quinta-feira, 31 de maio de 2007

O escritor, um crítico e o seu trabalho

Edmund WilsonEdmund Wilson (1895-1972), escritor norte-americano, sobretudo reconhecido pelo seu brilhante currículo como crítico literário, considerado como um dos críticos mais proeminentes e respeitados nos Estados Unidos do século XX.
O apogeu da sua carreira e da sua influência no mundo das letras norte-americanas deu-se enquanto editor da The New Republic e crítico da The New Yorker. A ele se deve, por exemplo, a perpetuação nos anais da literatura mundial do nome e da obra de um dos mais geniais escritores de sempre, F. Scott Fitzgerald – de quem foi colega em Princeton –, cuja morte prematura aos 44 anos, a conturbada época em que este escreveu, entre o fim da I Guerra Mundial, passando pela Grande Depressão e acabando às portas da II Guerra Mundial, o alcoolismo e as extravagâncias mundanas, e isto apesar da incrível quantidade (e qualidade) de contos que escreveu e publicou – cerca de 170, uma das formas de sustentar a sua vida luxuosa e as singulares exigências da sua caprichosa mulher Zelda – e dos seus arquetípicos romances, facilmente poderia cair no esquecimento.
Wilson é ademais conhecido pelo seu longo e inconstante relacionamento com Vladimir Nabokov, numa primeira instância por ter dado a conhecer ao mundo ocidental, sobretudo aos americanos, o génio literário do exilado russo, de quem se tornaria grande amigo e com quem mais tarde protagonizaria uma das mais famosas e acesas altercações literárias – consta que chegou à violência física –, a propósito da tradução de Eugénio Onegin (por transliteração do cirílico para o alfabeto latino de Yevgeniy Onegin, deve-se ler “Oneguine” em português) do autor russo Aleksandr Pushkin (1799-1837).
Numa recensão publicada na The New York Review of Books em Julho de 1965, intitulada “The Strange Case of Pushkin and Nabokov”, Wilson começa por dizer:

«Este trabalho, embora válido, é de certa forma desapontante; e o crítico, embora amigo pessoal do Sr. Nabokov – por quem ele mantém uma calorosa estima muitas vezes arrefecida pela exasperação – e um admirador de grande parte do seu trabalho, não se furta a demonstrar o seu desapontamento.
«Uma vez que o Sr. Nabokov tem o hábito de apresentar qualquer trabalho seu desta envergadura através de um anúncio de que ele é único e incomparável, e que toda a gente que o tenha tentado é um tonto e um iletrado, incompetente como académico e linguista, normalmente com a implicação de que se trata de uma pessoa sem classe e com uma personalidade ridícula, Nabokov não deverá queixar-se se o seu crítico, embora não tentando imitar a sua má conduta literária, não hesitar em sublinhar as suas debilidades.» [tradução livre AMC]

A partir deste momento a História da literatura registará uma das mais truculentas trocas de correspondência entre os dois velhos (ex) amigos.

Este episódio serve para realçar a integridade moral e de conduta que Wilson apunha ao seu melindroso trabalho de crítico literário, e que lhe valeu a enorme consideração nos meios académicos e literários mais importantes nos Estados Unidos e no mundo.
Apesar dos incontáveis episódios menos abonatórios de que foi protagonista, principalmente se nos ativermos à sua impetuosa vida pessoal e sentimental, Wilson é um exemplo a ter em conta quando, por cá, surge uma nova vaga opinativa sobre os denominados amiguismos no mundo da crítica literária lusa.
Para a História, fica também um delicioso episódio, que há muito entrou no anedotário da Literatura universal, sobre um súbito cansaço das relações perigosas entre críticos, escritores, editores e revistas da especialidade, e das suas sucessivas solicitações. Reza a história que Wilson, a partir de determinada altura, quando instado a intervir, enquanto crítico afamado, em diversos eventos públicos directamente relacionados com a selvajaria do mercado editorial, passou a enviar um postal standard que, qual faca de dois gumes, lhe trouxe algumas dores de cabeça, uma vez que aquele passou a ser objecto de memorabilia literária.
Do postal constava o seguinte:

«Edmund Wilson lamenta afirmar que é impossível para ele: ler manuscritos, escrever artigos ou livros para classificar, escrever prefácios ou introduções, fazer declarações com fins publicitários, fazer qualquer trabalho editorial, integrar júris de concursos literários, dar entrevistas, participar em conferências de escritores, responder a questionários, contribuir para ou intervir em qualquer tipo de simpósios ou “painéis”, contribuir com manuscritos para venda, doar cópias dos seus livros para bibliotecas, autografar trabalhos para desconhecidos, autorizar a utilização do seu nome para constar de frontispícios, fornecer qualquer informação pessoal sobre o próprio, ou dar opiniões sobre assuntos literários ou demais assuntos.» [tradução livre AMC]

Percebe-se agora o choque com Nabokov… alguma empáfia, própria dos grandes, quando o são na realidade.

quarta-feira, 30 de maio de 2007

Indignação


Parabéns à caterva que gere e representa a FC Porto, Futebol SAD – sociedade em que 40% do capital é detido directamente pelo meu clube –, por haver desbaratado o seu melhor activo. Razão tinha o António Oliveira para votar contra esta administração calamitosa.

Tomei uma decisão: Há dias já organizava com um conjunto de familiares e amigos a retoma dos nossos lugares anuais com bilhete para a época inteira. Todavia, perante este atentado bárbaro, grosseiro, sem qualquer tipo de pudor, ao clube do qual sou sócio há 31 anos – nasci em 1972 e sou sócio desde 1976 – e como forma de demonstrar o meu mais veemente repúdio pela decisão tomada:

Não irei adquirir o “Dragon Seat 2007/2008”.

Nota: espero que outros me sigam o exemplo. Chegou a hora de dizer BASTA!

Uma editora a desperdiçar qualidades

Robert MusilEm Maio de 2005, a Lusa noticiava que a Dom Quixote iria editar as obras completas do escritor austríaco Robert Musil (1880-1942):
«O primeiro título da colecção será “As Perturbações do Pupilo Torless”, publicado em 1906 e já editado em Portugal pela Livros do Brasil.
«O segundo livro da série, intitulado “A Portuguesa e outras novelas”, sairá no Outono, e só no primeiro trimestre de 2006 devem chegar às livrarias os dois primeiros volumes de “O Homem sem Qualidades”, publicado entre 1930 e 1942.
«De acordo com João Barrento, a colecção, composta por oito obras distribuídas por 11 tomos, será publicada ao ritmo de dois a três livros por ano, devendo ficar completa no final de 2006 ou no início de 2007.» (Agência Lusa, 7 de Maio de 2005).

Hoje, 30 de Maio de 2007, a referida editora apenas publicou o excepcional As Perturbações do Pupilo Törless – uma das obras de ficção da minha vida, a par de Jakob von Gunten do seu contemporâneo suíço Robert Walser, uns furos acima da obra que emprestou a epígrafe a este blogue, para me situar no género diarista de púberes-buscas-existenciais, que já havia lido sob o título O Jovem Törless na versão, chamemos-lhe comedida, de João Filipe Ferreira para a editora Livros do Brasil.

Tal como A Montanha Mágica de Mann, O Homem sem Qualidades de Musil foi em tempos imemoriais publicado pela editora Livros do Brasil, porém há anos que ambas as edições se encontram esgotadas no mercado – colecção “Dois Mundos”, edições n.º 32 e n.º 115 (esta em 3 volumes), respectivamente –, e sem reedição prevista, talvez justificada pela perda de direitos de publicação.

(Louvor: honra seja feita à editora fundada por António Augusto de Souza-Pinto pelo eclético e completíssimo catálogo de autores consagrados e de verdadeiras obras-primas da literatura universal, que, se não existisse e perante a penosa constatação do vencimento dos critérios mercantilistas da promoção do lixo no actual panorama editorial português, jazeriam no olvido do deserto – desta feita em ambas as margens, a começar no Terreiro do Paço – cultural luso.)

É por todos sabido – pelo menos por aqueles que se interessam por livros – que a Dom Quixote tem vindo, no último par de anos, a encaminhar-se para um destino completamente divergente daquele que foi idealizado pela sua mais notável fundadora, a tragicamente desaparecida, a 4 de Dezembro de 1980, Snu Abecassis.
Em 1999, a editora portuguesa foi adquirida pelo gigantesco grupo editorial espanhol Planeta. No entanto, para nós leitores, os efeitos da quente brisa de mudança do Levante peninsular começaram apenas a sentir-se no século XXI, havendo culminado com a publicação do best-seller "Auchan/Modelo-Continente/Barbas" Eu, Carolina.
Enquanto isso a editora, que já perdeu Kundera e Banville para a Asa e que publica Roth, García Márquez, Lobo Antunes, Rushdie, Vargas Llosa, Faulkner, Jorge Amado, entre outros, tarda em publicar Slow Man de Coetzee, adia sucessivamente Everyman de Philip Roth, não se conhecem os últimos avanços na prometida edição de Les Bienveillantes de Jonathan Littell – vencedor do Goncourt 2006 –, emudece-se sobre a edição do aclamado romance On Beauty da jovem e premiada escritora britânica Zadie Smith (n. 1975) e, ao que parece, meteu literalmente Robert Musil na gaveta, já com obra restaurada pelo notável ensaísta, tradutor e crítico literário João Barrento.

De degradação em degradação, quo vadis, Dom Quixote?

terça-feira, 29 de maio de 2007

A célebre profecia de Ian

O Luís, através de uma pequena recriminação à sua Leitora – com quem já tive o prazer de falar –, deu-me a conhecer esta excelente versão de Susanna and The Magical Orchestra (melhor que a vozinha menineira da intérprete dos Nouvelle Vague) da canção mais popular dos efémeros eternos Joy Division, parte integrante do álbum, de 2006, Melody Mountain da cantora e grupo noruegueses:



A original para os mais esquecidos:

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Podes viver mas não amarás

A frase em epígrafe estava inscrita numa tatuagem de um dos braços de Arbatchak, um dos “brutos”, um urca, do campo de trabalhos forçados, ou Gulag – acrónimo para a administração dos campos de trabalho ou de reeducação – estalinista, em Norlag na Sibéria, a Rússia setentrional, para além do Círculo Polar Árctico.

«O meu irmão mais novo chegou ao campo em 1948 (eu já lá estava), no auge da guerra entre os brutos e as bestas…» (pág. 13)

Estas são as primeiras palavras do 1.º capítulo do romance epistolar A Casa dos Encontros do escritor britânico Martin Amis (n. 1949) e «esta é uma história de amor. Amor Russo, é certo. Mas amor.» (pág. 13)
O narrador, um próspero imigrante russo de 84 anos a viver nos Estados Unidos, de quem nunca saberemos o nome, escreve uma longa carta à filha, Venus – filha de Fénix, a renascida... –, sobre o seu passado bárbaro na União Soviética, enquanto navega pelos mares gelados do Árctico rumo ao espaço físico que as suas rememorações jamais abandonaram, e que o próprio sabe que o acompanharão até aos dias do fim.
O narrador avisa a filha para a brutalidade da história, que apenas os seus olhos ocidentais confirmarão como tal, mas que para um russo, mesmo que afastado do país há 20 anos, faz parte da realidade e do quotidiano daquele país, de uma verdade nua e crua que, há centenas de anos, e de forma inelutável, parece haver sido inscrita e posteriormente confirmada no código genético da sua História. Uma história que se conta através das atrocidades perpetradas pelos seus diferentes protagonistas, «não há Deus russo que chore e cante»: desde o século X até aos czares, a revolução de 1917 e as atrocidades do País dos sovietes, e o novo capitalismo, de rosto russo, estatizado, onde o Estado deixou o monopólio e passou a principal accionista, «o oligarca principal», onde não faltam sequer as tragédias do teatro Dubrovka em Moscovo e a chacina de Beslan… Porém, esta é uma história de amor:

«A história de amor é de forma triangular e o triângulo não é equilátero. Por vezes, gosto de pensar que é um triângulo isósceles: forma sem dúvida um vértice muito aguçado. Mas, sejamos honestos, admitamos que o triângulo se mantém brutalmente escaleno. […] Escaleno, do grego skalenos: desigual.» (pág. 14)

Lev, o meio-irmão do narrador, irmãos uterinos, chega em Fevereiro de 1948 a Norlag, um campo de trabalhos forçados, fortemente hierarquizado, onde predominam a selvajaria e a iniquidade, um campo dividido em porcos – os funcionários e os guardas –, urcas – bestas e brutos –, cobras – os informadores, os bufos –, fascistas – todos os que houvessem por uma vez manifestado uma ideia política não comunista –, sanguessugas – os burlões e trapaceiros burgueses –, gafanhotos – os urcas sem corpo nem lei – e papa-merdas – os de mais baixo estrato, os cansados da luta interna, apenas disputavam os restos de comida.
No centro da narrativa está o amor por “a Américas”, Zoya, a judia, cujo corpo fazia lembrar os rutilantes contornos geográficos das duas Américas, cuja «cintura delgada» era o «Panamá» – que Nabokov uma vez comparou a dois artistas de circo que se seguravam em plena acção no trapézio –, e que motivou a prisão, a condenação por 10 anos e a consequente deportação de Lev quando numa fila em Moscovo, em conversa mantida com a irmã de ambos, Kitty, falava bem da Américas, havendo quem o acusasse de se referir, em termos laudatórios, ao arqui-inimigo da pátria, os Estados Unidos. Contudo, era apenas a encantadora e esguia Zoya que Lev teve a ousadia de arrebatar, enquanto o narrador, nos primeiros anos do pós-guerra, expiava os seus pecados sob o gelo do Árctico, relembrando os tempos em que esta vivia numa mansarda cónica de Moscovo, com umas escadas em ferro exteriores em caracol e ele, solícito, a agarrava pelo braço para que não escorregasse no gelo que se formara – sim, «porque em pequena nunca tinha aprendido a gatinhar…» –, para posteriormente assistir ao corrupio de homens que daquela torre entravam e saíam, e ele versejando na sombra, do outro lado da rua, numa imobilidade perturbadora, prostrado horas a fio no gelo cortante da capital russa à espera de um sinal, o fechar da persiana – a ironia, o «herói violador» apaixonado, foi encarcerado por essa paixão, pela «destruidora de poetas» que, mais tarde, encarcerou o irmão.
Tudo isto ocorre durante o reinado de terror de José Vissarionovitch, a quem Amis prefere ocultar o nome principal, onde os cidadãos são apenas números, são activos do Estado, meros objectos ao seu dispor para, por todos os meios, concretizar e assegurar a imposição e o sucesso da ideologia comunista aos olhos do corrompido mundo ocidental.
Era a época das purgas, dos delatores, da polícia política, dos campos de concentração, da apologia do terror contra a dissidência, das fortes campanhas de propaganda para o exterior de um vida e de uma sociedade sãs e sapientes através das artes e do desporto, da perversa perseguição aos judeus pós II Guerra Mundial – o início do pogrom –, da proibição de todo e qualquer tipo de actividade religiosa e de qualquer tipo de manifestação. Porém, no meio desta barbárie silenciosa estava Zoya que, para surpresa do narrador, havia casado secretamente com Lev na véspera de este ser detido.
Os anos vão passando no Gulag. José Vissarionovitch morre em 1953, mas o terror no campo não abranda. É preciso matar para sobreviver, e o narrador vê-se confrontado com a atitude de pacifista do irmão e a necessidade de o defender dos porcos e das cobras delatoras, outrora gente sem rosto do seu lado da contenda nos terríveis campos de batalha da II Grande Guerra e da chegada triunfal a Berlim em 1945, que como membro do Exército Vermelho participou no estupro colectivo de milhões de mulheres alemãs, enlouquecidas, atordoadas e martirizadas por seis anos do mais terrível dos conflitos.
Ao longo da narrativa paira um mistério materializado numa data, 31 de Julho de 1956, e num local, a casa dos encontros no Norlag.
Após 9 anos de reclusão do marido, Zoya desloca-se ao campo de trabalhos para se encontrar com este, mediante uma política de abertura do regime que concedia o privilégio aos condenados casados de, numa noite, desfrutarem da companhia dos cônjuges. O narrador assiste aos preparativos do irmão e à chegada da sua cunhada, objecto da sua obsessão. A partir dessa data, aquela noite que reuniu Lev e Zoya na casa dos encontros, algo muda… Seguem-se os anos de liberdade, metaforizada na inevitável cruz russa, condicionada a uma pátria sufocante e omnipresente, que superintende cada gesto, atitude ou acção de cada cidadão.

Inspiriado no soberbo tratado de Anne Applebaum (n. 1964), Gulag: Uma História (vencedor do Pulitzer em 2004 na categoria de Não-Ficção) e na obra-prima Arquipélago de Gulag do Prémio Nobel da Literatura em 1970 Aleksandr Solzhenitsyn (n. 1918), A Casa dos Encontros é um romance sobre a turbulenta forma de amar (n)a Rússia, sobre a brutalidade quotidiana que se manteve ao longo dos tempos, apenas entendida aos olhos dos que lá vivem, formando a sua cruz, a constante subida da curva da morte acompanhada pela descida da curva que representa o número de nascimentos, que se intersectaram algures, por volta de 1992, a cruz russa: parece surgir da «tentativa de uma criança de três anos de desenhar a metade inferior de uma baleia ou tubarão: o torso largo estreita-se até desaparecer e depois tende para a barbatana caudal.» (pág. 194).

A Rússia «não é como Zoya. A Rússia aprendeu a gatinhar, e ela aprendeu a correr. O que não aprendeu foi a caminhar.» (pág. 204).

Classificação: **** (Bom)

Referência bibliográfica:
Martin Amis, A Casa dos Encontros. Lisboa: Teorema, 1.ª edição, Abril de 2007, 229 pp. (tradução de Telma Costa; obra original: The House of Meetings, 2006).

sábado, 26 de maio de 2007

David

David FincherNos dias que correm, essencialmente por motivos de crescimento familiar, é-me cada vez mais difícil conseguir deslocar-me a uma sala de cinema para assistir às últimas novidades. Normalmente, espero pela edição em DVD e mesmo assim, encontrar um ínterim de descontracção nas tarefas parentais, é objectivamente uma tarefa delicada.
Contudo, há excepções que se abrem por causas que reputo de nobres na minha escala de encantamentos muito pessoal, de mais fácil concretização na Literatura, de alguma dificuldade de acrobata no Cinema – locais de exibição, horários e tempo de permanência no circuito comercial – e de uma quase impossibilidade na Música – concertos em Lisboa ou em locais inacessíveis, pantanosos e babilónicos como os que acolhem os festivais de Verão.
Eis a excepção para a fuga: David.

Nascido há quase 45 anos em Denver, Colorado, Estados Unidos (Agosto de 1962), David Fincher é, de longe, na actualidade, o meu realizador de cinema preferido.
Sem formação académica nas artes e ciências cinematográficas, começou, por realizar anúncios publicitários para marcas destacadas e alguns vídeos musicais. Com apenas 30 anos realizou o terceiro filme da saga Alien – de longe o seu pior, abaixo da versão de Ridley Scott (Alien, o 8.º passageiro, filme de 1979) e da de James Cameron (Aliens, recontro final, filme de 1986), mas imensamente superior à de Jean-Pierre Jeunet.
Segue-se a fabulosa sequência Se7en (1995), O Jogo (1997), Clube de Combate (1999), A Sala de Pânico (2002) e Zodiac (2007), encontrando-se a rodar o mais do que aguardado The Curious Case of Benjamin Button, baseado no conto homónimo do gigante decadentista Francis Scott Fitzgerald – um dos melhores de sempre na sua arte e no top 10 das minhas preferências literárias –, com Brad Pitt e Cate Blanchett nos principais papéis.
Já descrevi em inúmeros textos neste e no meu anterior
blogue as sensações experimentadas com cada filme daquele sublime quarteto. Hoje chegou a vez de Zodiac, estreado em Portugal e no mundo inteiro (circuito comercial) no passado dia 17 de Maio.

Fincher, conhecido no meio pela exigência que apõe nos guiões que escolhe para levar à grande tela – lembro-me bem do desgosto que se acometeu de mim quando o seu nome foi apontado para a realização do 3.º filme da série Missão Impossível, que, felizmente, mais tarde viria a recusar –, conseguiu uma vez mais subverter as expectativas que qualquer cinéfilo poderia dispor sobre um filme baseado nos crimes reais ocorridos, nas décadas de 60 e 70 do século passado, em São Francisco, perpetrados por um assassino em série que se dava a conhecer pelo nome de código Zodiac, que por sua vez deriva do expediente de envio de mensagens encriptadas onde aquele relatava os brutais assassinatos. Zodiac não é um filme sobre serial killers, cujo modelo está completamente estafado após as incontáveis réplicas, tão típicas de Hollywood, que se seguiram ao excepcional O Silêncio dos Inocentes de Jonathan Demme – atenção que Se7en também não o foi...
Do parágrafo anterior não se entenda que o derribar das tais expectativas contribuiu para ferir de morte o fascínio que a obra suscita. Bem pelo contrário, a surpresa surge pela engenhosa secundarização dos crimes, mostrando-nos outra realidade que, à boa maneira de Hitchcock, está diante dos nossos olhos, é palpável, tem som, cor e cheiro, mas que se nos vai revelando de forma progressiva e parcimoniosa, como se caminhássemos sob as trevas profundas de uma caverna em direcção à porta para o resplandecente mundo exterior: aquilo que antes era um ténue fio de luz culmina num brilho ofuscante, de íris ainda dilatadas pela surpresa.


Zodiac é um filme sobre a obsessão e sobre a ínfima distância, não percebida, a que aquela se encontra de nós, à ilharga, pronta a atacar pelo choque e pelo medo emanados de um acontecimento brutal. A obsessão é aqui entendida como um ser vivo que se vai alimentando, numa voracidade invisível, de tudo aquilo que rodeia o seu objecto, como uma bomba de neutrões detonada pela nossa acção primária sem a assunção das possíveis consequências, e cuja radiação destrói tudo o que se mexe e que gravita em torno da nossa existência, deixando apenas de pé a efígie do monumento que é a nossa mente.
Zodiac não é um filme de travelings ou de soluções tecnológicas inovadoras como foram os seus predecessores, realizados por Fincher. É, no entanto, um filme cerebral e perturbador pela forma como se escoa o fio da narrativa em planos fixos, gestos, olhares e toda uma coreografia representativa da somatização de um desconcerto espiritual e comportamental. É, também, uma obra cheia de subentendidos, de imagens subliminares e de planos que despertam em nós o sentimento, bem sintetizado pela expressão francesa, de “dejà vu” – o Ricardo, por exemplo, lembra uma delas que também não me escapou enquanto via o filme: o grande crachá do Nixon na secretária do jornalista Paul Avery interpretado, de forma magistral, por Robert Downey, Jr.


Depois há a ligação estabelecida ao filme mudo The Most Dangerous Game (1932) realizado pela dupla Irving Pichel e Ernest B. Schoedsack, baseado na obra homónima do escritor norte-americano Richard Donnell – que se encontra editada em Portugal pela Assírio & Alvim (colecção Beltenebros) sob o título Zaroff (O Jogo mais Perigoso) – este livro conta a história de um psicopata, o Conde Zaroff, que vivendo isolado no seu castelo situado numa ilha, vai recebendo os náufragos que aí vão acostando, entre eles o caçador Bob Rainsford que de súbito se vê envolvido num jogo de contornos macabros criado pelo anfitrião, onde os hóspedes se tornam presas – o jogo mais perigoso. Ora, Zodiac, o homicida, ter-se-á, alegadamente, baseado na obra de Connell, na medida em que se serve dessa tensão psicológica de expectativa de crime iminente para, através dos jogos labirínticos criados para as suas presas preferenciais – os investigadores policiais e os jornalistas –, poder perpetrar os seus crimes. O assassino do zodíaco vive precisamente aí, no intrincado da lei processual penal excessivamente garantista, que rege a própria investigação criminal, e que se propaga a todo um ordenamento jurídico de um Estado de Direito. E daí as diversas alusões ao eterno inspector Harry Callahan, mais conhecido como Dirty Harry, personagem imortalizada no cinema por Clint Eastwood, que por outros meios, chamemos-lhes, eufemisticamente, heterodoxos, alcançava êxito nas suas brutais investigações policiais, tal como sucede no filme epónimo com a perseguição ao homicida de nome Scorpio, que os investigadores e jornalistas do filme de Fincher assistem na data da sua estreia em 1971: [Dirty Harry]: Well, I'm all broken up over that man's rights! [Em resposta ao magistrado do MP que o acusava de brutalidade policial e de desrespeito à lei].

Com Zodiac temos David no seu melhor.
(Embora possa aqui fazer um mea culpa, ao reconhecer a inutilidade do emprego do adjectivo comparativo de superioridade de bom na última frase. Em Fincher não lhe consigo detectar outro valor na escala qualitativa.)

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Camaradagem


Abstendo-me de comentar o sentindo real das palavras proferidas pela mente fecunda do ministro Mário Lino, para isso teria de recorrer à hermenêutica do deserto – na minha opinião o problema é precisamente o inverso, o da esterilidade (desértica) mental –, chocou-me mais a alegoria do estropiado e do canceroso, agravada pelo tom de auto-satisfação revelado através da exuberância gesticular e da eloquência oratória do engenheiro, inscrito na Ordem – para que conste. Mesmo que eu, por mera felicidade – que não tive –, não houvesse vivenciado o miserável drama que essa doença provoca, de lenta e cruel degradação física e mental do padecedor e dos respectivos familiares e amigos, as declarações do senhor ministro mereceriam, de igual modo, da minha parte as mais contundentes palavras de execração e de repulsa. Não se trata de um manifesto com o sentido de restringir a liberdade de expressão, criando para o efeito assuntos tabu, trata-se apenas da simples exigência de decência a quem, pelos nossos votos e impostos, tem a responsabilidade de representar e administrar o Estado-Nação.

Mal um havia terminado o palavreado asinino, veio outro, o Presidente, clamar pela construção do aeroporto a Norte por simples razões estratégicas no combate ao terrorismo e nas necessárias vias de fuga dos civis inocentes da capital. Neste caso, a interpretação deste arrazoado, pelo picaresco que a questão encerra – para ser brando –, não exige grande esforço de abstracção: não sei se foi amizade aventalar, se desespero por visão profética de investimento cúpido esboroado, ou se ambas em simultâneo.
Aquilo que aqui interessa é, pelo menos para mim, cidadão comum, contribuinte cumpridor, saber o que move esta gente na defesa obstinada por um lugarejo sem interesse aparente a 50 km de Lisboa, que a cada dia que passa parece transformar a simples teimosia, que seguia apenas a cartilha maquiavélica do não recuo em política – de liberalitate et parsimonia –, em inconfessável ganância.

Em suma, os episódios desta semana tiveram pelo menos um mérito, o de clarificar a importância do investimento, de que esta comovente demonstração de camaradagem foi a alavanca arquimédica, porque se no caso do primeiro podemos apontar alguma estultícia, até por via da experiência mediante o estudo de casos, no segundo a preocupação excessiva preocupa-me, passe o pleonasmo, porque para além de jubilado, decerto não perdeu o traquejo alcançado durante a era jurássica da política portuguesa, ou se se preferir, a matreirice de velha raposa.

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Uma lenta agonia

Robert Walser, 25 de Dezembro de 1956, perto do Sanatório de Herisau
Ultimamente tenho lido algumas coisas de e sobre Vila-Matas. Acabei há pouco tempo o seu último romance, longo, introspectivo, por vezes aborrecido, algumas vezes hilariante e outras, ainda, com fragmentos potencialmente indutores a alguma meditação ou reflexão sobre a inescapável folha de débitos e de créditos originados pela nossa condição de Homo Socialis – sem entrar em questões metafísicas e terminológicas de psicossociologia.
De Vila-Matas sobressai Walser, de quem o autor espanhol, mediante um estudo aprofundado das suas vida e obra, se confessa um grande admirador não só pela integridade estético-literária, como também pelo seu conhecimento apurado e perspicaz da condição humana, principalmente do papel do divino na cultura europeia que exulta os valores da submissão e da resignação, em detrimento da liberdade individual, que reduzem o indivíduo ao tal “zero à esquerda”, consciência tão presente no pequeno Jakob ou em Joseph Marti (O Ajudante).
Daí advém o conceito de dor nas suas diversas acepções ou planos que se intersectam, contribuindo para a obnubilação do conhecimento da sua real origem. Dificilmente descortinamos o primário que se metastizou pelo espírito em diversos tipos de dor.
A integridade walseriana subsume-se ao estoicismo e ao recolhimento, à assunção da existência como um eterno jogo de causalidade bidireccional que, quando se torna consciente, apenas encontra redenção na solidão auto-infligida, a bela infelicidade.

Mea culpa
Provavelmente, partindo do pressuposto, meramente teórico, da possibilidade de pôr em evidência qualquer dos seus elementos constitutivos, a mais terrível das dores advém de um sentimento de culpa pelo cometimento de uma injustiça; e a pungência dessa dor resulta, muitas vezes, na sua forte capacidade de sanação. Ao contrário da dor da perda, a dor que resulta da consciência da injustiça cometida resolve-se facilmente pelo simples pedido de perdão, sentido, natural, sem compensações, apenas imbuído de um espírito de reparação que nos confira a certeza da extinção de um imaginável ressentimento destruidor de uma amizade desinteressada que rareia nos tempos que correm.

Contrição com destinatário.

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Strange Days



À laia de expiação...

A Apologia do Esquecimento

Esta minha intromissão neste diálogo sobre as melhores bandas de sempre – excluídas as fitas métricas – foi entendida aqui como de escasso bom senso, como deitar “caruma” numa fogueira, quiçá pela irrelevância material do objecto em causa, ou pela ousada ingerência num melífluo diálogo privado.
Henrique – não gosto do “meu caro” em situações de altercação, seja de que índole for, pela rudeza da expressão – não foi atrevimento, mas tentativa de estabelecer contacto, sobre um tema que me diz muito.
Quando o
Lourenço falou dos Beatles, houve logo uma agitação pela necessidade de contestação – ou de contraponto – e aos Beatles juntou-se, por comparação, um trio de meter medo, para que não restassem dúvidas e de uma assentada: The Doors, Velvet Underground e Rolling Stones.
Dois dias depois disse, em tom de desafio, que julgara salutar – mas, afinal estava enganado –, que os melhores – no meu entender –
eram estes e hoje, quatro dias depois, via réplica futebolística, descobriram-me, finalmente, as frivolidade e vacuidade opinativas, a tal caruma… e eu digo que o problema se restringe ao campo semântico, não foi da caruma, mas da pinha!

Para melancolizar os espíritos, meus caros (agora sim!), aqui fica She lost control num vídeo apócrifo:

PS – apesar da minha inexorável falta de bom senso, parabéns pelos dois anos de blogosfera.

terça-feira, 22 de maio de 2007

Uma questão de cor...

E um golinho certo defendido com a mão por... um defesa, cujo nome curiosamente começa por "r"... Renato (26/01/2007: U.Leiria - 1 FC Porto - 0).



Para o Pedro Correia e o Henrique Fialho.
(Sinceramente, este é o tipo de discussão que não me interessa e por aqui termino, em definitivo).

A Bela Infelicidade

«Talvez se esconda em mim um homem muito, muito vulgar. Ou talvez tenha sangue azul. Não sei. Mas uma coisa sei com certeza: serei no futuro um zero à esquerda, um zero muito redondo e encantador.»
Robert Walser, Jakob von Gunten (Relógio D’Água, 2005, pág. 10).

Eis uma possível epígrafe para a obra que recebeu o prémio para Melhor Romance Publicado em Espanha em 2006 e o prémio da Real Academia Espanhola 2006, Doutor Pasavento, o último romance do escritor catalão Enrique Vila-Matas (n. 1948).

«Que eu seja o mais inteligente de todos não é talvez motivo para grande satisfação. De que servem pensamentos e inspirações quando não sabemos que fim lhes dar, como é o meu caso? Pois bem. Não, não, quero tentar ver claramente, mas não me agrada a altivez, não quero nunca, nunca sentir-me superior aos que me rodeiam.»
Robert Walser, Jakob von Gunten (Relógio D’Água, 2005, pág. 26).


Eis, então, duas citações de Walser que poderiam, e muito bem, constar das epígrafes, que se distinguem pela ausência, ao último romance de Vila-Matas.
Aliás, esta minha escolha não é de todo casual, o escritor suíço, nascido em 1878 em Biel, (faleceu em 1956 vítima de ataque cardíaco, o corpo jazia sozinho naquela imensidão bucólica coberta de neve, como numa fantasia poética, no dia de Natal de 1956, nos campos que cercavam o sanatório de Herisau – situado no cantão de Appenzell Ausserrhoden – após uma mais do que rotineira deambulação pela Natureza), é o espectro que assombra o romance de princípio a fim, não só pela excelência da curta bibliografia que Walser deixou, mas também pelo recolhimento a que o autor se submeteu durante 23 anos no referido sanatório, deixando em definitivo de publicar.
Desses tempos apenas sobreviveram as conversas que manteve com o seu amigo Carl Seelig nos dias em que este o visitava no sanatório e alguns manuscritos, a que Walser chamou de microgramas, redigidos a lápis – a perecibilidade e a transitoriedade do grafite –, e que, ainda hoje, são objecto de investigação.
De Vila-Matas já conhecíamos o seu fascínio pelos “escritores do não” desde a publicação do seu famoso romance-ensaio Bartleby & Companhia, dando destaque a figuras como Walser, Hölderlin, Salinger ou Pynchon. Desta feita, Vila-Matas aprofunda o tema, trabalha a componente romanesca dos escritores do não e estabelece uma narrativa na primeira pessoa: Andrés, ou Doutor Pasavento, ou Doutor Ingravallo, ou Doutor Pynchon (& Pinchon).
Esta é a história de Andrés, escritor catalão, que a partir de um sonho sobre um estranho desaparecimento da torre do castelo de Montaigne – considerado o pai do ensaio literário –, protagonizado por um imaginário Doutor Pasavento, fisionomicamente parecido com o seu amigo e escritor basco Bernardo Atxaga, parte em busca da verdade, isto é, de uma identidade que parece haver-se perdido num mundo de fama e de êxitos com realidades e linguagens distintas.
Sevilha será o ponto de partida. O sonho envolve Atxaga e a sua reclusão de quatro anos para escrever o romance El hijo del acordeonista (obra de 2004, publicada originalmente em basco em 2003), através do qual o autor basco evoca, em definitivo, o desaparecimento da sua mítica terra imaginária Obaba.
Decorridas duas semanas Andrés é convidado para intervir numa conferência que se irá realizar no Mosteiro da Cartuxa em Sevilha, subordinada ao tema “a fronteira entre a realidade e a ficção” onde estará presente Atxaga. Andrés, perante a gritante vulgaridade do tema, ironiza, dizendo que irá vestido de mordomo.
O sonho materializou-se numa realidade concreta, palpável e assustadora, facto que Andrés assume, com um grau crescente de preocupação, como o momento decisivo, a oportunidade para intentar a, há muito esperada, viragem radical na sua vida. Enquanto discorre sobre o assunto a dissertar na dita conferência, Andrés vê em Atxaga a sua redenção. Então, decidiu que se este último não se dignasse a comparecer ao encontro literário – hipótese que o narrador considerou de ocorrência muito provável –, iria apresentar um ensaio sobre o desaparecimento, recordando as palavras de Maurice Blanchot quando lhe perguntaram para onde caminhava a literatura: «Dirige-se para si mesma, para a sua essência, que é o desaparecimento» (pág. 18).
As páginas que se seguem falam da luta interior do escritor com a sua consciência, da busca do seu eu belo e infeliz, da difícil jornada que necessariamente se terá de iniciar para fugir à solidão do reconhecimento, da fama e da penosa tarefa de gestão das expectativas dos outros perante o autor e a sua obra, para finalmente se chegar à solidão purificadora do anonimato, a bela infelicidade, a escolha de Walser, o acto de nobreza quando este se apercebeu de que ouvia vozes e lhe foi diagnosticada esquizofrenia.
É nesta encruzilhada que se encontra o Doutor Pasavento, confrontado com a desmultiplicação de personalidades ou até com o tema do doppelgänger literário, dos opostos que parecem digladiar-se sobre a ténue linha que separa o abismo – a morte, o desaparecimento – da realidade, que nesta obra assenta, de forma mais visível, na ânsia do autor em saber como o mundo literário vem tratando o seu desaparecimento e, simultaneamente, no desejo irreprimível de cair definitivamente no esquecimento.
Eis como se define Pasavento num bilhete deixado à sua editora francesa no Hotel Suède, situado na inquietante, e crucial para a trama, rue Vaneau em Paris:

«É possível que ninguém, a partir de hoje mesmo, volte a ter notícias minhas. Que ninguém julgue que tenha sido abduzido por alguma alimária de um planeta longínquo. Sou o meu próprio sequestrador. As fadigas, os grosseiros esforços necessários para alcançar honras e famas neste mundo, não foram feitos para mim. Quero esconder-me de tudo e de todos, não ter de aparecer mais em público, não ter de viver no meio das desesperantes intrigas do mundo literário. Quero levar a vida de um Salinger, por exemplo, ou a de um Thomas Pynchon. Ou a de um Miquel Bauçà […]
«Continuarei a escrever, mas, ao contrário de Salinger, Pynchon e Bauçà, não o farei para publicar, porque também vou deixar de publicar. Procurarei voltar a ser aquele jovem que escrevia sem sequer pensar em publicar e que todos deixavam em paz […] E aos que se cruzarem no meu caminho dir-lhes-ei que procuro a verdade. Di-lo-ei como que ausentando-me, como quem se ausenta para saudar a beleza.» (pp. 282-283).

Da misteriosa rue Vaneau – onde se situam marcos históricos importantes, como a última casa de André Gide, uma das casas onde residiu Karl Marx, local onde por exemplo ficou a conhecer Friedrich Engels, uma mansão onde chegou a residir Antoine de Saint-Exupéry, o escritor-aviador desaparecido em combate, a embaixada da Síria, uma farmácia como destaque turístico na internet e outras coincidências que se descobrirão mais tarde –, passando por Nápoles, Basileia, Zurique, o sanatório de Herisau na Suíça e o estanho país de Lokunowo, e através de nomes – para além de Walser, Salinger e Pynchon – como Kafka, Sebald, Montaigne, Chateaubriand, Hölderlin, Agatha Christie, Joyce, Musil, DeLillo, Gide e até Lobo Antunes, vai-se construindo Doutor Pasavento.
O último trabalho de Enrique Vila-Matas, sem ser um excelente romance, é certamente virtuoso e, acima de tudo, uma obra de difícil concepção; porém não é, ao contrário do que se diz pelo mundo da crítica, o melhor que o literato catalão escreveu até aos dias de hoje. Reconhecidamente, a obra dispõe de momentos de puro brilhantismo e de mestria no domínio da técnica literária – como é apanágio de Vila-Matas –, contudo existem outros de um entediante e exasperante solilóquio, perdendo-se o fio condutor no manancial de citações que se confundem com as ideias do próprio autor… ou melhor, do Doutor Pasavento – ou será Pynchon? –, apesar de considerar que parte dessa revelada fragilidade, a de estabelecer uma teoria com um recurso excessivo a fontes secundárias, é puramente intencional, cumprindo, assim, um dos objectivos principais ao conceder o tom ensaístico pretendido para a obra.

Classificação: **** (Bom)

Referência bibliográfica:
Enrique Vila-Matas, Doutor Pasavento. Lisboa: Teorema, 1.ª edição, Janeiro de 2007, 405 pp. (tradução de Jorge Fallorca; obra original: Doctor Pasavento, 2005).


E a terminar, para de uma mancheia de frases se poder construir uma exegese à laia de posfácio moralista:

«os êxitos têm apenas por companhia inseperável a confusão e um punhado de ideias baratas sobre o mundo. Notamos de imediato aqueles que têm êxito e gozam a consideração alheia, ficam gordos de uma autocomplacência contente, e a força da vaidade infla-os como balões e quase deixamos de os reconhecer. Deus proteja um bom homem da consideração de terceiros.»
Robert Walser, Jakob von Gunten [esse pequeno sábio] (Relógio D’Água, 2005, pp. 81-82).

domingo, 20 de maio de 2007

E aí vão 22...

Depois da Aparição


Depois da aparição, perdi em definitivo o rasto do Senhor Borges.
Após a inscrição daquele acontecimento na minha memória, circulei todos os dias pelos mesmos sítios à mesma hora e o trânsito corria fluído, sem entraves, sem encontrar Borges, ou alguém como ele, que caminhava do exterior para o interior para se perder do lado de lá, o Porto, nos seus labirintos de gente dispersa, hipnotizada pelo desejo de sobrevivência, sem saber que por mais que calcorreie essas artérias, a sua concepção, empreendida por algo que me foge aos apertados limites da compreensão tão humanos, foi apenas a materialização do divino pelo necessário inculcamento do desdém pela imortalidade. Em suma, vias porventura ilusórias e sinuosas que foram engenhosamente construídas para que apenas pela morte surja a almejada libertação.
Walser, em conversa com Seelig – via Vila-Matas –, referia-se aos monges voluntariamente encerrados nos mosteiros que olham com sede de exterior, de dentro para fora, o objecto que por uma vez negociaram para redenção da alma. Têm nostalgia do exterior. Porém, os escritores, aqueles que se fecham por dias infindos de solidão, empreendem um caminho sem retorno, embora voluntário, em busca do interior perdido, da sua própria identidade que se foi arruinando por paragens remotas, e agora inalcançáveis, nas intermináveis deambulações por esse labirinto: a profunda nostalgia do interior.
E assim deverá andar Borges, aquele que vi da janela do meu carro numa manhã de Maio de calor abrasador, caminhado pela Circunvalação do exterior para o interior num aparente movimento perpétuo.

sexta-feira, 18 de maio de 2007

Os Melhores de Sempre

Vai interessante e assaz didáctica esta musical troca de galhardetes – no bom sentido – entre o Henrique e o Lourenço.
Porém, permitam-me discordar, quais Jagger & Richards, Lennon & McCartney, talvez só Cale, Reed & Companhia!
Eis os melhores de sempre (posição irredutível e que me acompanhará até ao último suspiro):



1976-1980, primeiro como Warsaw, depois como Joy Division

I wish I were a Warhol silk screen
Hanging on the wall
Or little Joe or maybe Lou
I’d love to be them all
All New York city’s broken hearts
And secrets would be mine
I’d put you on a movie reel
And that would be just fine

Ian Curtis (1956-1980), St Valentine’s Day poem from Ian to Debbie (1973)*

*poema de Ian Curtis (contava 16 anos) retirado da pág. 13 do livro de Deborah Curtis, Carícias Distantes: Ian Curtis e Joy Division (c/ prefácio de Jon Savage). Lisboa: Assírio & Alvim, 1.ª edição, Março de 1996, 197 pp. (tradução de Ana Cristina Ferrão; obra original: Touching from Distance: Ian Curtis and Joy Division, 1995).
Nota: Hoje, na 60.ª edição do Festival de Cinema de Cannes, o filme Control do realizador holandês Anton Corbijn, baseado na curta vida do mágico atormentado Ian Curtis, foi aplaudido de pé por uma plateia em êxtase.

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Aparição

Hoje, vi Borges. Seriam umas nove horas e vinte minutos da manhã, a canícula fazia-se anunciar pelo característico odor adocicado e húmido que emanava da pequena tira de terra, escondida do sol pelos carvalhos, que separa o mirrado concelho do Porto dos seus arejados vizinhos: as estradas interior e exterior do pior atentado da História infligido a um razoável planeamento urbanístico da minha cidade, a Circunvalação.
Rádio desligado, tejadilho e vidros abertos deixando descansar o ar condicionado até que a temperatura se dignasse a superar a rinite na escala de adversidades estivais. Esperavam-me a tese e um livro para os longos intervalos na sala de fumo oficial, a varanda de minha casa, o silêncio que dela se apoderou depois do mulherio – a minha santíssima trindade – haver abandonado o lar rumo às suas tarefas quotidianas – qual é a tua, pequena M.? Choro, biberão, risos, palração, cólicas…
Um barulho estridente e assustador. Borracha a desfazer-se no asfalto quente. A luz de stop marcada no meu campo visual com um espectro indestrutível. Pé direito no travão que vibra pelo arrancar do ABS. Buzinas. Imprecações… rapidamente contidas. De súbito, da parte anterior do carro que segue à minha frente surge um vulto, curvado, vestido de preto com uma bengala na mão, envergava um fato assertoado e aquela fragilidade altiva de quem há muito ultrapassou a casa dos noventa mas não perdeu, por mais paradoxal que possa parecer, a impetuosidade com que encarou uma vida.
Era Borges! Jorge Luis… O homem dos labirintos e das narrativas fantásticas. O marechal, sem Nobel, da Literatura do século XX. Vivo e em plena estrada exterior da Circunvalação. Com uma mão segurava a bengala, com a outra pedia paciência agradecendo aos condutores anónimos dos veículos que por um simples e caridoso instante lhe proporcionaram mais um fôlego para poder ditar os seus memoráveis escritos.
Borges está vivo!
Arranco devagar, Borges segue numa lentidão estudada, sem pressas para chegar à outra margem, o interior.
Contive-me, o meu superego estava alerta apesar da indolente canícula, queria ter-lhe dito, arrancando o ar ao fundo dos meus pulmões: Senhor Borges é este ano…!

Em 1976 Saul Bellow vence o Prémio Nobel da Literatura contra as fortíssimas expectativas que enchiam o mundo literário de que esse seria, finalmente, o ano da reparação da injustiça, o ano de Borges.
Em Outubro de 1980, Gabriel García Márquez comentava, num artigo de opinião publicado no El País, que «todos os anos, por esses dias [recorde-se que os Prémios Nobel terão de ser atribuídos até meados de Novembro], um fantasma inquieta os grandes escritores: o Prémio Nobel da Literatura. Jorge Luis Borges, que é um dos maiores e também um dos candidatos mais assíduos, protestou uma vez numa entrevista que concedeu à imprensa pelos dois meses de ansiedade a que o submetem os adivinhadores.» O colombiano, que receberia o dito prémio precisamente dois anos depois, referia-se, certamente, às seguintes palavras proferidas pelo argentino em 1976, com aquela ironia cortante, isto é com laivos de alguma verrina, que o caracterizava:

«Não me atribuírem o Prémio Nobel converteu-se numa tradição escandinava: desde que nasci que não mo dão.»

Se Borges era reconhecidamente um dos maiores escritores latino-americanos da época e, decerto, um dos melhores de sempre, agravado pelo facto de ter tido uma vasta obra possibilitada por uma vida longa e por isso dispor de maiores possibilidades de vir a receber o galardão – por exemplo, a Academia não atribui prémios a título póstumo –, qual a razão, mais ou menos obscura, que esteve na génese dessa injustiça?
García Márquez, munido de um desresponsabilizante “diz-se por aí”, identificou o momento fatal. O acontecimento a partir do qual Borges muito dificilmente seria alguma vez galardoado pela Academia Sueca: a sua visita ao Chile a 22 de Setembro de 1976, recebido em sessão solene por Augusto Pinochet, onde Borges, socorrendo-se uma vez mais da sua ironia acutilante, elogiou o ditador chileno e as ditaduras da Argentina e do Uruguai que «defendiam a liberdade e a ordem […] num continente anarquizado e desbaratado pelo comunismo.»
Ainda segundo o autor colombiano, a atribuição do prémio a Borges havia sido decidida em Maio desse ano. No entanto, a decisão foi abruptamente modificada na tradicional reunião do júri do Comité Nobel em Outubro, alguns dias antes do aguardado anúncio oficial, ficando decidida a sua atribuição ao escritor norte-americano Saul Bellow.

Jorge Luis, já não és rapaz novo, com os teus quase 108 anos e a tua infeliz obnubilação, por favor, da próxima vez usa a passadeira.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

O Hexágono

«O universo (a que outros chamam a Biblioteca) compõe-se de um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no meio, cercado de parapeitos baixíssimos.»

Corro de plano em plano e ainda nem sequer saí do primeiro hexágono. «Os idealistas argumentam que as salas hexagonais são uma forma necessária do espaço absoluto, ou pelo menos da nossa intuição do espaço. Consideram que é inconcebível uma sala triangular ou pentagonal. (Os místicos pretendem que o êxtase lhes revela uma câmara circular com um grande livro circular de lombada contínua, que dá toda a volta das paredes; mas o seu testemunho é suspeito; as suas palavras, obscuras. Esse livro cíclico é Deus.) Basta-me por agora repetir a clássica sentença: A Biblioteca é uma esfera cujo centro cabal é qualquer hexágono, e uma circunferência é inacessível.»
A volúpia das palavras que sofregamente vou tragando avoluma o meu inextinguível desassossego por aquelas que não li, são como açúcar para hiperglicemia, a traição para a inveja, não são uma inutilidade, porque não são neutras; massacram, extenuam, adejam por sobre as nossas cabeças em movimentos lúbricos, exibindo-nos a certeza de que sempre existirão em combinações de 25 sinais ortográficos que se repetem em livros de 410 páginas que se diferenciam entre si pela mudança de apenas uma delas, e voltamos ao primeiro axioma de Borges que a "Biblioteca existe ab aeterno" e seríamos perfeitamente estúpidos se nela vislumbrássemos um fim.
Porventura foi esse sentimento de imortalidade que se renova a cada palavra escrita que me tornaram bibliómano sem remição; o meu longínquo momento de fuga pela Tua ausência, o desvio para a paralela superior e a esperança não-euclidiana de nos encontrarmos, segundo Poncelet, no tal ponto no infinito – aquele que a perspectiva une na eternidade duas paralelas. E sei, por Pascal, que com esse hexágono gravado nessa circunferência divina e etérea consigo encontrar três pontos de intersecção, formados a partir da projecção de três pares de rectas dos lados opostos do hexágono, que são colineares... deles extraio o caminho que me leva a esse além-mundo inescrutável.
Agora pensa nas rectas que se formam a partir desses hexágonos de nível superior, na infinidade de caminhos que se cruzam e me distraem de um objectivo que o tempo tornou difuso. Em suma, o esforço inumano que qualifica esta fuga, que me desvia daquilo que os outros assentiram ser a minha vocação, o tal fundamento para uma condenação in absentia.
E sigo ainda com Borges, através de Vila-Matas, Doutor Pasavento, que vou tragando com a tal, a inaudita, sofreguidão:

«Ignoro se a música sabe desesperar da música e se o mármore do mármore, mas a literatura é uma arte que sabe profetizar aquele tempo em que terá emudecido, e encarniçar-se com a própria virtude e enamorar-se da própria dissolução e cortejar o seu fim.»

Falta-me tempo…
Trinta e três obras foram seleccionadas por Jorge Luis Borges para integrarem A Biblioteca de Babel, uma selecção de textos de literatura fantástica, originalmente propostos ao autor argentino pelo editor italiano Franco Maria Ricci e prefaciados por Borges – ler aqui a história. Como é sabido, a Editorial Presença teve a feliz ideia de editar esta colecção no nosso país, que começou a ser publicada desde o início de 2007.
Se apenas escrevo no aqui e agora uma nota sobre esta empreitada, tal ficou a dever-se a alguma preguiça de escritor blogueiro, cujo momento escolhido, o agora, resultou da eminência do autor do 4.º livro publicado da série referida. Trata-se da obra Os Amigos dos Amigos (The Friends of the Friends, 1896 [originalmente publicado como The Way It Came]) escrita por O Mestre, Henry James, pela primeira vez traduzida para a língua de Camões.
Os livros já publicados para além deste último (por ordem cronológica de publicação):

  • Gustav Meyrink – O Cardeal Napellus (Der Kardinal Napellus, 1913);
  • Pedro Antonio de Alarcón – O Amigo da Morte (El amigo de la muerte: cuento fantástico, 1852);
  • Giovanni Papini – O Espelho que Foge (Lo specchio che fugge, 1906).

Para além das 4 obras já publicadas, que representam, respectivamente, 4 línguas diferentes – alemão, espanhol, italiano e inglês – e de mais 4 obras de Borges – uma delas em co-autoria com Bioy Casares –, fazem parte desta biblioteca – que será publicada na íntegra pela Editorial Presença – nomes como Melville (com o seu Bartleby), Kafka (O Abutre), Wilde, Poe, Hawthorne, Voltaire, Chesterton, H.G. Wells, R.L. Stevenson, J. London e R. Kipling.

Anedota do Dia

terça-feira, 15 de maio de 2007

Em breve...

Em português, editado pela Dom Quixote, e segundo o JL sob o estranho título – adjectivação de minha responsabilidade – de Todo-o-Mundo (recebeu o título de “O Homem Comum” no Brasil e de “Elegía” em Espanha.


Até lá (e ainda vai funcionando o contador "R.E.P." iniciado por mim há mais de 1 ano no meu hibernado blogue Data) vamo-nos deliciando com as primeiras linhas do original (tal como fiz no Porque há 1 ano):
«Around the grave in the rundown cemetery were a few of his former advertising colleagues from New York, who recalled his energy and originality and told his daughter, Nancy, what a pleasure it had been to work with him. There were also people who'd driven up from Starfish Beach, the residential retirement village at the Jersey Shore where he'd been living since Thanksgiving of 2001-the elderly to whom only recently he'd been giving art classes. And there were his two sons, Randy and Lonny, middle-aged men from his turbulent first marriage, very much their mother's children, who as a consequence knew little of him that was praiseworthy and much that was beastly and who were present out of duty and nothing more. His older brother, Howie, and his sister-in-law were there, having flown in from California the night before, and there was one of his three ex-wives, the middle one, Nancy's mother, Phoebe, a tall, very thin whitehaired woman whose right arm hung limply at her side. When asked by Nancy if she wanted to say anything, Phoebe shyly shook her head but then went ahead to speak in a soft voice, her speech faintly slurred. "It's just so hard to believe. I keep thinking of him swimming the bay-that's all. I just keep seeing him swimming the bay." And then Nancy, who had made her father's funeral arrangements and placed the phone calls to those who'd showed up so that the mourners wouldn't consist of just her mother, herself, and his brother and sister-in-law. There was only one person whose presence hadn't to do with having been invited, a heavyset woman with a pleasant round face and dyed red hair who had simply appeared at the cemetery and introduced herself as Maureen, the private duty nurse who had looked after him following his heart surgery years back. Howie remembered her and went up to kiss her cheek.»
Philip Roth, Everyman (Houghton Mifflin)


Das 26 obras de ficção escritas e publicadas pelo Mestre Philip Roth – saga que começou em 1959 com Goodbye, Columbus and Five Short Stories, estando prevista para Outubro a publicação da 27.ª, com o título de Exit Ghost –, estão disponíveis em português de Portugal apenas 9 (NOVE), sendo que o perturbado Alexander Portnoy é o único representante de 31 anos de obra publicada entre 1959 e 1990 – por ordem cronológica da publicação original:

  • O Complexo de Portnoy (Bertrand, 1994) – Portnoy's Complaint, 1969.
  • Traições (Bertrand, 1991) – Deception, 1990.
  • Teatro de Sabbath (Dom Quixote, 2000) – Sabbath's Theater, 1995.
  • Pastoral Americana (Dom Quixote, 1999) – American Pastoral, 1997.
  • Casei com um Comunista (Dom Quixote, 2001) – I Married a Communist, 1998.
  • A Mancha Humana (Dom Quixote, 2004) – The Human Stain, 2000.
  • O Animal Moribundo (Dom Quixote, 2006) – The Dying Animal, 2001.
  • A Conspiração contra a América (Dom Quixote, 2005) – The Plot Against America, 2004.
  • Todo-o-Mundo (Dom Quixote, 2007) – Everyman, 2006.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

O Duende

Nasceu diferente na terra quente andaluza e nela morreu pela indisfarçável diferença na canícula de Agosto num país inflamado.
Falo de Lorca. Federico García Lorca (1898-1936), poeta espanhol, nascido em Granada, no coração da fúria e da virilidade espanholas, a Andaluzia, pátria do Flamenco, mas também dos touros e dos… duendes!
Em 1933, na Argentina, numa conferência na Sociedad de Amigos del Arte de Buenos Aires expõe pela primeira vez o seu mais famoso ensaio Jogo e Teoria do Duende (Teoría y Juego del Duende), e estabelece a notável distinção entre os conceitos de Musa, Anjo e Duende, na relação entre a arte e a morte.
A Musa:
«Quando a musa vê a morte chegar, fecha a porta ou ergue uma peanha, ou passeia uma urna e escreve um epitáfio com mão de cera, mas em seguida volta a regar o seu loureiro com um silêncio que vacila entre duas brisas.» (pág. 68)
O Anjo:
«Quando o anjo vê a morte chegar voa em círculos lentos, e com lágrimas de gelo e narcisos tece a elegia que vimos tremer nas mãos de Keats e nas de Villasandino, e nas de Herrera, e nas de Bécquer, e nas de Juan Ramón Jiménez. Mas que terror, o do anjo, se no seu brando pé rosado sentir uma aranha, pequena que seja!» (pp. 68-69)
O Duende:
«Pelo contrário, o duende não aparece se não vir possibilidade de morte, se não souber que irá rondar-lhe a casa, se não tiver a certeza de que vai agitar esses ramos que todos transportamos e não têm, não terão, consolo.» (pág. 69)

A editora Assírio & Alvim, pela mão de Aníbal Fernandes, reúne numa antologia, intitulada de Anjo e Duende, parte da prosa poética, dois textos escritos para conferências e cinco exemplares de um estranho exercício poético em diálogos criados pelo insigne autor granadino. São pistas biográficas. Textos que assim reunidos nos procuram levantar a ponta do véu sobre a dimensão humana, terna, frágil e angustiante, de um dos maiores poetas de sempre de língua castelhana. Neles se demonstram a obsessão do jovem poeta pela morte; o amor pelo mundano e pela cultura popular do seu país, os touros, o flamenco, os ciganos andaluzes e a sua ancestralidade oriental; as suas relações de amizade com os artistas da Geração de 27, que habitam a mesma residência de estudantes em Madrid, como Pepín Bello, Luis Buñuel e Salvador Dalí, com destaque especial para este último, pela profunda admiração mútua (e não só...), cuja amizade veio a sofrer uma dolorosa e lenta ruptura após Lorca haver publicado Romancero Gitano em 1928*, Dalí chega a apelidá-lo de un perro andaluz, ironizando através da alusão ao filme surrealista escrito por Dalí e Buñuel e realizado por este último; as entrelinhas da sua condição de homossexual, reprimida por uma sociedade tremendamente machista, de implacabilidade e violência homofóbicas e de um profundo fundamento religioso, onde as facas dilacerantes eram falos e a sua evocação da Lua, como anunciação permanente da morte e de um erotismo oculto. Por fim, o García Lorca político, a falaciosa capa de perigoso espião russo cuidadosamente erigida para ocultar a sua morte bárbara e desonrosa perante um pelotão de fuzilamento dos falangistas e que mais tarde foi impudica e ardilosamente aproveitada pelos vermelhos republicanos como bandeira dos seus ideais não menos bárbaros e sanguinários. Todavia, Lorca nada queria da política e dos políticos, apesar de demonstrar, através da sua arte, as suas preocupações sociais com os mais desfavorecidos e com as minorias étnicas. O poeta morreu vítima de uma sociedade fechada, confessional, preconceituosa e fortemente homofóbica. De um dos seus carrascos são as palavras: «Acabamos de matar a Federico García Lorca. Yo le metí dos tiros en el culo por maricón […] Es que estábamos hartos ya de maricones en Granada.» (pág. 15)

{*Excerto da carta de Salvador Dalí a García Lorca a propósito de Romancero Gitano: «“Li calmamente o teu livro […] A tua poesia de hoje cai dentro do tradicional, e nela descubro a substância poética mais suculenta que alguma vez existiu mas ligada em absoluto às regras da poesia antiga, incapaz de nos emocionar e satisfazer os nossos desejos actuais. A tua poesia está de mãos e pés amarrada à poesia velha. Talvez julgasses aquelas imagens atrevidas, ou naquilo que fazes encontrasses uma dose aumentada de irracionalidade, mas posso dizer-te que a tua poesia se move dentro da ilustração dos lugares-comuns mais estereotipados e conformistas.”» (pp. 129-130)}

Para terminar, resta apenas referir o trabalho notável de síntese, de tradução e de compilação de Aníbal Fernandes, aliás como vem sendo hábito na sua vasta carreira de tradutor de autores estrangeiros de primeira água.

Classificação: **** (Bom)

Referência bibliográfica:
Federico García Lorca, Anjo e Duende. Lisboa: Assírio & Alvim, 1.ª edição, Abril de 2007, 155 pp. (tradução, apresentação e notas de Aníbal Fernandes).

A 17 de Maio

David Fincher's ZODIAC

domingo, 13 de maio de 2007

Quem corre por gosto... [corrigido]


Li com interesse este texto do Eduardo Pitta sobre um dos muitos episódios, integráveis na secção dos efeitos colaterais “Carmona, O Arguido”, e que neste caso redundou no cancelamento de um ciclo de conferências subordinada ao tema “Os livros que não esqueci”, organizado pela Casa Fernando Pessoa, notavelmente dirigida nos últimos anos por Francisco José Viegas – que, como portuense que sou (nado, criado e residente), enche-me de inveja pelos eventos literários promovidos sem eco nesta acabrunhada Invicta.
Todavia, o que me traz a estas curtas palavras nada tem que ver com as triviais questões burocrático-administrativas que soem atrasar o andamento de um país que caminha a passo de caranguejo, passe a redundância. Nem tão-pouco discutir sobre a efervescência política actual que afecta o apetecível trono do maior município português, assim como os repulsivos jogos de bastidores de estruturas partidárias, empórios, organizações secretas e ufanos altruístas da cidadania perdida. Quero falar do pro bono, ou da tendência doutrinal da obrigatória graciosidade dos servidores da causa pública, neste caso materializada nas artes literárias.
O evento foi cancelado. Faltou o vil metal de que se fariam pagar os reputados ponentes – entre eles José Pacheco Pereira e Vasco Graça Moura. Segundo o Eduardo, Rui Pereira, o director municipal da Cultura da Câmara de Lisboa, disse que os convidados «Almeida Faria e Diogo Pires Aurélio disseram logo que falariam gratuitamente». E depois de falar dos imbróglios administrativos, causa cimeira no cancelamento do evento, o Eduardo Pitta põe o dedo na ferida: «É evidente que o imbróglio radica na convicção, muito portuguesa, de que o trabalho intelectual deve ser feito pro bono.» Concordo com cada palavra do Eduardo aposta nesta contundente afirmação; compreendo – e revolta-me – o embaraço provocado a quem, como o Francisco José Viegas, havia dado a sua palavra a um número considerável de escritores que se deslocaria ao nosso país com o objectivo de participar no referido evento; discordo, todavia, da ideia subjacente ao caso concreto e imediato – Os livros que não esqueci – que sem pilim não há prelecção, cuja boa vontade, entendida aqui como graciosidade – e que se lhe atribua toda a carga semântica –, seria a única solução para a resolução do caso concreto, inadiável porque, segundo entendi, estava aprazado para o próprio dia. Só isto.

Uma pequena história (entre muitas, de trabalho académico pro bono)
Há três anos, após uma série de artigos científicos publicados e de algumas intervenções públicas em que participei como orador, fui convidado por uma reputada revista especializada na minha área profissional para, num luxuoso Hotel da minha cidade, intervir num congresso subordinado ao tema que vinha a tratar nos meus intermináveis trabalhos – que ainda hoje se mantêm – de elaboração da tese de dissertação de doutoramento.
Para participar no evento de três dias, cada assistente teria de desembolsar cerca de 1500 euros.
Chegou o dia, intervim no painel que me estava destinado, com um moderador e mais um ilustre participante que eu próprio arrebatei da sua Universidade extramuros. A sala do hotel estava repleta. Um natural e desinteressado olhar daria para calcular de cabeça a cifra que figuraria do lado da receita ilíquida. Uma enormidade. Falei 50 minutos, respondi a perguntas da audiência durante 20. No final recebo do Sr. Presidente do Congresso um forte aperto de mão e uma lembrança: um pequeno relógio de secretária, que no mais refinado dos sítios não passaria dos 15 euros.
Saí do lobby, entrei no parque de estacionamento, paguei cerca de 5 euros para chegar a casa.
Três anos volvidos, acabo de relatar o episódio no meu blogue…

sábado, 12 de maio de 2007

Dr. K. e M. Beyle

Quando em 2004 a Editorial Teorema deu início à publicação da curta obra deixada por Winfried Georg Maximilian Sebald (1944-2001), mais conhecido nos meios literários por W. G. Sebald, começou precisamente pela sua obra mais aclamada e a última publicada em vida, Austerlitz (2001), um romance deambulatório, onde se entrecruzam, como em toda a sua obra, o campo ficcional e a realidade, retratando as peregrinações do personagem epónimo e das suas curiosas relações com o autor.
Em Portugal assistiu-se a uma verdadeira febre sebaldiana despoletada pelas palavras de exultação estética dos ditos intelectuais deste ínfimo país ainda mais parco, pela baixíssima fasquia intelectual, de cabeças pensantes.
Poder-se-ia considerar que o atractivo, que normalmente engrandece a obra do autor, residiu no seu fim trágico. Com efeito, Sebald faleceu num acidente de automóvel em Norwich, Inglaterra – país onde residia desde 1970 –, no dia 14 de Dezembro de 2001. Todavia, arrisco que um dos factores que esteve na origem da admiração incondicional pode ter tido que ver com a putativa hermeticidade da narrativa aos não iniciados da corrente literário-intelectual lusa, ou seja, inalcançável aos espíritos mais obtusos da miserável plebe.
Eu explico-me. Sebald passou a ser entendido como uma marca distintiva, a fronteira entre a afirmação da intelectualidade e o simples gosto, meramente romanesco, de certa forma frívolo e superficial, pela Literatura. Em suma, eu sebaldo, logo tenho autoridade literária.

De todas as obras do escritor germânico e publicadas em Portugal, confesso que entre as que menos apelaram a uma certeza de encanto ou à minha exteriorização, sob que forma fosse, de um fascínio literário conta-se, precisamente, Austerlitz. Todavia, seria deveras indecente e falacioso afirmar que não gostei do romance na sua totalidade, mas também não tenho qualquer pejo em asseverar que a dita obra em nada contribuiu para o engrandecimento da minha cultura literária – ou o que se lhe quiser chamar.
Por outro lado, a obra Os Anéis de Saturno, publicada em 2006 pela Teorema, é de um enfado e de uma banalidade auto-indulgente, pontuada, no entanto, por algumas passagens reconhecidamente brilhantes. No mesmo ano, a mesma editora publicou a extraordinária História Natural da Destruição, de tom eminentemente ensaísta, Sebald percorre os horrores da II Guerra Mundial não se furtando à análise da devastação infligida pela força aérea dos Aliados em cidades alemãs como Hamburgo e Dresden, para além de fazer um minucioso retrato dos autores e da Literatura alemã durante e após o conflito.
Finalmente, não li Os Emigrantes.
Em Vertigens. Impressões, Sebald, parte de personagens reais como Franz Kafka e Stendhal (Henri Beyle), através das viagens que empreendeu na década de 1980 por Viena, Veneza, Verona, Riva e até uma deliciosa história sobre a sua estância nas margens do lago Garda, para terminar com uma brilhante narração da deambulação pela sua terra natal Wertach, na Baviera, e das pungentes reminiscências, indelevelmente marcadas na sua memória, assim como a do seu confronto com a realidade, a luta entre o retrato que os sentidos nela gravaram e aquilo que eles agora transmitem que, quer por corroboração, quer por uma dolorosa refutação, têm a capacidade de agitar o fundo daquilo que julgáramos ser, sob a forma de uma vertigem que simultaneamente nos paralisa e angustia.

«Por isso, aconselha Beyle, não devemos comprar gravuras com as lindas vistas ou perspectivas que observamos em viagem. É que uma gravura depressa ocupa por inteiro o lugar da lembrança que temos das coisas, pode-se até dizer que acaba por a destruir.» (pág. 11)

Classificação: ***** (Muito Bom)

Referência bibliográfica:
W.G. Sebald, Vertigens. Impressões. Lisboa: Teorema, 1.ª edição, Fevereiro de 2007, 202 pp. (tradução de Telma Costa; obra original: Schwindel. Gefühle, 1990).


Nota: Para uma descrição mais pormenorizada da obra consultar a crítica “
De Viena a Verona, na pista de Stendhal e Franz Kafka” de José Mário Silva (a crítica a seu dono) publicada no Diário de Notícias em 28 de Abril último.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Actualização Thinking Blogger

Não podia deixar de agradecer ao Carlos Araújo Alves e à Fátima, autores dos excelentes blogues Ideias Soltas e Cão com Pulgas, respectivamente, por mais uma nomeação (ver outras aqui, assim como os respectivos comentários da casa) de que fui vítima nessa infindável cadeia de enlaces Thinking Blogger.
Obrigado.
Mas, V. Exas. com os vossos blogues, visitas frequentes e nomeações é que me obrigam a pensar e a reflectir na volta que hei-de dar no cinzentismo minimalista deste fundo de página que por osmose se estende à escrita.

Novo Amis em Portugal

aqui (em dois textos) havia dado a notícia sobre a publicação nos Estados Unidos do último romance do escritor britânico Martins Amis, The House of Meetings.
O romance, que fez a sua estreia mundial no Reino Unido em Setembro de 2006, vai estar disponível muito em breve nos escaparates nacionais, pelo menos foi o que pude verificar através do simples folhear do suplemento Ípsilon do jornal
Público de hoje – aliás como faço todas a sextas-feiras de manhã no local onde habitualmente reponho os meus níveis de cafeína e, por enquanto, de nicotina, já que estou convicto de que a medida de superfície do local andará longe dos 100 m2 necessários.
A responsabilidade pela edição portuguesa do romance de Amis, que recebeu o nome de A Casa dos Encontros, coube à Editorial Teorema*, como vem sendo hábito de há uns tempos para cá com as obras do autor.

Felizmente, parecem andar longe os tempos em que esperávamos décadas pela tradução para português de obras de reputados escritores. O último exemplo, que convém salientar e através dele felicitar os responsáveis, a editora Gradiva, deu-se com a estreia mundial do último romance de Ian McEwan em inglês do Reino Unido (língua original de escrita do autor) e em português de Portugal.

Nota: *Aproveito a ocasião para apelar aos responsáveis da Editorial Teorema para a necessidade de construção de uma página na internet, não só para publicitação das últimas novidades da editora, que publica, entre outros, Nabokov, Sebald, Calvino, Easton Ellis, Carver, mas também para acesso público à base de dados da, decerto, extensa bibliografia da editora. Na mesma situação está, por exemplo, a editora Casa das Letras. Nos dias que correm, trata-se de uma situação perfeitamente incompreensível.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

O Dia da Memória

Faltam 5 dias…
Maio, dia 15, dia de estreia mundial do 14.º romance de Don DeLillo (n. 1936, Nova Iorque), depois de (1) Americana, 1971; (2) End Zone, 1972; (3) Great Jones Street, 1973; (4) Ratner's Star, 1976; (5) Players, 1977; (6) Running Dog, 1978; (7) The Names, 1982 (Os Nomes, Relógio D’Água); (8) White Noise, 1985 (Ruído Branco, Presença); (9) Libra, 1988 (Libra, Presença); (10) Mao II, 1991 (Mao II, Relógio D’Água); (11) Underworld, 1997; (12) The Body Artist, 2001 (O Corpo enquanto Arte, Relógio D’Água) e (13) Cosmopolis, 2003 (Cosmópolis, Relógio D’Água).

O primeiro Grande a escrever sem rodeios sobre o Dia da Memória: 11/09/2001.
Sem mais palavras, o incompreensível fragor que emudeceu o mundo…

«It was not a street anymore but a world, a time and space of falling ash and near night. He was walking north through rubble and mud and there were people running past holding towels to their faces or jackets over their heads. They had handkerchiefs pressed to their mouths. They had shoes in their hands, a woman with a shoe in each hand, running past him. They ran and fell, some of them, confused and ungainly, with debris coming down around them, and there were people taking shelter under cars.

The roar was still in the air, the buckling rumble of the fall. This was the world now. Smoke and ash came rolling down streets and turning corners, busting around corners, seismic tides of smoke, with office paper flashing past, standard sheets with cutting edge, skimming, whipping past, otherworldly things in the morning pall.
»
Don DeLillo, The Falling Man (Scribner).

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Sr. Comendador

Por vezes o bulício do quotidiano, que absurdamente se revela numa dolorosa tendência para o enfado, ou melhor, a simples rotina que nos tortura, isola-nos de tudo aquilo que potencialmente nos enleva a alma – essa pécora (fui brando) insondável, vendedora de esperanças.
É inegável o fascínio que um tal de Benjamin, nascido há 60 anos em Newark, Nova Jérsia, desperta em mim, levando-me ao êxtase paralisante da idolatria, sem que as palavras sejam suficientes para explicar o fenómeno, sem que a horripilante cientificidade atribuída às artes literárias o permita compreender.
Esse eminente habitante de Brooklyn, Nova Iorque – com honras de dia festivo marcado no calendário, 3 de Fevereiro, dia do seu aniversário, pelo presidente do município (borough) de Brooklyn – foi recentemente galardoado (23 de Abril).

Paul Auster recebeu as insígnias do grau mais elevado da Ordem das Artes e Letras de França, o de Comendador:

Commandeur dans l'ordre des Arts et des Lettres

A condecoração foi atribuída, em nome do Estado francês, pelo embaixador francês em Washington Jean-David Levitte, a um Auster visivelmente emocionado:


«De todos os escritores americanos, vós sois o mais francês.»
Palavras de Jean-David Levitte na cerimónia de entrega [tradução livre: AMC, evitando o coloquialismo do “Bocê é”].