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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Oscar®*

Paul Thomas Anderson e Daniel Day-Lewis
Prometi que não voltava ao tema dos Oscars®, embora deixasse ficar a ressalva que a ele poderia voltar após assistir à projecção de Este País Não É para Velhos dos Irmãos Coen (sem “h”) – filme que estreia amanhã no circuito comercial português, cuja antestreia ocorreu na passada segunda-feira na abertura do Fantasporto 2008.

Todavia, este texto do Sérgio no seu Auto-Retrato – novamente sem caixa de comentários e, como Sérgio confessou no seu regresso à blogosfera após uma curta ausência, tem tido alguma dificuldade de, atempadamente, responder às inúmeras mensagens de correio electrónico que lhe assaltaram a caixa postal – merece, da minha parte, uma brevíssima réplica.
Como referi
aqui, antes da realização da cerimónia de atribuição dos Óscares da Academia, consegui ver a totalidades dos filmes que foram objecto de nomeação por via da categoria de “Melhor Actor”. Por aquilo que pude ver, apreciando com alguma cautela – especialmente após o anúncio de 22 de Janeiro último – as 5 interpretações referenciadas, não vacilei, nem por um único instante, no momento de apontar o meu eleito. Afirmei, categoricamente: Daniel Day-Lewis desempenhou o papel da sua vida e a sua actuação não encontra rival nas últimas três décadas da historiografia do cinema mundial – e esta é, como me parece óbvio e salutar, uma opinião eminentemente pessoal, por isso questionável e, em consequência, admitindo a eventual diferença de opinião manifestada por quem eu reconheça como autoridade cinéfila.
Ignoro a existência de critérios científicos que me permitam objectivar uma qualquer manifestação artística, tal como repudio a mera tentativa de outros para os criarem. No domínio dos “gostos” encontramos sempre um arrazoado, mais ou menos verdadeiro, leia-se mais ou menos falacioso, que permite sancionar e justificar as nossas opções.



O que é que eu vi em “Daniel Plainview”, a pele atribuída por PT Anderson a Daniel Day-Lewis, que este último encheu à discrição de carne e osso?
Um ser obstinado pelos eflúvios inebriantes do dinheiro e do poder, que lhe toldam qualquer perspectiva de vida e de uma maneira de viver que vá para além da demanda por novas formas que lhe permitam manter ou engrandecer essa embriaguez. Não há amizade, não há família; não há Deus, nem religião; não há valores e princípios por que lutar; não há amor, muito menos paixão; não há arrependimento e perdão (rima involuntária que a preguiça sinonímica impediu a devida correcção). O Guião de PT Anderson pedia uma máquina humana, cúpida, celerada, implacável. Um guião que procurou, quase que obsessivamente, a concentração destas características num só homem, e isto se o compararmos com o magnata J. Arnold Ross do romance Oil! de Upton Sinclair cuja trama se concentra numa contenda ideológica deste com o seu filho “Bunny”. Um confronto entre o capitalismo despótico e o socialismo. Por diversas razões e algumas vicissitudes ocorridas durante a fase de produção do filme – designadamente, a escassez de financiamentos –, Haverá Sangue foi-se progressivamente afastando do fulcro da obra de Sinclair; PT transformou o filme numa obra de um só personagem. Anderson já havia apostado em Day-Lewis, e confrontado com as novas restrições deu-lhe o guião pedindo-lhe o seu sangue…


DDL conseguiu: foi a estrela que cintilou no negrume do petróleo. Deu tudo de si, criou um personagem na dimensão de um Charles Foster Kane (Orson Welles) ou de um Jett Rink (James Dean), e com uma inspiração confessada (por PT) em Fred C. Dobbs (Humphrey Bogart) e no trio de gananciosos prospectores de ouro.

Depois, a rigorosa selectividade aposta por Day-Lewis nos filmes que protagoniza, não pode nem deve ser subvertida, como se tratasse de uma fraqueza ou de uma debilidade de carácter do actor. Se essa exigência existe, ela deve-se, por um lado, ao estatuto conquistado pelas suas portentosas e aclamadas interpretações anteriores e, por outro, ao arrepio da distintiva cupidez criminosa do personagem interpretado, Daniel Plainview, à consciência de que ser um actor de Hollywood não o obriga a aceitar todo e qualquer papel para acrescentar mais uns milhões à sua já incomensurável riqueza; ao contrário, por exemplo, do seu compatriota Anthony Hopkins que já ameaçou retirar-se uma dúzia de vezes – lembram-se da reforma anunciada após a filmagem de Instinto em 1999 (Instinct)? Atentem no cine-lixo que fez a seguir –, ou que se iria tornar mais selectivo na escolha dos guiões propostos; no entanto, a realidade está aí para o desmentir.

Finalmente, no que respeita ao unanimismo (ou quase unanimidade) na apreciação da última prestação de Daniel Day-Lewis, só posso dizer que já há muito deixei a minha rebeldia pubertária de ir contra a corrente da opinião, quando assumia orgulhosa e bravamente a diferença no campo artístico (música, cinema e literatura). E, neste caso concreto, o unanimismo até proveio dos artigos de crítica cinematográfica e do direito de voto exercido por especialistas na matéria (e isto se exceptuarmos a crítica portuguesa) e não do público, que se reviu mais no melodrama choramingas de McAvoy, nos golpes de artes marciais em pelote de Mortensen, na irritante e omnipresente presunção de Clooney ou na destreza navalhística de Depp. Tommy Lee Jones tem, como já referi, uma boa interpretação no filme No Vale de Elah, embora esteja longe do seu melhor (e estou ansioso por o ver na pele do Xerife Ed Tom Bell, cujas reflexões me apaixonaram ao ler o romance de Cormac McCarthy), como por exemplo no filme O Fugitivo (The Fugitive, 1993) de Andrew Davis no papel do implacável e legalista U.S. Marshall Samuel Gerard, papel que lhe valeu o Óscar para Melhor Actor Secundário (vá-se lá saber por que carga de água lhe foi atribuído neste filme o papel secundário); ou em Chuva de Fogo (Blown Away, 1994), desempenhando o papel de um psicopata bombista Ryan Gaerity; entre outras excelentes interpretações que referi no
texto mencionado.

Dos 5 nomeados ao Oscar® para “Melhor Actor”, e por ordem de decrescente do número de prémios arrecadados com as respectivas interpretações, temos:

Daniel Day-Lewis (“Daniel Plainview” em Haverá Sangue) – 19 prémios
Academy Awards – Oscar
BAFTA film Awards
Broadcast Film Critics Association Awards
Central Ohio Film Critics Association
Chicago Film Critics Association Awards
Dallas-Fort Worth Film Critics Association Awards
Florida Film Critics Circle Awards
Globo de Ouro (Drama)
Kansas City Film Critics Circle Awards
Las Vegas Film Critics Society Awards
London Critics’ Circle Film Awards (ALFS)
Los Angeles Film Critics Association Awards
National Society of Film Critics Awards (EUA)
New York Film Critics Circle Awards
Online Film Critics Society Awards
Phoenix Film Critics Society Awards
San Diego Film Critics Society Awards
Screen Actors Guild Awards (EUA)
Southeastern Film Critics Association Awards

Viggo Mortensen (“Nikolai” em Promessas Perigosas) – 4 prémios
British Independent Film Awards
Sant Jordi Awards (Melhor Actor Estrangeiro)
Satellite Awards (Drama)
Toronto Film Critics Association Awards

George Clooney (“Michael Clayton” em Michael Clayton – Uma Questão de Consciência) – 3 prémios
National Board of Review (EUA)
San Francisco Film Critics Circle
Washington DC Area Film Critics Association Awards

Johnny Depp (“Benjamin Barker/Sweeney Todd” em Sweeney Tood – O Terrível Barbeiro de Fleet Street) – 2 prémios
Globo de Ouro (Musical ou Comédia)
People's Choice Awards – Favorite Male Movie Star (independentemente do filme)

Tommy Lee Jones (“Ed Tom Bell” em Este País Não É para Velhos) – 2 prémios
San Diego Film Critics Society Awards (Actor Secundário,)
Screen Actors Guild Awards (prémio colectivo, melhor elenco)
Nota: obteve 3 nomeações pelo personagem “Hank Deerfield” No Vale de Elah, derrotado por duas vezes por Daniel Day-Lewis “Daniel Plainview” e uma por Viggo Mortensen “Nikolai”. Por outro lado, o filme No Vale de Elah, no total, apenas ganhou o prémio SIGNIS (Associação Católica Mundial para a Comunicação) para melhor filme no último Festival de Veneza.


Nota: * “Oscar” é o personagem principal do filme de animação de 2004, Shark Tale (O Gang dos Tubarões) da Dreamworks, cuja voz pertence ao actor norte-americano Will Smith. Foi assim mesmo baptizado na versão dobrada em português e lê-se como sendo oxítona: “Oscar” pronuncia-se com a mesma entoação de “buscar”, ou então, para ser mais preciso de “emboscar” com o “o” aberto. Ora, na língua portuguesa as palavras graves (aquelas cuja sílaba tónica é a penúltima) não são por regra acentuadas, havendo, no entanto, algumas excepções, como por exemplo em palavras terminadas, entre outras, pela consoante “r”: “carácter”, “almíscar”, “esfíncter”, “mártir”, e por aí em diante.
Se se pretende não acentuar o nome do galardão da Academia das Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, então devê-lo-emos pronunciar assim. Mas então “Nobel” pela mesma ordem de razão deveria vir “Nóbel”? Aqui Saramago tem razão, tanto as nossas regras de acentuação, como a pronunciação dos próprios suecos é “Nobel”… e o Estado norte-americano da “Florida”, prefiro dizê-lo “Flórida”, mas não consta do vocabulário português. Isto dava pano para mangas, e há cerca de 1 ano tomei a decisão de passar a empregar por regra “Óscar” e “Óscares”, ao invés de “Oscar” e “Oscars” como fazia até então (basta consultar os meus textos antigos).

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Repugnância

Convencionou-se, de forma tácita, que Tim Burton é um bom crachá para alardear uma certa intelectualidade cinematográfica. Não gostar de Burton é não gostar de cinema. Não ver os seus filmes fará, com toda a certeza, acusar uma certa dose de filistinismo no balão da altivez cultural. Em claro paradoxo metafórico, criminoso é aquele que, perante o largo espectro de recursos cinematográficos empregados, potenciados por uma mente imaginosa corporizada numa imensa e cara fábrica de ilusões, não se deixa inebriar por tamanho esforço artístico e tal arrojo estético.
Para ser sincero – e com alguma pena minha, porque é precisamente a dura ausência de alguém que o idolatrava o (um dos) leitmotiv deste blogue –, Tim Burton nunca me convenceu: ele é muito fogo-de-artifício, muita cor e malabarismos de câmara, um desmesurado exibicionismo do grotesco e do macabro, os finais ribombantes, apoteóticos e cataclísmicos, como expressão máxima da sua extravagância imagética. É, em suma, recorrendo à fisiologia e a um pequeno motejo semântico, o paroxismo fílmico da pirotecnia plasmático-fluidal.

O Sweeney Todd de Burton baseia-se num musical da Broadway de 1979 (Sweeney Todd, the Demon Barber of Fleet Street) criado por um dos mais icónicos compositores americanos dessa vertente das artes do palco, Stephen Sondheim.
Na origem do sucesso de Sondheim está a obra criada na primeira metade do século XIX e inicialmente publicada em folhetins num dos pasquins fundados pelo editor britânico Edward Lloyd – os famosos penny dreadful –, que contratou à peça um tal de Thomas Peckett Prest (o putativo pai da obra).

No filme de Burton, todos cantam: Depp, Bonham-Carter (casada com Burton), Rickman e até, imagine-se, o irritante Borat. De facto é um musical, embora atípico, na medida em que se desvia do arquétipo cénico dos grandes e vetustos musicais de Hollywood.
Ao contrário da opinião da maioria da crítica e dos nomeadores profissionais que integram a chusma de sessões de atribuição de prémios que se realiza por esta altura, que exageram na sua eloquência encomiástica, considero perfeitamente mediana a interpretação dos trechos de diálogo e de monólogo cantados. Tentando, de forma falaciosa, comparar o incomparável, basta que apenas nos recordemos do último filme de Christophe Honoré, As Canções de Amor (Les chansons d’amour, 2007), e da excelência interpretativa do jovem elenco.

Porém, é no exibicionismo gore que Burton perde em toda a linha. A crua e gratuita explicitação da violência, assim como a subentendida – como exemplo a mera sugestão de canibalismo via ingestão de empadas de carne, que, a propósito, passou a substituir a de gato com a chegada de Sweeney Todd –, é de presença assídua do princípio ao fim do filme, embora essa gratuitidade siga um processo gradual de intensificação que culmina numa orgia de ossos, miolos, entranhas e sangue. E se, em termos gerais, a plástica contemporânea da violência no cinema não é susceptível de fazer retinir as minhas campainhas da denominada licenciosidade artística, já a inexorável tendência górica ou gótica nas artes visuais deixa-me completamente nauseado. Não lhe vislumbro uma finalidade, mesmo que meramente estética. É gratuita. É pura pornografia. Nada deve à arte. Mesmo que, enquanto se esquarteja, se assista a uma fabulosa representação vocal de uma ária de Mozart ou de um lied de Schubert.
Johhny Depp e Helena Bonham-Carter são dois excelentes actores.
John Holmes e Ilona Staller (aka Cicciolina) eram considerados os melhores no seu ofício, mas não mudaria a minha apreciação sobre a qualidade da obra se Holmes (Sweeney), enquanto sofria uma felação praticada com inigualável destreza por Ciccio (Mrs. Lovett), cantasse para a sua navalha reluzente as palavras de Sondheim «There there, my friend... / Come, let me hold you...» ao som da sua música.

É mau. Muito mau.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Vida interior – (VnS II)

Em Espanha, na região autónoma do País Basco, decorre a 55.ª edição do Festival de Cinema de San Sebastián (ou, para os mais sensíveis, o Donostia Zinemaldia).
Paul Auster preside ao júri deste ano, composto por nomes como: o realizador britânico, de 39 anos, Peter Webber, dirigiu o terrífico Hannibal Rising e o premiado Rapariga com brinco de pérola; ou a actriz italiana Nicoletta Braschi, mais conhecida por ser mulher do pateta Roberto Benigni e haver protagonizado a grande maioria dos filmes que este dirigiu; ou ainda, a eterna promessa espanhola na área da interpretação cinematográfica, Eduardo Noriega.
No passado dia 23, em exibição fora do concurso, deu-se a estreia europeia do mais recente filme realizado por Paul Auster, co-produzido por Paulo Branco e rodado em 2006 numa casa de Sintra, The Inner Life of Martin Frost (na imagem, os protagonistas: David Thewlis e Irène Jacob).
A crítica internacional, e principalmente a espanhola, que assistiu à première – os americanos pronunciam-na “pri-meer” –, embora, à laia de preâmbulo, fosse inicialmente elogiosa, castigou Auster com a peroração de alguma lhaneza conceptual da obra, tomando como ponto de partida, ou em tom de justificação, a (de)formação e o talento eminentemente literários do autor norte-americano.
Eis um exemplo do que acabei de referir, pela pena de Ángel S. Harguindey, director-adjunto do diário espanhol
El País e crítico de cinema:

«Paul Auster é um dos mais brilhantes escritores contemporâneos. O seu talento literário está fora de questão. Outra coisa distinta é a sua vertente cinematográfica, uma ocupação que já não pode ser considerada como capricho pois o filme que apresentou ontem [23/09/2007], fora do concurso (Auster preside o júri do certame), é a sua terceira longa-metragem, depois de Blue in the Face (co-realizada com Wayne Wang) e Lulu on the bridge, para além de Smoke. A Vida Interior de Martin Frost narra uma história engenhosa sobre um escritor que decide descansar uns tempos numa casa longe do ruído do dia-a-dia, onde surge uma mulher estranha, que nos vamos apercebendo de que se trata da sua musa inspiradora e com a qual mantém uma enleante história de amor, tão plausível como fantástica. Os dois personagens e a casa são os protagonistas de um filme intimista, calmo, com diálogos divertidos e inteligentes, cuja ironia cresce quando aparecem dois personagens secundários: a bela filha de Auster e um admirável canalizador (Michael Imperioli, um dos protagonistas da série televisiva Os Sopranos) com vocação para autor de best-sellers. A questão chave é que Auster não domina a narração cinematográfica com a sabedoria que demonstra na Literatura, de tal modo que o filme conta uma história com estilo ingénuo e rudimentar.»
In El País, 24/09/2007 [tradução livre: AMC]

O guião de A Vida Interior de Martin Frost – cujo processo de escrita terminou em 1999 – apresenta algumas semelhanças com a obra mais metadiegética e borgiana de Auster, Viagens no Scriptorium, publicada em 2007, apesar de se basear num personagem ficcional dentro da ficção do romance O Livro das Ilusões (2002).
Na conferência de imprensa que se seguiu à exibição do filme, depois de algumas comparações que lhe foram feitas com Providence, filme de 1977 de Alain Resnais, ou com Swimming Pool, filme de 2003 do também francês François Ozon, Auster pronunciou-se sobre as críticas literária e cinematográfica, e referiu-se ao poder destruidor dos críticos quando movidos por um ódio apriorístico, centrados no autor e alheados da obra recenseada:
«Se, à partida, pretenderes odiar algo podes odiá-lo com a maior das facilidades, podes destruir qualquer obra mesmo que seja uma obra incrível… experimentem-no com uma obra de Shakespeare ou de Tolstói... é muito fácil.»
Depois citou uma frase de Siri Hustvedt, a sua mulher, escritora e crítica de arte, referindo-se à relação inevitável do artista e da sua obra com a crítica:

«A arte é como o sexo, se não se está relaxado não se consegue gozar.»