito, ou se se preferir, na fase pré-Larkin, mas, impudicamente, durante o coito (ou a faso do).