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terça-feira, 30 de março de 2010

O Supermercado

Foi há cerca de duas semanas que, provavelmente por via da parcimónia retentiva dos factos históricos da nossa mente – tão pressurosa a viver na contemporaneidade consumista –, fui personagem acidental de um curioso episódio de confrontação desse presente voraz e amnésico, ou melhor, pouco interessado em revivalismos, e de um passado não muito longínquo, cuja extensão do adjectivo vai um pouco para lá de uma dezena de anos da minha já madura existência. O supermercado.
Cheguei a casa de meus pais e o cenário que se postava diante dos meus olhos assemelhava-se ao de um terreiro onde se travava uma pequena, polvorenta e buliçosa batalha, em que a poeira de antanho se evidenciava pela reverberação causada pelos finos raios de sol de Inverno que atravessavam a vidraça e o cheiro a mofo desenterrado das entranhas de uma luta. O pó e o bafio atiçaram-me a costumeira reacção alérgica – o eterno acicate da histamina –, tanto física, como mental – este tipo de arrumações e o excesso de zelo que lhe é normalmente associado induzem-me a um estado de melancolia de uma despedida inevitável –, havendo crescido em mim um desejo irrefreável de retroceder uns minutos e adiar por umas horas a visita de um homem emocional, cumpridor das suas obrigações filiais.
Os meus pais, mantendo o seu rigor exclusivista em matéria livresca, como uma espécie de ordem de “não profanação” daquela espaço sagrado de tantos dias de aprazível ócio, arrumavam a sua bem recheada biblioteca, retirando os livros um por um, limpando capas e lombadas, e reparando badanas e folhas que, fora da sua função, se exibiam de forma impudica aos elementos.
Houve um ligeiro resmungo, misturado com uma espécie de prazer de ostentação doutoral, quando chegou o filho inquisidor e metediço, desarrumando as pilhas de livros prontas a regressar aos seus locais de décadas, e lendo os ex-líbris que ambos, enquanto jovens idealistas nos anos vinte das suas vidas, apunham à literatura que adquiriam e liam, bem longe da função de mero adorno que hoje em dia desempenham – a vida por vezes endurece determinados prazeres, tornando-os memórias distantes de um tempo passado, ressessos e sem brilho. A minha mãe, mais romanesca e congruente: Somerset Maugham, Irving Wallace, John Steinbeck, Máximo Gorki, e mais um bando de autores de frémito romanesco; o meu pai, mais heterogéneo no estilo literário e nos autores: Camus, Henry Miller, Hemingway, Morris West, dos Passos, Freud, Yourcenar, D. H. Lawrence, e imensos livros de História, cuja maioria versa sobre um dos seus temas bélicos preferidos, a II Guerra Mundial.
Entretanto, vislumbrei uma relíquia pela envolvência da sua composição em obra. Estava encafuado numa das pilhas, já expropriado do seu pó alpino, como as neves eternas: Os Inadaptados, do colossal dramaturgo norte-americano Arthur Miller (1915-2005). Bem conservado, embora com um indisfarçável odor a velho bichado, tratava-se de uma edição da Livros do Brasil de 1961, com tradução de Sousa Victorino, cujo ex-líbris do meu pai assinalava a data de “20-V-67”.
Os Inadaptados (The Misfits, 1961), livro retirado do argumento escrito pelo próprio Miller para um filme de John Huston. O filme é um dos mais icónicos na fábrica de mitos e lendas de Hollywood, se nos atermos ao arrepiante departamento de “filmes maldição”. A história que envolveu a sua produção, há quase cinquenta anos, ainda consegue provocar calafrios aos mais supersticiosos, não só pela razia de mortandade que se abateu sobre o elenco principal nos períodos de pós-produção e de exibição, como nas constantes alterações de guião e batalhas surdas entre Miller, Huston e o produtor Frank E. Taylor, a que se juntaram os responsáveis pelos estúdios da United Artists, e para finalizar pelo desastre comercial e financeiro que o filme gerou:
  • Do elenco principal, só Eli Wallach sobreviveu à devastação, talvez, e não o refiro sem malícia ao antimito louro, por Marilyn Monroe se ter incompatibilizado com o actor nova-iorquino, hoje com 94 anos, durante as filmagens, segundo se diz por esta, perante a sobriedade daquele, se sentir diminuída do seu protagonismo.
  • Clark Gable morre alguns dias após o fim da rodagem do filme – nem sequer assistiu à sua estreia.
  • Marilyn Monroe divorcia-se de Arthur Miller, ironicamente processo que se acelerou por desentendimentos sobre a construção da volúvel personagem Roslyn Taber encarnada por Monroe, para quem Miller escreveu propositadamente o guião para tentar minorar a imagem de superficialidade da actriz californiana, que lhe era incessantemente aposta pela imprensa dedicada à 7.ª arte; este também foi o último filme protagonizado por Monroe, já que morre, encharcada em drogas, em Agosto de 1962 antes de completar o filme dirigido por George Cukor, Something’s Got to Give, cuja produção foi interrompida e jamais finalizada, dada a recusa inamovível de Dean Martin em contracenar com outra actriz que não a loura mais famosa de Hollywood.
  • Montgomery Clift foi o mais resistente, morre em sua casa durante a madrugada de 23 de Julho de 1966, vitimado, tal como Gable, por um ataque cardíaco fulminante. Segundo a sua biógrafa, Patricia Bosworth, as últimas palavras conhecidas proferidas por Monty compuseram a frase “Absolutely not!”, quando interpelado pelo seu companheiro-secretário Lorenzo James à 1 da manhã desse mesmo dia fatídico sobre se o actor gostaria de ver Os Inadaptados, precisamente na noite em que o filme de Huston fazia a sua estreia na televisão nacional.

E eis, neste momento, o livro em minha casa, pronto a ser desfrutado, sem a real possibilidade de o poder acompanhar com a edição portuguesa do filme, porventura caído no esquecimento da esmagadora maioria dos portugueses, que nem as sinistras desventuras que o envolveram, o fizeram despertar para o circuito comercial em DVD.
Folheadas as primeiras páginas, saltaram-me à vista alguns deliciosos e falsos anacronismos, como algo que sentidamente acharíamos impossível verificar-se à data de edição em 1961. Porém, as disparidades entre a maior potência mundial e o nosso cantinho retrógrado, governado pela pequenez reducionista de uma ditadura, pronta a entregar os seus filhos numa guerra sem sentido que duraria treze anos, são hoje desconcertantes para quem sempre viveu os seus anos de assunção plena da sua consciência numa democracia ocidental, que se foi desenvolvendo, para o bem e para o mal, rumo a uma economia aberta, de mercado, sem fronteiras e sem as grilhetas que outrora amarravam, sem piedade, as liberdades mais fundamentais à existência digna do ser humano.
A páginas tantas, é mesmo a 13 – o número do anátema, mas também da religiosidade acerba – pode ler-se: «Vemos, através da montra dum supermarket (3) uma mulher que segura um grande saco de géneros de mercearia com um dos braços, enquanto baixa com o outro a alavanca de uma máquina caça-moedas.»
E o (3) refere-se à 3.ª nota assestada pelo tradutor desde que se iniciou a narrativa, que reza o seguinte:

«(3) Grande estabelecimento, principalmente de produtos alimentares, em que o cliente se serve a si próprio. (N. do T.)»
Era este o país dos estouvados marçanos que, agarrados à sua bicicleta munida do cesto na retaguarda carregado de produtos alimentares, se esgueiravam a toda brida por ruas e passeios e namoravam as criadas dos senhores às portas das casas fidalgas onde entregavam os produtos encomendados à mercearia do Sr. António. Sítio lúgubre, de mil odores em que constava a folha dos fiados escrita cuidadosamente à mão e quando aberto podia ainda sentir-se o cheiro a farinha do pão acabado de amassar, aí encerrado, com zelo, no momento da escrita. 

Proposta pascal para tema de redacção: O Supermercado.

sábado, 5 de abril de 2008

1,... [com promessa]

V

O rapaz e a mãe ficaram a olhar para a carrinha até aquela desaparecer ao dobrar da esquina. No interior da casa reinava de novo um silêncio de morte. Ele já não se tinha de preocupar com o Rover, ter de verificar se ele estava a fazer algo aos tapetes, ou a morder os móveis, ou até verificar se ele tinha água suficiente ou algo que comer. Rover era a primeira coisa com que se costumava preocupar todos os dias quando regressava da escola e quando a ela voltava de manhã; andara sempre preocupado que o cão pudesse fazer alguma coisa que desagradasse o seu pai e a sua mãe. Agora toda essa ansiedade acabou e, com ela, o prazer, e a casa estava silenciosa.

Ele regressou à mesa da cozinha e tentou pensar em algo que pudesse desenhar. Um jornal estava pousado numa das cadeiras, ele abriu-o e deparou-se com um anúncio a meias da Saks que mostrava uma mulher que envergava um fino vestido, aberto para exibir a perna. Ele começou a desenhá-lo e voltou a pensar em Lucille. Será que poderia ligar-lhe, interrogava-se, e fazer aquilo que haviam feito da última vez? Apesar de ela, com certeza, poder vir a perguntar pelo Rover e não tinha alternativa senão mentir-lhe. Ele recordou-se da forma como ela afagara o Rover nos seus braços, até chegara a beijar-lhe o nariz. Ela amava o cachorrinho. Como é que ele lhe poderia contar que já não o tinha? Só de estar sentado a pensar nela, sentia-o a entesar como um pau de vassoura, e de súbito, perguntou-se, e se lhe telefonasse a dizer que a família estava a pensar num segundo cão para fazer companhia ao Rover? Mas nesse caso ele teria de fingir que continuava a possuir o Rover, o que passaria a envolver duas mentiras, e isso já era um pouco assustador. Nem é tanto as mentiras, à medida que tentava recordar, primeiro, que ele ainda tinha o Rover, segundo, que estava a falar a sério quanto ao segundo cão, e, terceiro, a pior de todas, que quando ele saísse e se levantasse de Lucille ele teria de dizer que infelizmente não poderia levar outro cão porque… Porquê? Só o facto de haver perfilado esses pensamentos, deixou-o exausto. Depois viu-se a si mesmo no meio do calor dela e pensou que a sua cabeça lhe explodia, e veio-lhe à ideia que quando tudo acabasse ela poderia insistir que ele levasse outro cachorrinho. Forçá-lo a isso. Afinal de contas, pensou ele, ela não lhe aceitou os três dólares e o Rover foi uma espécie de presente. Seria embaraçoso rejeitar a oferta de outro cão, especialmente por ele haver regressado especificamente por essa razão. Ele não se atreveria a ir para frente com tudo isso e desistiu da sua ideia. Mas depois arrastou de novo à sua memória a imagem dela escarrapachada no chão da maneira que o fizera, e ele voltou a procurar um motivo para alegar na recusa do segundo cão, depois de ter percorrido Brooklyn inteiro para o ir buscar. Ele quase que lhe podia ver a expressão da cara no momento em que ele recusasse o segundo cão, a estupefacção ou, pior, a fúria. Sim, era bem possível que ela ficasse furiosa e que visse tudo através dele, podendo-se sentir insultada, apercebendo-se de que ele apenas viera para se aproveitar dela e tudo o resto era uma leviandade. Até o poderia esbofetear. O que faria ele a seguir? Ele não podia dar luta a uma mulher adulta. Mas, ocorreu-lhe que por esta altura ela era bem capaz de já ter vendido os outros dois cães, que a três dólares cada um eram bastantes baratos. E depois? Ele começou a interrogar-se, suponhamos que ele lhe telefonava e, sem mencionar qualquer cão, lhe dizia que gostaria de regressar a sua casa para a visitar? Ele apenas teria de contar uma mentira, que ele ainda tinha o Rover e de que a sua família o adorava, e por aí fora. Ele podia facilmente aguentar com isso. Sentou-se ao piano e tocou alguns acordes, a maioria nas teclas pretas de som grave, para se acalmar. Na realidade, ele não sabia tocar piano, mas adorava inventar acordes, deixando que as vibrações atingissem os seus braços. Ele tocava, sentindo-se como se algo dentro dele abanasse desenfreadamente e houvesse colapsado ao mesmo tempo. Ele estava diferente do que tinha sido, não limpo e vazio, mas coberto de segredos e das suas mentiras, algumas ditas outras não, mas todas desagradáveis o suficiente para o manter ligeiramente fora da sua família, num local onde ele agora os poderia observar, e observá-los com ele. Ele tentou criar uma melodia com a mão direita tentando encontrar os acordes harmonizáveis com a esquerda. Por pura sorte, ele conseguia criar alguma beleza. Era realmente surpreendente, como os seus acordes só estavam ligeiramente dissonantes, com uma intensidade discordante mas mantinham-se, de algum modo, num diálogo harmonioso com a melodia tocada pela sua mão direita. A mãe dele entrou na sala surpreendida e pasmada de prazer. “O que se está a passar?” clamou ela em delírio. Ela sabia piano e tocar música de ouvido, tentou ensiná-lo mas falhou, porque, acreditou ela, o ouvido dele era muito bom e ele preferia tocar aquilo que ouvisse do que ter o trabalho de ler notas na pauta. Ela aproximou-se do piano e permaneceu perto do rapaz, observando-lhe as mãos. Espantada, desejando, como sempre que ele pudesse ser um génio, ela riu-se. “Estás a improvisar?” ela quase gritou, como se estivessem lado a lado a descer uma montanha russa. Ele apenas podia abanar a cabeça, não se atrevendo a falar, caso contrário talvez pudesse perder o que ele, de alguma forma, apanhou do ar, e riu-se com ela porque se sentia tão feliz por haver secretamente mudado, e, ao mesmo tempo, tinha dúvidas de que no futuro pudesse alguma vez voltar a tocar assim.

FIM


Arthur Miller, "Bulldog", The New Yorker, (8/13/2001), 2001, pp. 72-76 [Tradução: AMC, Mar/2008]

(nota: a divisão do conto em capítulos é da minha inteira responsabilidade – Cap. V: 4615 caracteres)

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Amanhã, terminarei, pelos menos de forma temporária, a minha actividade na blogosfera. A indisciplina e o torvelinho de emoções que se me assaltou nos últimos tempos, advindos sobretudo de um cansaço mental percebido – e, convenhamos, se aquele é de facto consciente, já não estamos nada mal… – não se coaduna com o vício diário de exibir a pobreza dos meus pensamentos ao mundo – e acreditem que não é falsa modéstia, vinha sentindo uma certa deterioração que com alguma premência exigia um afastamento… para não gangrenar e arruinar de vez (passe a redundância) um dos meus passatempos favoritos: escrever (e, claro, ser lido).
Às 20:45 estarei nas Antas a assistir ao primeiro jogo da época e será porventura o último até ao seu final. Com mais 6 ou menos 6 pontos lá estarei a emprestar a minha voz àqueles cujo justo domínio avassalador durante três décadas, dentro e fora de portas, um sistema judicial estranhamente unidireccional, tão podre e tão repugnante como aqueles que neste momento são por ele investigados, pretende fazer esquecer… Canal Caveira eclipsou-se e ninguém pretende que, recorrendo ao simples método da reconstituição histórica, se escrutine os 60 anos que precederam o 25 de Abril de 1974. A rádio não exibia repetições… Um tal de Joel, que substituiu Rui Oliveira e Costa, dizia na televisão pública na passada terça-feira com toda a desfaçatez: "seis pontos não compensam vinte anos". Ao ponto a que chegou a desvergonha e o descaramento de quem não consegue aceitar, pelo menos, algumas das inúmeras derrotas e de reconhecer o mérito a quem de facto o teve durante anos a fio; é que nem das "unhas" se conseguiu recordar!...
A promessa: deixarei aqui uma pequena história, conto ou, se preferirem, uma pequena peça escrita sem pretensões literárias de apelo à memória, que é tão curta neste país de medíocres. Irá chamar-se "Bokassa".
[cancelada por manifesta falta de vontade]