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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

O Estranho Caso do Underdog

Fincher, lucidamente e em face das contínuas coroações de Boyle e do seu SlumBastard, não se deixa deslumbrar pelas 13 nomeações para os Óscares no dia 22. Sabe que Benjamin Button é, neste momento e de forma curiosa, o underdog.
Fã de Milk, apreciador de Dúvida (Doubt), percebe-se um certo desencanto, de certa forma atenuado pela sua idiossincrasia: calmo, metódico e, sobretudo, um homem independente no seu sentido mais lato.



A partir de amanhã tentarei provar, segundo ouvi dizer, dessas histeria e agitação fílmicas boylianas.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Rose/Denby/Scott

Na passada sexta-feira, o inigualável e imbatível Charlie Rose dedicou 40 minutos do seu programa a uma antevisão sobre os possíveis vencedores e vencidos (filmes e actores) que sairão do Kodak Theatre no próximo dia 22, a propósito da 81.ª cerimónia de entrega dos Óscares da Academia.
Para o efeito, Rose convidou dois dos mais prestigiados críticos de cinema norte-americanos: David Denby da revista The New Yorker e A.O. Scott do jornal The New York Times. Críticos com gostos dissemelhantes e de gerações diferentes, que escrevem em dois dos mais importantes órgãos de informação do país, também distintos entre si. Todavia, uma dissensão de fundo cavava, à partida, um fosso entre as opiniões dos dois críticos, e Rose sabia-o: O Estanho Caso de Benjamin Button. Denby considera-o um dos piores filmes do ano – obviamente em termos retóricos, mera estratégia opinativa, argumento falacioso pelo exagero – deixando no ar, a certa altura a pergunta ridícula, «Como podemos ter pensamentos profundos sobre o que é essencial e artificialmente concebido?» Esta questão retórica servindo-se de um impudico sofisma, tentou responder à afirmação categórica de Charlie Rose «eu adorei este filme», completando e justificando o seu deleite fílmico com a angústia que o filme lhe transmitiu pela impossibilidade de amar, causada, na sua essência, por um heteróclito processo de envelhecimento (ao contrário), porém utilizável e plausível nos domínios da ficção.
O que Denby não percebeu ou não quis perceber, munido das suas farpas apriorísticas, e Rose entendeu e não se pôde exceder na sua limitativa qualidade de entrevistador perante um perito da 7.ª arte, é que a beleza do próprio filme reside na confabulação do processo de rejuvenescimento que, à partida e de imediato, soaria ao ouvido de qualquer homem como um ideia maravilhosa mas que choca com o preestabelecido na natureza, o ciclo inexorável nascimento-envelhecimento-morte. Trata-se da refutação, pura e simples, da hipótese inicial formulada por Scott Fitzgerald com base nas palavras de Mark Twain (que por aqui já foram por diversas vezes citadas). Em suma, não é por se padecer de todos os males geriátricos no início de vida e morrer inocente nos braços maternos, sem qualquer conhecimento daquilo que resultou de uma experiência de vida, que os seres humanos deixarão algum dia de sofrer as cruéis vicissitudes da existência no momento. O sofrimento não desaparece, e, pelo desencontro dos processos de transitoriedade existencial
, dificulta ainda mais, numa visão romântica, a concretização da aspiração mais sublime de um ser humano: o amor. Denby diz que rejuvenescer não faz parte da nossa experiência, diz tratar-se de uma «distorção peculiar da nossa existência» e que dramaticamente nunca existiu na vida real, assim a obra é «absorvida pela sua própria mecânica», para de seguida acabar por confessar que admira o filme em termos técnicos – convenhamos que, para pior filme do ano, não é nada mau...
A.O. Scott, um defensor do filme de Fincher, confessa que a cada crítica de Denby, dá por si a admirar cada vez mais o filme, não por uma questão de teimosia infantil, mas por aquilo que os detractores tentam pôr a nu, que é, nem mais, nem menos, onde se situa o código genético da obra, onde reside toda a beleza do filme.

Depois temos um momento potencialmente embaraçoso ao minuto 29:45, quando Rose pede aos seus convidados para dissertarem sobre outro dos filmes nomeados, The Reader do realizador britânico Stephen Daldry – o criador de As Horas (The Hours, 2002), baseado no romance homónimo de Michael Cunningham, vencedor do Óscar para “Melhor Actriz” pela soberba interpretação de Nicole Kidman na pele de Virginia Woolf. Voltando ao debate, são quase três minutos e meio de zurzidela no filme protagonizado por Kate Winslet, com um hilariante remoque à, segundo eles, péssima interpretação de Ralph Fiennes.

Por fim, sem focar outros aspectos do curioso debate e para resumir, ambos os críticos são unânimes ao considerar que seria feita justiça em atribuir, pelo menos, os Óscares para “Melhor Filme” e “Melhor Actor” (Sean Penn) a Milk de Gus Van Sant.

Para acabar de forma apoteótica, Charlie Rose, um veterano e um ícone da PBS e dos meios de comunicação americanos, termina o debate dizendo «que foi a melhor conversa sobre filmes que alguma vez ocorreu naquela mesa.»

Eis o vídeo:


quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Óscares 2009 – nomeações

Há poucos mais de duas horas, foram anunciadas, no Samuel Goldwyn Theater em Beverly Hills, Califórnia, as nomeações para cada categoria dos filmes candidatos à 81.ª edição dos Óscares, atribuídos pela Academia das Artes e das Ciências Cinematográficas de Hollywood. A cerimónia de entrega realizar-se-á no domingo, dia 22 de Fevereiro, às 17 horas locais (dia 23, à 1 da madrugada, hora de Lisboa).
Segue-se uma lista, de elaboração própria, com os 10 filmes que obtiveram três ou mais nomeações, seguida da lista dos nomeados para “Melhor Filme Estrangeiro” e “Melhor Filme de Animação”:

[Em destaque (a bold) as nomeações pertencentes ao denominado Top 5, ou seja, aquelas que se inserem nas cinco categorias artísticas consideradas como as mais importantes na atribuição do galardão: melhores filme, realização, argumento (original e adaptado), actor principal e actriz principal. Ao lado do número de nomeações para cada filme, figurará o número de nomeações para o Top 5, seguida da notação “+”.]

O Estranho Caso de Benjamin Button / The Curious Case of Benjamin Button (13 nomeações, 4+)
Actor – Brad Pitt
Actriz Secundária – Taraji P. Henson
Argumento Adaptado – Eric Roth
Banda Sonora Original – Alexandre Desplat
Caracterização
Direcção Artística
Efeitos Especiais
Efeitos Sonoros
Filme
Fotografia
Guarda-Roupa
Montagem
Realização – David Fincher

Quem Quer Ser Bilionário? / Slumdog Millionaire (10 nomeações, 3+)
Argumento Adaptado – Simon Beaufoy
Banda Sonora Original – A. R. Rahman
Canção Original (2 canções nomeadas)
Efeitos Sonoros
Filme
Fotografia
Montagem
Realização – Danny Boyle
Som

O Cavaleiro da Trevas / The Dark Knight (8 nomeações, 0+)
Actor Secundário – Heath Ledger
Caracterização
Direcção Artística
Efeitos Especiais
Efeitos Sonoros
Fotografia
Montagem
Som

Milk (8 nomeações, 4+)
Actor – Sean Penn
Actor Secundário – Josh Brolin
Argumento Original – Dustin Lance Black
Banda Sonora Original – Danny Elfman
Filme
Guarda-Roupa
Montagem
Realização – Gus Van Sant

Wall-E (6 nomeações, 2+)
Argumento Original – Andrew Stanton e Jim Reardon
Banda Sonora Original – Thomas Newman
Canção Original
Efeitos Sonoros
Filme de Animação
Som

Dúvida / Doubt (5 nomeações, 2+)
Actor Secundário – Philip Seymour Hoffman
Actriz – Meryl Streep
Actriz Secundária – Amy Adams
Actriz Secundária – Viola Davis
Argumento Adaptado – John Patrick Shanley

Frost/Nixon (5 nomeações, 4+)
Actor – Frank Langella
Argumento Adaptado – Peter Morgan
Filme
Montagem
Realização – Ron Howard

The Reader (5 nomeações, 4+)
Actriz – Kate Winslet
Argumento Adaptado – David Hare
Filme

Fotografia
Realização – Stephen Daldry

A Troca / Changeling (3 nomeações, 1+)
Actriz – Angelina Jolie
Direcção Artística
Fotografia

Revolutionary Road (3 nomeações, 0+)
Actor Secundário – Michael Shannon
Direcção Artística
Guarda-Roupa

Melhor Filme de Animação

  • Bolt, de Byron Howard e Chris Williams
  • O Panda do Kung Fu (Kung Fu Panda), de Mark Osborne e John Stevenson
  • Wall-E, de Andrew Stanton

Melhor Filme Estrangeiro

  • O Complexo Baader Meinhof, de Uli Edel – Alemanha (Der Baader Meinhof Komplex / The Baader Meinhof Complex);
  • Okuribito, de Yojiro Takita – Japão (Departures);
  • Revanche, de Gotz Spielmann – Áustria;
  • A Turma, de Laurent Cantet – França (Entre les murs / The Class);
  • A Valsa com Bashir, de Ari Folman – Israel (Vals Im Bashir / Waltz with Bashir).

Notas:

  • Tal como nos Globos de Ouro e nos BAFTA, o filme O Wrestler (The Wrestler), realizado por Darren Aronofsky, obteve as mesmas duas nomeações em categorias de interpretação: Mickey Rourke na categoria de “Melhor Actor” e Marisa Tomei na categoria de “Melhor Actriz Secundária”;
  • O filme A Duquesa (The Duchess) do jovem realizador britânico Saul Dibb – recorde-se que realizou para a BBC a excelente minissérie A Linha da Beleza (The Line of Beauty) baseado no aclamado romance homónimo, vencedor do Booker Prize de 2004, de Alan Hollinghurst, com adaptação a cargo do eminente argumentista Andrew Davies – obteve duas nomeações: melhores “Direcção Artística” e “Guarda-Roupa”;
  • De notar o eclipse total dos irmãos Coen das nomeações, que este ano apresentavam o medíocre Destruir Depois de Ler (Burn After Reading), e isto depois de terem sido os grandes vencedores da edição dos Óscares do ano passado (a 80.ª) com o filme Este País Não É para Velhos (No Country for Old Men) com 4 estatuetas arrecadadas: Melhores “Filme”, “Realização”, “Argumento Adaptado” (de um romance de Cormac McCarthy) e “Actor Secundário” (Javier Bardem);
  • Nenhum dos filmes a concurso conseguiu ser nomeado para todas as categorias do Top 5, no entanto, houve quatro filmes (O Estanho Caso de Benjamin Button, Milk, Frost/Nixon e The Reader) que conseguiram obter quatro nomeações nesse conjunto de cinco, o que, desde logo, indicia uma noite em branco para muitos deles.
  • Para informações mais detalhadas consultar, em português, a notícia do Público, e, em inglês, o próprio sítio da Academia.

Até lá “vejam sempre bons filmes” e participem na sondagem que figurará na coluna do lado direito deste blogue até ao final do mês, sobre o filme que elegeriam como o melhor entre os vinte últimos vencedores da categoria “Melhor Filme” dos Óscares da Academia.

(Para o ano espero juntar ao rol o filme de Fincher…)

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Melhor Filme Estrangeiro – Óscares

Imagem do filme Aquele Querido Mês de Agosto, de Miguel Gomes

Foram hoje anunciados, pela Academia das Artes e das Ciências Cinematográficas de Hollywood, os nove dos sessenta e cinco filmes a concurso que passaram a integrar a lista de semifinalistas candidatos ao Óscar para Melhor Filme Estrangeiro, de onde sairão, no próximo dia 22 de Janeiro, os cinco nomeados para a sessão de entrega das estatuetas douradas, a realizar no Kodak Theatre no dia 22 de Fevereiro (23 de Fevereiro, à 1 da manhã, hora de Lisboa).
Uma vez mais Portugal ficou de fora. No passado dia 30 de Setembro, a comissão de selecção do ICA (Instituto do Cinema e do Audiovisual) elegeu o filme de Miguel Gomes, Aquele Querido Mês de Agosto, como concorrente português à categoria de “Melhor Filme Estrangeiro” na 81.ª edição de entrega dos Óscares da Academia.

Sem mais delongas, eis a lista dos nove filmes semifinalistas (por ordem alfabética do título em português, se existir, ou título original):

  • Arráncame la vida, de Roberto Sneider – México (Tear This Heart Out);
  • Ce qu’il faut pour vivre, de Benoît Pilon – Canadá (The Necessities of Life);
  • Der Baader Meinhof Komplex, de Uli Edel – Alemanha (The Baader Meinhof Complex);
  • Maria Larssons eviga ögonblick, de Jan Troell – Suécia (Everlasting Moments);
  • Okuribito, de Yojiro Takita – Japão (Departures);
  • Revanche, de Gotz Spielmann – Áustria;
  • Os Três Macacos, de Nuri Bilge Ceylan – Turquia (Üç maymun / Three Monkeys);
  • A Turma, de Laurent Cantet – França (Entre les murs / The Class);
  • A Valsa com Bashir, de Ari Folman – Israel (Vals Im Bashir / Waltz with Bashir).

Notas:

  • Três dos nove filmes já estrearam em Portugal, e o representante alemão, Der Baader Meinhof Komplex, estreará, em princípio, no próximo dia 29 de Janeiro.
  • Surpresa na exclusão do supernomeado Gomorra, filme italiano realizado por Matteo Garrone, baseado no livro homónimo escrito pelo temerário jornalista Roberto Saviano. Terá sido uma incauta, e bem latina, prova de vida do aparentemente estilhaçado submundo italo-americano, que outrora, como bem sabemos, se encontrava bem infiltrado no show business norte-americano?

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Falta aqui alguém...

Seis realizadores nomeáveis para os Óscares deste ano numa mesa redonda promovida pelo The Hollywood Reporter para falar sobre o trabalho do ano e a inevitável bambochata dos projectos para o futuro.
Há por aí vídeos espalhados com as palavras, interpelações e expressões pretensamente espirituosas dos seis egos em análise.


Os Óscares. Essa terrível estatueta dos infernos para o profissional de cinema ou cinéfilo culto. Há, todavia, uma imagem que, por mais tempo que a minha alma deambule sobre este planeta, jamais irei esquecer: a subida ao palco do Kodak Theatre de Martin Scorsese, no dia 25 de Fevereiro de 2007, para receber das mãos do trio Coppola/Lucas/Spielberg a estatueta dourada pela “Melhor Realização” em Entre Inimigos (The Departed, 2006): a alegria agarotada de um homem sexagenário que conquistou o presente que ardentemente desejou durante anos, de sorriso comovido, rasgado de orelha a orelha, o orgulho pelo reconhecimento, menos apalhaçado, patético e grotesco que um Benigni em 1999, menos enfatuado que um Cameron, “King of the World”, em 1998, mas mais contido que um realmente feliz, sem vergonha de o mostrar em directo para milhões de pessoas, Stanley Donen, pai do Serenata à Chuva (Singin’ in the Rain, 1952) quando em 1998 recebeu o Óscar honorário e executou um notável pas de deux, em pleno Shrine Auditorium, com a estatueta ao som do “Cheek to Cheek” de Irving Berlin, canção imortalizada no filme musical de Mark Sandrich Chapéu Alto (Top Hat) de 1935 por Fred Astaire e mais tarde parte integrante de um dos melhores álbuns musicais de sempre, Come Dance with Me! (1959) de Frank Sinatra, com arranjo orquestral e direcção de orquestra de Billy May.
Muito poucos se podem gabar da indiferença com que encaram o evento e, em jeito de peroração palmelense, vocês sabem de quem estou a falar…

Mas, voltando ao meeting dos prováveis, alguém faltou...

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Oscar®*

Paul Thomas Anderson e Daniel Day-Lewis
Prometi que não voltava ao tema dos Oscars®, embora deixasse ficar a ressalva que a ele poderia voltar após assistir à projecção de Este País Não É para Velhos dos Irmãos Coen (sem “h”) – filme que estreia amanhã no circuito comercial português, cuja antestreia ocorreu na passada segunda-feira na abertura do Fantasporto 2008.

Todavia, este texto do Sérgio no seu Auto-Retrato – novamente sem caixa de comentários e, como Sérgio confessou no seu regresso à blogosfera após uma curta ausência, tem tido alguma dificuldade de, atempadamente, responder às inúmeras mensagens de correio electrónico que lhe assaltaram a caixa postal – merece, da minha parte, uma brevíssima réplica.
Como referi
aqui, antes da realização da cerimónia de atribuição dos Óscares da Academia, consegui ver a totalidades dos filmes que foram objecto de nomeação por via da categoria de “Melhor Actor”. Por aquilo que pude ver, apreciando com alguma cautela – especialmente após o anúncio de 22 de Janeiro último – as 5 interpretações referenciadas, não vacilei, nem por um único instante, no momento de apontar o meu eleito. Afirmei, categoricamente: Daniel Day-Lewis desempenhou o papel da sua vida e a sua actuação não encontra rival nas últimas três décadas da historiografia do cinema mundial – e esta é, como me parece óbvio e salutar, uma opinião eminentemente pessoal, por isso questionável e, em consequência, admitindo a eventual diferença de opinião manifestada por quem eu reconheça como autoridade cinéfila.
Ignoro a existência de critérios científicos que me permitam objectivar uma qualquer manifestação artística, tal como repudio a mera tentativa de outros para os criarem. No domínio dos “gostos” encontramos sempre um arrazoado, mais ou menos verdadeiro, leia-se mais ou menos falacioso, que permite sancionar e justificar as nossas opções.



O que é que eu vi em “Daniel Plainview”, a pele atribuída por PT Anderson a Daniel Day-Lewis, que este último encheu à discrição de carne e osso?
Um ser obstinado pelos eflúvios inebriantes do dinheiro e do poder, que lhe toldam qualquer perspectiva de vida e de uma maneira de viver que vá para além da demanda por novas formas que lhe permitam manter ou engrandecer essa embriaguez. Não há amizade, não há família; não há Deus, nem religião; não há valores e princípios por que lutar; não há amor, muito menos paixão; não há arrependimento e perdão (rima involuntária que a preguiça sinonímica impediu a devida correcção). O Guião de PT Anderson pedia uma máquina humana, cúpida, celerada, implacável. Um guião que procurou, quase que obsessivamente, a concentração destas características num só homem, e isto se o compararmos com o magnata J. Arnold Ross do romance Oil! de Upton Sinclair cuja trama se concentra numa contenda ideológica deste com o seu filho “Bunny”. Um confronto entre o capitalismo despótico e o socialismo. Por diversas razões e algumas vicissitudes ocorridas durante a fase de produção do filme – designadamente, a escassez de financiamentos –, Haverá Sangue foi-se progressivamente afastando do fulcro da obra de Sinclair; PT transformou o filme numa obra de um só personagem. Anderson já havia apostado em Day-Lewis, e confrontado com as novas restrições deu-lhe o guião pedindo-lhe o seu sangue…


DDL conseguiu: foi a estrela que cintilou no negrume do petróleo. Deu tudo de si, criou um personagem na dimensão de um Charles Foster Kane (Orson Welles) ou de um Jett Rink (James Dean), e com uma inspiração confessada (por PT) em Fred C. Dobbs (Humphrey Bogart) e no trio de gananciosos prospectores de ouro.

Depois, a rigorosa selectividade aposta por Day-Lewis nos filmes que protagoniza, não pode nem deve ser subvertida, como se tratasse de uma fraqueza ou de uma debilidade de carácter do actor. Se essa exigência existe, ela deve-se, por um lado, ao estatuto conquistado pelas suas portentosas e aclamadas interpretações anteriores e, por outro, ao arrepio da distintiva cupidez criminosa do personagem interpretado, Daniel Plainview, à consciência de que ser um actor de Hollywood não o obriga a aceitar todo e qualquer papel para acrescentar mais uns milhões à sua já incomensurável riqueza; ao contrário, por exemplo, do seu compatriota Anthony Hopkins que já ameaçou retirar-se uma dúzia de vezes – lembram-se da reforma anunciada após a filmagem de Instinto em 1999 (Instinct)? Atentem no cine-lixo que fez a seguir –, ou que se iria tornar mais selectivo na escolha dos guiões propostos; no entanto, a realidade está aí para o desmentir.

Finalmente, no que respeita ao unanimismo (ou quase unanimidade) na apreciação da última prestação de Daniel Day-Lewis, só posso dizer que já há muito deixei a minha rebeldia pubertária de ir contra a corrente da opinião, quando assumia orgulhosa e bravamente a diferença no campo artístico (música, cinema e literatura). E, neste caso concreto, o unanimismo até proveio dos artigos de crítica cinematográfica e do direito de voto exercido por especialistas na matéria (e isto se exceptuarmos a crítica portuguesa) e não do público, que se reviu mais no melodrama choramingas de McAvoy, nos golpes de artes marciais em pelote de Mortensen, na irritante e omnipresente presunção de Clooney ou na destreza navalhística de Depp. Tommy Lee Jones tem, como já referi, uma boa interpretação no filme No Vale de Elah, embora esteja longe do seu melhor (e estou ansioso por o ver na pele do Xerife Ed Tom Bell, cujas reflexões me apaixonaram ao ler o romance de Cormac McCarthy), como por exemplo no filme O Fugitivo (The Fugitive, 1993) de Andrew Davis no papel do implacável e legalista U.S. Marshall Samuel Gerard, papel que lhe valeu o Óscar para Melhor Actor Secundário (vá-se lá saber por que carga de água lhe foi atribuído neste filme o papel secundário); ou em Chuva de Fogo (Blown Away, 1994), desempenhando o papel de um psicopata bombista Ryan Gaerity; entre outras excelentes interpretações que referi no
texto mencionado.

Dos 5 nomeados ao Oscar® para “Melhor Actor”, e por ordem de decrescente do número de prémios arrecadados com as respectivas interpretações, temos:

Daniel Day-Lewis (“Daniel Plainview” em Haverá Sangue) – 19 prémios
Academy Awards – Oscar
BAFTA film Awards
Broadcast Film Critics Association Awards
Central Ohio Film Critics Association
Chicago Film Critics Association Awards
Dallas-Fort Worth Film Critics Association Awards
Florida Film Critics Circle Awards
Globo de Ouro (Drama)
Kansas City Film Critics Circle Awards
Las Vegas Film Critics Society Awards
London Critics’ Circle Film Awards (ALFS)
Los Angeles Film Critics Association Awards
National Society of Film Critics Awards (EUA)
New York Film Critics Circle Awards
Online Film Critics Society Awards
Phoenix Film Critics Society Awards
San Diego Film Critics Society Awards
Screen Actors Guild Awards (EUA)
Southeastern Film Critics Association Awards

Viggo Mortensen (“Nikolai” em Promessas Perigosas) – 4 prémios
British Independent Film Awards
Sant Jordi Awards (Melhor Actor Estrangeiro)
Satellite Awards (Drama)
Toronto Film Critics Association Awards

George Clooney (“Michael Clayton” em Michael Clayton – Uma Questão de Consciência) – 3 prémios
National Board of Review (EUA)
San Francisco Film Critics Circle
Washington DC Area Film Critics Association Awards

Johnny Depp (“Benjamin Barker/Sweeney Todd” em Sweeney Tood – O Terrível Barbeiro de Fleet Street) – 2 prémios
Globo de Ouro (Musical ou Comédia)
People's Choice Awards – Favorite Male Movie Star (independentemente do filme)

Tommy Lee Jones (“Ed Tom Bell” em Este País Não É para Velhos) – 2 prémios
San Diego Film Critics Society Awards (Actor Secundário,)
Screen Actors Guild Awards (prémio colectivo, melhor elenco)
Nota: obteve 3 nomeações pelo personagem “Hank Deerfield” No Vale de Elah, derrotado por duas vezes por Daniel Day-Lewis “Daniel Plainview” e uma por Viggo Mortensen “Nikolai”. Por outro lado, o filme No Vale de Elah, no total, apenas ganhou o prémio SIGNIS (Associação Católica Mundial para a Comunicação) para melhor filme no último Festival de Veneza.


Nota: * “Oscar” é o personagem principal do filme de animação de 2004, Shark Tale (O Gang dos Tubarões) da Dreamworks, cuja voz pertence ao actor norte-americano Will Smith. Foi assim mesmo baptizado na versão dobrada em português e lê-se como sendo oxítona: “Oscar” pronuncia-se com a mesma entoação de “buscar”, ou então, para ser mais preciso de “emboscar” com o “o” aberto. Ora, na língua portuguesa as palavras graves (aquelas cuja sílaba tónica é a penúltima) não são por regra acentuadas, havendo, no entanto, algumas excepções, como por exemplo em palavras terminadas, entre outras, pela consoante “r”: “carácter”, “almíscar”, “esfíncter”, “mártir”, e por aí em diante.
Se se pretende não acentuar o nome do galardão da Academia das Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, então devê-lo-emos pronunciar assim. Mas então “Nobel” pela mesma ordem de razão deveria vir “Nóbel”? Aqui Saramago tem razão, tanto as nossas regras de acentuação, como a pronunciação dos próprios suecos é “Nobel”… e o Estado norte-americano da “Florida”, prefiro dizê-lo “Flórida”, mas não consta do vocabulário português. Isto dava pano para mangas, e há cerca de 1 ano tomei a decisão de passar a empregar por regra “Óscar” e “Óscares”, ao invés de “Oscar” e “Oscars” como fazia até então (basta consultar os meus textos antigos).

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Óscares IV – Impressões e considerações finais

[Para acabar com o assunto de vez, deixo aqui ficar algumas impressões sobre a noitada de ontem (poucas, a paciência não chega para tanto, com a agravante de correr o sério risco de me chamarem de cinefilamente superficial, ou coisas piores)]

Em 7 pontos
  1. Uma parte importante (38%) dos milhares (porventura centenas) de leitores deste blogue preferia ver o filme Expiação como o vencedor da noite (28% elegeria Haverá Sangue, cerca de 23% viu realizado o seu desejo ao assistir à vitória de Este País Não É para Velhos e 9% votou em Juno e, ainda, Nespresso "0");
  2. Não me furtei a um insonoro sorrisinho sardónico, mas com expressão de Mutley (mais inteligente, claro), que preocupantemente perdurou por alguns minutos na minha expressão facial – qual Jack Nicholson no Joker de Burton –, enquanto escrevia o texto anterior ao haver constatado que Expiação figurava no aglomerado de filmes galardoados com apenas 1 Óscar, pequena malícia potenciada pela categoria: “Melhor Banda Sonora Original” – meses após a estreia, ainda se pode escutar o reverberante martelar das teclas da máquina de escrever… mas, não é por tanto dedilhar que se responde satisfatoriamente ao desafio: como agarrar o talento e a subtileza de McEwan?
  3. A cerimónia foi fraquinha. Cheia de pontos mortos e com algumas descoordenações e embaraços. Repararam no friíssimo cumprimento entre Jon Stewart e Owen Wilson?
    Stewart esteve igual ao papel representado no Daily Show da Comedy Central, física e comicamente abaixo do seu amigo Colbert, e longe dos inesquecíveis Johnny Carson, Bob Hope, Chevy Chase e até Billy Crystal. Tem, já sabemos, o invariável defeito whoopi-goldberguiano de se rir das suas próprias piadas, mesmo quando se apercebe do falhanço de algumas delas – aqui, porém, consegue ficar
    acima de Herman José, que continua a considerar-se um delicioso irreverente mesmo perante uma terrível sucessão de boçalidades acabadas de sair da sua boca – que o digam Dennis Hopper, quando Stewart lhe perguntou se aquele sabia onde se encontrava, e Jack Nicholson (que, convenhamos, pela pose, já estafada, a isso se presta) quando Stewart refere as actrizes grávidas presentes no Kodak Theatre. Porém, houve duas piadas de circunstância que se destacaram das demais pelo brilho relativo: (1) Quando Stewart se referiu ao desempenho da actriz Julie Christie em Longe Dela, filme que retrata as sequelas da doença de Alzheimer na vida de uma família: «Julie Christie was absolutely amazing in Away From Her. Brilliant movie. It was the moving story of a woman who forgets her own husband. Hillary Clinton calls it the feel good movie of the year»; (2) A incontornável referência de Stewart às 80 edições da cerimónia da estatueta dourada: «Oscar is 80 this year, which makes him now automatically the frontrunner for the Republican nomination.»
  4. Gostei de ver a alegria incontida do, normalmente esquivo e sorumbático, Cormac McCarthy pelo reconhecimento, embora indirecto, da sua obra. O seu romance, já aqui o havia referido nas minhas notas de leitura (pede-se o favor a V. Exas. de as procurarem na coluna do lado direito), é tenebrosamente excepcional (na fase do inventivo rescaldo, gostei especialmente da curta frase asinina do Público, reproduzida pelo João, sobre o romance do autor norte-americano: «Este País não é para Velhos, a adaptação de um romance de Cormac McCarthy que conta a história de um negócio de droga que dá para o torto, no sul do Texas», o título do texto e o comentário do João levaram-me às lágrimas; mas, enfim, temos aquilo que merecemos.
  5. Comentários lusos nos estúdios da TVI: Teve uma certa graça – noutros tempos ter-me-ia dado ao trabalho de escrever um cáustico e vigoroso e-mail de protesto – a pequena discussão entre os comentadores gerada pela atribuição do Óscar honorário ao director artístico Robert Boyle, com os seus 98 anos, em que as variantes Boyle e Doyle saltaram, qual jogo de pingue-pongue com bolas de golfe, entre Vieira Mendes e Tendinha, abafando (salvo seja) Nicole Kidman e as primeiras palavras do provecto director artístico. E depois, interrogo-me todos os anos, por que raio a TVI não disponibiliza a emissão sem comentários, via canais de som diferentes?
  6. PT Anderson perdeu, e manteve-se na sua postura sonolenta; talvez seja timidez, outros afiançam que é fleuma e sobranceria. Salvou-se a Direcção de Fotografia, para além do esperado e merecidíssimo Óscar pela magistral interpretação de Daniel Day-Lewis.
  7. Com canções horrorosas, uma orquestra dirigida por Bill Conti que a certa altura pareceu entrar na competição internacional do trecho musical para cinema mais desafinado, sem as habituais apresentações individualizadas dos filmes candidatos ao galardão máximo, com uma plateia que não se renova a cada ano que passa – sempre com a mascote testosterónica de óculos de sol e sorriso lúbrico na linha da frente – e umas meninas choronas que abrem a torneira sempre que o tom do “thank you Academy” se aproxima do sussurro meloso de Jennifer Tilly com cambiantes do histriónico discurso com soluço intercalado de Renée Zellweger, este formato está morrer aos poucos, já não há pachorra… mas para o ano… é superior às minhas forças, noitada garantida. Junta-te a eles...

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Óscares III – Os Vencedores de 2008


Vitória em três apelidos: Bardem, Coen e McCarthy

Acabaram de ser atribuídos os galardões mais importantes no mundo do cinema – quer se goste ou não, repudiando ou simplesmente tentando ignorar, ninguém consegue ficar indiferente à noite mágica de Hollywood; é assim desde 1929, ano em que uma estatueta misteriosamente apelidada de Óscar vai enchendo de sonhos o imaginário de todos aqueles que do Cinema fazem a sua arte.
Eis os vencedores da 80.ª Cerimónia de entrega dos Óscares da Academia das Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood:

4 Óscares (1 filme)
Este País Não É para Velhos (No Country for Old Men) de Joel e Ethan Coen
- Actor Secundário – Javier Bardem
- Argumento Adaptado – Joel e Ethan Coen
- Filme
- Realização – Joel e Ethan Coen

3 Óscares (1 filme)
Ultimato (Bourne Ultimatum) de Paul Greengrass
- Efeitos de Som
- Montagem
- Som

2 Óscares (2 filmes)
Haverá Sangue (There Will Be Blood) de Paul Thomas Anderson
- Actor – Daniel Day-Lewis
- Fotografia

La Vie en Rose (La Môme) de Olivier Dahan
- Actriz – Marion Cotillard
- Caracterização

1 Óscar (9 filmes)
A Bússola Dourada (The Golden Compass) de Chris Weitz
- Efeitos Especiais

Elizabeth – A Idade do Ouro (Elizabeth: The Golden Age) de Shekhar Kapur
- Guarda-Roupa

Expiação (Atonement) de Joe Wright
- Música (BSO) – Dario Marianelli

Os Falsificadores (Die Fälscher) de Stefan Ruzowitzky
- Filme Estrangeiro – País de Origem: Áustria; Título EUA: The Counterfeiters

Juno (Juno) de Jason Reitman
- Argumento Original – Diablo Cody

Michael Clayton – Uma Questão de Consciência (Michael Clayton) de Tony Gilroy
- Actriz Secundária – Tilda Swinton

Once de John Carney
- Canção – “Falling Slowly”, por Glen Hansard e Markéta Irglová

Ratatui (Ratatouille) de Brad Bird
- Filme de Animação

Sweeney Todd: O Terrível Barbeiro de Fleet Street (Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street) de Tim Burton
- Direcção Artística



Despeço-me com a pose de Tio Alfred H, sabendo que me esperam apenas 3 marcelistas horas de sono (talvez haja mais considerações para quando o sono estiver em dia):

Ladies and Gentlemen, good night!

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Óscares II

[Imagem: ©New York Magazine]


Esta é uma das poucas categorias, senão a única – a preguiça é amiga da dúvida –, em que tive a feliz, porque escassa, oportunidade de ver todos os filmes a concurso – por mera curiosidade, ocorre precisamente o contrário com a categoria Melhor Actriz, será talvez um fenómeno de manifestação tácita de alguma misoginia fílmica?...

  • George Clooney em Michael Clayton – Uma Questão de Consciência
  • Daniel Day-Lewis em Haverá Sangue
  • Johnny Depp em Sweeney Tood – O Terrível Barbeiro de Fleet Street
  • Tommy Lee Jones em No Vale de Elah
  • Viggo Mortensen em Promessas Perigosas

Day-Lewis é magistral. O melhor actor da actualidade, realizou, porventura, a melhor interpretação cinematográfica das últimas duas ou três décadas, e uma das melhores da história do cinema. Nesta categoria, tratar-se-á, em princípio, da corrida de um só homem, os outros co-nomeados já disso se aperceberam, mesmo que Clooney no seu estilo trombeteiro, vendedor da própria imagem nas suas incansáveis buscas por microfone aberto, tenha referido que se sente como a Hillary Clinton desta competição, se não houvesse Obama [Day-Lewis]…
Permita-me que discorde, Mr. Clooney. O seu desempenho é banal, na linha do “Nespresso, what else?”, num filme prenhe de clichés, que estranhamente foi angariando nomeações em tudo o que era festival de cinema ou cerimónia de entrega de prémios.

Acima de Clooney está, sem sombra de dúvida Viggo Mortensen em Promessas Perigosas – apesar da minha inexplicável embirração com este actor. Segundo se diz, David Cronenberg deu total liberdade interpretativa a Mortensen, o que não só é revelador da confiança extrema aposta por um dos génios da realização da actualidade a um actor, como, ao verificar-se a consistência imagética e cénica do produto final, das qualidades reais do actor.

Tommy Lee Jones desempenha um excelente papel num filme medíocre, sem trazer qualquer tipo de novidade a uma carreira já com alguns sucessos e interpretações mais bem conseguidas, como por exemplo em Os Três Enterros de um Homem (The Three Burials of Melquiades Estrada, 2005), filme também realizado por si e que lhe permitiu arrecadar o prémio para Melhor Actor no Festival de Cannes, ou em O Fugitivo (The Fugitive, 1993) com que arrecadou o Óscar para Melhor Actor Secundário, não esquecendo a sua interpretação bem mitchumiana em Chuva de Fogo (Blown Away, 1994) e por antítese, no papel de homem traído em Céu Azul (Blue Sky, 1994) de Tony Richardson.

Quanto a Johhny Depp e o seu barbeiro demoníaco, abstenho-me de qualquer comentário adicional, não vá recidivar na náusea que me assolou pelo mero exercício de recordação. Ah, pois, dizem que o ídolo dos teenagers das pipocas canta muito bem…

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Óscares I

[Imagem: ©New York Magazine]

Vi 3 dos 5 filmes candidatos ao prémio mais aguardado da noite – normalmente o último a ser entregue:

  • Expiação (Atonement)
  • Haverá Sangue (There Will Be Blood)
  • Michael Clayton – Uma Questão de Consciência (Michael Clayton)

Escolha pessoal (sem vacilar): Haverá Sangue
Vencedor – Previsão (para mal dos meus pecados): Expiação
Surpresa da noite (hipótese aventada nos meandros de Hollywood): Juno
Pela crítica e pela opinião dos espectadores: Este País Não É Para Velhos (para quem, como eu, considerou o livro de base de Cormac McCarthy como o 4.º melhor livro editado em Portugal no ano de 2007, e que, ademais, é admirador incondicional dos fabulosos irmãos Coen, este seria, sem dúvida, um excelente vencedor).

Nota: inquérito em linha sobre a sua preferência (coluna do lado direito)

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Óscares 2008 – nomeações


Foram anunciadas as nomeações para os Óscares 2008, cuja cerimónia de entrega decorrerá no Kodak Theatre, Hollywood, no próximo dia 24 de Fevereiro (1 hora e 30 minutos da madrugada do dia 25, hora de Portugal Continental).
Para não fugir à regra, a Academia reservou algumas surpresas para este dia, como a única nomeação para o filme mais recente de David Cronenberg (Promessas Perigosas, na categoria para “Melhor Actor”, Viggo Mortensen) ou as duas apenas para O Lado Selvagem de Sean Penn (Actor Secundário: Hal Holbrook; Montagem).
Ao invés, ficaram no capítulo “penalizações mais que aguardadas” as modestas duas nomeações tanto para Gangster Americano de Ridley Scott (Actriz Secundária: Ruby Dee; Direcção Artística), como para Elizabeth – A Idade do Ouro de Shekhar Kapur, embora neste caso tenha havido uma nomeação maior, a de Cate Blanchett na categoria de “Melhor Actriz” (a outra nomeação foi para o guarda-roupa), juntando assim a sua nomeação para “Melhor Actriz Secundária” com I’m Not There.
Excluídos da competição ficaram The Great Debaters, o segundo filme realizado por Denzel Washington e Sedução, Conspiração, o controverso e mais recente filme do realizador taiwanês Ang Lee.
Entretanto, tal como temia, sem no entanto o haver referido (daí a citação, com direito a ilustração, no texto anterior), o filme La Sconosciuta de Giuseppe Tornatore não foi nomeado para a categoria de “Melhor Filme Estrangeiro”, ficando igualmente de fora a película brasileira pré-seleccionada (ver texto).

Finalmente, eis uma lista, de elaboração própria, com os 12 filmes mais nomeados para os Oscars 2008®, seguida da lista dos nomeados para “Melhor Filme Estrangeiro” e “Melhor Filme de Animação”:
[Em destaque (a bold) e com o sinal “+” as nomeações pertencentes ao denominado Top 5, ou seja, aquelas que dizem respeito às cinco categorias consideradas como as mais importantes na atribuição do galardão. A saber, melhores filme, realização, argumento (original e adaptado), actor principal e actriz principal.]

Este País Não É para Velhos / No Country for Old Men (8 nomeações, 3+)
Actor Secundário – Javier Bardem
Argumento Adaptado – Joel e Ethan Coen
Efeitos Sonoros
Filme
Fotografia
Montagem
Realização – Joel e Ethan Coen
Som

Haverá Sangue / There Will Be Blood (8 nomeações, 4+)
Actor – Daniel Day-Lewis
Argumento Adaptado – Paul Thomas Anderson

Efeitos Sonoros
Filme
Fotografia
Montagem
Realização – Paul Thomas Anderson
Som

Expiação / Atonement (7 nomeações, 2+)
Actriz Secundária – Saoirse Ronan
Argumento Adaptado – Christopher Hampton
Direcção Artística
Filme
Fotografia
Guarda-Roupa
Música (BSO) – Dario Marianelli

Michael Clayton – Uma Questão de Consciência / Michael Clayton (7 nomeações, 4+)
Actor – George Clooney
Actor Secundário – Tom Wilkinson
Actriz Secundária – Tilda Swinton
Argumento Original – Tony Gilroy
Filme

Música (BSO) – James Newton Howard
Realização – Tony Gilroy

Ratatui / Ratatouille (5 nomeações, 2+)
Argumento Original – Brad Bird
Efeitos Sonoros
Filme (Animação)
Música (BSO) – Michael Giacchino
Som

O Escafandro e a Borboleta / Le scaphandre et le papillon (4 nomeações, 2+)
Argumento Adaptado – Ronald Harwood
Fotografia
Montagem
Realização – Julian Schnabel

Juno / Juno (4 nomeações, 4+)
Actriz – Ellen Page
Argumento Original – Diablo Cody
Filme
Realização – Jason Reitman


La Vie en Rose / La Môme (3 nomeações, 1+)
Actriz – Marion Cotillard
Caracterização
Guarda-Roupa

Sweeney Todd: O Terrível Barbeiro de Fleet Street / Sweeney Todd: The Demon Barber of Fleet Street (3 nomeações, 1+)
Actor – Johnny Depp
Direcção Artística
Guarda-Roupa

Transformers / Transformers (3 nomeações, 0+)
Efeitos Especiais
Efeitos Sonoros
Som

Ultimato / The Bourne Ultimatum (3 nomeações, 0+)
Efeitos Sonoros
Montagem
Som

Uma História de Encantar / Enchanted (3 nomeações, 0+)
Música (3 Canções originais)


Melhor Filme Estrangeiro

  • Beaufort, de Joseph Cedar (Israel);
  • 12, de Nikita Mikhalkov, (Rússia);
  • Os Falsificadores, de Stefan Ruzowitzky (Áustria: Die Fälscher; título EUA: The Counterfeiters);
  • Katyn, de Andrzej Wajda (Polónia);
  • Mongol, de Sergei Bodrov (Cazaquistão).

Melhor Filme de Animação

  • Dia de Surf, de Ash Brannon e Chris Buck (Surf’s Up)
  • Persepolis, de Vincent Paronnaud e Marjane Satrapi
  • Ratatui, Brad Bird e Jan Pinkava (Ratatouille)

Filmes Estrangeiros

Enquanto Expiação de Joe Wright (Atonement, 2007) se prefigura como o mais forte dos putativos candidatos a arrecadar as estatuetas douradas da Academia das Artes e das Ciências Cinematográficas de Hollywood, com sessão de entrega marcada para o próximo dia 24 de Fevereiro às 17:30 PST (madrugada de 25 de Fevereiro, 1:30, hora de Portugal Continental), uma das principais curiosidades, cuja expectativa se adensou na passada terça-feira, dia 15, está na escolha do Melhor Filme Estrangeiro.

Hoje mesmo em Hollywood todas as dúvidas serão desfeitas. Juntamente com as outras categorias, serão anunciados os 5 filmes finalistas para o melhor dos não-anglófonos. De uma lista inicial de 63 candidatos, representando outros tantos países, foi escolhida, há precisamente uma semana, uma lista de semifinalistas, composta por 9 filmes, dos quais 5 são europeus.
Portugal, relegado uma vez mais para a lista do olvido da Meca do cinema mundial, concorreu, através de candidatura e selecção prévia do ICA, com Belle Toujours de Manoel de Oliveira.
Um propósito, à laia de autojustificação, para desfazer o forte sentimento de inutilidade deste texto no momento em que o escrevia: dar o devido destaque – suponho que já o havia feito neste blogue há pelo menos um ano, a propósito da sua estreia, numa das minhas típicas irritações com os critérios comerciais na selecção dos filmes para exibição nas salas de cinema portuguesas – ao meu mui apreciado realizador italiano Giuseppe Tornatore que com A Desconhecida (título, por enquanto, não oficial) se estreou nos domínios do thriller psicológico e que, segundo dizem, revela toda a mestria do criador do fabuloso Cinema Paraíso (Nuovo cinema Paradiso, 1988) e do genial, enternecedor e comovente, embora ignorado pelas massas, Estão todos bem (Stanno tutti bene, 1990).
Destaque também para a pré-nomeação do russo Nikita Mikhalkov e para o veterano realizador polaco Andrzej Wajda, não esquecendo que a língua portuguesa irá ser, uma vez mais, representada por um filme brasileiro.


Eis os pré-nomeados:

  • ÁustriaDie Fälscher, de Stefan Ruzowitzky, 2007 (Título EUA: The Counterfeiters);
  • BrasilO Ano em que Meus Pais Saíram de Férias, de Cao Hamburger, 2006 (Título EUA: The Year My Parents Went on Vacation);
  • CanadáL’Âge des ténèbres, de Denys Arcand, 2007 (Título EUA: Days of Darkness);
  • CazaquistãoMongol, de Sergei Bodrov, 2007;
  • IsraelBeaufort, de Joseph Cedar, 2007;
  • ItáliaLa Sconosciuta, de Giuseppe Tornatore, 2006 (Título EUA: The Unknown Woman);
  • PolóniaKatyn, de Andrzej Wajda, 2007;
  • Rússia12, de Nikita Mikhalkov, 2007;
  • SérviaKlopka, de Srdjan Golubovic, 2007 (Título EUA: The Trap).

Nota: a sessão de apresentação dos nomeados (serão eliminados 4 filmes deste conjunto) realizar-se-á hoje às 5:30 PST (13:30, hora de Portugal Continental) em Beverly Hills.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

You don't ride with the devil...

David Fincher's Zodiac «“Zodiac” is about an investigation and is itself an investigation. As is always the case with Mr. Fincher’s movies, it is also about extreme human behavior and an example of the same. Extremes possess the murderer and those who chase him, men whose desire to solve the killings burns away large swaths of their worlds. “I need to know,” Graysmith (Jake Gyllenhaal) tells his wife, whom he eventually drives away with his compulsive pursuit. That need is ultimately frustrated — the Zodiac killer remains uncaught and officially unnamed — which gives the movie a strange pathos. In the end there is no confession of guilt or triumphantly condemned prisoner, no trial or justice. All that remains is the search, and the filmmaking.»
Manohla Dargis, "Building Suspense Along the Trail of an Invisible Man", The New York Times (6/Jan/2008) [destaques meus]


Último parágrafo do excelente artigo publicado no NY Times, escrito pela habitualmente impiedosa Manohla Dargis, sobre Zodiac de Fincher — na minha modesta opinião de espectador atento, o melhor do ano — no encalço dos filmes passíveis de nomeação para os Óscares de 2008.

Nota: posta de lado a preguiça, encontrei a minha apreciação escrita, feita a quente, sem rede, no dia em que o vi no cinema.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2007

Oscares 2007

A melhor cerimónia de entrega dos Óscares da Academia das Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood desde a fabulosa e surpreendente noite de Março de 1992.

Ellen DeGeneres ao nível de Billy Crystal.

Excelentes trechos dirigidos pelos meus muito apreciados realizadores Giuseppe Tornatore e Michael Mann.

Nada é por acaso, quando vi o trio Coppola/Lucas/Spielberg no palco para anunciar o Óscar para melhor realizador só um nome sobreveio ao meu pensamento, Martin Scorsese.

Ladies & Gentlemen, good night!

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

Oscares 2007


Eis os 10 filmes com maior número de nomeações para os Oscars 2007, cuja cerimónia de entrega decorrerá no Kodak Theater, Hollywood, no próximo dia 25 de Fevereiro – em destaque (bold) e com o sinal “+” as categorias pertencentes ao denominado Top 5 (filme / realização / argumento / actor / actriz):

Dreamgirls (8 nomeações, 0+)
Actor Secundário – Eddie Murphy
Actriz Secundária – Jennifer Hudson
Canção (3 canções nomeadas)
Direcção Artística
Efeitos Sonoros
Guarda-Roupa

Babel (7 nomeações, 3+)
Actriz Secundária – Adriana Barraza
Actriz Secundária – Rinko Kikuchi
Argumento Original – Guillermo Arriaga
Filme

Montagem
Música (BSO) – Gustavo Santaolalla
Realizador – Alejandro González Iñárritu

El Laberinto del Fauno / Pan’s Labyrinth (6 nomeações, 1+)
Argumento Original – Guillermo del Toro
Direcção Artística
Filme Estrangeiro – Guillermo del Toro (México)
Fotografia
Maquilhagem
Música (BSO) – Javier Navarrete

A Rainha / The Queen (6 nomeações, 4+)
Actriz – Helen Mirren
Argumento Original – Peter Morgan
Filme

Guarda-Roupa
Música (BSO) – Alexandre Desplat
Realizador – Stephen Frears

Diamante de Sangue / Blood Diamond (5 nomeações, 1+)
Actor – Leonardo DiCaprio
Actor Secundário – Djimon Hounsou
Efeitos Sonoros
Montagem
Som

The Departed: Entre Inimigos / The Departed (5 nomeações, 3+)
Actor Secundário – Mark Wahlberg
Argumento Adaptado – William Monahan
Filme

Montagem
Realizador – Martin Scorsese

Cartas de Iwo Jima / Letters from Iwo Jima (4 nomeações, 3+)
Argumento Original – Iris Yamashita
Filme
Realização – Clint Eastwood

Som

Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos / Little Miss Sunshine (4 nomeações, 2+)
Actor Secundário – Alan Arkin
Actriz Secundária – Abigail Breslin
Argumento Original – Michael Arndt
Filme


Notes on a Scandal (4 nomeações, 2+)
Actriz – Judi Dench
Actriz Secundária – Cate Blanchett
Argumento Adaptado – Patrick Marber
Música (BSO) – Philip Glass


Piratas das Caraíbas: O Cofre do Homem Morto / Pirates of the Caribbean: Dead Man’s Chest (4 nomeações, 0+)
Direcção Artística
Efeitos Especiais
Efeitos Sonoros
Som

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

Produção estrangeira versus língua estrangeira

A propósito da polémica aberta pelo processo de selecção dos filmes que integram a categoria de Melhor Filme (de língua) Estrangeiro(a) para a atribuição de prémios cinematográficos nas cerimónias realizadas na Meca do Cinema – este ano agravada pela integração de filmes como Apocalypto de Mel Gibson e de Cartas de Iwo Jima de Clint Eastwood no concurso aos Globos de Ouro organizado pela Associação de Imprensa Estrangeira em Hollywood, no qual o último acabou por arrecadar o respectivo galardão –, tenho a dizer que considero o critério estritamente linguístico como verdadeiramente falacioso, na medida em que o espírito que esteve na génese dessa categoria em Hollywood teve que ver com o reconhecimento do mérito a obras produzidas na íntegra fora do círculo restrito do financiamento cinematográfico de Hollywood, dado o reconhecimento da quase imposição e até de aniquilação cultural provocada pelos filmes, produzidos em barda, nesse meio privilegiado.
A nomeação dos dois filmes atrás mencionados pode encontrar-se no nosso quotidiano no excesso de zelo regulamentador, assaz cerceador dos direitos, liberdades e garantias, de que a liberdade artística é um dos seus exemplos. Este episódio assemelha-se ao meticuloso trabalho de sapa exercido pelos advogados mais astutos que, pela letra do preceito normativo, buscam um atalho que lhes permita o vencimento das suas teses, mesmo que ao arrepio do espírito, mais ou menos declarado, de que o legislador se imbuiu no momento em que os decidiu criar. Assim esta putativa legalidade, ou se se preferir, esta não ilegalidade só pode ser entendida pelos destinatários, imediatos ou mediatos, como uma manobra típica de chico-espertismo e eminentemente falaciosa, prejudicando, neste caso, até pela silenciosa aceitação dos seus autores, as emanações de bom cunho artístico que potencialmente a obra poderá transmitir.

Esta verborreia toda serviu apenas para, à laia de antecipação não astrológica, referir que a Academia das Artes e das Ciências Cinematográficas de Hollywood abrirá amanhã uma exposição cujos objectos patenteados ao público serão precisamente os posters dos filmes premiados na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, cuja criação remonta a 1956, celebrando-se, assim, os seus 50 anos de existência. Todavia, esta exposição soa a um encapotado pedido de clemência pelas eventuais aberrações que irão ser cometidas contra o espírito subjacente ao prémio, quando no próximo dia 23 forem anunciados os nomeados, com sequela garantida na noite de 25 de Fevereiro.

Em jeito de conclusão, fica a curiosidade de que Federico Fellini foi o primeiro realizador – apesar do prémio ser atribuído aos produtores – a ser galardoado com o Oscar para melhor filme estrangeiro; venceu com o maravilhoso A Estrada em 1956, produzido por Dino De Laurentiis e Carlo Ponti, este último falecido a semana passada (com a provecta idade de 95 anos). Façanha que se repetiu no ano seguinte, com As Noites de Cabíria, o que só serve para atestar, acaso necessitasse, a sua genialidade criativa.
Fellini é, aliás, o campeão nesta categoria, havendo vencido o Oscar correspondente por mais 2 ocasiões: com 8 ½ em 1963 e com Amarcord em 1974.
Sobre este último deixo ficar um curioso excerto de uma entrevista, no qual se exibe a resposta dada por Fellini à questão sobre a natureza autobiográfica do terno e hilariante Amarcord. Mais felliniano seria impossível (o seu a seu dono):

«
Não é a memória que domina os meus filmes. Dizer que os meus filmes são autobiográficos é uma completa imbecilidade. Eu é que inventei toda a minha vida. Inventei-a de propósito para o ecrã. Antes de rodar o meu primeiro filme não fiz outra coisa que não fosse preparar-me para me transformar em alguém grande e forte o suficiente e carregar toda a energia necessária para chegar um dia a gritar “acção!” Eu vivi para descobrir e criar um realizador: nada mais. E de nada mais tenho memória, apesar de passar por alguém que vive a sua vida expressiva nas grandes divisões da memória.
Nada disso é verdadeiro. Em jeito de anedota, de autobiográfico nos meus filmes não existe nada. Há, ao contrário, o meu testemunho de uma certa época na qual realmente vivi. Nesse sentido, agora sim, os meus filmes são autobiográficos: mas da mesma forma em que cada livro, cada verso de um poeta, cada cor colocada numa tela, é autobiográfico.
»
Entrevista a Federico Fellini, in Il film “Amarcord” di Federico Fellini, por Gianfranco Angelucci e Liliana Betti, 1974 [tradução livre: AMC]

Amarcord – tradução fonética de “recordo-me” no dialecto de Emilia-Romagna, região em que nasceu Fellini e onde decorre a acção do filme (fonte: IMDB).