sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

Os Melhores Filmes de 2006

Assim se vão completando as habituais listas de preferências no final do ano. Da minha parte, trata-se apenas de uma mera manifestação de deslumbramento que determinadas peças pertencentes ao que convencionamos chamar Arte me provocaram.
Longe de um pretensiosismo director, uma vez que não me é reconhecida autoridade e nem a pretendo obter para ditar o que os outros devem ver e ouvir, demonstro apenas algumas das pequenas coisas que, durante um ano, contribuíram para afastar de mim os fantasmas que insistem em vaguear cobiçosos em redor do meu pequeno mundo.
É a escrever para o blogue, a ler o que os outros escrevem e idealizam que me desvio da indelével descrença na dita humanidade, do seu desconserto, das suas iniquidades, desvarios e perversidades.
Sei o que pensam muitos dos que lêem estas palavras: presunção, beatismo e/ou tontice. Todavia, não me interpretem mal, eu não quero ser bonzinho e nem disponho de habilidade para apregoar a bondade ou a paz entre os homens, e muito menos arvorando-me como exemplo a seguir para alcançar esses estados ideais e etéreos. Infelizmente, a puta da vida já me ensinou muito, já me deu a ver as formas com que se pode travestir a pura maldade humana. E se vos desejo um excelente ano de 2007, meus caros cinquenta leitores, podem crer que é essa a esperança que me guia e me mantém firmemente agarrado ao tal mundo sem remendo.

Um bom ano de 2007!

E agora para algo completamente diferente – quiçá nunca visto –, aqui fica a lista dos 10 melhores filmes estreados em Portugal no ano de 2006, ordenados apenas por gosto pessoal:

  1. Match Point, de Woody Allen (Match Point, 2005)
  2. Infiltrado, de Spike Lee (Inside Man, 2006)
  3. Uma História de Violência, de David Cronenberg (A History of Violence, 2005)
  4. A Lula e a Baleia, de Noah Baumbach (The Squid and the Whale, 2005)
  5. O Tempo que Resta, de François Ozon (Le temps qui reste, 2005)
  6. Transamerica, de Duncan Tucker (Transamerica, 2005)
  7. Terra Fria, de Niki Caro (North Country, 2005)
  8. Munique, de Steven Spielberg (Munich, 2005)
  9. Breakfast on Pluto, de Neil Jordan (Breakfast on Pluto, 2005)
  10. A Dália Negra, de Brian De Palma (The Black Dahlia, 2006)

É de salientar que, de acordo com o que aqui referi, 2006 foi dos anos, desde a minha puberdade, em que menos vezes me desloquei ao cinema ou então a um clube de vídeo. Por isso, consigo elaborar uma lista de 13 filmes ainda não vistos que, eventualmente, a avaliar pela opinião de pessoas que muito considero e pelos meus gostos cinematográficos, poderiam alterar a configuração e a ordenação da lista final atrás referida. Eis alguns exemplos (ordenação alfabética pelo título):

  • A Condessa Russa, de James Ivory (The White Countess, 2005)
  • A Senhora da Água, de M. Night Shyamalan (Lady in the Water, 2006)
  • Babel, de Alejandro González Iñárritu (Babel, 2006)
  • Brisa de Mudança, de Ken Loach (The Wind That Shakes the Barley, 2006)
  • Eu, Tu e Todos os que Conhecemos, de Miranda July, (Me and You and Everyone We Know, 2005)
  • Marie Antoinette, de Sofia Coppola (Marie Antoinette, 2006)
  • Miami Vice, de Michael Mann (Miami Vice, 2006)
  • O Novo Mundo, de Terrence Malick (The New World, 2005)
  • The Departed: Entre Inimigos, de Martin Scorsese (The Departed, 2006)
  • Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos, de Jonathan Dayton e Valerie Faris (Little Miss Sunshine, 2006)
  • Voltar, de Pedro Almodóvar (Volver, 2006)
  • Wassup Rockers - Desafios da Rua, de Larry Clark (Wassup Rockers, 2005)
  • World Trade Center, de Oliver Stone (World Trade Center, 2006)

Os Livros do 2.º Semestre

Tal como havia feito no meu anterior blogue relativamente às melhores leituras do 1.º semestre de 2006, deixo aqui ficar a lista dos melhores livros editados em Portugal em 2006 e lidos durante o 2.º semestre.

Os Livros – critério de selecção e escolhas:

  1. Todos e apenas os editados em Portugal no ano de 2006 que tive o prazer de ler;
  2. A classificação é qualitativa, embora exista uma quantificação de base: Obra-prima (6 estrelas), Muito Bom (5), Bom (4), A Ler (3), Medíocre (2), Péssimo (1);
  3. A ordem dos livros dentro de cada categoria segue o critério de ordenação alfabética do título e nada tem que ver com uma avaliação intra-grupo;
  4. Apenas serão aqui revelados livros que se encaixaram nas 4 primeiras categorias;
  5. De entre todos os livros que tive a oportunidade de ler desde o primeiro dia deste ano, apenas 32 obedeciam ao primeiro critério (editados em 2006);
  6. Dos 32 seleccionados, a esmagadora maioria é composta por obras de ficção (o meu campo dilecto), se bem que deles constem por exemplo ensaios, crítica e crónicas;
  7. Do conjunto de 32 livros, 27 cumprem o critério 4, logo apenas 27 livros irão ser aqui revelados.

A lista (Leituras do 2.º Semestre)

Obra-prima

  • (nada a assinalar)

Muito Bom

  • A Fábrica das Sedas, de Tash Aw, Difel
  • A Valsa do Adeus, de Milan Kundera, Asa (reedição)
  • Brasil, de John Updike, Civilização
  • Cemitério de Pianos, de José Luís Peixoto, Bertrand
  • Extensão do Domínio da Luta, de Michel Houellebecq, Quasi
  • O Livro do Meio, de Armando Silva Carvalho e Maria Velho da Costa, Caminho
  • O Mar, de John Banville, Asa
  • O Vigilante, de Sarah Waters, Bizâncio
  • Travessuras da Menina Má, de Mario Vargas Llosa, Dom Quixote

Bom

  • A Herança de Eszter, de Sándor Márai, Dom Quixote
  • A História do Amor, de Nicole Krauss, Dom Quixote
  • Anel de Areia, de Penelope Lively, Civilização
  • Animal Moribundo, de Philip Roth, Dom Quixote
  • O Amor Louco, de André Breton, Estampa (reedição)
  • O Terrorista, de John Updike, Civilização
  • Órix e Crex – O Último Homem, de Margaret Atwood, Asa
  • Os Anéis de Saturno, de W. G. Sebald, Teorema
  • Passageiros em Trânsito, de José Eduardo Agualusa, Dom Quixote
  • Sobre o Amor e a Morte, de Patrick Süskind, Presença
  • Teleny ou o Reverso da Medalha, de Oscar Wilde (atribuído a), Bico de Pena

A Ler

  • 1791 – O Último Ano de Mozart, de H. C. Robbins Landon, Casa Sasseti
  • A Máquina do Arcanjo, de Frederico Lourenço, Cotovia
  • A Odisseia de Penélope, de Margaret Atwood, Teorema
  • Água Cão Cavalo Cabeça, de Gonçalo M. Tavares, Caminho
  • Gastar Palavras, Paulo Kellerman, Deriva
  • Os Contos de Clerkenwell, de Peter Ackroyd, Teorema
  • Pode Um Desejo Imenso, de Frederico Lourenço, Cotovia

Notas:

(1) em breve (talvez no início do próximo ano) publicarei a lista dos melhores livros de 2006.

(2) Infelizmente, ainda não li o último romance de Houellebecq, A Possibilidade de uma Ilha (editado em Junho pela D. Quixote) e não houve tempo para ler os dois de Murakami (o romance e o ensaio), o de Pamuk, o novo romance de Agustina e o livro de crónicas do meu muito estimado Joseph Mitchell, uma vez que saíram todos no final do ano e, para além disso, há mais livros de outros anos para ler (este ano segui quase sempre a regra de intercalar a leitura dos livros mais recentes com obras editadas em anos anteriores, ou então no caso de leituras em simultâneo juntar sempre livros de anos diferentes).

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

Francis, Deal, Santiago & Lovering

loudQUIETloud - Pixies
A notícia é de Nuno Galopim, publicada aqui e no suplemento 6.ª do DN.

loudQUIETloud o filme sobre os Pixies (só não caio na hipérbole porque antes houve Ian Curtis e Joy Division).





Pedro, meu caro co-pixiano, a notícia por que esperávamos há meio ano. Lembras-te?

Bola de Torneio

Match Point - Woody Allen

«O homem que uma vez disse “prefiro ter sorte a ser bom”, entendeu muito do significado da vida. As pessoas temem descobrir que grande parte das suas vidas depende da sorte. É assustador pensar que boa parte dela foge ao nosso controlo. Há momentos num jogo em que a bola bate no topo da rede... e, por um segundo, ela pode cair tanto para a frente como para trás. Com sorte, ela cai para a frente e tu ganhas. Ou talvez não… e, então, tu perdes.» [tradução livre, AMC]



Esta é a narração de Jonathan Rhys Meyers na abertura do filme do ano – na minha modesta opinião. Trata-se de Match Point (2005), realizado pelo profeta nova-iorquino da Sétima Arte Woody Allen.
Allan Stewart Konigsberg nasceu há 71 anos em Brooklyn – ó terra tão fértil para os que nela nascem ou para os que nela vivem! Cortou o primeiro filme em 1965, What's Up, Tiger Lily?, um filme de espiões japonês redobrado por Allen. O génio criativo deste último, que transformou a busca de um microfilme ultra-secreto numa demanda por uma receita de salada de ovo, rendeu-lhe o contrato com a AIP – American International Pictures.
Desde então a sua extensa obra conta com filmes como (os meus preferidos): ABC do Amor (1972), Annie Hall (1977), Manhattan (1979), Ana e as suas Irmãs (1986), Dias da Rádio e Setembro (ambos de 1987), Toda a gente diz que te amo (1996), As faces de Harry (1997).
Após 40 anos a filmar quase em exclusivo na sua muito amada Nova Iorque, decide-se por Londres e diz a propósito:
«Nos Estados Unidos as coisas mudaram imenso e, actualmente, tornou-se bastante difícil fazer pequenos e bons filmes. Houve uma altura na década de 1950 em que eu pretendi ser argumentista, porque os filmes feitos até então, cuja maioria provinha de Hollywood, eram estúpidos e nada interessantes. Depois, começaram a surgir grandes filmes europeus, os filmes americanos cresceram um pouco e tornou-se mais divertido trabalhar na indústria do cinema do que no teatro. Eu adorava. Porém, hoje em dia, as coisas tomaram um novo rumo e os estúdios regressaram ao comando das operações, não estando interessados em filmes cujo encaixe financeiro seja pequeno. Quando eu era mais novo, todas as semanas conseguíamos ver um Fellini, ou um Bergman, ou um Godard, ou um Truffaut, mas agora quase não se consegue obter nada de semelhante. Os realizadores como eu enfrentam tempos difíceis. Os estúdios, avarentos, não se poderiam preocupar menos com os bons filmes – se conseguem produzir um bom filme, ficam duplamente felizes, porém o seu objectivo centra-se nos que fazem dinheiro. Só se interessam por filmes que custaram 100 milhões de dólares a produzir e que geram receitas de 500 milhões. É por isso que me sinto feliz por trabalhar em Londres, voltei a trabalhar com aquele tipo de atitude criativa e liberal a que estava habituado.» [tradução livre, AMC; fonte: IMDB]

Em boa hora o fez, porque engendrou o argumento e realizou Match Point, um filme em que o (in)feliz acaso sobressai como a grande certeza da vida humana.
Lá está o acaso… É caso para perguntar: onde é que já vi este filme?

O seráfico Chris Wilton, Jonathan Rhys Meyers, é um simples e letrado tenista, com ganas de ser grande, cujo destino lhe permitiu (des)afortunadamente encontrar a aristocracia inglesa enquanto se sustentava como mero treinador de ténis num clube londrino. Lê Crime e Castigo de Dostoievski, qual Rodion Romanovich Raskolnikov, e encontra a fabulosa – e libidinosa – Nola Rice, a maravilhosa Scarlett Johansson – caramba, melhor que nunca! –, noiva do seu pupilo aristocrata Tom Hewett, interpretado pelo jovem actor inglês Matthew Goode.
A partir daí desenrola-se o novelo que fabricará a sinuosa trama, pondo à evidência o inebriamento advindo da ilusória sensação de (auto)controlo. A soberba que cega, e que provém de uma autoconfiança exacerbada, conduz-nos, fatalmente, a um falso sentimento de imunidade no momento em que ponderamos as acções a empreender. Depois… depois é tarde! Muito tarde para voltar atrás.

E fico-me por aqui, com a firme certeza de ter aplicado bem as cerca de duas horas que dura o filme. No entanto… não sei, como dizia o outro se “perdi para sempre a segura certeza da lucidez da minha lucidez”… é arte, pois, não há valores absolutos e no entanto, afianço: Match Point é o (meu) filme do ano!

quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

Gewirtz e Lee

Infiltrado - Spike Lee

«My name is Dalton Russell. Pay strict attention to what I say because I choose my words carefully and I never repeat myself. I’ve told you my name: that's the Who. The Where could most readily be described as a prison cell. But there's a vast difference between being stuck in a tiny cell and being in prison. The What is easy: recently I planned and set in motion events to execute the perfect bank robbery. That’s also the When. As for the Why: beyond the obvious financial motivation, it’s exceedingly simple... because I can. Which leaves us only with the How; and therein, as the Bard would tell us, lies the rub.»


Estas são as linhas iniciais do argumento do filme Infiltrado (Inside Man, 2006) escrito por um estreante, licenciado em ciências da computação, Russell Gewirtz e realizado por Spike Lee. A estreia de Gewirtz nas lides de Hollywood não poderia ter sido mais auspiciosa. Longe do lobby dos argumentistas norte-americanos, ultrapassando as regras convencionadas pela indústria no que concerne aos jovens criadores, Gewirtz foi de imediato contratado pelo produtor Brian Grazer assim que terminou a sua pequena e surpreendente obra. Neste momento, ao que se consta, não tem mãos a medir, saiu-lhe o primeiro de muitos jackpots milionários à laia de Hollywood.
Do naipe de actores, o que dizer?
Denzel Washington confirma uma vez mais o seu talento, independentemente do preconceito afro-americano que o leva tanto ao abismo pelos que o denominam como estrela piedosa devido à história da segregação racial na Terra dos Bravos, como ao restrito pináculo dos ilustres filhos de Hollywood pelos que o identificam, a par do fabuloso Sidney Poitier, como digno e satisfatório representante dos negros entre os verdadeiros actores caucasianos. Denzel não merece ser objecto desse jogo racial. Ele é por si só um dos melhores entre os melhores na indústria cinematográfica, onde se lhe distinguem as versatilidade e firmeza interpretativas, como a elegância da sua estampa e a nobreza de carácter enquanto homem ademais dos filmes.
Clive Owen é já uma certeza e empresta todo seu talento à trama. Para além de cumprir os requisitos mínimos, personaliza de tal forma a obra com o seu engenho dramático que dificilmente damos por nós a aceitar a interpretação de Dalton Russell que não pelo próprio Owen – como jamais veria um Hannibal Lecter interpretado por qualquer outro para além de Anthony Hopkins.
Jodie Foster está segura, plena de beleza, fazendo recordar os bons velhos tempos. O mesmo se aplica ao eterno Christopher Plummer. Só Willem Dafoe, infelizmente, se vai apagando à passagem dos anos.
Quanto a Spike Lee, consegue obter um produto final harmonioso, empolgante, sem nunca desmerecer toda a atenção que possamos prestar aos pormenores no decurso da obra. No meu entender, é o melhor filme de sempre de Lee, mesmo incluindo o excelente Verão Escaldante (Summer of Sam, 1999) – não vi, no entanto, A Última Hora (The 25th Hour, 2002), o qual disponho em DVD, nem a comédia, ao que dizem fabulosa, Ela Odeia-me (She Hate Me, 2004) para que possa confirmar a última asserção.

Avaliação: o 2.º melhor filme dos estreados em Portugal em 2006 – entre os que vi, como é claro – e só espero que dê muito que falar nos galardões que se irão distribuir nos primeiros meses de 2007. Numa curta observação: divertimento garantido – e que falta faz aos dias que correm! – e puro engenho cinematográfico.

Notas:

O Rei do Soul morreu…

…há 39 anos (10 de Dezembro de 1967) com apenas 26 anos num trágico acidente de aviação.
Otis Redding não foi o pai fundador do género, mas foi no meu entender o seu mais genial intérprete. Ironicamente, um miserável avião ousou cortar-lhe as asas rumo ao firmamento da música negra norte-americana.
Gravada em estúdio 3 dias antes do terrível acidente que lhe levou a voz e a alma para algures, “(Sittin’ on) The Dock of the Bay” é a canção que mais fortemente lhe é associada pela nossa memória. Começa-se e canta-se “Sittin’ in the mornin’ sun”, trauteia-se e por vezes, numa obstinação exasperante, não se consegue terminar o famoso assobio final, que se vai repetindo eternamente na nossa cabeça.

Aqui fica uma actuação ao vivo do seu “Respect”, imortalizado por Aretha Franklin:





Nota: anteontem, no dia de Natal, falecia James Brown, o apelidado “Godfather of the Soul”. Em jeito de homenagem aqui ficou o Rei, Otis Redding.

terça-feira, 26 de dezembro de 2006

Do melhor ao pior


Por falar em canadianos, há um canadiano de 63 anos – o qual aprendi a ver desde tenra idade – que consegue sublimar simultaneamente os meus sentimentos de náusea ou de puro encanto. Falo, é claro, de David Cronenberg.
Se considerei verdadeiramente nauseantes Videodrome (1983), Irmãos Inseparáveis (1988), Naked Luch (1991) e Crash (1996), ao invés descobri Zona de Perigo (1983), A Mosca (1986). M. Butterfly (1993), eXistenZ (1999) e mais recentemente Uma História de Violência (2005) como intensamente vibrantes nas respectivas épocas em que se estrearam, tentando fazer um exercício reconstitutivo das minhas anteriores apreciações lúdicas e estéticas – divertimento versus enlevo artístico –, muitas das quais registei meticulosamente, durante a minha adolescência, num caderno existente para o efeito, com classificações de 0 a 20.
Não vi Spider (2002), as tarefas paternais vão-me impedindo as deslocações ao cinema ou, apesar de o dispor em DVD, a impossibilidade de obter o sossego necessário que imponho para o visionamento de um filme.
Este ano vi Uma História de Violência e coloco-o no grupo dos melhores filmes estreados este ano no nosso país, apesar das escassas duas dezenas de visitas que fiz às salas com grande ecrã.
A despeito da misérrima interpretação de Viggo Mortensen – actor que não me cai no goto, mesmo depois do excelente e hitchcockiano Homicídio Perfeito (1998) de Andrew Davis – e de algumas cenas vandammísticas protagonizadas pelo cabotino nova-iorquino, Cronenberg é uma vez mais magistral na representação dos seus planos marcadamente pictóricos, como se nos momentos-chave se pudesse extrair de cada plano um quadro sóbria e belamente pintado pelas mãos de um Mestre. Depois William Hurt, frio e cerebral, parece querer regressar ao Big Chill que o celebrizou em tempos remotos, e Ed Harris transmite-nos a doseada e necessária repugnância através da representação de um calmo e vindicativo Carl Fogarty.
Cronenberg envia-nos a mensagem: esta é uma das possíveis histórias da América onde se demonstra a forma labiríntica que a violência pode assumir no quotidiano do cidadão comum, aparentemente gratuita e sem prevenção perante a constatação do crime perpetrado, e nunca vista como objecto de estudo indispensável a uma reflexão urgente, todavia não realizada, sobre as causas que conduziram às suas vulgarização e hediondez crescentes na sociedade americana.


Nota: num destes dias aqui colocarei a minha apreciação sobre o melhor filme estreado este ano em Portugal.

sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

Arranja Uma Vida!

Nadine GordimerÉ esta a tradução literal do título do último romance de Nadine Gordimer, que mereceu um título português mais poético e menos coloquial de «Faz-te à vida» – sobre este livro já falei aqui, em 25 de Agosto deste ano.
E, certamente, foi essa frase, em forma de interjeição, que Ms. Gordimer proferiu ao seu biógrafo inglês Ronald Suresh Roberts, tobaguenho de educação – suponho ser um dos gentílicos possíveis para denominar os habitantes de Trinidad y Tobago – de 38 anos, quando decidiu vetar, sem êxito, a publicação da versão final da sua biografia.
A história está contada num artigo pré-publicado no sítio oficial do Times, que irá ser publicado no final do ano.
Para além de biógrafo de Nadine, Roberts ganhou o estatuto de biógrafo do presidente sul-africano Thabo Mbeki, obra que será publicada em meados de 2007.

Esta novela, que seguramente contará com mais episódios, assemelha-se a outras, embora diversas na substância, que afectaram os autodenominados moralistas da política mundial, anti-imperialismo americano, militantes da esquerda radical e todos apoiantes da revolução cubana e do seu líder Fidel Castro, designadamente Grass e Saramago. Afinal, a dada altura, os esqueletos criteriosamente encerrados durante anos no armário das suas vidas, parecem ganhar vida e emudecer os seus fiéis discípulos.
Ms. Gordimer para além de haver confessado a falsificação de uma curta autobiografia publicada na revista
The New Yorker em 1954, tem tido, nos últimos anos, um comportamento pouco convencional para uma activista e militante do Congresso Nacional Africano (ANC).

Listas Automáticas

Ontem, após haver tomado a infeliz decisão de proceder a uma simples troca de artigos na Fnac de Santa Catarina – operação que no total durou cerca de três horas, com ida e volta –, constatei que nem todas a incidências dessa curta viagem foram aquilo que se poderá traduzir como simples desperdício. Os cerca de trinta minutos que a minha viatura permaneceu imóvel na fila para o parque de estacionamento da Praça dos Poveiros foram, em parte, aproveitados na elaboração de uma lista.
Lembrando-me do “Girassol” de André Breton, a que este chamou de poema automático e que mais tarde tratou de desconstruir com o propósito de tentar explicar a razão de ser das palavras ou frases empregadas, já que estas o inquietavam, propus-me elaborar uma lista automática de dez romances de dez autores diferentes que, de imediato e sem hipótese de remissão, brotassem do lugar da minha consciência onde se sublimam as minhas paixões literárias.
No meu caderno, que sempre me acompanha, surgiu a tal lista, que por mera infelicidade não posso aqui postar de acordo com a ordem de chegada dos títulos à ponta da esferográfica, devido à balbúrdia final da composição. Logo, segui um critério onomástico (pelo apelido) dos autores:
  1. Paul Auster – A Trilogia de Nova Iorque
  2. Samuel Beckett – Molloy
  3. Fiodor Dostoievski – O Jogador
  4. Umberto Eco – O Pêndulo de Foucault
  5. F. Scott Fitzgerald – O Grande Gatsby
  6. Aldous Huxley – Admirável Mundo Novo
  7. Kazuo Ishiguro – Nunca Me Deixes
  8. Malcolm Lowry – Debaixo do Vulcão
  9. Thomas Pynchon – V.
  10. Boris Vian – A Espuma dos Dias

Após a conclusão da lista, verifiquei que haveria lugar a algumas alterações de fundo, não só por alguns romances dos mesmos autores que nela figuram em detrimento de outros que objectivamente me agradaram mais, mas também de certos autores, que muito prezo, haverem ficado de fora.
No entanto, aquelas foram as regras…

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

Desvarios comemorativos

Na minha opinião, é necessário criar, com carácter de urgência, uma comissão parlamentar especial de inquérito, cujo objectivo, único e obrigatório, deve ser o de saber se a Sra. Deputada Ana Gomes entregou no Parlamento Europeu a famosa lista dos 94 voos da CIA, que alegadamente sobrevoaram o espaço aéreo nacional, antes, durante ou depois de haver festejado com champanhe a morte do ex-ditador chileno Augusto Pinochet.
Se foi antes é grave!

La Fiesta del Padre Hemingway


O que diria o Pai Hemingway – como lhe chamou Henry Chinaski, alter-ego do truculento Charles Bukowski – perante os primeiros indícios de uma mudança de atitude dos espanhóis face à bárbara chacina de touros na denominada Fiesta Nacional espanhola?

Resposta mais do que provável: «Você é bom, Pai Hemingway. Não se pode vencer sempre (…) Não estoure com os miolos.»
(retirado do conto “Classe” incluído na obra A Sul de Nenhum Norte, de Charles Bukowski)

Nota: Ministra espanhola do Meio Ambiente, Cristina Narbona, propõe uma reflexão nacional sobre o fim dos “touros de morte”, dando com exemplo a festa brava portuguesa.
Segundo o Gallup (España), em 2006 apenas 7,4% dos espanhóis se considera aficionado da Fiesta, enquanto cerca de 72,1% reprova convictamente este tipo de barbárie. O Gallup faz notar que em 1971 a distribuição das respostas era diferente, apesar de já se haver verificado a superioridade do número de detractores das touradas, 22 e 42%, respectivamente.
[Ler a notícia sobre a sondagem no jornal La Vanguardia e sobre a proposta da Ministra no El Mundo.


Imagem: cartoon de autoria de Ralph Barton, “Hemingway”, (© Diana Barton Franz) publicado na revista Vanity Fair, onde Hemingway vestido de toureiro espanhol confraterniza com o próprio touro.

Tu, Penélope

Filha de Ícaro, rei de Esparta, e de uma náiade, Penélope é literalmente conquistada pelo herói das pernas curtas, Ulisses, tinha a tenra idade de quinze anos, com quem chega a casar.
Vivia atormentada pela presença de sua prima Helena – sim, isso mesmo, a de Tróia –, produto de um encontro fortuito, a roçar o estupro, de Zeus – disfarçado de cisne – com a sua mãe Leda, cuja beleza estonteava quem dela se aproximasse, ofuscando assim os potenciais dotes da prima menos bela, porém mais cerebral e detentora, por excelência, das distintivas sagacidade e ousadia femininas. Helena, casada com Menelau, foi a grande protagonista na eclosão da famosa guerra de Tróia, já que Páris, filho de Príamo – rei de Tróia –, a raptou, levando à invasão do território pelos gregos sedentos de vingança. Depois Aquiles… Bom, entraríamos na Ilíada e aqui interessa-nos a Odisseia, que, como se sabe, são ambas obras de Homero.
Após o casamento, Penélope parte para Ítaca, território governado por Laertes casado com Anticleia, pais de Ulisses, embora se dissesse à boca pequena que o verdadeiro pai de Ulisses era o ardiloso Sísifo após um encontro resvaladiço entre este e a horrenda Anticleia – no entanto, dados os atributos da senhora, seria pouco provável fazer fé em tão estranho dito, como afiança a nora. Assim, Penélope fixada em Ítaca, esperará vinte anos pelo regresso do seu amado Ulisses, não sem antes dar à luz o filho de ambos, chamado Telémaco, que viu o pai partir ao primeiro ano de idade.
Entrementes, Penélope tecerá a mortalha com que ludibriará os denominados Pretendentes e atiçará os dotes de lubricidade das suas doze servas contra essa horda de aspirantes a consorte que se ia avolumando à medida que parecia certo o não regresso do marido guerreiro. No final desses vintes anos, com a sogra morta e o sogro doido errando pelos campos, ainda suportará a altivez de Euricleia – a outrora ama de Ulisses – e, com o passar dos anos, os crescentes machismo, arrogância e desmandos do seu próprio filho, Telémaco. E todo este sofrimento pelos tais desvarios de uma prima leviana que preferiu quedar-se com o raptor Páris a regressar aos seus Reino, família e marido.
No ocaso da narrativa, a mortandade é por de mais conhecida do público: ocorre um verdadeiro massacre em Ítaca perpetrado pela dupla Ulisses e Telémaco, sob o pretexto da vingança pela desonra reiterada da mulher e mãe, respectivamente.

Serve o presente texto para evidenciar a efabulação de uma canadiana – que não muleta – de nome Margaret, cuja veia inspirará certamente o mitómano mais ou menos empedernido, ou como se sói dizer, o amante da Arcádia, espécie que por terras de Portugal prolifera neste início de século.
Apelando eventualmente a poderes que, decerto, não pertencem ao mundo dos vivos, ou talvez ao espírito fraco dos não iniciados, Ms. Atwood – o apelido da dita Margaret – resolveu interpretar mediunicamente os pensamentos, milenarmente consolidados, da mais estóica das damas da antiguidade clássica em terrenos helénicos.
Se a história resultou da estruturada memória lírica da reputada escritora ou se esta se constituiu com um mero veículo de transmissão daquela nas profundezas do Hades, não cabe ao leitor especular. A obra existe, foi publicada e foi-nos apresentada com esta configuração, independentemente da irreprimível voracidade probatória do leitor perante os factos relatados.
A obra é simples, honesta, de contornos feéricos – não fosse a mitologia grega a sua matéria-prima –, apesar de ostentar um carácter eminentemente especulativo.

Serve agora isto para felicitar a Editorial Teorema [ainda sem página na Internet, tal como a fidalga editora que se diz a maior de terras lusas] pela qualidade das obras que publica. Por outro lado, demonstra-se à saciedade que uma mulher ferida por vinte anos de ausência do seu marido, não só o manteve como o único objecto do seu amor, como também não cedeu à cupidez mercantilista que se traduz em satisfazer a avidez voyeurista de uma chusma de pelintras, escassamente letrados.
Esta felicitação seria certamente despicienda e verdadeiramente inútil, acaso não preponderassem a estultícia e a descoroçoante frivolidade na sociedade portuguesa de hoje, que, em razão de um sentimento revanchista e de uma completa ignorância do comportamento a adoptar enquanto actores de uma sociedade que se diz democrática – vale, ao menos, o argumentário dos 48 anos de ditadura, seguidos de ano e meio de desvario revolucionário como desculpa – exigem uma justiça sem critério e a condenação pura e simples dos seus pares que, sem direito ao contraditório, caem de encontro à maré que os fazedores de rebanhos vão alteando, qual tsunami esmagando o inimigo público contra as rochas da culpa aprioristicamente formada.

A ler.

Referência bibliográfica
Margaret Atwood, A Odisseia de Penélope. Lisboa: Teorema, 1.ª edição, Setembro de 2006, 202 pp. (tradução de Paula Reis; obra original: The Penelopiad, 2005).

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

Fincher

Eis o Mestre!
Em breve, chegará com Zodiac, mas já houve Se7en, The Game, Fight Club e The Panic Room. Depois virá The Curious Case of Benjamin Button (adaptação cinematográfica do conto retroactivo do decadentista e igualmente um dos meus Mestres, só que em campo diverso: Francis Scott Fitzgerald).

E isto tudo a propósito
deste vídeo inolvidável dos Nine Inch Nails, realizado por David Fincher, e apresentado por Susana Viegas do blogue Auto-Retrato.

Aqui, neste blogue, deixo-vos ficar o segundo melhor genérico de abertura dos filmes do Mestre. E digo o segundo, porque o primeiro, no meu infinito particular (e acabo de plagiar o
Luís), é sem sombra de dúvida a abertura de Fight Club, que termina com a inesquecível asserção de Ed Norton na posição de narrador: «People are always asking me if I know Tyler Durden.», o mote do filme.


You get me closer to god

Música: Nine Inch Nails - Closer (precursor); The Downward Spiral, 1994)

Anotações e Transcrições – 6

Começo com os V’s que, nada tendo que ver com o inimitável Pynchon, se constituem numa trindade cujo silêncio, acaso ajustado, atordoa de tão hermético: Valentim, Veiga e Vieira.
Há silêncios que, face ao estridor impudico precedente, não se conseguem explicar à luz de uma linearidade de comportamento que se preza e na qual se deverão basear os mecanismos judiciais para uma correcta aplicação do direito, não só no estrito cumprimento da sua missão de reparação do dano e de compensação da perda, como também no seu fim último de prevenção, ou seja, reduzir a probabilidade de ocorrência de casos similares.
Face ao exposto, nada melhor que as excelsas palavras dos outros, perante a dolorosa assunção de uma certa fadiga intelectual sobre o assunto, quando aquelas vêm de encontro às diversas interrogações que se apoderaram de mim desde a publicação da obra-prima do momento, pela ilustre e desinteressada editora Dom Quixote.

Eis as palavras [os destaques são da minha inteira responsabilidade]:

«A bota pode ser a do Ricardo Quaresma, o mais genial jogador do campeonato português – tal como já o era no ano passado, queira Scolari ou não queira. A perdigota pode ser a D.ª Carolina Salgado, que actualmente simboliza muito bem aqueles que chegaram ao futebol por acaso ou caminhos ínvios, dele se alimentaram para tentarem ser alguém e que a ele só trouxeram vergonha e sujidade. Há quem prefira o futebol à maneira da D.ª Carolina; eu prefiro-a a maneira do Ricardo Quaresma. Se vou para a bancada do estádio é por causa de jogadores como o Quaresma; se não me aproximo dos camarotes é por causa de pessoas como a D.ª Carolina, que por lá habitam.

Há três anos que venho dizendo isto e peço desculpa por me repetir: o grande embaraço do Apito Dourado é que desde o início que se tornou óbvio, para quem tenha alguns conhecimentos de direito ou algumas preocupações em ver a justiça ser feita, que as expectativas que muitos alimentaram à sua conta não encontravam correspondência nos factos do processo. Ou, por outras palavras, o grande objectivo de 80 por cento daqueles que obcecantemente falam, escrevem e sonham com o Apito Dourado – a saber, o entalanço de Pinto da Costa e do FC Porto – esbarram miseravelmente no pouco interesse que despertam as manigâncias do FC. Gondomar e de um pequeno exército de sombras gravitando à roda do major Valentim Loureiro. E isso, manifestamente, não interessa aos entusiastas do Apito Dourado: não é o Gondomar que interessa, é o FC Porto; não é Valentim Loureiro, é Pinto da Costa. Que chatice, não bater a bota com a perdigota!

Com grande esforço e voluntarismo, alguns magistrados do Ministério Público fizeram o que puderam para chegar onde a maioria queria: descobriu-se um árbitro que terá ido beber um café a casa de Pinto da Costa, antes de um palpitante FC Porto-Rio Ave para a Taça de Portugal, e outro que terá pedido a alguem que pediu a alguém ligado ao FC Porto duas meninas para se entreter antes de arbitrar o terrível FC Porto-Estrela da Amadora, disputado numa altura de 2004 em que o FC Porto já tinha uma vantagem irrecuperável para ser campeão e estava a dias de ganhar a Champions, enquanto o Estrela da Amadora já não tinha forma de evitar a despromoção. Eis um problema sério: como encontrar aqui interesse em corromper um árbitro, como descobrir o móbil do crime?

Segunda contrariedade: quem é que as escutas telef6nicas revelaram como grande
pivot do Apito Dourado
, verdadeiro patrão do jogo de sombras do futebol português? Valentim Loureiro. E quem é que deu o poder a Valentim Loureiro e com ele dividiu os cargos e influências na Liga de Clubes? O Benfica e Luís Filipe Vieira. Quem é que as escutas apanharam a escolher com ele ao telefone o árbitro que convinha ao seu clube? Luís Filipe Vieira. Quem é que lhe telefonou a pedir a interdição do campo do adversário e depois lhe prometeu «um beijinho» pelo favor feito? José Veiga. Que chatice, querem ver que a Justiça é cega?

Mas eis que agora, subitamente, um
sirocco
de esperança varre as almas justiceiras! Ainda nem tudo está perdido, ainda se pode fazer justiça! Graças à chegada aos acontecimentos de duas mulheres, já há benfiquistas que desabafam comigo que para o ano o FC Porto estará na II Divisão, tal como a Juventus, em Itália (já lá vai o tempo em que eles acreditavam poder vencer-nos: agora querem-nos é longe da vista e dos relvados...) Carolina Salgado, juram-me, vai ser a «testemunha-chave», «a mulher de coragem», como atestam a Leonor Pinhão e aquele Dr. Bexiga, ex-vereador de Gondomar, que, depois de a ouvir confessar que contratou e pagou aos que lhe deram uma coça, chegou à conclusão que ela era «um exemplo cívico» (mais uma e ele ainda a propõe para a Ordem do Infante...) O povo espera, obviamente, que o governo abra uma excepção às restrições orçamentais e que aplique parte do dinheiro dos nossos impostos e do nosso trabalho a garantir adequada protecção e recompensa a esta testemunha preciosa, cuja credibilidade, desinteresse e carácter moral estão amplamente expostos naquela coisa edificante a que a Editora D. Quixote resolveu chamar «livro» e que deve ser, com certeza, um modelo daquilo que os novos admiradores da D.ª Carolina gostariam de ver exposto acerca de si próprios, no dia em que os seus cônjuges resolvessem vingar-se deles. Valha-nos Carolina Salgado para perceber em que campo moral cada um se situa e como o futebol português é, de facto, o território do «vale tudo». Mas o povo também espera que a Dr.ª Maria José Morgado faça jus à sua fama de arrasa-criminosos e consiga descobrir finalmente o móbil do crime portista, nem que para isso tenha de mandar torturar, um por um, todos os árbitros portugueses, incluindo até Lucílio Baptista e todos os que apitaram jogos do Benfica, na gloriosa caminhada rumo ao titulo de 2004/05. Dela se espera bem mais do que aquele caricato episódio de um juiz de instrução a ouvir três peritos em arbitragem para ver se eles conseguiam detectar, no vídeo do célebre FC Porto-Estrela da Amadora (4-1), provas concludentes sobre a corrupção do árbitro, coisa que, estranhamente, não se tornou patente.

Mas há uma coisa que, nem que Cristo descesse à terra para dirigir pessoalmente as investigações do Apito Dourado, se conseguiria desfazer: é esta chatice da verdade do futebol jogado dentro dos relvados e que todas as semanas pode ser constatada por quem segue o assunto e ainda gosta de futebol, E aí, nesse território da verdade, o que a memória dos últimos largos anos nos diz é que, tirando esporádicos intervalos, o FC Porto é a melhor equipa portuguesa a léguas de distância das outras e uma das melhores equipas da Europa e do Mundo. Não deve ser coincidência que quem por lá passa, seja jogador ou treinador (e, em especial, se vindo dos rivais directos), não se cansa de repetir que ali encontrou uma organização, um espírito de equipa e uma cultura de vitória como em lado algum. E, depois, há equipas como a do Baía, do Ricardo Carvalho, do Deco, do Derlei, ou esta do Helton, do Pepe, do Quaresma e do Anderson, que todas as semanas mostram num canal perto de si que só por absoluto fanatismo e má-fé é que é possível pretender que não é a eles que se devem as vitórias, mas sim aos árbitros – aqui, na Europa e no Mundo.

O FC Porto de Jesualdo Ferreira acaba de encerrar de forma brilhante dois ciclos de jogos, com uma interrupção de dez dias pelo meio, em que foi o único representante português a ultrapassar a fase de grupos na Champions e se afirmou internamente como o grande candidato ao título. Foram 13 jogos, quase todos sem Anderson, alguns arrostando com arbitragens prejudiciais, outros encaixando a quase violência dos adversários, e apenas cedendo, no final, dois empates: um em Alvalade, no campo de um rival directo, e outro contra o Arsenal, em que só o azar impediu a vitória. Nunca o Apito Dourado deu tanto jeito para desviar as atenções!
»

Por Miguel Sousa Tavares, "Não bate a bota com a perdigota", in A Bola, 19/12/2006

terça-feira, 19 de dezembro de 2006

A Visão Monocular

Torso de Mileto (Louvre, Paris)Pior que um astigmático, míope, hipermetrope, com algum grau de estrabismo – onde se espera uma diligente correcção das malformações congénitas dados os prodígios da oftalmologia –, é um ser que, estando venturosamente privado dessas anomalias oculares ou havendo-as corrigido, dispõe de uma auto-induzida visão monocular.
Não é o impostor que se faz de ceguinho para arrebatar, pelas compaixão e indulgência alheias, uns cêntimos sem esforço. Julgo até tratar-se de um labor suficientemente fastidioso não só pela carga horária acima das quarenta horas semanais – sem direito a Segurança Social – como pela exposição às intempéries meteorológicas e às cruezas da natureza humana.
Também não me refiro ao pobre néscio que – como repete insistentemente A.L.A: coitado! – não pediu para nascer nessa condição, cujo alcance intelectual, por razões manifestamente sobre-humanas, em tempo algum alcançará – por muito que se esforce – o patamar da mediania, sendo a excelência – a la Mário Crespo – um conceito vago e longínquo.
O alvo privilegiado deste texto, apreciavelmente caceteiro, são os autoproclamados intelectuaizinhos da treta, muito hábeis nas palavras, muito certeiros na ociosa arte opinativa, que, com a autoridade de fazedores de rebanhos da incauta carneirada, atira umas pedritas bem amoladas ao telhado do próximo – e isto, claro, quando o próximo está distraído, de cócoras ou de costas voltadas – esquecendo-se que o telhado que ampara o seu corpito franzino e erudito é feito de cristal do mais fino trato.
Süskind falava-nos da terrível doença da Amnésia In Litteris na sua compilação ensaística Um combate e outras histórias. A dado passo diz assim:


«Já há muito tempo que não consigo proferir uma única palavra em debates literários sem me expor terrivelmente ao ridículo, confundindo Mörike com Hoffmannsthal, Rilke com Hölderlin, Beckett com Joyce, Italo Calvino com Italo Svevo, Baudelaire com Chopin, George Sand com Madame de Staël, etc. Se pretendo procurar uma citação da qual tenho uma ideia vaga, passo dias a esquadrinhar livros porque me esqueci do autor e porque, enquanto procuro, me perco em textos desconhecidos de autores que ninguém conhece, até finalmente ter esquecido o que é que procurava inicialmente. Como é que, neste caótico estado de espírito, poderia responder à pergunta: qual foi o livro que mudou a minha vida? Nenhum? Todos? Qualquer um – não sei.
(…) O Leitor que sofre de amnésia in litteris transforma-se indubitavelmente através da leitura, mas não o nota porque quando lê também se alteraram as tais instâncias críticas do seu cérebro que lhe fariam ver que estava a mudar. E para quem escreve, a doença seria provavelmente até uma bênção, sim, quase uma condição necessária, resgatando-o da veneração paralisante que todas as grandes obras inspiram, podendo assim adoptar uma atitude completamente desinibida perante o plágio, sem a qual não se pode desenvolver nada de original.»
Patrick Süskind, “Amnésia in litteris”, Um combate e outras histórias. Porto: Asa, 1.ª edição, Agosto de 2002 (Fnac de bolso), pp. 70-71 (tradução de Mónica Dias; obra original: Drei Geschichten und eine Betrachtung, 1986, artigos escritos entre 1976 e 1986).

Em apenas quatro palavras “precisas mudar de vida” – ou em cinco, “you must change your life” para os anglófilos ou “du musst dein Leben ändern” para os germanófilos – porque, dada a caprichosa enfermidade, «já não podes mergulhar de cabeça num texto, deves agora encará-lo com total objectividade, com consciência crítica e apurada, tens de extrapolar, de memorizar, tens de exercitar a tua memória.» (pág. 71)

E quem falou das letras, ó sociedade amnésica?
Já aqui citei e voltarei a citar um crítico, tão verrinoso como por vezes certeiro – como se chama…? –, que na semana passada – ou terá sido ontem? – proferiu:
«Sucede que a corrupção no futebol é uma ínfima parte da corrupção geral do país. E serve sobretudo para a esconder.»

Para terminar em beleza, aqui vai um leve brisa poética, que até aqui chegar, de mansinho, doce e reconfortante, começou como Furacão e depressa se metamorfoseou numa embirrenta, mediática e dissipada ventania. E depois... isto!

Moral da história: olha mais além, não cegues um olho para te igualares aos demais compatriotas. Vê a beleza que se esconde para além do que viste, claramente visto.

«O torso arcaico de Apolo

Não conhecemos sua cabeça inaudita
Onde as pupilas amadureciam. Mas
Seu torso brilha ainda como um candelabro
No qual o seu olhar, sobre si mesmo voltado

Detém-se e brilha. Do contrário não poderia
Seu mamilo cegar-te e nem à leve curva
Dos rins poderia chegar um sorriso
Até aquele centro, donde o sexo pendia.

De outro modo erguer-se-ia esta pedra breve e mutilada
Sob a queda translúcida dos ombros.
E não tremeria assim, como pele selvagem.

E nem explodiria para além de todas as fronteiras
Tal como uma estrela. Pois nela não há lugar
Que não te mire: precisas mudar de vida.»

“Archaischer Torso Apollos” de Rainer Maria Rilke, originalmente em Der neuen Gedichte anderer Teil, 1908 (tradução de Paulo Quintela) dedicado “a mon grand ami Auguste Rodin”.

Imagem: Torso Masculino (vulgo Torso de Mileto), circa 480-470 a.C. (escultura em mármore exposta no Museu do Louvre).

Reinventar a Memória

Afinal, Vasco M. Barreto continua a vaguear pela blogosfera: Caderno I.

[(Re)Descoberto através deste
texto de Rogério Casanova no Pastoral Portuguesa]

Nota: após a coincidência temporal da retirada, hoje (após haver regressado há 15 dias) encontro o blogue do Vasco, cujo título do texto mais recente é: “De la ausencia y de ti”.
Si las hay...!

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

Agradecimentos

Ao fabuloso par que me felicitou pelo cumprimento de um ano (menos 70 dias) de actividade na blogosfera (comemorado ontem, 17 de Dezembro):

  • Roteia pela lembrança e pelo texto emoldurado por O Pensador de Auguste Rodin, no excelente Ultraperiférico.
  • Fernando M. Dinis pelo comentário que aqui deixou, e aproveito esta oportunidade para o felicitar por Ficar até Tarde neste Mundo...

Obrigado!

E claro, à secção "mais vale tarde do que nunca": ao Victor L. do blogue Certos Sons; ao Rui do blogue Coisas.

Um pouco de Conrad

«Só os jovens passam por momentos assim. Não quero dizer os novos demais; esses não conhecem, para falar verdade, momentos propriamente difíceis. É dado à adolescência o privilégio de viver antecipadamente os dias da sua vida na plena continuidade admirável de uma esperança ininterrupta e sem introspecções.»
Joseph Conrad, Linha de Sombra
. Lisboa: Relógio D’Água, 1984, pág. 13 (tradução de Maria Teresa Sá e Miguel Serras Pereira; obra original: The Shadow Line, 1917)



Lembro-me bem dessa linha de sombra. A aflitiva transição entre a responsabilidade partilhada e a plena assunção dos danos que as nossas falhas infligem. Não se trata porém de um momento definido, como uma marca a vermelho no calendário de uma vida, infinita na sua compleição: a morte não nos pertence, não se pressente. A sede de viver, a rebeldia sem causas – um pouco Deaniano, é certo –, é sobretudo a pressa não sentida, mas que se reflecte no aproveitamento exemplar do oxigénio que nos alimenta as células.
Oh, quantas vezes não dou por mim, agora, a arrazoar sobre as tontices e a frugalidade que essa pressa me impingia. Loucuras vividas, o leve sentimento do limite alcançado como um funâmbulo sem vara de equilíbrio caminhando nas nuvens da imortalidade sentida. Fui feliz. Vivi. Aproveitei essa saudável alucinação com todas as forças que a juventude despretensiosamente me forneceu. Ouvia o Ian, psicótico e cavernoso, que atravessava a linha mas não lograva alcançar aquela centelha que nos indica a outra margem; porventura pretendia regressar, mas a porta fechara-se, e uma corda pendia do tecto de um suposto firmamento, não há centelha, há apenas a visão nocturna de um pensamento amadurecido na negridão percebida da inutilidade da vida. Ouvia-te e paradoxalmente só reforçaste a minha vontade de respirar livremente, formavam-se os ideais que mais tarde poria em prática… Esperança vã. A soberba advinda da convicção que pela palavra mudaremos a rota do nosso microcosmos. O muro ergue-se. Somos Nashe vagueando sem destino, somos Pozzi na convicção de que o mundo se ajoelha perante o desembaraço demonstrado. O muro construímo-lo, passo a passo, pedra sobre pedra, e só quando a vertigem da intransponibilidade se manifesta é que o dilema sobrevém: contornar, abdicando dos valores que se foram solidificando na alma; persistir na luta, mesmo que sintamos que só algo de intangível – ó alma – o poderá atravessar.
Essa dúvida foi a minha linha de sombra. Essa obstinação por percorrer o caminho que parece… que é o correcto. Foi… ainda é. Esse ideal alimenta-me e deixa-me paralisado. Enche-me de esperança e vai apartando-me do mundo. Envaidece-me e convence-me de que sou um pacóvio presunçoso, sem vida, sem futuro.
Na ausência do meu ser, dar-vos-ei tudo, ó mulheres da minha vida, mesmo que alma se arrede por uns momentos para se alimentar da utopia que brotou das sombras da minha mutação ontológica.

domingo, 17 de dezembro de 2006

(Des)Comemoração


A fabulosa equipa do excelente Ultraperiférico – blogue que visito diariamente – pregou-me esta partida – a 17 de Janeiro próximo terão a respectiva réplica.
Como lhes disse, não tenho palavras que me possibilitem exprimir o abalo provindo da profundez da emoção pura – um pós-kantiano, de um idealismo que só me prejudica e tem prejudicado.


É verdade! Hoje comemoro 1 ano de actividade blogueira, se bem que o transcurso desse período comemorativo por excelência haja sido espojado por 70 dias de Ausência – 23 de Setembro a 2 de Dezembro de 2006 (na ausência).
No início não pensava voltar – ideia que durou apenas 10 minutos após a tomada de decisão de encerramento do
Porque. Depois, o tal “nó na garganta” lembrou-me que não seria capaz de cometer esse acto indignamente atentatório da integridade do meu ser: coarctar esse poder de esvaziar neste espaço plural os meus medos, encantamentos, admirações e, sobretudo, a minha profunda repulsa pelo arrivismo, pelo crime, pela sordícia dos criminosos aniquiladores do carácter alheio, pelos corruptos impunes e os seus medíocres sequazes e veneradores do iniquidade, que partilham com cupidez os restos que os primeiros lhes deixam que reste – esta é a marca registada deste país.
Mesmo assim, não contava regressar tão cedo. No entanto, houve regresso e esse é um facto iniludível pela manifesta corporização das minhas ideias aqui, em linguagem informática, que nem o ataráxico Pirro poderia ou ousaria negar.

Obrigado a todos pelas horas de partilha!

Imagem: Marc Chagall, Birthday, 1915 (óleo sobre cartão, exposto no MoMA)

sábado, 16 de dezembro de 2006

A Última Estocada

Livro Aberto (RTP-N)Aí está o golpe que faltava na televisão pública.
Soube pelo Eduardo Pitta, via o seu blogue
Da Literatura, que o «programa Livro Aberto, de Francisco José Viegas, (...) vai acabar.» E eu que já preparava uma lista dos 10+ nas áreas de ficção – nacional e estrangeira – e de não-ficção para, à semelhança do ano anterior, promover o melhor livro editado em língua lusa no nosso querido Portugal durante o ano que agora finaliza.
Curiosamente, no celebérrimo evento da
Fnac “Dia e Noite do Aderente” – não do papel, mas do cliente fiel –, que se realizou no passado dia 30 de Novembro, desloquei-me à loja do GaiaShopping – mais arejada e menos movimentada que as restantes no Grande Porto – e aproveitei para comprar livros, CD’s e DVD’s para oferecer no Natal, com um desconto garantido de 10% sobre o preço de venda ao público. Um dos livros que mais ofereci nos últimos tempos foi o sensacional romance contrafactual de Philip RothA Conspiração contra a América”. Desta vez, e para não fugir à regra, lá saiu mais um “Nunca Me Deixes” do Ishiguro – este sim, o livro que mais ofereci desde que me foi facultado poder aquisitivo – e mais uma Conspiração de Roth. Este último tinha a particularidade de trazer uma cinta que o envolvia, na qual se poderia ler uma frase alusiva à eleição, pelos espectadores do programa “Livro Aberto”, como a melhor obra estrangeira de ficção do ano 2005 . Para ser sincero, não sei porquê, senti uma espécie de júbilo eminentemente pessoal – vaidade ou altruísmo? Talvez pelo meu contributo ter ajudado o vencedor, ou talvez pelo autor do programa ser um insigne filho da blogosfera portuguesa – blogosfera? Filho? Mãe? África. Mãe África!
Agora sim Francisco! A partir do próximo ano
esse(a) que se queixava da falta de um programa sobre livros na Rádio e na TV – à guisa dos saudosos G.N.R. dos anos 80 – passará a ter razão e, decerto, reiterará com toda a soberba esse queixume estrídulo sem acção reparadora para que ele deixe de existir como tal: a costumeira lamúria resignada.

Tal com disse
aqui, na caixa de comentários, ao Sérgio Lavos, hoje sinto-me evangélico-bíblico – pronto, cedo, talvez um trombeteiro apocalíptico:

Em boa verdade vos digo irmãos, este país é uma vergonha!

sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

Anotações e Transcrições – 5

Começo pelos pertinentes destaques de João Gonçalves no Portugal dos Pequeninos [Maria José]:
«Excelente escolha, a de Maria José Morgado para "coordenar" a investigação ao funesto "apito dourado". Oxalá não lhe faltem meios, pessoas e apoio como lhe faltaram no passado, na PJ, no combate ao crime "de colarinho branco".»
E, citando o Vasco Pulido Valente:
«Sucede que a corrupção no futebol é uma ínfima parte da corrupção geral do país. E serve sobretudo para a esconder.»

A visibilidade do futebol, a que se junta alguma anestesia social que tolda o conhecimento de toda uma plêiade de direitos consagrada na Constituição e cujo denominado cidadão comum é o seu mais directo beneficiário, conduz-nos, de forma quase irrefutável, àquela asserção proferida por VPV, oportunamente transcrita pelo João.
Desafortunadamente, a corrupção tornou-se um quase ser vivo, com alguma autonomia, que se alimenta parasitariamente do esforço produtivo dos incorruptíveis ou dos incapazes, por vontade própria ou por manifesta falta de competência e/ou de meios, para corromper.
Patologicamente, e isso torna-a mais difícil de combater, propaga-se e desenvolve-se como um vírus, sem metabolismo próprio, logo sem antibióticos eficazes para a sua eliminação depois de instalado no organismo.
A corrupção combate-se, sobretudo, com profilaxia, com acções preventivas, evitando-se ou obrigando-se a evitar os comportamentos de risco.
Ora, esse comportamento de prevenção passa, em primeiro lugar, por uma mudança na estrutura da mentalidade de um povo que, por definição, é dificilmente alterável nos curto e médio prazos, senão mesmo inamovível.
A mentalidade só se altera com um bom sistema de educação, orientado para o civismo, para a civilidade e para o respeito mútuo; para a liberdade individual circunstanciada pela liberdade colectiva; pelos sentimentos de paz e de harmonia induzidos por comportamentos de solidariedade e de coesão social. Esse vírus e a capacidade mutante das suas subespécies só se extinguirão quando se der a interiorização plena daqueles valores como verdades inabaláveis, não conflituantes com a percepção individual da realidade que, decerto, conduziria à infelicidade e finalmente ao incumprimento.
O facilitismo, a indolência, o peso do Estado e a prostração facilitam a sua propagação: não se pede, por exemplo, uma factura pela compra de um produto ou pela aquisição de um serviço; não se controla o desperdício; não se monitoriza a actuação de um dirigente; atribui-se a determinada classe – clique social – um poder discricionário e insusceptível de escrutínio pela generalidade da sociedade; etc.
Em suma, os males estão identificados, a terapêutica já se conhece, há apenas manifesta falta de vontade, por dolo ou por negligência (ausência de posição), no combate ao flagelo.

Pelo supramencionado, fiquei deveras satisfeito com a nomeação da certamente incorruptível – que já deu provas disso mesmo – Maria José Morgado para exercer as funções de coordenadora dos processos relativos ao caso «Apito Dourado» e com o efeito de contágio que daí poderá advir para o todo – este país de corruptos impunes.

Para terminar transcrevo o delicioso “Decálogo do Corrupto: Princípios ideológicos do Saco Azul” elaborado por Maria José Morgado:

«I. Nunca te esquecerás de que a ética kantiana é uma teoria impraticável e que são o poder e a ambição que ditam todas as acções dos homens.
II. Terás sempre em atenção que deves usar o teu poder para servir os que ainda estão acima de ti e para seres indispensável aos que estão abaixo de ti.
III. Jamais terás dúvidas de que o dinheiro que geras para ti e para os teus é o melhor atalho para consolidar e aumentar o teu poder.
IV. Realizarás todos os teus actos na sombra, em silêncio, sem provas, sem testemunhas, longe de documentos e especialmente ao largo de telemóveis.
V. Procurarás nunca desapontar os teus amos e nunca renegar os teus cúmplices, especialmente se estes forem família, ou tiverem tido acesso a tua intimidade.
VI. Estarás sempre vigilante em relação aos que te invejam e aos que, por formalismos legais ou por suspeita, querem fiscalizar as tuas acções. Encontrarás meios para os desacreditar ou, em último caso, os eliminar.
VII. Construirás diariamente uma teia, com fios feitos por líderes que graças a ti treparão mais alto, por funcionários que de ti tirarão benefícios, por empresas que através de ti chegarão ao lucro, e por novas entidades que deixarás os teus liderarem.
VIII. Deverás estar atento a todas as oportunidades de mercado, sabendo que elas são infinitas, e estudarás especialmente as novas formas de negócios, ou seja, o modo de as usares a teu favor.
IX. Serás cirúrgico e asséptico no modo de contornar as leis, os regulamentos e os códigos, e atrairás a ti os melhores especialistas para te ajudarem a camuflar e a fazerem desaparecer todos os traços das tuas actividades.
X. No caso extremamente improvável de seres apanhado, gritarás inocência até ao fim, marcarás conferências de imprensa para proclamar o teu horror e quando te confrontares com a tua consciência, dirás a ti próprio que fizeste tudo para bem do povo e dos seus representantes.» (pág. 59)

Referência bibliográfica:
Maria José Morgado e José Vegar, O inimigo sem rosto: fraude e corrupção em Portugal. Lisboa: Dom Quixote, 2.ª edição, Novembro de 2003, 151 pp.

Do portuguesito

A Pianista - Isabelle HuppertArrivista, chineludo, fato-de-treinista militante. Adora chopingues aos domingos e de altas transgressões testosterónico-suicidárias na estrada. Detém a marcha, com uma pressão brusca do pé direito no pedal do meio, quando enxerga um acidente, de preferência com estropiados e miolos de fora. Usufrui de telemóvel topo de gama – a prestações em regime de usura creditícia – e adorna-o com uma estrídula polifonia noveleira. Frequentador de borlas à laia feijoadística, idolatra vipes dengosos, chungosos e borlistas de enésima categoria. Treslê jornais escandaleiros e atém-se, com zelo, dos prognósticos astrológicos e da secção de cartas ao consultório sexual – sentei-me na retrete, será que estou grávida? É assim…emprenha pelos ouvidos e lê no Verão MRP®. Comprou ou fotocopiou de um comparsa o livro Eu, Carolina ufanamente convencido da sua gigantesca superioridade literária em relação a Eu, Cláudio de Graves porque detesta a coreografia gesticular efeminada do Cláudio Ramos. É um sórdido não confessional e emprenha pelos ouvidos… já disse?

«2. Relax. Mensagens.
MÃE+FILHA. Em dose dupla, eu faço oral última gotinha! Ela dá-te o rabinho! Show lésbico 100% real. Prç Espanha.» (pág. 159)

«MÃE + FILHA voltaram à carga. Desta vez oferecem show de babar
.
De
babar
? Mas isto está a regredir para aonde?
Verdade seja que não há sexo sem regressão, mas
babar
diante do incesto lésbico?
Até o horror e o escândalo se tornam suspeitos. Para a mente porca, sempre à caça de detritos, tudo pode ser o seu contrário.
» (pp. 200-201) [destaque e sublinhado meus]
Maria Velho da Costa, O Livro do Meio

Como eu a compreendo, MVC.

Referência bibliográfica
Armando Silva Carvalho e Maria Velho da Costa, O Livro do Meio. Lisboa: Caminho, 1.ª edição, Novembro de 2006, 412 pp.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

Eu sou a ressurreição e a vida*

Resurrecturis (subtítulo de abertura do romance)



«A verdade, como o silêncio, existe apenas onde não estou. O silêncio existe por trás das palavras que se animam no meu interior, que se combatem, se destroem e que, nessa luta, abrem rasgões de sangue dentro de mim. Quando penso, o silêncio existe fora daquilo que penso. Quando paro de pensar e me fixo, por exemplo, nas ruínas de uma casa, há vento que agita as pedras abandonadas desse lugar, há vento que traz sons distantes e, então, o silêncio existe nos meus pensamentos. Intocado e intocável. Quando volto aos meus pensamentos, o silêncio regressa a essa casa morta. É também aí, nessa ausência de mim, que existe a verdade.» (pág. 123)



Este pequeno, porém brilhante, naco de prosa foi retirado do romance Cemitério de Pianos de José Luís Peixoto. Escritor português, de 32 anos (nascido em 1974), natural do Alentejo. Na badana do livro (na sua 1.ª edição) podem-se ler várias frases de reputados autores e de gente das letras que não deixam margens para dúvidas no que se refere ao talento inato deste jovem autor. Destaco a frase de Antonio Muñoz Molina sobre a escrita de Peixoto: «O fantástico é contado com a naturalidade do quotidiano. A crónica e a fábula sobrepõem-se, como as histórias que contam ou presenciam ou calam as personagens de William Faulkner ou de Juan Rulfo.»

Neste livro conta-se sobretudo a história, de conexões metaforicamente bíblicas, de Francisco Lázaro. Desde já, adivinho que, tal como ocorreu no meu mui particular percurso de leitura, assim que aquele nome for pronunciado e inteligido, uma vaga reminiscência, de uma intermitência desesperante, acompanhará o leitor até ao surgimento da palavra-chave, que por pudor advindo do possível cometimento de uma indiscrição – em jeito de desmancha-prazeres – aqui não revelarei.



Eis uma história de gerações que se entrecruzam e se confundem, conferindo-nos por vezes a sensação de um anacronismo latente, que, num olhar mais atento e dedicado, é desfeito e refeito nas mais variadas elipses da narrativa, elaboradas com uma mestria rara no panorama da escrita contemporânea portuguesa.
O Cemitério de Pianos...? O sepulcro dos nossos medos, o cofre dos nossos segredos, o refúgio para a libertação da angústia que nos atormenta, a caixa de Pandora que perigosamente habita, para ser aberta, no refúgio de uma carpintaria; a Carpintaria onde exerceu ofício o Mestre, ponto de partida para a redenção dos flagelos, vícios e impiedades que se vão transmitindo, ao correr das páginas, por um processo atávico.
A cadência expositiva dos factos e dos argumentos escoa-se como água fugindo por entre os dedos. Porém, é esse sentimento que nos mantém agarrados, um leve fluir que inebria e que nos vai calmamente mortificando pela presença constante do sentimento de orfandade, quer pela ausência de afectos, quer pela ausência física do personagem – induzida pela inevitável mortalidade do corpo – que imediatamente se regenera pela vida num outro ser. Não é à toa que José Luís Peixoto escolhe para epígrafe um fragmento do prodigioso romance de Kazuo Ishiguro Quando éramos órfãos”: «(…) our fate is to face the world as orphans, chasing through long years the shadows of vanished parents. (…)»
Esta é(são) a(s) história(s) de Francisco, ubíquo, ensombrado através da alegoria pelo seu terrível apelido. Todavia, aquela é o resultado da intersecção das histórias de outros, onde a tal ubiquidade se constitui como uma fiel reverberação das vidas atormentadas dos seus irmãos Marta, Maria e Simão: Betânia – e mais não direi.

Chegado ao fim do livro, perante a agonia do desejo, irrealizável e vivamente experimentado, de multiplicação das páginas já lidas, eis que emerge a frase de abertura, como uma aparição (talvez, Eu sou a ressurreição e a vida*), sob a forma de uma marca indelével – não se apagou transcorridas horas de leitura, folheadas cerca de 310 páginas –, ei-la: «Quando comecei a ficar doente, soube logo que ia morrer.»

José Luís PeixotoFinalmente, à laia de um Nostradamus não catastrofista, irrompeu em mim uma ideia em forma de presságio, que assumi como uma quase certeza: rapidamente, a jovem esperança passará a figurar no mais alto firmamento (Olimpo) da nobreza literária – assim lhe permita a vida –, juntando-se a um grupo assaz restrito de autores portugueses que aí foram chegando em oito séculos de História. Esta é a minha convicção de diletante, e nada mais!

Termino, referindo que, sem qualquer tipo de pejo, das obras de ficção em prosa originalmente editadas em português no ano de 2006 – e por mim lidas – esta é sem dúvida a melhor. E, ademais, mantém-se em posição cimeira se à lista anterior juntarmos as obras de língua estrangeira editadas em 2006 em língua portuguesa. Nesse largo conjunto, afirmo, sem rodeios, que porventura será apenas ligeiramente inferior a uma pequena obra-prima – de todo não comparável em termos formais – de um tal génio russo/norte-americano, que morreu na Suíça, chamado V. Vladimirovich N., publicada pela Assírio & Alvim no início deste ano, que
aqui dei conta (nas melhores leituras do 1.º semestre de 2006).

Este homem promete, e acabou de contribuir com mais um prego para o caixão onde em breve jazerá, sem hipótese de ressureição, o meu equilíbrio orçamental.

*João, 11: 25

Referência bibliográfica:
Cemitério de Pianos, José Luís Peixoto. Lisboa: Bertrand, 1.ª edição, Dezembro de 2006, 315 pp.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

Anotações e Transcrições – 4

É a isto que se chama amor entre homens, in litteris? Não me interpretem mal. Embora, mesmo que o façam, não deixarei de ser quem sou: um lisonjeador quando a lisonja se me afigura justa e propositada. Desembaraço-me bem dos vitupérios rotuladores.

Este texto do Pedro Correia, sobre o imortal filme de Curtiz – o qual sito no pináculo da excelência da sétima arte – merece ser lido e relido. O Pedro termina assim citando Sophia – mais uma razão para a sua referência – sobre a dolorosa e aparente desistência de Rick Blaine:

«Rick assim faz. Entre o amor sem sombra de liberdade e a liberdade sem garantia de amor, optou por esta. Como se conhecesse os belíssimos versos de Sophia: “Terror de te amar num sítio tão frágil como o Mundo. / Mal de te amar neste lugar de imperfeição / Onde tudo nos quebra e emudece / Onde tudo nos mente e separa.
Esta é talvez a maior lição que aprendemos em Casablanca: o verdadeiro amor é sinónimo absoluto de verdadeira liberdade.
»



O que me inquieta em Casablanca – e talvez não devesse inquietar – é o futuro: a dor da separação e/ou do remorso.

Se ao dilema – ia dizer trade-off, mas o meu “id” diletante não deixou, a presa passou a caçador – amor/liberdade juntarmos a morte, Rick e Ilse optariam por esta, pressupondo a imortalidade da alma? Ou esta aparente opção pela coexistência fisicamente distante transformar-se-á, num futuro muito próximo, no implacável patíbulo pelas suas existências torturadas?

Sobre o amor e a morte, ler o brilhante ensaio de Patrick Süskind com o mesmo nome – publicado pela primeira vez em Portugal pela Editorial Presença em Novembro deste ano.
Süskind dá rédea solta às suas genialidade e fina ironia: Eros e Tanatos; Kleist e Goethe e o seu Werther; Tristão e Isolda, de Wagner; e a mais deliciosa das confrontações – entrará certa e directamente para o ideário das parelhas impossíveis: Jesus Cristo e Orfeu.

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

On putting the guitar in the bag

Por agora, política e tiranos… acta est fabula!

O título deste texto recorda-me uma amiga que, havendo travado conhecimento com um adepto inglês do Manchester United e dada a insistência do britânico numa asserção que teimosamente considerava verdadeira (na óptica da minha amiga), ela por fim cedeu à argumentação de Mr. Man Utd e retorqui no seu melhor inglês: «O.K., take the bicycle!»

Regresso aos livros e, presumivelmente hoje, acabarei a leitura sôfrega do último livro do José Luís Peixoto, Cemitério de Pianos, que me está a dar um prazer incomensurável.

(Depois de haver acrescentado um ponto à minha teoria pós-Salgado: hipótese nula: de aqui em diante na dúvida prejudica-se o putativo beneficiário da exuberante flatulência e das perseguições sexuais lupinas a meninas de gorro escarlate – 2 penáltis 2 e 1 expulsão 1.)

Não contando com “as verdades quase verdadeiras” no JL, desconhecia os textos de fundo de José Luís Peixoto. O romance supramencionado é a primeira obra de ficção de sua autoria por que passei os meus olhos. Antes dos comentários globais – que guardarei (talvez) para o final desta semana – só me resta dizer:

Saramago e Lobo Antunes, têm seguidor e pelo fôlego que leva alcançará um lugar bem mais alto no firmamento dos ídolos literários de terras lusas.

Tenho dito.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

Anotações e Transcrições – 3 [actualizado]

Para que se clarifique a minha posição, susceptível de deturpação com a citação anterior, subscrevo o texto do Rui Miguel BrásLágrimas Liberais”, do qual retirei este excerto (com a devida vénia ao Rui):

«Nestas idiotias, os nossos liberais são iguaizinhos aos marxistas que santificam Fidel: porque construiu um mercado livre ou um sistema de protecção social generoso, é o mesmo. A tirania é a mesma. E a idolatria bovina também. Só que os liberais têm mais cautela em admiti-lo (culpa das circunstâncias, não mais).»

Chega de contagem de mortos, de presos políticos, de torturados, de viúvas, de exilados, de difamados, de chantageados… dessa treta toda, do inútil exercício de comparação da dimensão peniana (em comprimento e em perímetro, em estado rígido ou numa flacidez exasperante).
Como o
Henrique classificou aqui, e bem, os que os une é a filhadaputice. E a filhadaputice não tem escala de valores, não tem gradação, ou se é ou não é: são só “0”s e “1”s.
Maniqueísmo? Talvez, e daí…
Tanto faz ser Ceausescu, Fidel, Pinochet, Estaline, Hitler, Pol Pot, Noriega, Idi Amin, Salazar, Mussolini, Bokassa, Stroessner, Vargas, Mao Tsé-Tung, François ou Jean-Claude Duvalier, Kim Il-Sung, Franco, Honecker… ou até o Professor Moriarty.

Todos mataram (bastava uma morte), todos coarctaram (ou ainda coarctam) a liberdade ao povo que comandavam (ou ainda comandam).

«A tirania é a mesma.»

Nota da redacção: No texto anterior só tentei demonstrar a minha profunda indignação perante a permanente e sistemática tentativa de beatificação (quiçá canonização) em vida de um tirano: Fidel Castro.

[Actualização: por coincidência, Sérgio, li o teu texto depois de haver publicado o meu. Acho que a minha resposta está dada.]