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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Óscares – Melhor Filme Estrangeiro (Parte II)



Em cima do acontecimento, revelei aqui os nove filmes de língua estrangeira pré-seleccionados para integrarem a listagem final de cinco candidatos aos Óscares, a ser divulgada no próximo dia 2 de Fevereiro em Hollywood. Prometi mais considerações, mas antes disso relembro a lista, de certa forma mais arrumada em relação ao texto anterior.

Eis, então, os 9 Semifinalistas (por ordem alfabética do país de origem):
  • Alemanha, O Laço Branco, de Michael Haneke (Das weisse Band // The White Ribbon);
  • Argentina, El Secreto de Sus Ojos, de Juan José Campanella (The Secret in Their Eyes);
  • Austrália, Samson & Delilah, de Warwick Thornton;
  • Bulgária, Svetat e golyam i spasenie debne otvsyakade, de Stephan Komandarev (The World Is Big and Salvation Lurks around the Corner);
  • Cazaquistão, Kelin, de Ermek Tursunov;
  • França, Um Profeta, de Jacques Audiard (Un Prophète // A Prophet);
  • Holanda, Oorlogswinter, de Martin Koolhoven (Winter in Wartime);
  • Israel, Ajami, de Scandar Copti e Yaron Shani;
  • Peru, La teta asustada, de Claudia Llosa (The Milk of Sorrow). 
Algumas observações:
  1. A família Kennedy & afins aglutinados da lusa intelligentsia (Soares & Barroso), viu, não sei com que estado de espírito, o filme realizado por um dos seus rebentos ser preterido pela Academia. Para a 82.ª edição dos Óscares de Hollywood, o nosso venerado e certeiro ICA escolheu o pseudo-pós-modernista (que linda palavra composta) Um Amor de Perdição, realizado por Mário Barroso (nome que foi buscar o melhor aos dois mundos atávicos). Por lá chamaram-lhe Doomed Love, representante, entre outros 64, deste Doomed Country pelo espectro da mediania. Com ou sem assombração paralisante, o nosso país ficou de fora. Já é um clássico que convém alimentar anualmente – sinceramente, não sei se, por alguma vez – e se foi, quantas –, um filme do Mestre Oliveira foi nomeado para enfrentar a concorrência mundial.
  2. Destaco também alguma burrice espanhola nesta edição. Com efeito, quando todos esperavam a nomeação do extraordinário filme de Almodóvar – que deixou a crítica cinematográfica americana uma vez mais rendida à excelência do realizador manchego –, o filme designado para o concurso foi o último realizado pelo madrileno Fernando Trueba, El baile de la Victoria, que nos leva à eterna discussão – embora salutar porque ocupa tempo com inanidades poucos gastadoras de energia cerebral – entre Cinema e Literatura (e as cabras continuam a comer metros de celulóide…) O aclamado realizador de Bela Época (Belle Epoque, 1992; vencedor do Óscar para melhor filme estrangeiro em 1994) resolveu adaptar para o grande ecrã o miserável romance de 2003 do escritor chileno Antonio Skármeta, A Dança da Victoria (El baile de la Victoria), que deve ter deixado a sua marca no autor, porque desde então não publicou obra alguma – entre nós, o livro foi editado pela Dom Quixote no início de 2007, com tradução de João Colaço Barreiros. Com tão fraca matéria-prima não há milagres, e Trueba não é Hitchcock (o autor da imagem das “cabras num manjar de celulóide”) que da mediocridade literária ou dramatúrgica fazia obras de arte inultrapassáveis.
  3. Uma vez mais, a Itália – o país recordista no número de estatuetas arrecadas nesta categoria, definitivamente instituída em 1956 – apostou num filme de Giuseppe Tornatore, que nunca, por incrível que possa parecer, foi sequer nomeado para qualquer categoria destes prémios da Academia de Hollywood – e basta recordar apenas três filmes: Cinema Paraíso, Estão todos bem ou A Lenda de 1900. Este ano, o filme candidato (já eliminado da competição) seria a grande produção autobiográfica Baaria.
  4. A 2.ª fase de selecção, que irá eleger os cinco filmes finalistas para a noite de 7 de Março, irá decorrer no fim-de-semana de 29 a 31 deste mês, com a projecção diária de três dos nove semifinalistas perante os não identificados olhos de elementos pertencentes a duas comissões de peritos cinematográficos: uma originária da terrinha, Los Angeles; e a outra constituída por mentes preclaras de Nova Iorque.
  5. Em antevisão, julgo que a competição irá resumir-se a Haneke e Audiard, fazendo fé nos críticos, e julgando pelos meus olhos, nada parciais, já que não vi os restantes sete. Se bem que haja uma Teta que pode revelar-se indiscreta e enfrentar a parelha…
  6. Finalmente, gostaria de me rui-santificar (neologismo que significa “autopromover”, “armar-se em bom ou convencer-se de que se é muito bom”, mas com a particularidade de existir uma falácia na sua origem que resulta da exposição mediática ad nauseam: consiste em transformar, por insistência, a podridão na mais fresca e angelical das inocências), referindo-me ao fabuloso título do filme em representação da Bulgária, por mim traduzido para o inglês (rui-santifiquei-me mas usei a versão sinónima de “espetar uma mentira com ar grave e sério”, desculpa ), retraduzindo-o para português “O mundo é grande e a Salvação espreita ao virar da esquina”, principalmente se houver uma Maria José Morgado em cada uma delas, ou até duas, a vender “O Menino da Lágrima”, a plastificar documentos e a fechar os olhos ao comércio de escutas-lacradas-on-demand para reprodução público-privada ou em pay-TV.
  7. Como depois de um advérbio de modo conclusivo, surge sempre uma vontade inusitada de dizer mais qualquer coisinha, resolvi prosseguir com mais um par de pontos. E para dizer neste de que gosto, especialmente, da Mama Assustada (título meu, lubricamente traduzido, apesar da tragédia que ela, a teta, simboliza no filme), 2.ª longa-metragem da jovem realizadora peruana Claudia Llosa (sobrinha de Mario Vargas Llosa). Surge como um sério candidato ao Óscar, depois de haver conquistado no Berlinale de 2009 o Urso de Ouro e o prémio do júri da FIPRESCI, capaz de esbotetear a primazia do duo referido no ponto 5.
  8. Toda a informação detalhada nos pontos anteriores foi retirada dos vídeos legendados inseridos na conta do nigeriano Hollypulha no YouTube (irmão do famoso jovem ugandês correspondente do Correio da Manhã), apesar de a sua transcrição estar disponível há muito. Mas como um bom néscio, iletrado, e sobretudo estúpido (coitado de mim) precisei, como acontece com as crianças que, ontogeneticamente, ainda se encontram nos dois primeiros estádios de desenvolvimento – o sensório-motor e o pré-operatório – definidos por Piaget, de umas imagens com bonecos e uma certa animação (do género canal Baby First) para entender o que outrora estava reduzido a caracteres e me inteirar do que já era conhecido há bastante tempo sob a forma de transcrição – podia enveredar pela segunda e única faceta disto tudo, ser um pulha e fingir que não conhecia as transcrições ilegais publicadas em todos os jornais há anos, para com uma admiração abichanada soltar um “aaah!” enquanto levava a mão histrionicamente à boca, que escandaleira… Vou já escrever um artigo no meu cantinho bem pago e dizer, de forma vaga, que estou ofendidíssimo com a justiça, alguns jornalistas e com crime em geral, avisando que a prática de determinados e seleccionados crimes faz mal às pessoas, e nós, como dizia o Nuno Gomes, somos humanos como as pessoas.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Estabilização dos fluidos

Terminou a contraditória excitação estival em busca do sossego pretendido – ou ainda perdura, naturalmente sem o apodo semântico de insensatez, disfarçada de idoneidade intelectual ou de uma vontade inaudita de retomar os afazeres que fui abandonando em razão da manutenção de alguma da minha sanidade mental.
Carreguei uma pilha de livros para três lugares distintos deste nosso lindo Portugal. Descansei, o que se pode traduzir por boas leituras. Levei comigo algumas novidades editoriais, porém, dediquei-me, quase em exclusivo, à leitura daqueles livros que teimavam em ganhar pó – e este, juro-vos, não se consegue rentabilizar pela simples inspiração – na minha imensa estante, de proporções quase límbicas, de obras em lista de espera.
Já aqui dei conta dos três primeiros, aos que agora acrescento quatro, cujo grau de satisfação percorreu de lés a lés o meu espectro classificativo.
Sucintas notas de prova, por ordem de leitura:

Antonio Skármeta, A Dança da Victoria (Lisboa: Dom Quixote, 1.ª edição, Março de 2007, 341 pp.) [tradução de José Colaço Barreiros; obra original: El baile de la Victoria, 2003]
Eis o último romance do laureado escritor chileno, nascido em Antofagasta em 1940, autor do romance mais que sobreavaliado O Carteiro de Pablo Neruda (Ardiente paciencia, 1985) – transposto para o cinema em 1994 pelo realizador indo-britânico Michael Radford.
A Dança de Victoria é um amontoado de clichés, de lirismos anacrónicos com cheiro a naftalina; diálogos fúteis e pueris, metáforas perfeitamente inacreditáveis, quase sempre risíveis pela absurdez, com um enredo de base que pede meças a uma qualquer novela mexicana, onde nem sequer falta um vendável fim semi-trágico, à laia da necessária sangria para salvar do pecado capital as personagens que ficam para contar a história.
De escrita (demasiado) fluida e simples, por vezes intervalada por curtas deambulações poéticas desconexas, e com uma base narrativa a apelar ao realismo mágico sul-americano dos seus inalcançáveis predecessores mais imediatos como García Márquez ou de Vargas Llosa – apelo que se fica por um zunir quase inaudível ao ouvido atento da qualidade literária –, a mediania grassa por toda a obra.
Eis um bom exemplo:
«Ao entrar na zona, o jovem não pôde impedir que dele transbordasse felicidade. Era como se um duche de pistões, semelhante ao que usam para pintar a carroçaria dos automóveis, lhe tivesse varrido o sarro que acumulava nas suas entranhas. Sentia-se limpo, leve, e ao dar-se conta de que estava prestes a fazer em plena rua uma cabriola de dança, compreendeu pela primeira vez aqueles heróis dos musicais de Hollywood que se punham a cantar ou a dançar quando entravam em êxtase.» (pág. 239)
Classificação: ** (Medíocre)

Halldór Laxness, Gente Independente (Lisboa: Cavalo de Ferro, 2.ª edição, Junho de 2007, 483 pp.) [tradução de Gudlaug Rún Margeirsdóttir; obra original: Sjálfstætt fólk, 1933-1935]
Halldór Kiljan Laxness (1902-1998), escritor islandês, vencedor do Nobel da Literatura em 1955 – um ano após Hemingway – escreveu Gente Independente em duas partes distintas (porém interligadas) entre os anos de 1932 e 1935, enquanto vagueava pela Europa.
Gente Independente é um épico sobre a Islândia e as suas insularidade e ruralidade, particularidades em profundo confronto com uma Europa capitalista, moderna, cujos sistemas político, económico, social e tecnológico se transmutaram em torno da produção massificada, naquela que ficaria conhecida como a segunda vaga da revolução industrial, iniciada em meados do século XIX – a acção decorre entre os primeiros anos do século XX e o final da I Guerra Mundial.
À narrativa não é alheia a simpatia do autor pela emergência do ideal socialista de Marx e Engels, que se ia corporizando na Rússia ex-czarista no pós-1917 – que mais tarde, na década de 50, foi objecto do mais veemente repúdio pelo autor, após a constatação in loco da tirania do regime soviético em nome de um ideal irrealizável –, como contraponto à crescente desumanização e à ruína do pequeno proprietário provocadas pela prevalência do capitalismo como o sistema económico.
A história centra-se na vida de um homem obstinado, rústico, tradicional – Bjartur das Casas de Verão – que, a dada altura da sua vida, tenta prosseguir o sonho de se tornar definitivamente independente dos senhores que o albergavam em troca da sua força de trabalho, num sistema tipicamente feudal na Islândia dos primórdios do século passado. Seguindo um enquadramento histórico exemplar, sucedem-se os episódios numas vezes carregados de um fundo cómico proporcionado pela perseverança cega de um personagem fascinante, bem estereotipado e ricamente trabalhado, noutras, porém, emergindo a crueza, a que o autor não se furta, de um sonho que se desfaz ou de uma vitória que se conquista à custa da vida daqueles que o rodeiam, correspondendo à materialização da ideia subjacente à obra de uma independência que jamais se alcança, perante a corrupção do poder e a perversidade de um sistema que, de forma ilusória, se vende e que, simultaneamente, se alimenta das esperanças dos mais fracos.
Gente Independente é um tratado sobre a Teoria Económica sob a forma de romance. Indispensável para compreender a génese do mundo, globalizado, como hoje o conhecemos.
Classificação: ***** (Muito Bom)


Lev Tolstói, A Sonata de Kreutzer (Lisboa: Relógio D’Água, 1.ª edição, Julho de 2007, 115 pp.) [tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra; obra original: Kreutzerova sonata, 1889]
O que dizer desta pequena maravilha da literatura mundial? Que palavras nos restam para classificar pouco mais de cem páginas de uma novela, onde se descobre que o dom inato de um homem, do mesmo autor, para contar histórias curtas irradia com o mesmo brilho, as mesmas intensidade e integridade relativamente àquele que se evidencia pela simples leitura dos seus imortais romances enciclopédicos?
Há muito que Tolstói passou a desempenhar a função de adjectivo, sinónimo de “excelência literária” ou de “grau dificilmente alcançável de perfeição literária” ou simplesmente de “obra-prima”.
Depois dos colossais Guerra e Paz (1869) e Anna Karénina (1877), A Sonata de Kreutzer surge na fase espiritual da vida de Tolstói, iniciada com a publicação de cariz autobiográfico A Minha Confissão (1882), e na sequência da publicação de uma outra obra-prima, A Morte de Ivan Ilitch (1886) frequentemente usada com termo de comparação com a primeira. Se em Ivan Ilitch, Tolstói reflecte sobre a iminência da morte como epifania para a ainda tão contemporânea solidão acompanhada e do egoísmo imanente à espécie humana, em A Sonata de Kreutzer o autor russo reflecte sobre o ciúme, a mulher e o sacramento do casamento, onde a morte surge como instrumento manipulável, reverberando a sua conturbada vida marital após a sua recente conversão: a assunção da razão da moral cristã como princípio de vida e norma de conduta, independente do Homem ou da Igreja – que considera dissoluta, e lhe valerá a pena de excomunhão.
O mais admirável em Tolstói, engenhosamente evidenciado nesta pequena obra-prima, é a sua destreza na manipulação dos personagens, a sua capacidade divina de tão depressa as evidenciar, elevando-as à condição de protagonistas, como num passe de mágica as fazer desaparecer e colocar em primeiro plano uma outra que nada mais é que a ideia central, a moral, se quisermos, da história que nos pretende contar.
Tolstói foi unanimemente considerado pelos seus contemporâneos (Proust, Joyce, Dostoievski, Flaubert, Turguéniev ou Tchékhov) como o génio da Literatura. Morreu sozinho e isolado em 1910 – em 1901 foi atribuído o primeiro Prémio Nobel da Literatura, galardoou o autor francês Sully Prudhomme...
Classificação: ****** (Obra-prima)

Norman Mailer, O Fantasma de Hitler (Lisboa: Dom Quixote, 1.ª edição, Agosto de 2007, 460 pp.) [tradução de Octávio Gameiro; obra original: The Castle in the Forest, 2007]
Com 84 anos, Norman Mailer publica a sua 46.ª obra, O Fantasma de Hitler, uma obra entre a ficção e o ensaio, tal como dezenas de obras da sua extensa bibliografia, que poderemos classificar como “não-ficção criativa”.
Desta vez a personagem é Adolf Hitler (1889-1945) e os primeiros anos da sua existência na sua Áustria natal – romance biográfico tal como Mailer havia feito anteriormente com Lee Harvey Oswald, Jesus Cristo, Pablo Picasso, ou a sua experiência de combate durante a II Guerra Mundial no seu livro, internacionalmente aclamado como a obra-prima, Os Nus e os Mortos (The Naked and the Dead, 1948).
O Fantasma de Hitler é uma história narrada por um personagem chamado Dieter – ou D. T., forma como pede aos leitores que o tratem – presumivelmente um pequeno demónio que mais tarde, a partir de 1938, se materializou como ex-oficial das SS de Heinrich Himmler, e agora, à distância de décadas, radicado nos Estados Unidos conta a história das suas inoculações malévolas ao jovem Adolf, sob a direcção do Mestre – supostamente Satanás – numa luta eterna, sem quartel, baseada na luta dos Dois Reinos descrita por Milton no seu Paraíso Perdido, pela conquista das almas com D. K. – abreviatura para Dummkopf, epíteto jocoso para Deus – e o seu exército de Bastões, como são apelidados os anjos:
«É capaz de ser por isso que o Maestro nos encoraja a falarmos de Deus como o D. K. (pelo menos a nós que trabalhamos em regiões onde se fala alemão. Na América, é o D. A. – dumb ass! Em Inglaterra, o B. F. – bloody fool! Para a França, A. S. – l’âme simple. Na Itália, G. C. – gran cornuto! Entre os espanhóis, G. P. – gran payaso.) […] Isto não quer dizer que consideremos Deus estúpido – isso nunca! […] O nosso uso da palavra Dummkopf advém, penso eu, do desejo do Maestro de nos desabituar da nossa maior fraqueza – a admiração relutante que sentimos pelo Omnipotente. Tal como o Maestro nos relembra constantemente. Deus pode ser Poderoso, mas não é Todo-Poderoso. Isso dificilmente. Nós, ao fim e ao cabo, também cá estamos. Se o D. K. é o Criador, nós somos os Seus críticos mais perspicazes e bem sucedidos.» (pág. 98)
Com este livro, Mailer dá-nos, partindo de factos verídicos recolhidos numa extensa bibliografia sobre Hitler, a visão romanceada da génese de um tirano, cuja subida ao poder em 1933, e o seu reinado de doze anos, mostrou ao mundo um dos maiores facínoras da História, responsável pela aniquilação de milhões de judeus e pela destruição de grande parte dos territórios europeus.
O pequeno Adi – diminutivo de Adolf – surge no seio de uma família cujas práticas ancestrais de incesto vão envenenando os genes das gerações vindouras. Para além de se sugerir que Alois – pai de Adolf – pode de facto ter sangue judeu – que não deixa de ser uma ironia do destino –, sabe-se, com toda a certeza, que Klara – mãe do jovem Hitler – é sobrinha do seu próprio marido, ou possivelmente filha – o estudo genealógico não conseguiu provar esta última tese.
Outro facto cómico surge no momento de concepção de Adolf. Segundo Mailer, Hitler terá sido concebido após um exercício prévio de sexo oral recíproco e simultâneo – prática sexual inovadora para o casal –, vulgo “69”:
«Klara virou-se dos pés para a cabeça, e pôs a sua parte mais indecorosa no nariz e na boca dele [Alois]
que respiravam com dificuldade, e levou o velho aríete dele aos lábios.» (pág. 72)
Após a excitação inicial o próprio Demónio participou no coito vaginal que se seguiu e:

«Assim como Anjo Gabriel foi o servo de Jeová numa noite solene em Nazaré, também eu estava lá com o Demónio nesta concepção nessa noite de Julho, nove meses e dez dias antes de Adolf Hitler ter nascido a 20 de Abril de 1889.
» (pág. 73)
Para além das práticas incestuosas, conhecidas à época como “mal de sangue” e de uma atracção inusitada pelos excrementos, há uma estranha alegoria que perpassa toda a narrativa: o simbolismo da apicultura. A organização escrupulosa, hierarquizada e funcionalmente irrepreensível das abelhas no seu meio, possivelmente usada mais tarde na estrutura de comando nazi.
A fluidez discursiva e a comicidade que o autor norte-americano apõe à sua extensa narrativa, são sem dúvida os pontos mais fortes de uma obra que parece ter sido abandonada a meio do percurso por falta de fôlego – aliás como Mailer recorrentemente alerta no decurso da obra, através das inúmeras reticências ou promessas de uma nova obra que vai deixando no texto.
O que pesará na minha singela avaliação? A destreza descritiva? Ou, sobretudo, parodiando, a lassidão e a inconsistência da profusão escatológica ao longo da obra?
Ao ler este romance de Mailer dominou-me um sentimento de fervorosa aquiescência com os encómios habitualmente a ele dirigidos pelo seu amigo – o mais famoso língua de prata da literatura norte-americana – Gore Vidal
Apesar de tudo:
Classificação: *** (A Ler)