terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Pausa (indefinida)

Até breve... (referência a cripto-filosófica nabokoviana postada a 30/Abr/2009)

«É geralmente aceite que, se o homem pudesse comprovar o facto da sobrevivência depois da morte, também resolveria, ou estaria no bom caminho para resolver, o mistério do Ser. Infelizmente, os dois problemas não se sobrepõem ou fundem, necessariamente.
Vamos encerrar o assunto com este bizarro apontamento.»
in Vladimir Nabokov, Transparências, p. 118 (Lisboa: Teorema, 1989, 129 pp; tradução de Margarida Santiago; obra original: Transparent Things, 1972).


A 24 de Fevereiro de 2009 [Nunca Mais + In Absentia + Porque (os três blogues nunca coexistiram no tempo e, entre o fim de um e o início de actividade de outro, verificou-se sempre um hiato de alguns meses), desde 17 de Dezembro de 2005], as estatísticas (fonte: Sitemeter):

  • Número de visitantes: 95.343
  • Número de páginas visitadas: 125.299

Obrigado a todos.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

A Queda


Para o futuro ficou uma das piores sessões de entrega dos Óscares de que tenho memória – e já são pelo menos umas vinte as que constam da minha memória cinéfila –, não só pelo espectáculo carnavalesco preparado pela organização (caiu-lhe bem a proximidade da data), mas sobretudo pela qualidade dos vencedores nas categorias principais, com a excepção do portentoso e admirável Sean Penn.
Será assim com a 91.ª edição a realizar-se em 2019?

[Lembro-me bem da 71.ª, realizada em Março de 1999 (referente aos filmes produzidos no ano de 1998): foi de uma mediocridade descoroçoante.]

Parece-me que sim e para bem pior. O triunfo do cinelixo e da cultura pop mais exacerbada pelos reality shows e o telelixo, como ficou ontem demonstrado em pleno Kodak Theatre, não augura nada de bom.
Como disse hoje à hora de almoço um ufano e sobranceiro crítico britânico na Sky News (ao estilo Brits won back America), cujo nome se me escapa neste momento, chegou a hora de demonstrar a qualidade do cinema britânico nos Estados Unidos, e de fazer ver aos americanos que filmes provenientes de grandes estúdios, longos, túrgidos e aborrecidos como Benjamin Button jamais triunfarão no futuro (foram mais ou menos estas as palavras, cito de memória).
Assim seja: Viva à era do Cinema Light – por esta altura, MRP® já deve estar a estudar a possibilidade de expandir a seu negócio rumo à 7.ª arte. Talvez uma joint-venture Pinto, Valente, Salgado & Associados (firma assaz sugestiva), substituindo as Panavision (digitais ou em filme) pelas mais pop e fashion Nokia, Motorola ou Sony-Ericsson na sua extensa gama com telemóvel incorporado.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

...mas ficará para a História


«A iminência da tempestade é um mecanismo supérfluo e excessivamente portentoso, uma vez que o Katrina traz à memória precisamente as duras misérias da vida real que o filme, no alcance do seu poder, fez tudo para evitar.
Esse poder, contudo, é algo que deve ser tomado em conta, e consiste no talento de Fincher em usar a sua admirável aptidão para transformar um inconcebível e rebuscado conceito numa história de amor plausível. O romance entre Daisy e Benjamin começa quando ambos são cronologicamente pré-adolescentes e Benjamin é, fisicamente, um velho estranho, no entanto o elemento inicial de uma atmosfera perturbadora pedófila na relação dá lugar a outras formas de embaraço. O amor de ambos é incomparavelmente perfeito e paciente. Em simultâneo, como qualquer outro amor – como qualquer filme – é ensombrado pelo desapontamento e destinado ao fim. No caso de “Benjamin Button” tive pena quando acabou e feliz por o haver presenciado.
»
A.O. Scott, It’s the Age of a Child Who Grows From a Man, in The New York Times (25/12/2008) [tradução: AMC]


«Algumas pessoas nascem para se sentarem à beira do rio.
Algumas são atingidas por raios.
Algumas têm ouvido para a música.
Algumas são artistas.
Algumas nadam.
Algumas percebem de botões.
Algumas conhecem Shakespeare.
Algumas... são mães.
E algumas pessoas... dançam.
»
Eric Roth, The Curious Case of Benjamin Button [retirado do guião; tradução AMC]

Prognosticando a derrota nos tais prémios de hoje à noite, talvez não importe nada. Fincher, assim a vida o permita, prosseguirá com o seu dom natural, criador de ilusões, a sua carreira no meu Olimpo cinematográfico.

Sem mais comentários.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Se eu fosse membro da Academia…

…porventura não estaria aqui e agora a escrever em blogues, mas talvez nos Hamptons ou na minha casa de campo em Vermont, de onde teria enviado o meu voto por correio postal.

Regressando à fatal realidade de cinéfilo luso, apenas refiro que das 31 longas-metragens a concurso na 81.ª edição dos Óscares da Academia (excluindo os documentários, mas incluindo os filmes de animação e os de língua estrangeira), tive a feliz oportunidade, através de uma habilidosa engenharia na gestão do tempo disponível, de ver 18 filmes. E ei-los aqui inevitavelmente alinhados (dado o insanável distúrbio da listomania), por ordem de preferência (sem classificação aposta):

  1. O Estranho Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button), de David Fincher;
  2. O Casamento de Rachel (Rachel Getting Married), de Jonathan Demme;
  3. Milk, de Gus Van Sant;
  4. Frost/Nixon, de Ron Howard;
  5. A Turma (Entre les murs), de Laurent Cantet;
  6. Vicky Cristina Barcelona, de Woody Allen;
  7. Resistentes (Defiance), de Edward Zwick;
  8. Dúvida (Doubt), de John Patrick Shanley;
  9. A Duquesa (The Duchess), de Saul Dibb;
  10. A Troca (Changeling), de Clint Eastwood;
  11. Em Bruges (In Bruges), de Martin McDonagh;
  12. O Leitor (The Reader), de Stephen Daldry;
  13. Procurado (Wanted), de Timur Bekmambetov;
  14. Revolutionary Road, de Sam Mendes;
  15. O Visitante (The Visitor), de Thomas McCarthy;
  16. Tempestade Tropical (Tropic Thunder), de Ben Stiller;
  17. O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight), de Christopher Nolan;
  18. Quem Quer Ser Bilionário? (Slumdog Millionaire), de Danny Boyle.

Estes 18 filmes permitiram-me dispor de uma perspectiva global sobre a votação em 7 das 20 categorias a concurso: melhores “Actor Secundário”, “Argumento Adaptado”, “Direcção Artística”, “Filme”, “Fotografia”, “Montagem” e “Realizador”.

Todavia, não vi:

  • nenhum dos 3 filmes candidatos a “Melhor Filme de Animação”;
  • 4 dos 5 filmes a concurso na categoria “Melhor Filme em Língua Estrangeira”;
  • 3 dos 5 filmes candidatos a “Melhor Argumento Original”;
  • 2 dos 5 filmes concorrentes na categoria “Melhor Som”;
  • 1 dos 2 filmes com canções candidatas à “Melhor Canção”.

Nas restantes 8 categorias, para além das 7 supramencionadas, permaneceu em todas, com muita pena minha, 1 filme por ver. Em suma, perante os factos atrás referidos formulei as minhas preferências apenas sobre estas 15 categorias, embora tenha a firme certeza de que serão todas, sem excepção, como tiros fora do alvo (o que pode querer significar que na próxima segunda-feira o anúncio da minha inusitada falta de pontaria, venha acompanhada do prometido encerramento temporário e indefinido deste blogue*).

Eis as minhas escolhas, elencadas por ordem alfabética do título das categorias principais, incluindo as de interpretação de papéis secundários (à frente de cada escolha nas categorias em que houve um filme que não passou pelos meus olhos, surge a notação “n.v.”, que significa “não-visto”, seguindo-se o título do respectivo filme):

  • Actor – Sean Penn (Milk) / [n.v. – O Wrestler]
  • Actor Secundário – Heath Ledger (O Cavaleiro das Trevas)
  • Actriz – Anne Hathaway (O Casamento de Rachel) / [n.v. – Frozen River]
  • Actriz Secundária – Taraji P. Henson (O Estranho Caso de Benjamin Button) / [n.v. – O Wrestler]
  • Argumento Adaptado – Eric Roth (O Estranho Caso de Benjamin Button)
  • Filme – O Estranho Caso de Benjamin Button
  • Realizador – David Fincher (O Estranho Caso de Benjamin Button)

Em conclusão, somando estas escolhas com aquelas que, por economia de texto não foram aqui discriminadas, Benjamin Button juntar-se-ia ao trio de filmes recordistas na arrecadação das famosas estatuetas douradas, com 11 Óscares (em relação às 13 nomeações perde o Óscar de “Melhor Actor” para Sean Penn em Milk, de Gus Van Sant, e o de “Melhor Guarda-Roupa” para A Duquesa (The Duchess), de Saul Dibb).

A título informativo, “o trio dos 11” é constituído pelos filmes: Ben-Hur (1959), de William Wyler; Titanic (1997), de James Cameron; e O Senhor dos Anéis: O Regresso do Rei (The Lord of the Rings: The Return of the King, 2003), de Peter Jackson.


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Nota: *Como é óbvio, a materialização do que há muito foi prognosticado, designadamente através da atribuição de outros prémios que já perfazem as seis dezenas, serve apenas de justificação pueril, à laia de cortina de fumo em fase de dissipação, para pôr em ordem determinados assuntos, pessoais e intransmissíveis, cuja actualização constante de um blogue, com derivações twitteiras, põe em causa. Por outro lado, não se tratará, caso o evento despoletador se venha a verificar, de um abandono definitivo, mas de uma pausa para reorganização. Quando a 30 de Abril do ano passado se deu continuidade à actividade na blogosfera, a carga absoluta do título do blogue teve que ver precisamente com imposição de uma medida cautelar que enfrentasse essa inconstância de partidas definitivas e que, num curto espaço de tempo, se transformavam em tímidos ou constrangidos regressos.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Algumas merdas mais

Francis Ford Coppola, O Vigilante (The Conversation, 1974)
Enquanto se vão agigantando os latidos, que rapidamente se transformaram numa vozearia de onde apenas emerge o insulto gratuito com marca corporativa registada, em reacção ao exercício profissional da crítica cinematográfica por quem tem autoridade não apenas pericial, mas sobretudo cultural para o fazer, vou-me divertindo com o festival da exultação da obscenidade animalesca da era do cine/telelixo de que alguns são responsáveis, soltando umas merdas de vez em quando que, prontamente, me disponibilizo para ceder para análise escatológica da obra de arte – afinal, a problemática excrementícia é ultrapassada com a transubstanciação da ficção para uma mera realidade documental: era manteiga de amendoim misturada com chocolate.

«O domínio no qual desaparecem os excrementos depois de termos puxado o autoclismo constitui de facto uma das metáforas do Além sublime-horripilante do Caos pré-ontológico primordial no qual as coisas se esfumam. Embora racionalmente saibamos o que acontece aos excrementos, o mistério imaginário persiste – a merda continua a ser um excesso que não se encaixa na nossa realidade diária, e Lacan tinha razão quando afirmou que passamos de animal a humano a partir do momento em que o animal fica sem saber o que fazer dos seus excrementos, quando estes se tornam um excesso que o incomoda.»
[O pensador esloveno remete-nos para O Vigilante (The Conversation, 1974) de Francis Ford Coppola, e às actividades investigativas de “Harry Caul” (Gene Hackman) que culminam num estranho sucesso conseguido pelo explosivo refluxo da sanita imaculada. (nota: AMC)]
«Mais uma vez, é claro que sabemos que os excrementos que desaparecem se encontram algures na rede de esgotos – o que é aqui “real” é o buraco topológico, ou a torção topológica, que “curva” o espaço da nossa realidade, de tal modo que percepcionamos/imaginamos os excrementos a desaparecer numa dimensão alternativa que não faz parte da nossa realidade quotidiana.»
Slavoj Žižek, Lacrimae Rerum, pp. 178-179.
(Lisboa: Orfeu Negro, 1.ª edição, 2008, 277 pp; tradução de Luís Leitão; obra original (antologia de ensaios sobre cinema): Lacrimae Rerum, 2005)
Nota: a talho de foice, ainda hoje divulgarei as minhas preferências para os Óscares de 2009, que, apesar de não constituírem grande novidade para quem me lê e comigo twitta, inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde, teriam de surgir numa listagem organizada.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Os negacionistas


(na imagem: Campo de Concentração de Auschwitz II – Birkenau. Câmara de gás e crematório II – as fornalhas. Fotografia das SS, 1943.)

O jornalista e escritor galego Álvaro Otero (n. 1967) publicou, na segunda-feira passada no seu blogue, um artigo, sob o título Los negacionistas, que arrasa com o rumo seguido pela Igreja Católica no actual papado.
Otero refere-se em concreto às palavras proferidas pelo bispo inglês radicado na Argentina Richard Williamson, que nega o Holocausto e a existência das câmaras de gás, e isto após a sua recente reabilitação (revogação da excomunhão) pela Igreja de Roma a 24 de Janeiro deste ano. Wiliamnson, é um anglicano convertido ao catolicismo, tendo sido ordenado padre em 1976, foi consagrado como bispo em 1988 pela congregação fundada pelo ultraconservador e extremista Marcel Lefebvre, que valeu a ambos excomunhão automática segundo a Lei Canónica.

Eis as palavras finais do artigo de Otero:

«[…] Para defender a sua tese, este bispo que exerce em La Reja, próximo de Buenos Aires, onde costuma sair para fazer footing em sotaina, apoia-se em tais considerações sobre o gás cianeto, sobre a altura das chaminés dos crematórios, sobre o desenho de Auschwitz, que quando alguém as lê se interroga sobre o que é mais delirante, se o facto de que este personagem seja bispo ou que, para continuar a sê-lo, o Vaticano lhe tenha pedido uma retractação, ou seja, que minta sobre a suas verdadeiras convicções. Nada de novo, enfim, na gestão romana da vinha do senhor. Boffs* expulsos, pederastas perdoados, negacionistas de mitra e bordão apregoando as suas sandices a partir do púlpito. Para aqueles que acreditam, um desgraçado e secular soma e segue.» [tradução: AMC; destaque e nota explicativa que se segue de minha autoria.]

Nota: *referência a Leonardo Boff, teólogo, filósofo, escritor e professor universitário brasileiro (em universidade brasileiras e no estrangeiro como visitante das universidades de Lisboa, Harvard, Heidelberg, Salamanca e Basileia), figura eminente da Teoria da Libertação na América Latina. Boff foi silenciado nos anos 80 do século passado por Joseph Ratzinger (hoje Papa Bento XVI), quando este dirigia a Congregação para a Doutrina da Fé (a antiga Inquisição) da Cúria Romana. Perseguido pelo Vaticano nos anos subsequentes, abandonou o sacerdócio, dedicando-se em exclusivo ao ensino e à divulgação das suas ideias, apodadas de marxistas e subversivas pela Igreja de Roma.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

A fatwa: 20 anos

O Francisco relembra, pela marca a negro, tristemente indelével, no eixo do tempo (já foi há 20 anos!...), a fatwa lançada pelo Ayatollah Khomeini contra Salman Rushdie em 14 de Fevereiro de 1989, a propósito da publicação do romance Os Versículos Satânicos (The Satanic Verses) em 1988. Curiosamente, o líder espiritual dos xiitas iranianos morreu três meses e meio depois.
Sobre este triste acontecimento não há muito mais para contar, excepto o episódio agora revelado do solidário e comovente asilo dado pelo, humana e artisticamente portentoso, Ian McEwan nos dias mais terríveis da vida de Rushdie. De resto, trata-se apenas de reavivar a memória sobre a história de um ataque deliberado à liberdade de expressão, perpetrados pelas mesmas gentes e seus clones que hoje em dia desfrutam de uma confortável complacência da esquerda caviar europeia, em nome de um multiculturalismo – que não sei, nem eles sabem, o que é, e jamais aceitarei que se traduza numa derrogação da minha liberdade, das minhas formas de pensar, sentir e agir, dos valores apreendidos numa sociedade (europeia e ocidentalizada) que me viu crescer – e de uma hilariante apologia à proporcionalidade de meios bélicos – uma vez que a liberdade de expressão materializada nos rockets lançados contra cidades israelitas é coarctada pelos helicópteros Apache e caças F-16 de fabrico americano (Solnado hoje não faria melhor após haver encontrado a guerra fechada, neste caso por desproporção de meios).

Enfim, deixo apenas ficar, sem mais comentários, um texto escrito em 1993 por Paul Auster (oh, claro, é de origem judaica, e, para além disso, não se pode contar com o homem que dedica o seu último romance ao filho do seu colega escritor israelita David Grossman morto no Líbano em 2006) que relata a sua inquietação permanente perante a vida do seu amigo Salman Rushdie:

«Quando me sentei para escrever esta manhã, a primeira coisa que fiz foi pensar em Salman Rushdie. Há quase quatro anos e meio que faço isto todas as manhãs, e, agora, é já uma parte essencial da minha rotina diária. Pego na caneta e, antes de começar a escrever, penso no meu colega romancista que está do outro lado do oceano. Rezo para que ele continue vivo mais vinte e quatro horas. Rezo para que os seus protectores ingleses o mantenham escondido da gente a quem encomendaram o seu assassínio – a mesma gente que já matou um dos seus tradutores e feriu outro. Sobretudo, rezo para que venha um tempo em que estas orações deixem de ser necessárias, para que venha um tempo em que Salman Rushdie tenha tanta liberdade como eu para caminhar pelas ruas do mundo.
Rezo por este homem todas as manhãs, mas, no fundo, sei que estou também a rezar por mim. A sua vida corre perigo porque escreveu um livro. O meu trabalho é também escrever livros e eu sei que poderia estar na mesma situação que ele, não fossem os caprichos da história e uma questão de sorte, de pura e cega sorte. Se não hoje, então talvez amanhã. Pertencemos ao mesmo clube: uma irmandade secreta de solitários, confinados, e excêntricos, homens e mulheres que passamos a maior parte do nosso tempo fechados em pequenos quartos, travando a batalha de pôr palavras numa página. É um estranho modo de se viver a vida e só uma pessoa sem alternativa o escolheria como vocação. É demasiado árduo, demasiado mal pago, demasiado cheio de decepções para convir a qualquer outra pessoa. Os talentos variam, as ambições variam, mas qualquer escritor digno desse nome dir-lhes-á o mesmo: para se escrever uma obra de ficção temos de ser livres de dizer aquilo que temos para dizer. Pratiquei essa liberdade em todas as palavras que escrevi – tal como Salman Rushdie. É isso que nos torna irmãos e é por isso que a provação por que está a passar é também a minha provação.
Não posso saber como agiria no seu lugar, mas posso imaginá-lo – ou, pelo menos, posso tentar imaginá-lo. Com toda a franqueza, não estou certo de que conseguiria ter a coragem que ele tem demonstrado. A sua vida está em ruínas e, no entanto, continua a fazer aquilo para que nasceu. Obrigado a mudar constantemente de abrigo, separado do filho, cercado de polícia, todos os dias se senta à sua secretária e escreve. Sabendo até que ponto é difícil fazer esse trabalho mesmo nas melhores condições, só posso sentir admiração e respeito por aquilo que ele tem realizado. Um romance; um outro romance em preparação; uma série de extraordinários artigos e discursos defendendo um direito humano básico – o direito à livre expressão. Tudo isto já é, por si só, absolutamente notável, mas aquilo que verdadeiramente me espanta é que, para além do essencial do seu trabalho, Salman Rushdie ainda dedica algum do seu tempo a comentar livros de outros autores – por vezes, chega mesmo a redigir entusiásticas notas promovendo os livros de autores desconhecidos. Para um homem na sua situação, será possível pensar em mais alguém a não ser em si mesmo? Sim, pelos vistos é possível. Mas pergunto-me quantos de nós seriam capazes de fazer o mesmo que ele tem feito, se tivéssemos as costas encostadas à mesma parede.
Salman Rushdie está a lutar pela sua vida. A luta dura há já quase meia década, e não estamos mais perto de uma solução do que quando a fatwa foi anunciada. Como tantos outros, só queria que houvesse alguma coisa que eu pudesse fazer para ajudar. A frustração cresce, o desespero instala-se, mas, como não tenho nem o poder nem a influência para afectar as decisões de governos estrangeiros, o máximo que posso fazer é rezar por ele. Ele carrega o fardo por todos nós e eu já não consigo pensar no que faço sem pensar nele. O transe por que está a passar arrebatou toda a minha atenção, levou-me a reexaminar as minhas crenças, ensinou-me a nunca dar por adquirida a liberdade de que desfruto. Por tudo isso, tenho para com ele uma imensa dívida de gratidão. Apoio Salman Rushdie na luta que trava para reconquistar a sua vida, mas a verdade é que ele também me tem apoiado. Quero agradecer-lhe por isso. Sempre que pego na caneta quero agradecer-lhe.»
Paul Auster, “Uma oração por Salman Rushdie” (1993), Experiências com a Verdade, pp. 163-165
(Porto: Asa, 1.ª edição, Março de 2003, 201 pp; tradução de José Vieira de Lima; obra original: Experiments in Truth, 1995)

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Bartleby Sphere, foi há 27 anos

Nove da manhã. A efeméride anunciava-se na rádio e, ante a voracidade dos contratos publicitários da estação, cerca de 30 segundos de um som etéreo foram considerados suficientes para lhe render a homenagem. O dia de hoje marca os 27 anos da morte de um dos mais icónicos e bartlebianos (síndrome que o atacou no momento em que a sua carreira atingia o auge) pianistas e compositores de Jazz de sempre: a 17 de Fevereiro de 1982, morria em Weehawken, Nova Jérsia, Thelonious Sphere Monk, Jr. (1917-1982); conjuntamente com o eterno “BirdCharlie Parker, um dos pais fundadores do Bebop.
A sua última actuação ao vivo tinha ocorrido numa fugaz aparição em 1976 no famoso Bradley’s, em Greenwich Village em Nova Iorque, onde tocou apenas duas músicas e saiu de forma intempestiva da sala. Nas palavras do seu amigo pianista e compositor Randy Weston (n. 1926) «Ele [Monk] veio, exteriorizou a beleza e saiu.» [cf. The Nesuhi Ertegun Jazz Hall of Fame (Jazz at Lincoln Center Hall of Fame); tradução: AMC].

Volto ao célebre artigo de Don DeLillo de onde foram retiradas as palavras que constam da epígrafe deste blogue (e integram o segundo texto da 3.ª fase da minha vida na blogosfera: Nunca Mais), e volto, por força das palavras impressas, a O Náufrago de Thomas Bernhard, o abismo do isolamento – que DeLillo afirma ser uma forma abreviada de uma execução dentro da lei –, talvez simbolizado pela Moenchsberg [tradução literal na versão inglesa Monk’s Mountain (A Montanha do Monge)]:

«[…] Moenchsberg, a que se chama também o Monte do Suicídio porque é o que há de mais apropriado para um suicídio e, realmente, três ou quatro suicidas por semana, pelo menos, despenham-se do seu cume. Os suicidas sobem no elevador instalado no interior do monte, dão meia dúzia de passos e precipitam-se sobre a cidade. Sempre me senti fascinado por aqueles que vinham esborrachar-se na rua, e eu próprio subi muitas vezes ao Moenchsberg, a pé ou no ascensor (como aliás também o Wertheimer), na intenção de me atirar dele abaixo, mas não me atirei (e o Wertheimer também não!). Por várias vezes estive pronto a atirar-me, mas, tal como o Wertheimer, nunca cheguei a fazê-lo. Voltei as costas ao precipício. É evidente que até hoje houve muitos mais a voltar as costas do que a saltar, pensei.»
Thomas Bernhard, O Náufrago, p. 12.
(Lisboa: Relógio D’Água, 1987, 144 pp; tradução de Leopoldina Almeida; obra original: Der Untergeher, 1983)

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Óscares 2009: inquérito final [actualizado]

De hoje a uma semana, por esta hora, já a blogosfera e os jornais de referência nas suas páginas da internet discutem os vencedores e vencidos da 81.ª sessão de entrega dos Óscares da Academia, referentes aos filmes produzidos durante o ano de 2008 e previamente nomeados para cada categoria.
Há pouco menos de um mês foram anunciadas as nomeações – de que dei aqui notícia – destacando-se, à partida, dois filmes: (1) O Estranho Caso de Benjamin Button (The Curious Case of Benjamin Button) realizado pelo norte-americano David Fincher (n. 1962), com 13 nomeações; (2) Quem Quer Ser Bilionário? (Slumdog Millionaire) do realizador inglês Danny Boyle (n. 1956), com 10 nomeações. Ambos os filmes concorrem às categorias mais apetecidas: melhores filme, realização e argumento (neste caso adaptado para o grande ecrã), embora nas categorias de interpretação o primeiro conte apenas 2 em 4 possíveis nomeações (actor principal e actriz secundária), e o segundo não disponha de qualquer nomeação.
Seguindo a lógica de atribuição dos últimos galardões cinematográficos, o péssimo e indecoroso filme de Boyle é o grande favorito aos Óscares, parte com uma vantagem de 58 prémios atribuídos, contra os apenas 12 conquistados por Benjamin Button.
Em suma, tudo leva a crer que iremos ter a consagração do espectáculo pirotécnico e escatológico sobre a miséria do terceiro mundo, a pornografia da pobreza, o produto final excrementício… e será esse O Cheiro da Índia? (cf. Pier Paolo Pasolini, 90º Editora, 2008)

Na coluna do lado direito deste blogue, figurará até ao dealbar da tarde do próximo domingo um inquérito subdividido em quatro categorias, que incidirá sobre as preferências dos visitantes deste blogue em quatro das categorias a concurso nos Óscares deste ano: melhores filme, realizador, actor e actriz principais.
Para responder ao inquérito seria, como é óbvio, desejável ter visto os 11 filmes que integram as quatro categorias mencionadas (embora nas duas primeiras figurem em ambas os mesmos cinco filmes). Todavia, há preferências que se vão solidificando no nosso interior, por arrebatamento emocional, por exemplo, que dificilmente seriam abandonadas pelo simples acto de ver um filme concorrente, e nesse caso parece-me natural que, mesmo sem ter uma visão global sobre o conjunto, o voto possa ser exercido. Trata-se apenas de um passatempo e não do exercício formal para eleição dos melhores, equivalente ao realizado pelos membros votantes da Academia que, a não ser seguido, enviesaria de forma pouco honesta a atribuição de prémios.

Logo, não tem de haver pruridos de espécie alguma para eleger, directa ou indirectamente, um filme em cada uma das quatros categorias.


[adenda, às 23h57m]: Dos onze filmes nomeados que constam das quatro categorias para votação no inquérito, três, à data, ainda não estrearam em salas de cinema portuguesas: O Visitante (The Visitor; estreia 19/Fevereiro); O Wrestler (The Wrestler; estreia 26/Fevereiro); Frozen River (sem estreia marcada, provável comercialização directa no mercado de DVD, filme que também se encontra nomeado na categoria “Melhor Argumento Original”; curioso paralelismo com a edição 80 dos Óscares com o filme Away from Her, que contava com a nomeação de Julie Christie na categoria “Melhor Actriz”, para além da nomeação do filme para “Melhor Argumento Adaptado”).

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Eastwood

Clint Eastwood em Caçador Branco, Coração Negro
Os Jogos Florais

Do inquérito, que durante uma semana figurou na coluna da esquerda deste blogue, resultou uma clara repartição de preferências por dois realizadores contemporâneos, ainda vivos, que têm enchido de fascínio e sedução o grande ecrã de muitas salas de cinema espalhadas pelo mundo.
Perguntou-se que realizador de cinema, vencedor nos últimos vintes anos (1988-2007) do Óscar da Academia na categoria “Melhor Realizador”, elegeria como o preferido.
Um apelo irrestrito à subjectividade de cada uma das (poucas) pessoas que visitam este blogue. Sem juízos de valor, sem demais comentários.
Entre as 61.ª e 80.ª cerimónias de entrega dos Óscares da Academia das Artes e das Ciências Cinematográficas de Hollywood, que decorreram entre os anos 1989 e 2008, respectivamente, entre Barry Levinson (Encontro de Irmãos; Rain Man, 1988) e Joel e Ethan Coen (Este País Não É para Velhos; No Country for Old Men, 2007), dezoito nomes venceram o prestigiado galardão (dezanove se desdobrássemos a irmandade Coen em Joel e Ethan). 20 anos, 18 realizadores, uma vez que Clint Eastwood venceu o Óscar para “Melhor Realizador” por duas vezes: em 1993 por Imperdoável (Unforgiven, 1992) e em 2005 por Sonhos Vencidos (Million Dollar Baby, 2004); tal como Steven Spielberg: em 1994 por A Lista de Schindler (Schindler’s List, 1993) e em 1999 por O Regaste do Soldado Ryan (Saving Private Ryan, 1998);

A votação

Ao contrário do relativo sucesso do desafio anterior (atendendo à dimensão deste blogue oculto nas brumas da blogosfera), apenas votaram 39 visitantes, votação que resultou nos seguintes dados estatísticos:

  • 11 dos 18 realizadores não obtiveram um único voto (neste grupo estavam incluídos realizadores como Spielberg, Polanski ou Soderbergh);
  • Dos 7 nomes que obtiveram votos, 4 obtiveram apenas 1 voto (Ang Lee, irmãos Coen, Jonathan Demme e Ron Howard) e somente 1 obteve 2 votos (Sam Mendes);
  • Dois realizadores foram responsáveis por 83% dos votos: Clint Eastwood liderou, com algumas intermitências, e obteve 19 dos 39 votos, contra 14 votos em Martin Scorsese.

Talvez tenha vencido a arte em todo o seu fulgor espectral e iridescente, contra a arte do pormenor, quase científica, do detalhe técnico e de movimento. Um atrevimento ou diatribe cinematográfica de minha autoria, na incomparabilidade de ambos os colossos: Ford venceu Hitchcock.

A minha preferência

Prefiro Scorsese a Eastwood, mas sempre gostei mais dos filmes de Clint do que os de Martin. Esclarecidos. Naquela frase tentei expressar, com o máximo de cuidado e rigor, o absurdo de tal escolha.
Se, como no filme de 1993 de Joseph Ruben, O Bom Filho (The Good Son), com argumento originalmente escrito por Ian McEwan, me coubesse o mesmo papel da actriz Wendy Crewson segurando, à beira do abismo, Macaulay Culkin (o filho) e Elijah Wood (o sobrinho), rendidos neste caso por Eastwood e Scorsese (a ordem dos eminentes realizadores é irrelevante, para não converter em maniqueísta esta contenda fílmica), suponho que a minha decisão era deixar-me cair com os meus provectos amigos – passaria, como é óbvio, a fazer companhia a Booth, Manson, Oswald, Chapman, e quejandos, na historiografia criminal norte-americana.

Clint

Se tivesse de eleger um único filme, dos cerca de trinta, realizados por Eastwood como o meu preferido, talvez a escolha brotasse da minha mente de forma espontânea, sem medir prós e contras, e de exercer a inevitável comparabilidade que estraga a espontaneidade da resposta: Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal (Midnight in the Garden of Good and Evil, 1997). Mas, se a tivesse de proferir de viva voz, nem que fosse em surdina, permaneceria para todo o sempre o travo amargo da injustiça na minha boca.
E Um Mundo Perfeito (A Perfect World, 1993)? E o filme que funcionou como o grande ponto de viragem de Eastwood para o Olimpo, o caminho para a perfeição na realização, Caçador Branco, Coração Negro (White Hunter, Black Heart, 1990)? E o seu prenunciador Fim do Sonho (Bird, 1988)? E Mystic River (2003)? Então… afinal o Meia-Noite… mas ainda há As Cartas de Iwo Jima (Letters from Iwo Jima, 2006)…
Jamais pararia por ali, neste ciclo de dúvidas, assaz inútil, talvez divertido no seu início, mas extremamente entediante com o passar do tempo, como uma cobaia a repetir os passos no seu labirinto translúcido de acrílico aos olhos do manipulador, cientista, dissecador de comportamentos.
Talvez fosse mais fácil pronunciar-me sobre os que não gostei pós-1988 (ou 90), mas iria decerto ser crucificado – e Cristo, dizem, houve apenas um, e Esse descerá ainda este ano à Terra como prometera… Marcelo será presidente do PSD, e as trombetas apocalípticas e o terrível odor a enxofre deixar-me-iam paralisado de medo, e nem a promessa de ambrósia à discrição, assegurada e certificada por organismo celestial competente, me deixariam cometer tamanho sacrilégio.

PS – Hoje, ou talvez amanhã, o último dos jogos florais, que constituíram, na sua invisibilidade aparente, a causa de tudo isto sobre o que estivemos até então a falar.

Atavismos

«Por dentro, no recesso da alma, o homem voluntarioso e efémero, sem escrúpulos, alcançava entretanto a estatura dum gigante. Olhava então com piedade para as próprias fraquezas, prometia à força momentânea: nunca mais, nunca mais. Em todo o caso, alguma coisa de dúbio passava da alma velha à alma nova. O que é, transformava-se-lhe o medo em cálculo, o terror religioso cedia o passo a uma crença firme e sem complicações na generosidade divina, que existe para tudo cobrir com o seu manto de perdão. E o remorso lá estava, mas encaroçado. Um quisto à margem do organismo em que se enconcha. À génese destas grandes transformações não era estranho o espectro da miséria que o pai lhe metera pelos olhos apavorados desde a infância, porque muita da fereza que o empedernia, da ganância cíclica que o empolgava, vinha daí, dessa longa lição individualista de que o homem é o lobo do homem e, portanto, entre devorar e ser devorado, o melhor é ir aguçando os dentes à cautela.»
Carlos de Oliveira, Uma abelha na chuva, pp. 81-82.
(Lisboa: Assírio & Alvim, 4.ª edição, Agosto de 2007, 132 pp; obra original publicada em 1953.)

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Brooklyn, by Tóibín

À atenção da Dom Quixote / LeYa (editora portuguesa que publicou os últimos romances do autor irlandês, galardoado com IMPAC Award pelo seu último romance O Mestre (The Master, 2004), editado em Portugal no ano de 2007).


Data de publicação no Reino Unido: 5 de Maio de 2009 (Viking).

Nocturnes, by Ishiguro

À atenção da Gradiva (editora portuguesa que publicou quatro dos seis romances do autor anglo-nipónico, que poderia ser tão expedita como o foi na publicação do último trabalho de Ian McEwan, Na Praia de Chesil):


Data de publicação no Reino Unido: 7 de Maio de 2009 (Faber and Faber).

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Suttree

Mais uma vez escrevo um texto neste blogue – que, parecendo que não, é um sinal de resistência às minhas tentativas de bloguicídio que surgem de forma intermitente há mais de três anos –, para felicitar, senão mesmo a melhor, uma das melhores editoras nacionais: a Relógio D’Água.
Para os membros do seu corpo editorial, evidenciado na figura tutelar de Francisco Vale – editor principal que tem sabido resistir ao assédio provindo da febre aquisitiva, de índole oligárquica, dos empórios lusos dos meios de comunicação e editoriais –, não há ano de publicação de uma obra (por mais longínquo que tenha sido), número de páginas de um livro (por mais volumoso que este seja), autor (por mais esquecido, hermético ou desconhecido, assim apontado pelas ondas de intelectualidade literária emanadas da perene sapiência de alguns notáveis que integram determinados órgãos de outras casas editoriais), que os assustem ou desviem do seu objectivo primordial: publicar livros de qualidade, independentemente da sua capacidade para gerar receitas imediatas, engrandecer o volume de negócios para ostentação futura, muitas vezes com lucros diminutos ou até inexistentes, apenas para alimentar a empáfia mediática.
Existem edições menos bem conseguidas – é por demais inevitável que assim seja. Há falhas de diversos níveis e gradações – claro que as há. Insucessos potencialmente ruinosos. Mas essas falhas e esses insucessos são claramente minorados, reduzidos à sua insignificância, desde que a pontaria, afinada por anos de prática e experiência no mercado dos livros, vá permitindo que se acerte quase sempre no coração do alvo. Uma marca de gestão: acompanhar o mercado em aparente silêncio, sem uma estratégia de marketing mix deliberadamente ofensiva. Reflecte-se, por exemplo, num produto bem construído, havendo-se contratado os melhores tradutores; numa excelente política de preços; numa simples, mas estudada, política de distribuição do produto literário pelos principais livreiros; são actos de gestão que quase evitam uma política promocional excessiva, meramente esbanjadora de recursos – contudo, e é de primordial importância realçar, todos estes encómios desinteressados, não devem servir de desculpa para as fracas actualização, facilidade de navegação e interactividade da página da internet da referida editora; no momento presente, reveste-se de um carácter urgente uma intervenção de fundo que permita melhorar esta funcionalidade, um dos principais pontos de contacto entre o consumidor final e a casa editora, antes de o primeiro tomar a decisão de compra.

E qual é a razão de ser de todo o palavreado anterior?
A Relógio D’Água publicará em breve uma das obras lapidares do icónico escritor norte-americano, Cormac McCarthy, nascido em Providence, no Estado de Rhode Island em 1933, vive, actualmente, enclausurado no seu rancho no Novo México, longe dos focos mediáticos. McCarthy pertence ao grupo dos quatro grandes escritores americanos contemporâneos identificado pelo crítico literário e professor univeristário, criador de cânones, Harold Bloom – para além do escritor de Providence, o “bando dos quatro” inclui os escritores Philip Roth, Don DeLillo e Thomas Pynchon, grupo a que eu, na minha modesta opinião de amante das letras, haveria juntado John Updike (falecido no passado dia 27 de Janeiro), mas que por qualquer motivo (político ou religioso, quiçá meramente por critérios estético-literários) nunca caiu nas suas graças; consulte-se, a título de exemplo, a sua obra de 1994 The Western Canon: The Books and School of the Ages, na Parte IV “The Chaotic Age”, onde Updike é apenas incluído no cânone literário ocidental pelo seu romance As Bruxas de Eastwick (The Witches of Eastwick, 1984), atirando para segundo plano toda a obra notável e multidimensional deste prolífico ficcionista, poeta e ensaísta.
Regressando ao assunto principal deste texto, a casa dirigida por Francisco Vale editará mais uma obra de ficção de autoria de Cormac McCarthy: trata-se do romance, originalmente publicado em 1979, intitulado Suttree, que se estende, nas suas versões americanas, por quase 500 páginas. O personagem principal, que dá o nome ao livro, abandona uma vida familiar e profissional confortável na cidade para se refugiar nos bairros de lata de Knoxville, partindo numa digressão que muitos comparam à de Leopold Bloom no colossal Ulisses de James Joyce – à semelhança dos itinerários joycianos de Dublin, existe um percurso em Knoxville marcado pelos lugares por onde perambulou Suttree. Por outro lado, segundo refere a crítica, Suttree é o romance mais faulkneriano de McCarthy, com notas bem vincadas de Mark Twain – já só falta falar dos taninos… –, designadamente através do seu púbere personagem Gene Harrogate que se identifica com a rebeldia anárquica de Tom Sawyer.
Suttree é o quarto de dez romances de Cormac McCarthy. Segundo a opinião de muitos entendidos em matérias qualificativo-literárias, trata-se, até ao presente, do magnum opus do autor, apesar de cronologicamente se lhe seguir a obra magistral Meridiano de Sangue (Blood Meridian, 1985), essa sim, considerada por uma grande maioria de críticos e de leitores como o seu melhor romance – onde me incluo, apesar de ainda não haver lido a primeira.
Na sua edição pela Vintage (cuja capa figura na imagem acima reproduzida) – a Vintage é uma chancela da Random House, destinada a reeditar os romances consagrados em formato paperback –, figuram nas primeiras páginas, depois da ficha técnica, algumas frases que destacam a eminência e o brilhantismo do autor, uma delas pertence a um dos escritores mais bartlebianos de toda a literatura norte-americana, Ralph Ellison (1913-1994) – escreveu e publicou em vida apenas um romance, uma obra-prima, Homem Invisível (Invisible Man, 1952). Segundo Ellison, «McCarthy é um escritor para ser lido, admirado e, muito honestamente, invejado.» [tradução: AMC]

Sem perder tempo com traduções livres, uma vez que o livro deverá estar prestes a chegar às livrarias, deixo ficar o parágrafo de abertura do romance, capítulo inicial escrito em forma de prefácio pelo próprio protagonista da obra (atente-se nestas escassas oitenta palavras, estão bem presentes os sinais idiossincráticos mccartianos em alguns neologismos e na repetição exaustiva da conjunção copulativa “e” em detrimento da vírgula):

«Dear friend now in the dusky clockless hours of the town when the streets lie black and steaming in the wake of the watertrucks and now when the drunk and the homeless have washed up in the lee of walls in alleys or abandoned lots and cats go forth highshouldered and lean in the grim perimeters about, now in these sootblacked brick or cobbled corridors where lightwire shadows make a gothic harp of cellar doors no soul shall walk save you.»
Cormac McCarthy, Suttree. New York: Vintage, May, 1992, p. 3.

Romances de Cormac McCarthy (por ordem cronológica da publicação original):

  • O Guarda do Pomar (ed. port. Relógio D’Água; The Orchard Keeper, 1965);
  • Outer Dark (1968);
  • Filho de Deus (ed. port. Relógio D’Água; Child of God, 1974);
  • Suttree (ed. port. Relógio D’Água; 1979);
  • Meridiano de Sangue ou O Crepúsculo Vermelho no Oeste (ed. port. Relógio D’Água; Blood Meridian, Or the Evening Redness in the West, 1985);
  • Belos Cavalos (ed. port. Teorema; All the Pretty Horses, 1992);
  • The Crossing (1994);
  • Cities of the Plain (1998);
  • Este País Não É para Velhos (ed. port. Relógio D’Água; No Country for Old Men, 2005);
  • A Estrada (ed. port. Relógio D’Água; The Road, 2006).

Nota: tendo em consideração a tão distintiva penúria qualitativa do meio editorial português, o rácio “obras editadas em Portugal/obras do autor estrangeiro”, regista um coeficiente bastante aceitável: 0,7 (7/10 ou 70% dos romances de Cormac McCarthy já se encontram editados em Portugal).

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Decisão

E assim vamos vivendo, muitas vezes dominados por uma emoção instantânea, outras vezes detidos por uma racionalidade anquilosada e paralisante, mas felizmente a vida demonstra-nos que, a despeito do nosso comportamento errático, tão humano, tão sofredoramente humano, tudo tende para um equilíbrio, mais ou menos frágil, íntimo, subjectivo, intransmissível. Sem esse equilíbrio... o vazio, caminharíamos fatalmente para a autodestruição, independentemente dos seus danos colaterais – dispenso-me às demais considerações que entrariam num ápice nos campos da psicologia e da sociologia, e nos seus corolários interdisciplinares.
A tomada de uma decisão implica sempre um custo de oportunidade. Seja ele qual for, há sempre uma perda, mensurável de inúmeras maneiras, compensável ou não pelos frutos da escolha no momento inicial. Claro que há correcções que podem obviar o sentimento de perda irreparável, mas jamais voltaremos ao ponto de partida, mesmo que nos convençamos que de facto é possível uma retroactividade plena, desfazer aquilo que foi feito e partir do zero.
Nunca mais voltaremos a partir do zero, «Para sempre está perdido / O que mais do que tudo procuraste / A plenitude de cada presença.» (Sophia).

Foi esta a decisão. Por mais estúpida e mais insignificante que possa parecer… estamos no domínio das aparências, porventura esconder-se-á algo de mais elevado, uma necessidade de rumo ou de mudança… outros valores se levantam.

Porém, ali ao lado, o tempo escoa-se, e, apesar da altura da fasquia, a manutenção do estado em que as coisas estão não é de todo impossível.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Insisto [actualizado]

Para o João Tordo* e o meu amigo Pedro Correia, "Estranha Forma de Solidariedade", (talvez te saia em sorte o Pedro Henriques no já muito próximo derby lisboeta, ou estás esquecido da boa arbitragem do Sr. Major contra o teu clube, na vizinhança da escandaleira do Duarte Gomes na Reboleira que eliminou o Estrela da Taça da Liga no descontos?), deixo ficar este vídeo para re-baptismo de assuntos futebolísticos neste blogue, depois de uma promessa que fiz há uns tempos (apenas e só falar do meu clube e da sua gestão):

(ver vídeo no YouTube)

*Um bom argumento para que, desta vez, se produza um bom filme, seria o EstorilGate de 2004/2005. O maior escândalo que, com os meus já respeitáveis 36 anos, pude assistir no futebol português.

Nota: Em faltas para grande penalidade não se aplica a "lei da vantagem". Proença errou, mas disso não convém falar. O resultado estava 0-0 e o Reyes trava a progressão do Lucho.
Essa visão monocular clubítica irrita-me profundamente.


(ver vídeo no YouTube)

(ver vídeo no YouTube)

[adenda, dia 10/Fev, às 12h06m]: (C.E.) Proença condensado e verificado, em lides comentadeiras – eu, ainda não havia visto as imagens dos casos do jogo, à excepção do pretenso penalty do Lisandro repetido até à náusea pelo Rui Santos no "Hora Extra" – no programa “O Dia Seguinte” na SIC-Notícias, e assumo agora a função de contra-queixinhas (4 incidências de relevo, 1 erro técnico e 3 de avaliação):

  • 19 min. – Lucho é travado por Reyes dentro da grande área do Benfica, cai e continua o lance, com passe para Fucile que, à entrada da área, remata por cima da baliza. Nem que Fucile houvesse marcado golo, a falta de Reyes sobre Lucho teria de ser marcada, porque dentro da área jamais se aplica a “lei da vantagem”. Segundo os regulamentos, uma falta na grande área cometida sobre um jogador da equipa que ataca é penalty. Erro técnico grave e não de avaliação subjectiva – resultado na altura 0-0;
  • 28 min. – Sidnei, considerado como herói na imprensa desportiva de hoje, pisa ostensivamente Lucho (a bola há muito que lá não estava), deitando o jogador portista por terra (o tal que com fair-play, nove minutos antes não se atirou para o chão na grande área). Cartão vermelho e consequente expulsão (erro de avaliação) – o Benfica passaria a jogar com apenas 10 jogadores durante mais de 1 hora de jogo – resultado na altura 0-0;
  • 79 min. – Por compensação, por ter visto mal o lance, por dolo ou pela re-admissão do Cardeal Nazi no seio da Igreja Católica pelo Papa Ratzinger, Proença assinalou mal o penalty (erro de avaliação) pretensamente cometido por Yebda sobre Lisandro López – convém salientar que todos os jornalistas, comentadores e narradores do jogo (rádios e televisão) afirmaram, sem repetições e no momento exacto do lance, que Yebda havia cometido penalty – o resultado na altura era de 0-1, que passou a 1-1 pela conversão da grande penalidade;
  • 94 min. – David Luiz, sem bola, atinge com os pitões da sua bota as pernas de Fucile e com o cotovelo atinge-o no pescoço, não só ficou por mostrar o cartão vermelho ao jogador benfiquista, como Proença interpretou a falta ao contrário e exibiu o cartão amarelo ao jogador portista (que por acumulação não jogará no próximo jogo), engendrou um livre directo perigoso e inexistente junto da área portista (erros de avaliação), convertido por Carlos Martins e defendido com extrema dificuldade por Helton, dadas a potência e a colocação do remate – fim do jogo, 1-1 resultado final.
    (Q.E.D.)

BAFTA 2009 – Sem surpresas

Realizou-se ontem no Royal Opera House, em Londres, a cerimónia de entrega dos prémios de 2009 da British Academy of Film and Television Arts (mais conhecida pelo acrónimo BAFTA).

Como era de esperar, ainda para mais sendo o evento de organização britânica, o grande vencedor da noite foi o filme Quem Quer Ser Bilionário? (Slumdog Millionaire) do realizador britânico Danny Boyle, arrecadando em 7 prémios em 11 possíveis.

Eis a listagem final dos vencedores (por número decrescente de BAFTA’s arrecadados):

Quem Quer Ser Bilionário? / Slumdog Millionaire (7 BAFTA/11 nomeações)
Argumento Adaptado – Simon Beaufoy
Filme
Fotografia
Montagem
Música – A. R. Rahman
Realizador – Danny Boyle
Som

O Estranho Caso de Benjamin Button / The Curious Case of Benjamin Button (3 BAFTA/11 nomeações)
Caracterização
Efeitos Especiais
Planeamento de Produção

O Cavaleiro da Trevas / The Dark Knight (1 BAFTA/9 nomeações)
Actor Secundário – Heath Ledger

A Duquesa / The Duchess (1 BAFTA/2 Nomeações)
Guarda-Roupa

Em Bruges / In Bruges (1 BAFTA/4 nomeações)
Argumento Original – Martin McDonagh

Fome / Hunger (1 BAFTA/2 Nomeações)
Carl Foreman Award (Revelação do Ano) – Steve McQueen (realizador)

Homem no Arame / Man on Wire (1 BAFTA/2 Nomeações)
Filme Britânico

Il y a longtemps que je t’aime (1 BAFTA/3 nomeações)
Filme em Língua Não-Inglesa

O Leitor / The Reader (1 BAFTA/5 nomeações)
Actriz – Kate Winslet

Vicky Cristina Barcelona (1 BAFTA/1 Nomeação)
Actriz Secundária – Penélope Cruz

Wall-E (1 BAFTA/3 nomeações)
Filme de Animação

O Wrestler / The Wrestler (1 BAFTA/2 Nomeações)
Actor – Mickey Rourke


Nota (apenas um comentário, o resto pode ver aqui e seguir a ligações):
Os grandes derrotados da noite foram, para além de Benjamin Button – o que já se tornou um hábito, o underdog de 2009 –, que com 11 nomeações apenas trouxe três prémios técnicos, houve mais 7 filmes com 3 ou mais nomeações que saíram de Londres de mãos a abanar:

  • A Troca (Changeling), de Clint Eastwood, com 8 nomeações;
  • Frost/Nixon, de Ron Howard, com 6 nomeações;
  • Com 4 nomeações, 2 filmes, Milk, de Gus Van Sant, e Revolutionary Road, de Sam Mendes;
  • Finalmente, com 3 nomeações, 3 filmes, Destruir Depois de Ler (Burn After Reading), dos irmãos Coen, Dúvida (Doubt), de John Patrick Shanley, e Mamma Mia!, de Phyllida Lloyd.

Termino com uma citação e uma promessa

Citação:

«A Índia não é um país bonito como, por exemplo, a Itália, nem pitoresco como, por exemplo, o Japão. A Índia é um continente em que são dignos de interesse, sobretudo, os aspectos humanos. Desse ponto de vista, a Índia é com certeza a nação mais original de toda a Ásia, pelo menos para nós, europeus, que logo tentamos descobrir semelhanças e afinidades que procuraremos em vão na China e no Japão. A aventura política, social, religiosa e artística daquele ramo da estirpe nórdica que, em vez de se dirigir para a Europa, desceu ao subconsciente, é plena de fascínio e de ensinamentos para os europeus. Diríamos mesmo que não se pode compreender por completo a civilização europeia se não se conhecer a Índia.»
Alberto Moravia, Uma ideia da Índia, (texto da contracapa)
(Lisboa: Tinta-da-China, 3.ª edição, Novembro de 2008, 142 pp.; tradução de Margarida Periquito; obra original: Un’idea dell’India, 1962.)

Promessa (a definição cromática não foi fruto do acaso ou do meu gosto pessoal):

Se o SlumDung* vencer** a 81.ª edição do Óscares, a realizar no Kodak Theatre no próximo dia 22 de Fevereiro às 5 das tarde, hora de L.A. (23 de Fevereiro, 1 da madrugada, hora de Lisboa), este blogue suspende actividade por tempo indeterminado, com vista à saída definitiva do mundo dos blogues – esses sugadores de tempo.

Para que não se recorra ao Conselho de Justiça da Federação para interpretação da promessa atrás mencionada, aclara-se o sentido das seguintes expressões:
*“SlumDung” – refere-se ao filme Quem Quer Ser Bilionário? (Slumdog Millionaire) de Danny Boyle – epíteto jocoso de minha autoria perante tal atentado às artes cinematográficas com encómios e prémios por quem deveria ter algum juízo.
**“vencer” – aconselha-se, em primeiro lugar, o recurso a um qualquer dicionário da língua portuguesa. Neste caso, reflecte-se no maior número de estatuetas da Academia de Hollywood – vulgo Óscares – arrecadadas. Em caso de empate, considera-se igualmente como filme vencedor, logo suspensão de actividade.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

SlumDung – A Pornografia da Pobreza

Devidamente avisado pelo Filipe, abre-se uma excepção e posta-se uma segunda citação em dia habitualmente marcado neste blogue para usar as palavras dos outros.
O tema é o Slumdog do pseudo-cineasta Boyle, a crítica citada surgiu no Expresso desta semana, a coincidência de opiniões leva-me a abrir a excepção à regra:

«Não basta dizer, como por todo o lado se tem dito, que o ponto de vista adoptado por este novo trabalho de Danny Boyle sobre o seu objecto de estudo (a vida de um rapaz nascido e criado nos bairros de lata de Bombaim) contribui para a consolidação daquela “pornografia da pobreza” que nos vende a miséria como um espectáculo de consumo rápido. Cineasta da “McDonaldização” do real, da absorção do diferente pelo idêntico (“sabem ao mesmo” os heroinómanos cool de “Trainspotting” e os explorados slumdogs de “Quem Quer Ser Bilionário?”), Boyle nem sequer conhece a distância que permite criar uma verdadeira perspectiva sobre as coisas e limita-se aqui a oferecer-nos o Outro (o Oriente) como um travesti do Mesmo (o Ocidente). Batam palminhas e dêem-lhe o Óscar: afinal de contas, não é todos os dias que se filma assim o “Declínio do Ocidente”.»
Vasco Baptista Marques, in Expresso, 07/02/2009.

Ferocidade surrealista

«Pensemos em que os mais vis comediantes deste tempo tiveram Anatole France por compadre e não lhes perdoemos nunca haver enfeitado com as cores da Revolução a sua inércia sorridente. Que lhe metam o cadáver numa dessas caixas dos cais, previamente esvaziada dos velhos livros “que ele tanto amava”, e se lance tudo ao Sena. Não se deve deixar que este homem, depois de morto, ainda faça poeira…»*
André Breton, Entrevistas, p. 95
(Lisboa: Salamandra, 1994, 306 pp.; tradução de Ernesto Sampaio; obra original: Entretiens avec André Parinaud, 1952.)
*citação retirada de “Un Cadavre” inserida na obra do autor Point du jour, de 1934, e reproduzida nesta colectânea de entrevistas.

sábado, 7 de fevereiro de 2009

SlumDung* Millionaire

Slumdog MillionaireHá muitos anos estipulei uma regra que seguiria com alguma fidelidade, que só não é completa porque as oportunidades – interstícios para o ócio – ditadas pelas vidas familiar e profissional não abundam.
Dito de outra forma, os meses de Janeiro e Fevereiro – e, até há alguns anos, parte do mês de Março, ou seja, até à decisão definitiva da Academia que designou como data-limite o último domingo do mês de Fevereiro para a realização da sessão anual de entrega dos Óscares – sempre foram marcados por alguma azáfama cinéfila de minha parte. Desconhecendo até há bem pouco tempo o curioso Movie Fan Act de 1972 – em tradução livre poderia ser referido por “Código do Fã de Cinema” ou “Código do Cinéfilo”, que obriga qualquer bom cinéfilo americano a assistir aos cinco filmes nomeados para a categoria de “Melhor Filme” antes da realização da gala dos Óscares –, seguia-o de forma involuntária, calcorreando os corredores dos multiplex num corrupio fora do normal.
Dos cinco filmes nomeados ainda não vi, por falta de estreia nacional O Leitor (The Reader) de Stephen Daldry e, por alguma falta de vontade Frost/Nixon de Ron Howard – que presumivelmente hoje mesmo passará para o lado dos “vistos”.
Todavia, O Estranho Caso de Benjamin Button de David Fincher, Milk de Gus Van Sant e, esta semana, Quem quer ser bilionário? de Danny Boyle já passaram pelos meus olhos atentos, que fatalmente redundaram, mais tarde, em opiniões fortes eminentemente pessoais, sem qualquer vontade dirigista – aliás, dado o número de pessoas que me visita seria de uma estultícia e de um primarismo quase burlescos ter tal pretensão.
Fincher e Van Sant convenceram-me, e geraram em mim um sentimento de divisão de preferências para os Óscares deste ano. Ambos os filmes são brilhantes, mas assaz diferentes sob todos os aspectos que poderiam enformar o ensaio de uma qualquer tese de comparabilidade: as épocas, a veracidade versus fantasia do argumento de base, os meios técnicos, a fotografia, o grau de liberdade das formas de interpretação dos próprios actores, os efeitos especiais, a banda sonora, etc.
Se reparto as minhas preferências para melhor filme entre Milk e Benjamin Button, o mesmo não se sucede com a minha opinião pessoal para melhor realizador: Fincher, sem dúvida. Já no que respeita ao melhor actor, considero inevitável a atribuição da primazia a Penn relativamente a Pitt. O primeiro tem o condão de me inebriar, quer à frente, quer atrás das câmaras, quando na sua brilhante função de realizador. Não arriscaria muito se o sentenciasse à detenção do título de melhor actor contemporâneo, a par do meu mui estimado Daniel Day-Lewis.

Quanto ao filme de Danny Boyle, é uma verdadeira amálgama de estridência, de imagens torrenciais, de pseudo-arte escatológica.
Quem quer ser bilionário?, assemelha-se a um videoclip de duas horas sobre o amor num bairro de lata infecto, que substitui a janela de Tornatore pela participação de um semi-analfabeto num concurso televisivo universalmente formatado.
Depois, há os clichés que se repetem nos filmes do realizador – já não bastava serem clichés pseudo-artísticos … –, a sanita de McGregor é a insalubre cloaca pública dos bairros de lata da antiga Bombaim, onde o jovem sonhador mergulha para obter um autógrafo de um actor famoso de Bollywood e que, numa reminiscente prolepse, o ajudará a responder a uma pergunta do concurso televisivo.
Boyle nunca dispôs de talento, como nos querem fazer crer recorrendo à falácia do argumentum ad nauseam. Por exemplo, abandalhou por completo um já fraco romance de culto de Alex Garland, num filme, A Praia (The Beach, 2000) que nem o idílio das ilhas tailandesas foi suficientemente aproveitado. Posteriormente, imbuído do sentimento de sucesso, Garland escreveu os argumentos para os horrendos 28 Dias Depois (28 Days Later…, 2002) e Missão Solar (Sunshine, 2007). Filmes escabrosos, série B.
O seu pretenso toque de Midas facilmente se converte num “toque de Skatos” (a existir tal personagem) ou “toque de Merdas”. A sanita de McGregor só é suavizada pela excelente e relaxante música de fundo de Brian Eno, “Deep Blue Sea”. Aliás, como todo o filme, Trainspotting (1996), que muito deve à sua banda sonora: Joy Division, Underwold (especialmente), Iggy Pop, David Bowie, Elastica, Lou Reed, Leftfield (já bem presentes no suportável Shallow Grave, filme de 1995), New Order, entre outros.
Tudo termina com uma dança bollywoodesca numa das estações de comboios de Mumbai, onde o pateta milionário e a sua “scarface” – convenhamos a lindíssima actriz indiana Freida Pinto – encabeçam um grupo de garridos bailarinos à laia das práticas proselitistas dos frenéticos com Cristo Up with People, que também se arrogam desse messianismo globalizante, menos explícito, concedo, que nos do putativo pai fílmico das agruras do 3.º Mundo, Alejandro Iñárritu e o seu amigo Guillermo Arriaga.

Respeito, mas não consigo entender o encantamento quase toxicómano de milhões de pessoas (espectadores, críticos, associações profissionais da 7.ª arte e gente do cinema) por um subproduto da chamada 7.ª arte. (Raios viciantes emanados dos antigos ecrãs parabólicos Torus?…) Está nomeado para 10 Óscares 10.

*Designação ligeira e compreensivelmente alterada. Reflecte bem o meu estado de espírito depois de o ver... os milhões entregues de mão beijada na fossa séptica multimilionária de Mr. Boyle.

Ingenuidade?

Na biografia condensada de Shakespeare, escrita pelo maior compactador histórico-literário contemporâneo, Bryson questiona-se:

«O que é estranho é que, precisamente quando Shakespeare ostentava abertamente o seu desafogo financeiro, a companhia dos Lord Chamberlain’s Men atravessava uma grave crise financeira.» (Bill Bryson, Shakespeare, Bertrand, 2008, p. 127).

Sim, admito que Bryson não conheça a realidade portuguesa…

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Morreu o Psychobilly

Morreu, ontem, de complicações cardíacas (quem diria?) Erick Lee Purkhiser, mais conhecido pelo pseudónimo Lux Interior, o pai do movimento Psychobilly – movimento que resultou de uma mistura entre o Punk e o reinante rockabilly, com a arte performativa dos filmes de terror série B, e que apenas teve expressão com um número restrito de bandas, como por exemplo os The Meteors ou os King Kurt.
A sua banda, The Cramps, fundada conjuntamente com Poison Ivy, a sua mulher de sempre, foi, na minha opinião, uma das melhores bandas de rock de todos os tempos. Acompanhou os meus bons e saudosos tempos de adolescente inconsequente durante a década de 1980.
Muitas seriam as músicas que poderia aqui nomear, “The Human Fly”, “She Said”, “Goo Goo Muck”, “The Way I Walk”, “Under the Wires”, “New Kind of Kick”, entre muitas outras, para além do maravilhoso álbum A Date with Elvis (1986), e alguns covers onde se inclui o excelente “Fever”, canção celebrizada por Peggy Lee. Para a posteridade fica a inesquecível “The Crusher”… e que bem que lhe fica o epíteto dado pela canção.
(A música será colocada aqui, quando houver menos tráfego)


Lux Interior
(Stow, OH, 21 de Outubro de 1946 – Glendale, Calif., 4 de Fevereiro de 2009)

«Life is short, filled of stuff. Don’t know what for, I ain't had enough.»
New Kind of Kick

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

O Estranho Caso do Underdog

Fincher, lucidamente e em face das contínuas coroações de Boyle e do seu SlumBastard, não se deixa deslumbrar pelas 13 nomeações para os Óscares no dia 22. Sabe que Benjamin Button é, neste momento e de forma curiosa, o underdog.
Fã de Milk, apreciador de Dúvida (Doubt), percebe-se um certo desencanto, de certa forma atenuado pela sua idiossincrasia: calmo, metódico e, sobretudo, um homem independente no seu sentido mais lato.



A partir de amanhã tentarei provar, segundo ouvi dizer, dessas histeria e agitação fílmicas boylianas.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

6 Goyas para a Obra

Realizou-se anteontem à noite a 23.ª sessão de entrega dos prémios Goya da Academia das Artes e das Ciências Cinematográficas de Espanha.
Se dúvidas restassem quanto à expansão da impressionante máquina de produção cinematográfica em Espanha, um número, 163 longas-metragens a concurso, serviria para desfazer qualquer equívoco, para além das 110 curtas-metragens candidatas – não esquecendo que a Academia Espanhola procura envolver toda a comunidade de língua castelhana espalhada pelo mundo, como também os idiomas regionais de Espanha.
Questões para reflectir, enquanto por cá se produz e discute o cine-lixo, ainda por cima de contrafacção da Meca do cinema mundial, renegando os valores próprios da nossa cultura, que os espanhóis tão sabiamente sabem proteger, apesar da inevitável tendência mimética facilmente vislumbrável em muitos dos seus filmes.

Depois das nomeações, anunciadas no passado mês de Dezembro, o grande vencedor da noite foi o filme Camino do realizador madrileno Javier Fesser (n. 1964), nomeado para 7 categorias, arrecadou 6 prémios Goya: melhores “Filme”, “Realizador”, “Argumento Original”, “Actor Secundário – Jordi Dauder”, “Actriz – Carmen Elías” e “Actriz Revelação – Nerea Camacho”.

Camino, baseia-se em factos reais e narra a luta eterna entre a fé e a razão, entre o espiritual e o humano, numa triste história da morte de uma menina inserida com a sua família no meio da sinistra organização religiosa Opus Dei fundada por Josemaría Escrivá de Balaguer – agora santo, protagonista da canonização mais rápida de toda a história da Igreja Católica, ainda no papado de João Paulo II. Camino é também o título do livro escrito pelo fundador da Obra em 1939 que serve de guia a todos os sectários da prelatura pessoal do Papa.
Ai a dor como redenção… pobre Severin*.

(Carregar aqui ou aqui para obter mais informações sobre o filme vencedor.)

Entretanto, fiquemo-nos pelo trailer, para a conversa não divergir para os meandros de tão obscura organização tentacular, tanto em Espanha, como em Portugal, assim como o arrojado enraizamento na América Latina:

Uma sociedade de damas e cavalheiros vem jantar às seis da tarde. Eu sirvo à mesa e, desta vez, não entorno o vinho. Uma bofetada vale mais que dez repreensões: por seu intermédio compreendemos depressa, particularmente se for aplicada por uma pequenina e gordinha mão de mulher.»
Leopold von Sacher-Masoch, A Vénus de Kazabaïka, p. 127
(Lisboa: Relógio D’Água, 1994, 174 pp.; tradução de Ana Hatherly; obra original: Venus im Pelz, 1870.)

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

B.I. Musical

Nota introdutória
Proposto pelo Henrique, este desafio é bem mais complicado do que realmente aparenta. Lembramo-nos de canções, de músicas e letras, e associamo-las a diversas situações da nossa vida, a bons e a maus momentos, desespero, noites de insónia, a intraduzíveis momentos de alegria, à saudade, a medos e anseios; porém, dificilmente as encaixamos nas dez singelas questões que esta dúbia corrente nos propõe. Tentei introduzir nas questões alguns dos meus cantores e/ou grupos favoritos, mas o tempo que isso pedia não o permitiu; ficou a ganhar a espontaneidade.

Sem mais palavras vãs, eis o meu bilhete de identidade musical:

1 - És homem ou mulher?

«Eu sou o homem da cidade que manhã cedo acorda e canta, e, por amar a liberdade, com a cidade se levanta.» - Carlos do Carmo, “Um Homem na Cidade”.

2 - Descreve-te.

«I was born in the city, but I longed to run free. A screaming horse in my belly, scar on my heart, I live outside of convention. You Know the people who stare.» - The Cult, “Wild Hearted Son” + «But don’t play with me, ‘cause you’re playing with fire.» - Rolling Stones, “Play With Fire”.

3 - O que as pessoas acham de ti?

«Call me unpredictable, tell me I’m impractical. Rainbows I’m inclined to pursue.» but «You’re just too marvelous, too marvelous for words. Like “glorious”, “glamorous” and that old standby “amorous”.» ambas cantadas por Frank Sinatra “Call me irresponsible” e “Too Marvelous for Words”, respectivamente.

4 - Como descreves o teu último relacionamento?

«Take your hands off me. I don't belong to you, you see. Take a look at my face for the last time. I never knew you. You never knew me. Say hello goodbye.» - Soft Cell, “Say Hello, Wave Goodbye”

5 - Descreve o estado actual da tua relação.

«This is the happy house – we’re happy here in the happy house – oh it’s such fun.» - Siouxsie and the Banshees, “Happy House”

6 - Onde querias estar agora?

«Should I stay or should I go now? Should I stay or should I go now? If I go there will be trouble. And if I stay it will be double. So come on and let me know.» - The Clash, “Should I Stay or Should I Go”.

7 - O que pensas a respeito do amor?

«As loud as hell a ringing bell, behind my smile it shakes my teeth, and all the while as vampires feed, I bleed.» - Pixies, “I Bleed”

8 - Como é a tua vida?

«Vivendo dessa maneira continuar é besteira. Não adianta não, não, não. O que passou é poeira. Deixa de asneira que eu não sou limão. Não sou limão, eu não!» - João Gilberto, “De conversa em conversa”

9 - O que pedirias se pudesses ter um só desejo?

«I want to see my family, my wife and child waiting for me. I’ve got to go home. I’ve been so alone, you see.» - New Order, “Love Vigilantes”.

10 - Escreve uma frase sábia.

«When desire becomes an illness instead of a joy, and gilt a necessity that got to be destroyed.» - The The, “Infected”.

E fora do programa:

11 – Passa a corrente a cinco pessoas.

«And I can't break the chain. God help me break the chain. I wanna break the chain, please help me break the chain.» - Gene Loves Jezebel, “Break The Chain”.

(Porém, inusitadamente, Deus ajudou…)

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Praia

«Larguei a heroína e voltei à minha terra e comecei com o tratamento de metadona que me administravam no ambulatório e poucas coisas mais tinha de fazer excepto levantar-me a cada manhã e ver televisão e conseguir dormir à noite, mas não podia, alguma coisa me impedia de fechar os olhos e descansar, e essa era a minha rotina, até que um dia não aguentei mais e comprei um fato de banho preto numa loja do centro da povoação e fui à praia, com o fato de banho vestido e uma toalha e uma revista, e coloquei a minha toalha não muito perto da água e de seguida estirei-me e estive um pouco de tempo a pensar se haveria de ir ou não tomar banho, vislumbrava muitos motivos para o fazer, mas também vislumbrava alguns motivos para o não fazer (as crianças que tomavam banho na beira-mar, por exemplo), assim o tempo passou e voltei a casa, e na manhã seguinte comprei creme de protecção solar e fui de novo à praia, e por volta do meio-dia dirigi-me ao ambulatório e tomei a minha dose de metadona e saudei algumas caras conhecidas, nenhum amigo ou amiga, só caras conhecidas da fila para a metadona que acharam estranho ver-me de fato de banho, e eu como se nada fosse, e logo voltei a caminhar para a praia e desta vez dei o primeiro mergulho e tentei nadar, porém não consegui, mas isso para mim foi o suficiente, e no dia seguinte voltei à praia e de seguida voltei a untar o corpo com o protector solar e depois fiquei a dormir na areia, e quando acordei sentia-me bastante descansado, e não tinha queimado as costas nem nada de nada, e assim passou uma semana ou talvez duas, não me lembro, onde não restava qualquer dúvida era que a cada dia que passava estava mais moreno e embora não falasse com ninguém a cada dia sentia-me melhor, ou diferente, que não é a mesma coisa mas no meu caso parecia, e um dia apareceu na praia um casal de velhos, disso recordo-me com nitidez, via-se que já andavam há muito tempo juntos, ela era gorda, ou cheiinha, e devia andar aproximadamente pelos 70 anos, e ele era magro, ou mais que magro, um esqueleto que caminhava, creio que foi isso que me chamou a atenção, porque regra geral nunca reparava na gente que ia à praia, mas nestes reparei devido à magreza do tipo, o que vi assustou-me, merda, é a morte que vem buscar-me, pensei, mas não vinha, era só um casal idoso, ele com uns 75 e ela com uns 70, ou ao contrário, e ela parecia gozar de boa saúde, e ele tinha cara de quem iria bater a bota a qualquer momento ou que este seria o seu último Verão, em princípio, ultrapassado o primeiro susto, tive dificuldades em desviar o olhar da cara do velho, da sua caveira apenas coberta por uma fina camada de pele, mas logo me habituei a olhá-los de forma dissimulada, deitado na areia, de bruços, com a cara tapada pelos braços, ou a partir do passeio, sentado num banco em frente à praia, enquanto fingia que tirava a areia do corpo, e lembro-me que a velha chegava sempre à praia com um guarda-sol em cuja sombra se introduzia de forma pressurosa, sem fato de banho, apesar de por vezes a ter visto de fato de banho, mas mais usualmente com um vestido de verão, bastante largo, que lhe fazia parecer menos gorda do que era, e debaixo do guarda-sol a velha passava o tempo a ler, levava um livro bastante grosso, enquanto o esqueleto que era seu marido se estendia na areia, vestido unicamente com um fato de banho diminuto, quase uma tanga, e absorvia o sol com uma voracidade que a mim me trazia recordações longínquas, de junkies desfrutando estáticos, de junkies concentrados no que faziam, na única coisa que podiam fazer, e naquele momento ficava a doer-me a cabeça e ia-me embora da praia, comia no Paseo Marítimo, uma tapa de anchovas e uma cerveja, e depois punha-me a fumar e a observar a praia através dos janelões do bar, e depois voltava e aí seguia o velho e a velha, ela debaixo do guarda-sol, ele exposto aos raios do sol, e então, de forma involuntária, dava-me vontade de chorar e mergulhava na água e nadava, e quando já me havia afastado bastante da beira-mar observava o sol e parecia-me estranho que estivesse ali, essa coisa grande e tão diferente de nós, e de imediato punha-me a nadar até à chegar à orla (por duas vezes estive a ponto de me afogar) e quando chegava deixava-me cair na minha toalha e ficava um bom bocado a respirar com dificuldade, mas sempre espreitando até onde se encontravam os velhos, e depois talvez tivesse dormido deitado na areia, e quando acordava a praia começava a esvaziar-se, mas os velhos continuavam lá, ela com o seu romance debaixo do guarda-sol e ele deitado de costas, numa zona sem sombra, com os olhos fechados e uma expressão estranha na sua caveira, como se sentisse cada minuto que passava e o desfrutasse, mesmo que os raios de sol fossem já débeis, mesmo que o sol já se encontrasse do outro lado dos edifícios da primeira linha da costa, do outro lado das colinas, mas isso parecia não lhe importar, e então, no momento de acordar eu observava-o e observava o sol, e por vezes sentia nas costas uma dor ligeira, como se naquela tarde me houvesse bronzeado mais do que o normal, e de imediato observava-os e logo me levantava, jungia a toalha ao corpo como uma capa e ia-me sentar num dos bancos do Paseo Marítimo, onde fingia que sacudia a areia que não tinha nas pernas, e a partir daí, desde essa altura, a visão do casal era diferente, dizia a mim mesmo que talvez ele não estivesse a ponto de morrer, dizia a mim mesmo que o tempo talvez não existisse tal como eu acreditava que existia, reflectia sobre o tempo enquanto a distância do sol alongava as sombras dos edifícios, e de seguida ia para casa e tomava um duche e olhava para as minhas costas vermelhas, umas costas que não pareciam minhas mas de outro tipo, um tipo a quem ainda faltariam muitos anos para eu conhecer, e depois ligava a televisão e via programas que não entendia em absoluto, até que ficava a dormir no sofá, e no dia seguinte voltava ao mesmo, a praia, o ambulatório, outra vez a praia, os velhos, uma rotina que por vezes evitava o aparecimento de outros seres que apareciam na praia, uma mulher, por exemplo, que estava sempre de pé, que jamais se recostava na areia, que ia vestida com a parte de baixo de um biquíni e com uma camisa azul, e quando entrava no mar só se molhava até aos joelhos, e que lia um livro, como a velha, mas esta mulher lia-o de pé, e por vezes agachava-se, embora de uma forma esquisita, e agarrava numa garrafa de Pepsi de litro e meio e bebia, de pé, claro, e a seguir deixava a garrafa sobre a toalha, que eu não fazia a mínima ideia porque é que a havia trazido se nunca se estendia nela e tão-pouco tomava banho, e por vezes esta mulher metia-me medo, parecia-me excessivamente esquisita, mas a maioria das vezes só me metia pena, e também vi outras coisas estranhas, na praia passam-se sempre coisas assim, talvez porque é o único sítio onde todos estamos meio despidos, mas que não tinham importância alguma, uma vez pareceu-me ver um ex-junky como eu, enquanto caminhava pela beira-mar, sentado num montículo de areia com um bebé de meses sobre as suas pernas, e de outra vez vi umas raparigas russas, três raparigas russas, que provavelmente eram putas e que falavam, as três, ao telemóvel e riam-se, mas na verdade o que mais me interessava era o casal de velhos, em parte porque tinha a impressão de que o velho ia morrer a qualquer instante, e quando pensava nisto, ou quando dava conta de que estava a pensar nisto, ocorriam-me sempre ideias disparatadas, como a que depois da morte do velho surgiria um maremoto, a povoação era destruída por uma onda gigantesca, ou punha-se a tremer, um terramoto de grande magnitude faria desaparecer a povoação inteira no meio de uma onda de pó, e quando pensava no que acabo de dizer escondia a cabeça entre as mãos e desatava a chorar, e enquanto chorava sonhava (ou imaginava) que era de noite, pelas três da manhã, e que eu saía da minha casa e ia à praia, e na praia encontrava o velho estendido na areia, e no céu, próximo das outras estrelas, mas mais próximo da Terra que das outras estrelas, brilhava um sol negro, um enorme sol negro e silencioso, e eu descia até à praia e também me estendia na areia, as duas únicas pessoas na praia eram o velho e eu, e quando voltava a abrir o olhos apercebia-me de que as putas russas e a rapariga que estava sempre de pé e o ex-junky com o bebé nos braços me contemplavam com curiosidade, perguntando-se quem, por acaso, poderia ser aquele tipo estranho, o tipo que tinha as costas e os ombros queimados, e até a velha me observava a partir da frescura do seu guarda-sol, interrompia a leitura do seu livro interminável por um segundos, perguntando-se talvez quem era aquele jovem que chorava em silêncio, um jovem de 35 anos que nada tinha, mas que estava a reconquistar a vontade e o valor e que sabia que ainda ia viver por mais uns tempos.»
Roberto Bolaño, “Playa”, in El Mundo*, 17/Agosto/2000 [tradução: AMC, 2009]

*série de contos escritos por vários autores subordinados ao tema “O pior Verão da minha vida” e publicados no Verão de 2000 no jornal espanhol El Mundo. Para além de Bolaño participarem neste desafio escritores como Zoé Valdés, Francisco Umbral, Eduardo Mendicutti, Manuel Hidalgo, Juan Marsé, Ignacio Padilla, Lucía Etxebarria, Guillermo Cabrera Infante, José Ovejero, entre outros.

A habitual citação dominical foi substituída pela “citação completa” de um conto de Bolaño, publicado em 2000 no mencionado jornal espanhol. A sua pertinência deve-se à habitual especulação necrófaga sobre a vida de um determinado autor que se destacou em vida pela excelência da sua literatura. Foi assim com Hemingway, tentaram fazê-lo com Henry James, e iniciou-se agora a campanha de esquadrinhamento da vida privada de Bolaño. Com este conto, alguns biógrafos de pacotilha vêem nele um ex-heroinómano, que lutou anos contra o seu vício quinciano. Outros investigam ainda possibilidade de Bolaño não ter estado no Chile a 11 de Setembro de 1973 – como o autor insistentemente afirmava nos seus escritos –, quando se deu o Golpe de Estado de Augusto Pinochet contra o Presidente socialista Salvador Allende. Logo a sua famosa prisão por uma semana acusado de ser terrorista foi uma farsa. E hão-de continuar. Mais episódios surgirão independentemente da vontade da família, dos seus amigos e editores.